Tudo no documentário do Walter Carvalho Raul - o início, o fim e o meio é ótimo: a escolha dos diversos depoimentos, em que se destacam os das mulheres de Raul, através de quem ficamos sabendo que ele devia ser um amante interessantíssimo, e uma pessoa difícil no auge do vício; o de Paulo Coelho, corajoso em certa medida, e sereno ao assumir publicamente ter sido o responsável por apresentar as drogas ao amigo; o de Caetano, de algum modo avalizando a postura do músico que tirou Raul do semi- esquecimento em que ele se encontrava, e sobre quem pairava a pecha de ter-se aproveitado do artista em seu final de vida.
A montagem é primorosa, porque busca ser imparcial com as visões e leituras tanto das várias mulheres com quem ele viveu, quanto dos parceiros musicais, dos amigos, dos fãs e seguidores, dos que o conheceram ou acompanharam sua carreira. Foi emocionante em vários momentos, não apenas por retratar indiretamente um pedaço da história que eu também vivi, mas por compor um perfil do cantor a partir de um mosaico de situações, sempre de forma irretocavelmente ética, honesta, íntegra, empenhando-se em compor as diversas facetas dessa figura especial, bem como seu lugar na história da música brasileira. Foi ótimo conhecê-lo melhor, ouvir de novo as canções que cantamos com força e fé na juventude, e ser de novo tocada pelas visões e deslumbramentos dessa metamorfose ambulante.
E a cena do Paulo Coelho com a mosca é emblemática e perfeita, sob diversos pontos de vista: o inseto aparecer num lugar em que ele não existia (e eu acredito nisso); a montagem feita, de modo a permitir um caminhão de leituras, especialmente pelo que o escritor significou na vida do Raul e pelo tipo de escolhas que fez posteriormente em sua vida (dizer-se um mago; escrever livros medíocres e tornar-se podre de rico; usar em sua literatura esse pretenso conhecimento esotérico etc, etc); a mosca que vai e vem, e que ele - Paulo - reluta em matar, mas que desmente de modo brusco e repentino, enfim, tudo parece ter sido um golpe de sorte mais que perfeito - para o filme, para a cena, para as (possíveis) interpretações.
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