
Marisa Paredes resume com perfeição o filme do amigo:
"A pele que habito" descreve a terrível vingança de Robert (Antonio Banderas), renomado e recluso cirurgião plástico espanhol, contra o suposto jovem que estuprou sua filha. Ele vive isolado em sua sofisticada mansão/laboratório nos arredores de Madri, onde mantém prisioneira uma cobaia de suas experiências com uma pele artificial, útil na recuperação de vítimas com queimaduras, como as que vitimou sua
mulher no passado. Neste cenário frio e desolador, Marilia (Marisa), sua mãe, funciona como administradora e defensora dos interesses do filho. "Desde o início, Pedro me avisou que ela não é uma governanta, como aquelas dos filmes de terror e suspense, como a de 'Rebecca, A Mulher Inesquecível' (1940), de Hitchcock. Ela não se veste como uma empregada, ele me avisou. As camisas de Marilia são desenhadas por (Jean Paul) Gaultier!. No final das contas, Marilia é a consciência da história que ele conta".
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Com essa sinopse, fica mais fácil compreender o filme que se vai ver, porque ele vai se fazendo compreender aos poucos, e não estou segura de tê-lo amado, acho que gostei, sim, gostei, mas é estranho, e fiquei pensando alguns dias sobre o porquê da estranheza, já que falar no autor é falar sempre em estranheza, em arte fora do comum, arte pessoalíssima, apoiada em algumas obsessões também presentes nesse A pele que habito. E chego à conclusão de que me incomodou um pouco a abordagem da transmutação do sexo masculino numa vagina que serve basicamente, ou ao longo de grande parte do filme, para a violação.
A filha, no início do filme, e a "mulher" aprisionada, são violadas, embora em intensidades diferentes. Na verdade, a filha não se sabe direito se era filha mesmo ou outra cobaia nas experiências com troca de sexo feitas pelo médico, já que não tendo havido penetração na cena do bosque, ela sangrou do mesmo jeito, e sentiu dores horrendas como a outra sentiu, a cobaia, no momento em que é violada pelo suposto irmão de Robert, vestido numa fantasia ridícula de tigre, em momento kitsch dispensável, acho.
De todo modo, custei a entender do que tratava, afinal, a história, por causa dos flashbacks e também porque há pelo menos três vertentes que desembocam no singular aprisionamento daquela personagem: há um desastre de carro onde morre a mulher de Robert, o que impulsiona suas pesquisas com peles humanas, necessárias para cicatrizar queimaduras; há essa estranha filha, que aparece rapidamente no início e funciona como motor da vertente mais importante no roteiro, ou seja, a vingança desse pai contra o rapaz que supostamente violou a moça. De todo modo, não importa muito ter havido ou não a violação, porque ela morre e o cientista vai então iniciar um processo muito louco de vingança, que consiste em aprisionar o rapaz, levá-lo à mesa de cirurgia, mudar seu pênis em vagina e aos poucos transformar todo seu corpo - toda sua pele - até o estágio final do "ser fêmea". É essa vingança o cerne da trama, me parece, e ela nos surge em sua plenitude na mulher encarcerada no quarto, observada através de uma parede de vidro pelo homem no outro quarto. Só que acontece o que já se anuncia aos olhos do espectador: ele se apaixona pela belíssima mulher que criou e tudo desanda, claro.
A cena final também me pareceu meio sem sentido, e a volta da "moça" para sua mãe, a frase que ela pronuncia é absolutamente inverossímel, é como se Almodóvar não soubesse bem como terminar aquela loucura e resumiu o drama numa frase que, face aos acontecimentos, soa como clichê: "soi Vicente". A platéia ri, aliás ri em vários momentos. Meu riso foi parco, e apesar de todos os senões e aberrações, acho que gostei do filme, continua sendo um Almodóvar. Mas é estranho.
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