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Quando vi A rede social fiquei tão perturbada com aquele mundo que a primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi sair do facebook. Na verdade, eu nunca estive lá realmente. Tinha uma conta com meu nome real, nem lembro mais, e ia de vez em quando, via alguns conhecidos por lá, reais e virtuais, mas nunca cheguei a entender qual era o objetivo daquelas frases soltas emitidas aqui e ali por alguém, nunca fez sentido para mim aquele mundo cheio de coisa nenhuma.
Mas fico achando que estou fora do mundo e fiz outra tentativa, agora como clara lopez, mas não fui nem uma vez lá ainda, não tenho paciência pra esse mundo das redes sociais, eu não sou sociável, estrutural e intrinsecamente não sou sociável, e agora decidi: vou deletar a clara lopez também.
E twitter, nem sei por onde começar, talvez não queira tampouco, mas talvez ficar tão ausente assim das comunidades não seja possível no futuro, não sei. Por enquanto, falo com os fantasmas desse blog, e está de bom tamanho.
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quarta-feira, 6 de abril de 2011
Cinema em pedaços 3
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Feliz que minha mãe esteja viva:
Não me tocou muito, mas achei que falou bem e forte a todos os "sem mãe" - ou seja, não apenas aos abandonados concretamente pela figura materna desejada, mas aos enjeitados em geral, sobretudo por conta da energia que emana do rosto do personagem-filho-abandonado: há dor e rancor em sua expressão e uma impossibilidade palpável de ser feliz quando se tem a percepção aguda de não ser amado pela mãe.
Não me abandone jamais:
Tão estranho esse filme, lembrando vagamente Blade runner (mas tão distante de seu projeto estético e de seu doce aceno utópico) por conta dos seres criados para cumprir uma função, que terminam por se encantar com a vida humana e, sobretudo, com o sentimento do amor. O que fica difícil de aceitar é a passividade dos três personagens jovens, nunca fica claro porque eles não mandam tudo às favas e se mandam daquele destino prescrito, até porque sentem tudo que todos sentem, além de que a Carey Mulligan dá vontade de abraçar, confortar, proteger, não existe mais fofa personagem - e atriz. Já a Keira aparece estranhíssima em termos físicos, meio anoréxica e isso se adequa talvez ao modo como sua personagem termina - é possível que sua atuação e corpo estejam exatamente como seria necessário aos propósitos meio trágicos do filme. Eu gostei de ver, mas é um filme tristíssimo, dos mais tristes ever.
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Feliz que minha mãe esteja viva:
Não me tocou muito, mas achei que falou bem e forte a todos os "sem mãe" - ou seja, não apenas aos abandonados concretamente pela figura materna desejada, mas aos enjeitados em geral, sobretudo por conta da energia que emana do rosto do personagem-filho-abandonado: há dor e rancor em sua expressão e uma impossibilidade palpável de ser feliz quando se tem a percepção aguda de não ser amado pela mãe.
Não me abandone jamais:
Tão estranho esse filme, lembrando vagamente Blade runner (mas tão distante de seu projeto estético e de seu doce aceno utópico) por conta dos seres criados para cumprir uma função, que terminam por se encantar com a vida humana e, sobretudo, com o sentimento do amor. O que fica difícil de aceitar é a passividade dos três personagens jovens, nunca fica claro porque eles não mandam tudo às favas e se mandam daquele destino prescrito, até porque sentem tudo que todos sentem, além de que a Carey Mulligan dá vontade de abraçar, confortar, proteger, não existe mais fofa personagem - e atriz. Já a Keira aparece estranhíssima em termos físicos, meio anoréxica e isso se adequa talvez ao modo como sua personagem termina - é possível que sua atuação e corpo estejam exatamente como seria necessário aos propósitos meio trágicos do filme. Eu gostei de ver, mas é um filme tristíssimo, dos mais tristes ever.
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terça-feira, 5 de abril de 2011
Cinema em pedaços 2
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Em um mundo melhor:
Belíssimo filme do começo ao fim, impactante também, forte, com histórias tocantes tanto na atividade do médico em país africano devastado pelas guerras de gangues e ditadores desmesuradamente violentos (de uma violência bruta contra a mulher, violência sexual inimaginável), como nas atividades escolares dos filhos em outras guerras, de outras gangues. Muitíssimo bem feito o pararelo entre a barbárie de lá e de cá - são mundos diversos, níveis diferentes de violência, mas são violências desmedidas em ambos os mundos. Atuação magistral desse ator, Mikael Persbrandt, e também dos meninos, ambos ótimos e absolutamente convincentes. Melhor filme de todos, e mais visceral.
Esposa de mentirinha:
É o mesmo Adam Sandler de sempre, e a sempre bela Aniston, ambos fazendo o que já fizeram outras vezes, em outros filmes. Mas a gente presta atenção e se distrai bem com eles.
Cópia fiel:
Nunca bocejei tanto assistindo a um filme, acho que bocejei do começo ao fim, mas não dormi. Achei difícil sustentar o interesse num conflito dramático suportado basicamente pela conversa entre um homem e uma mulher - mesmo que ela seja Juliette Binoche e ele seja um belo William Shimell.
O que achei mais interessante é que não se trata de discutir o que é cópia e o que é real - discussão, aliás, pra lá de bizantina desde, digamos mais recentemente, "this is not a pipe", de Magritte, ou o Warhol da sopa Campbell, ou toda história da arte, talvez, que sei eu? De todo modo, não é isso o mais interessante, embora seja o mais visível tema, uma espécie de conversa (a)fiada para tratar do que realmente está em cena: a tentativa vã e desesperada da mulher em busca do amor daquele homem. Para mim, o filme trata da impossibilidade de fazer o outro amar alguém a despeito dos esforços exaustivos nesse sentido.
Reconheço que a fusão final do tema da cópia na situação concreta que eles vivem (ou cujas situações ela vai impondo) vai acontecendo de modo sutil até tornar esfumaçado o casal que houve, ou podia ter havido, e o que se projeta - mas de todo modo o que se lê ao longo daquele 'conversório' todo é uma demanda intensa e integral daquela mulher por amor.
Aliás, uma visão de mulher muito chatinha (e de mãe também), e bem de acordo com a interpretação que ela propõe ao mostrar uma escultura na praça em que uma mulher se recosta ao ombro do homem - para a personagem de Binoche, haveria uma ascendência da figura masculina protetiva sobre a figura feminina. A partir daí, as coisas vão ficando imbricadas e no final não há como decidir se ambos formaram ou não um casal real - o que não tem a menor importância. Importa mais perceber o que a torna cega, ou o que ela não aceita jamais: ele não a quer, não a deseja, todo o tempo isso me parece sublinhado, mas não para ela, que insiste, insiste. Confesso que achei meio patético.
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Em um mundo melhor:
Belíssimo filme do começo ao fim, impactante também, forte, com histórias tocantes tanto na atividade do médico em país africano devastado pelas guerras de gangues e ditadores desmesuradamente violentos (de uma violência bruta contra a mulher, violência sexual inimaginável), como nas atividades escolares dos filhos em outras guerras, de outras gangues. Muitíssimo bem feito o pararelo entre a barbárie de lá e de cá - são mundos diversos, níveis diferentes de violência, mas são violências desmedidas em ambos os mundos. Atuação magistral desse ator, Mikael Persbrandt, e também dos meninos, ambos ótimos e absolutamente convincentes. Melhor filme de todos, e mais visceral.
Esposa de mentirinha:
É o mesmo Adam Sandler de sempre, e a sempre bela Aniston, ambos fazendo o que já fizeram outras vezes, em outros filmes. Mas a gente presta atenção e se distrai bem com eles.
Cópia fiel:
Nunca bocejei tanto assistindo a um filme, acho que bocejei do começo ao fim, mas não dormi. Achei difícil sustentar o interesse num conflito dramático suportado basicamente pela conversa entre um homem e uma mulher - mesmo que ela seja Juliette Binoche e ele seja um belo William Shimell.
O que achei mais interessante é que não se trata de discutir o que é cópia e o que é real - discussão, aliás, pra lá de bizantina desde, digamos mais recentemente, "this is not a pipe", de Magritte, ou o Warhol da sopa Campbell, ou toda história da arte, talvez, que sei eu? De todo modo, não é isso o mais interessante, embora seja o mais visível tema, uma espécie de conversa (a)fiada para tratar do que realmente está em cena: a tentativa vã e desesperada da mulher em busca do amor daquele homem. Para mim, o filme trata da impossibilidade de fazer o outro amar alguém a despeito dos esforços exaustivos nesse sentido.
Reconheço que a fusão final do tema da cópia na situação concreta que eles vivem (ou cujas situações ela vai impondo) vai acontecendo de modo sutil até tornar esfumaçado o casal que houve, ou podia ter havido, e o que se projeta - mas de todo modo o que se lê ao longo daquele 'conversório' todo é uma demanda intensa e integral daquela mulher por amor.
Aliás, uma visão de mulher muito chatinha (e de mãe também), e bem de acordo com a interpretação que ela propõe ao mostrar uma escultura na praça em que uma mulher se recosta ao ombro do homem - para a personagem de Binoche, haveria uma ascendência da figura masculina protetiva sobre a figura feminina. A partir daí, as coisas vão ficando imbricadas e no final não há como decidir se ambos formaram ou não um casal real - o que não tem a menor importância. Importa mais perceber o que a torna cega, ou o que ela não aceita jamais: ele não a quer, não a deseja, todo o tempo isso me parece sublinhado, mas não para ela, que insiste, insiste. Confesso que achei meio patético.
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
Cinema aos pedaços 1
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O primeiro que disse:
Não me convenceu de quase nada, e o filme fica chato em vários momentos. O que salva é a beleza dos dois atores italianos, caramba, como são bonitos ele e ela - Riccardo Scamarcio e Nicole Grimaudo. Mas retomar aqueles valores da tradicional família italiana versus um mundo gay enrustido ou escancarado não acrescenta nada a nada, creio.
Sexo sem compromisso:
Comédia menos leve do que se imagina, com uma dupla ótima: acho que a Portman continua ótima atriz aqui e acho que o Kutcher está lindo como sempre. Divertida e ótimo entretenimento.
Incêndios:
Perturbador é o mínimo que se pode dizer dele, muito, extremamente perturbador. Um filme forte, sem concessões, que vai-se tornando quase opressivo à medida que as buscas da filha por sua origem se adensam. Há uma linha dramática extenuante entre a morte da mãe e as descobertas que subjazem a essa morte. Tudo é forte, denso, impactante, um filme levado nas costas por figurações de uma mulher extraordinária, como se ela contivesse outras tantas figuras femininas em sua trilha de guerra, suas histórias dilacerantes em um tempo de barbárie não dizem respeito a uma mulher apenas, somos todas ali naquele espaço e tempo. Se lido pelo viés da crítica de gênero, o filme daria um ensaio e tanto.
O discurso do rei:
Achei bem bonzinho, gostei muito de ver, além de parecer todo o tempo que era o filme certo para o ator certo, no sentido de que a gente está acostumada a ver aquelas mesmas expressões dele em outros momentos fílmicos, mas n' O discurso o jeito meio aéreo, ausente e um tanto irônico ficam adequados ao momento confuso do futuro rei, e à situação enrolada que sua língua gaga traz a ele e ao reino.
A primeira meia hora é vaga, parece que não vai engrenar, mas depois que o professor entra em cena faz-se a luz - ambos os atores brilham e parecem fazer uma dobradinha cheia de energias e iluminações. No final, estamos no terreno do quase épico: a gagueira deixou de ser uma limitação pessoal esdrúxula de um nobre e seu discurso, que precisa dar certo, torna-se uma questão de estado, e quiçá o motivo para o desenlace da segunda guerra mundial. Ou quase...
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O primeiro que disse:
Não me convenceu de quase nada, e o filme fica chato em vários momentos. O que salva é a beleza dos dois atores italianos, caramba, como são bonitos ele e ela - Riccardo Scamarcio e Nicole Grimaudo. Mas retomar aqueles valores da tradicional família italiana versus um mundo gay enrustido ou escancarado não acrescenta nada a nada, creio.
Sexo sem compromisso:
Comédia menos leve do que se imagina, com uma dupla ótima: acho que a Portman continua ótima atriz aqui e acho que o Kutcher está lindo como sempre. Divertida e ótimo entretenimento.
Incêndios:
Perturbador é o mínimo que se pode dizer dele, muito, extremamente perturbador. Um filme forte, sem concessões, que vai-se tornando quase opressivo à medida que as buscas da filha por sua origem se adensam. Há uma linha dramática extenuante entre a morte da mãe e as descobertas que subjazem a essa morte. Tudo é forte, denso, impactante, um filme levado nas costas por figurações de uma mulher extraordinária, como se ela contivesse outras tantas figuras femininas em sua trilha de guerra, suas histórias dilacerantes em um tempo de barbárie não dizem respeito a uma mulher apenas, somos todas ali naquele espaço e tempo. Se lido pelo viés da crítica de gênero, o filme daria um ensaio e tanto.
O discurso do rei:
Achei bem bonzinho, gostei muito de ver, além de parecer todo o tempo que era o filme certo para o ator certo, no sentido de que a gente está acostumada a ver aquelas mesmas expressões dele em outros momentos fílmicos, mas n' O discurso o jeito meio aéreo, ausente e um tanto irônico ficam adequados ao momento confuso do futuro rei, e à situação enrolada que sua língua gaga traz a ele e ao reino.
A primeira meia hora é vaga, parece que não vai engrenar, mas depois que o professor entra em cena faz-se a luz - ambos os atores brilham e parecem fazer uma dobradinha cheia de energias e iluminações. No final, estamos no terreno do quase épico: a gagueira deixou de ser uma limitação pessoal esdrúxula de um nobre e seu discurso, que precisa dar certo, torna-se uma questão de estado, e quiçá o motivo para o desenlace da segunda guerra mundial. Ou quase...
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domingo, 3 de abril de 2011
A quem serve o circo armado
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Muito boa matéria, e porque é uma entrevista muito interessante e esclarecedora sobre o último circo em voga na mídia.
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Casal de sargentos gays responde a Bolsonaro
Em entrevista ao Congresso em Foco, Fernando Alcântara e Laci Marinho, um casal de sargentos do Exército, dizem que as falas do deputado fluminense são uma reação de uma cúpula conservadora das Forças Armadas que a cada dia se torna mais minoria
Para Fernando e Laci, sargentos e gays, Bolsonaro é porta-voz de uma minoria da cúpula do Exército que tem uma visão autoritária e conservadora do mundo
Rudolfo Lago
Laci Marinho, nascido no Rio Grande do Norte há 39 anos, é um sargento do Exército. Fernando Alcântara, pernambucano de 37 anos, é também sargento do Exército. Eles são a prova viva de que o ódio do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) aos homossexuais não é, como ele esforça-se para expressar, um sentimento comum a todo e qualquer soldado das Forças Armadas. Porque Laci e Fernando são, eles próprios, homossexuais. Eles são um casal. “A verdade é que a visão ultrapassada de Bolsonaro reflete hoje o pensamento de uma minoria dentro das Forças Armadas. Mas, infelizmente, uma minoria que tem muita influência”, diz Fernando. Para ele, esse pensamento conservador, resquício da mentalidade de militares mais velhos, que fizeram sua carreira durante a ditadura militar, é muito forte na cúpula das Forças Armadas, entre os seus comandantes. Na tarde de sexta-feira (1), ele e Laci deram uma entrevista exclusiva ao Congresso em Foco.
Leia também:
Bolsonaro declara guerra aos homossexuais
Para Fernando e Laci, Bolsonaro tem sido uma espécie de porta-voz não formal do pensamento dessa elite militar. “Eles armam o circo, e Bolsonaro, o palhaço se apresenta”, ataca Laci.
Fernando e Laci tornaram-se famosos em agosto de 2008. Na capa da revista Época, eles viraram o primeiro casal de homossexuais a assumir claramente a sua opção. A entrevista que deram à revista foi a forma escolhida pelo casal para denunciar a situação que viviam. Por conta da sua opção sexual, os dois vinham sendo perseguidos. A homossexualidade foi a desculpa encontrada, contam eles, principalmente para calar Fernando. Considerado então um militar de reputação ilibada, com várias condecorações, Fernando tornou-se responsável por uma seção do Exército que autorizava, no plano de saúde, cirurgias de alto custo. Verificou a existência de um esquema de fraudes nessas autorizações. Ao denunciar o fato, ele conta que começou a ser perseguido. “Fizeram uma devassa na minha vida para encontrar fragilidades. E a fragilidade encontrada foi a minha homossexualidade”, diz ele.
Companheiro de Fernando, Laci era mais frágil. Tinha a saúde afetada por um problema neurológico. Iniciou-se um processo para minimizar os problemas de saúde de Laci, para obrigá-lo a trabalhar mesmo doente. Como Laci não conseguia comparecer ao serviço quando estava doente, foi considerado desertor, e chegou a passar 58 dias preso. Por conta da homossexualidade, foi Laci quem primeiro chamou a atenção. Nas suas horas de folga, ele tinha uma banda, onde fazia cover da cantora Cassia Eller. Hoje, ele tenta obter a reforma – aposentadoria – por conta da doença. Já Fernando preferiu desistir de enfrentar um processo disciplinar e deixou o Exército.
Para ambos, sua situação, por mais que os tenha feito sofrer, é o sinal de que as mudanças que acontecem na sociedade refletem-se também nas Forças Armadas. E a agressividade de Bolsonaro é uma reação a essas mudanças. Ou talvez, como sugere Laci, uma reação particular de cunho psicológico. “Tenho plena convicção de que ele é um gay internalizado. Que, sozinho, em frente ao espelho, ele diz: “Eu sou uma bichona!’”.
Na entrevista abaixo, percebe-se que Fernando é mais falante que Laci, mas também bem mais diplomático:
Congresso em Foco - Toda vez que surgem polêmicas como essas das declarações de Jair Bolsonaro, surge a ideia de que a carreira militar é incompatível com a homossexualidade. Como vocês respondem a essa ideia?
Fernando - O deputado Bolsonaro é uma voz remanescente de uma turma que está vinculada a um pensamento ultrpassado, arbitrário, antidemocrático. A questão da opção sexual jamais vai definir o caráter de qualquer profissional, independentemente do ramo de trabalho. O que existe nas Forças Armadas é um grande tabu, vinculado à ideia da necessidade de uma certa virilidade para o combate. Dissemina-se a ideia de que um homossexual não teria a autoridade necessária para o comando.
E isso é verdade?
Fernando - Existem líderes militares históricos, comandantes de grandes exércitos, que eram homossexuais. O caso, por exemplo, de Alexandre, o Grande. A tropa, de um modo geral, conhecia a sua orientação sexual, e isso jamais o impediu de ter grandes vitórias militares. É verdade, era um outro tempo, uma outra cultura. Essa perseguição à homossexualidade cresce com o cristianismo. Mas o fato é que a opção homossexual de Alexandre, o Grande, o não o impediu de ser um grande soldado. Além disso, é uma grande mentira achar que os únicos dois homossexuais no Exército éramos eu e o Laci.
Vocês não são um caso isolado, então?
Fernando - Estamos longe de sermos um caso isolado. O fato de nós dois termos saído do armário, como se diz, não significa que eu deva cobrar o mesmo de outros que não queiram fazê-lo. Mas a gente conhece ene casos de até generais que são homossexuais. Eu já vivi experiências muito desconfortáveis de ter sido assediado dentro da caserna. E nem por isso deixei de obedecer ao comando dessas pessoas. Claro, não se pode aceitar assédio, porque é um comportamento que não cabe em nenhuma profissão. Mas não é pelo fato de ser homossexual que essa pessoa não tenha capacidade de comando.
Há, então, um comportamento hipócrita?
Fernando - E que se torna extremamente autoritário para quem enfrentar a hipocrisia e assumir a verdade das suas opções. As Forças Armadas estão inseridas na nossa sociedade. Não pode prevalecer essa visão ultrapassada de Bolsonaro de uma instituição à parte do resto da sociedade, com regras e leis próprias.
Mas Bolsonaro certamente deve falar por uma parcela da sociedade e das Forças Armadas ...
Fernando - O que eu acredito é que o Bolsonaro queria ganhar exposição. Duvido que ele tivesse mesmo confundido a palavra negra dita por Preta Gil pela palavra gay. Isso é altamente improvável. Ele realmente buscou uma aparição pública. É típico de políticos inescrupulosos como ele. O Bolsonaro é que é o verdadeiro Tiririca. E aqui não quero de modo algum desmerecer o Tiririca. É que o palhaço, de fato, é ele. É claro que existem, sim, débeis mentais – não dá para usar outra palavra – que votam nele. Afinal, me parece que ele já tem sete mandatos. Mas isso precisa mudar. E está mudando.
Mas ainda seria muito forte o preconceito nas Forças Armadas?
Fernando - Quantos comandantes negros nós tivemos? Quantas mulheres em postos de comando? Ninguém. Mas eu acredito que a fala de Bolsonaro hoje é representativa de um pequeno grupo. Mas de um pequeno grupo que ainda tem muita capacidade de influência. Não é muito diferente de como pensam os principais comandantes e generais do Exército. O Bolsonaro funciona como um mal necessário. Ele não reflete o comportamento institucional do Exército que até,por força da disciplina, evita se manifestar em questões polêmicas. Como o Bolsonaro não tem esse compromisso, aciona-se ele. Curioso que o Bolsonaro se diga representante dos militares, enalteça tanto os militares, e já há muito tempo ele não seja um militar.
Ele não seria tanto assim representante dos militares?
Fernando - Não no sentido de realmente discutir e ser capaz de concretizar os anseios dos militares. Por que, por exemplo, ele não discute por que o soldado, na ativa, não possa votar e ser votado? O soldado é cidadão de segunda classe? Por que não discute o absurdo de um soldado ser preso disciplinarmente e não ter direito a habeas corpus? De não ser julgado pela mesma justiça dos demais cidadãos? Por que não discute os códigos militares obsoletos? A questão da remuneração dos militares, cada vez mais aviltada?
Laci – Eu penso que Bolsonaro, na verdade, é um malandro que finge ser representante dos militares para viver de dinheiro público. Como militar, que eu ainda sou, eu vejo que ele é totalmente desacreditado na instituição. Ele é usado pela cúpula para dar esses recadinhos, pra fazer esse auêzinho. Mas, no meio, ele é desacreditado. Acham que ele é um palhaço.
Fernando – A gente fica buscando algo de concreto que ele tenha feito pela família militar, e não acha.
Laci – Ele tem o circo montado. Ele é o palhaço para angariar os votinhos dele. Na verdade, eu tenho plena convicção de que, na verdade, o Bolsonaro é um gay internalizado, um homossexual dentro de uma concha.
Você tem convicção disso? Que o ódio dele aos homossexuais vem daí?
Laci – Ele vê no espelho um homossexual e quer matar, destruir ele mesmo. A voz dele tem que ecoar para os quatro cantos do mundo e dizer: “Eu não sou isso! Eu não sou isso!”. Mas quando ele olha no espelhinho dentro de cada, ele deve dizer: “Eu sou uma bichona!” Ele deve ficar com vontade de quebrar o espelho. Garanto que ele quebrou muitos espelhos na cada dele.
Fernando – Quando você é heterossexual convicto, porque a homossexualidade vai lhe incomodar tanto?
Em contrapartida, como, de fato, repercute no meio militar a situação de vocês? Há apoio a vocês no meio militar?
Fernando – Às vezes, é difícil para a sociedade civil entender o que acontece no meio militar. A obediência no meio militar se dá muitas vezes pelo medo. Um comandante pode mandar prender um soldado por até 30 dias sem dar satisfação a ninguém. Então, as pessoas se retraem. Elas dão apoio velado. Nós sentimos que tivermos um grande apoio, mesmo que velado. E houve gente que se expôs e deu apoio explícito. E pagaram um preço alto por isso. Por exemplo, um major médico que atendeu o Laci e viu que ele estava doente, e que não era verdade a história de deserção, que teve prejuízos sérios por essa posição.
O que pode acontecer com quem claramente se manifesta, por exemplo, a favor de vocês?
Fernando – Há diversas formas de punição, também veladas. Pode-se alegar um outro motivo para punir. Ou mesmo criar dificuldades para a vida do militar. Imagine o transtorno que é para um militar, por exemplo, que está com a sua vida estruturada, filhos na escola, ser de uma hora para outra transferido para outra cidade. Muitas vezes, alega-se a necessidade dessa transferência para punir alguém. E o soldado, para manter a sua vida estável, se cala. É mais fácil a pessoa se acovardar. No caso do Laci, 18 médicos se envolveram para criar a história de que ele era um desertor. Cumprimento do dever não tem outro nome, às vezes, que covardia, não ter coragem de reagir a isso. Por outro lado, se você reage, acontece como está acontecendo conosco. O que eu vou fazer da vida? Eu tenho 15 anos de vida no Exército, com uma ficha considerada irrepreensível, diversas condecorações. Nunca fiz outra coisa. Não sei fazer outra coisa. Então, a gente não pode ser tão taxativo ao condenar quem se cala. Mas não deixa de ser uma forma de covardia.
Quando vocês entraram no Exército, vocês já tinham assumido a orientação sexual de vocês? Como isso surgiu?
Fernando – No meu caso, foi muito difícil a descoberta da homossexualidade. Eu vim de uma família muito católica, muito conservadora. A Igreja é muito perversa nesse sentido, de que tudo é pecado, que se desvia da dita normalidade. Então, no meu caso, essa descoberta durou muito tempo. Quando eu entrei no Exército, eu ainda não tinha essa convicção do que de fato eu era como ser humano. Eu sentia necessidade de experimentar, mas não tinha coragem. O despertar aconteceu já nas Forças Armadas. E o que isso mudou na minha carreira militar? Nada. Isso me traz uma mágoa muito grande. Por que, de uma hora para outra, eu já não era mais o soldado de ficha ilibada, com medalhas por bons serviços prestados à Nação?
E no seu caso, Laci?
Laci – Para mim, foi uma coisa mais natural. Antes de entrar no Exército, já sentia atração por pessoas do mesmo sexo. Na minha juventude, meus relacionamentos eram com mulheres, mas eu tinha atração por homens. Eu não tive problema na cabeça com relação a isso. Se eu gostasse de uma mulher, ficaria com uma mulher. Se gostasse de um homem, ficaria com um homem. Na minha cabeça, era assim.
Na sua cabeça. E na prática?
Laci – Na prática, a gente começou o relacionamento em 1997. Foi o primeiro relacionamento assim.
E a perseguição, como começou?
Fernando – O ano que marcou tudo foi 2006. Desde 2001, o Laci tinha um problema neurológico que o afastava de algumas atividades. Ele tem umas síncopes, umas vertigens, que o atacam de vez em quando. E durante muito tempo, o Exército aceitou isso. Em 2006, ele ficou de cama um bom tempo. Mas, na verdade, a perseguição começou sobre mim.
Sobre você?
Fernando – Eu era gerente de um sistema de saúde que autorizava cirurgias de algo custo. E verifiquei que havia um esquema de fraudes. A coisa foi tomando uma proporção muito grande que saiu do controle. Como começou a crescer, atingir muita gente, começaram uma verdadeira devassa na minha para me atacar. Buscavam um ponto fraco. E o ponto fraco foi a questão da homoafetividade. Antes de nós começarmos a nos relacionar, nós morávamos juntos, numa república. E, embora depois a gente não confirmasse a nossa relação, começaram os comentários. A coisa foi ganhando uma proporção cada vez maior. Aí, para encobrir a corrupção que havia na questão da autorização para cirurgias de alto custo, começou a perseguição. “Tem que perseguir esses dois viados filhos da puta”, como disseram. A coisa começou com punições rotineiras. Chegou atrasado, não fez determinado exercício, etc. A maioria abaixa a cabeça. E isso é a razão dos diversos suicídios que acontecem no meio militar. A diferença é que não abaixamos a cabeça. Ao contrário, fomos cada vez reagindo mais. A gente resolveu enfrentar a situação. E a gente percebeu que a forma melhor de enfrentar era dizer a verdade. Porque a verdade incomoda muito. Então, procuramos a revista Época para explicitar a verdade. Nós já tínhamos procurado o Ministério Público. Mas a justiça é extremamente lenta. Então, nós fomos à imprensa para denunciar nossa situação como forma de nos defendermos.
E isso resolveu?
Fernando - Houve mais perseguição. Houve uma ordem para sermos transferidos, para nos separar. Eu iria para São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e ele para o estado de São Paulo. A Procuradoria dos Direitos do Cidadão barrou essa transferência. E, aí, diante da doença do Laci, foi mais fácil partir para cima dele. Dizer que não havia doença nenhuma, e caracterizar as ausências dele como deserção. Puniram ele para me calar. Quando a coisa se tornou insuportável, procuramos a revista Época. Nosso relacionamento e a denúncia do que estávamos passando virou capa da revista. Foi aí que eu creio que se armou uma armadilha para nós.
Que armadilha?
Fernando – Nós fomos convidados a ir a São Paulo para dar uma entrevista ao programa de Luciana Gimenez, na rede TV!, logo depois da publicação da revista. O Laci, para o Exército, era tido como foragido, porque ele era classificado como desertor. Para ir para São Paulo, providenciamos a saída por Goiânia, porque se saíssemos por Brasília, Laci seria preso no aeroporto. Nós combinamos rotas de fuga com a emissora para o caso de se tentar cumprir a ordem de prisão de Laci. Mas, ao contrário, enquanto o programa acontecia, a emissora foi sendo cercada. Um aparato extremamente desproporcional. Laci saiu da emissora preso. Ele foi primeiro para um hospitla militar em São Paulo. Mas, no dia seguinte, às 6h do hospital, um helicóptero pousou e nos levou para o aeroporto. De lá, fomos colocados num avião Bandeirantes, de lançamento de tropa de paraquedistas, e não sabíamos para onde nós iríamos. Passa tudo pela cabeça da gente nessa hora. Nos levaram para Belo Horizonte. Eu só fiquei mais tranquilo depois que o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) entrou e nos protegeu. Mas, quando chegou o fim de semana, estávamos já em Brasília, levaram Laci para o quartel. Deram uma surra nele. Tortura. Saco plástico na cabeça. Ficou lá preso 58 dias. Até que o Superior Tribunal Militar mandou que ele fosse solto. Foi uma grande vitória. Abre precedentes para outros casos de deserção, porque há um entendimento firmado de que o desertor tem que ficar 60 dias presos pelo menos esperando o processo. Essa decisão abre precedentes para outras. Enfim, nós tivemos situações constrangedoras, mas muita coisa foi conquistada. Nossa história vai ser levada até maio para a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nossa proposta é condenar o país por esses abusos. Porque o Exército é uma instituição do governo brasileiro. A estrutura governamental foi extremamente condescendente com esse estado de coisas.
O desejo de vocês, ao final do processo, é a reincorporação às Forças Armadas?
Fernando – No caso do Laci, ele ainda é soldado.
Na ativa?
Laci – Estou na ativa. De licença médica, agora.
Fernando – Eu saí. Fui obrigado a sair. Eles começaram um processo de expulsão. Seria um processo demorado. Enfrentar esse processo iria me atrapalhar. Na defesa de Laci. Eu depois escrevi um livro. Eles me deram uma porta de saída. Eu saí.
Laci – No meu caso, há um processo de reforma, por meus problemas de saúde. Eu, normalmente, já deveria ter sido reformado – aposentado – pelos meus problemas de saúde. Mas isso não aconteceu por conta dessa perseguição.
Fernando – O que a gente sofreu, não há dinheiro que pague. Vai ficar marcado para o resto das nossas vidas. O reconhecimento da perseguição homofóbica ajudaria a diminuir esse sentimento de injúria que sofremos. E serviria como exemplo para outros casos não aconteçam. Porque, insisto, o nosso caso não é um caso isolado.
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Daqui: http://congressoemfoco.uol.com.br/casal-de-sargentos-gays-responde-a-bolsonaro.html
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Muito boa matéria, e porque é uma entrevista muito interessante e esclarecedora sobre o último circo em voga na mídia.
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Casal de sargentos gays responde a Bolsonaro
Em entrevista ao Congresso em Foco, Fernando Alcântara e Laci Marinho, um casal de sargentos do Exército, dizem que as falas do deputado fluminense são uma reação de uma cúpula conservadora das Forças Armadas que a cada dia se torna mais minoria
Para Fernando e Laci, sargentos e gays, Bolsonaro é porta-voz de uma minoria da cúpula do Exército que tem uma visão autoritária e conservadora do mundo
Rudolfo Lago
Laci Marinho, nascido no Rio Grande do Norte há 39 anos, é um sargento do Exército. Fernando Alcântara, pernambucano de 37 anos, é também sargento do Exército. Eles são a prova viva de que o ódio do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) aos homossexuais não é, como ele esforça-se para expressar, um sentimento comum a todo e qualquer soldado das Forças Armadas. Porque Laci e Fernando são, eles próprios, homossexuais. Eles são um casal. “A verdade é que a visão ultrapassada de Bolsonaro reflete hoje o pensamento de uma minoria dentro das Forças Armadas. Mas, infelizmente, uma minoria que tem muita influência”, diz Fernando. Para ele, esse pensamento conservador, resquício da mentalidade de militares mais velhos, que fizeram sua carreira durante a ditadura militar, é muito forte na cúpula das Forças Armadas, entre os seus comandantes. Na tarde de sexta-feira (1), ele e Laci deram uma entrevista exclusiva ao Congresso em Foco.
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Bolsonaro declara guerra aos homossexuais
Para Fernando e Laci, Bolsonaro tem sido uma espécie de porta-voz não formal do pensamento dessa elite militar. “Eles armam o circo, e Bolsonaro, o palhaço se apresenta”, ataca Laci.
Fernando e Laci tornaram-se famosos em agosto de 2008. Na capa da revista Época, eles viraram o primeiro casal de homossexuais a assumir claramente a sua opção. A entrevista que deram à revista foi a forma escolhida pelo casal para denunciar a situação que viviam. Por conta da sua opção sexual, os dois vinham sendo perseguidos. A homossexualidade foi a desculpa encontrada, contam eles, principalmente para calar Fernando. Considerado então um militar de reputação ilibada, com várias condecorações, Fernando tornou-se responsável por uma seção do Exército que autorizava, no plano de saúde, cirurgias de alto custo. Verificou a existência de um esquema de fraudes nessas autorizações. Ao denunciar o fato, ele conta que começou a ser perseguido. “Fizeram uma devassa na minha vida para encontrar fragilidades. E a fragilidade encontrada foi a minha homossexualidade”, diz ele.
Companheiro de Fernando, Laci era mais frágil. Tinha a saúde afetada por um problema neurológico. Iniciou-se um processo para minimizar os problemas de saúde de Laci, para obrigá-lo a trabalhar mesmo doente. Como Laci não conseguia comparecer ao serviço quando estava doente, foi considerado desertor, e chegou a passar 58 dias preso. Por conta da homossexualidade, foi Laci quem primeiro chamou a atenção. Nas suas horas de folga, ele tinha uma banda, onde fazia cover da cantora Cassia Eller. Hoje, ele tenta obter a reforma – aposentadoria – por conta da doença. Já Fernando preferiu desistir de enfrentar um processo disciplinar e deixou o Exército.
Para ambos, sua situação, por mais que os tenha feito sofrer, é o sinal de que as mudanças que acontecem na sociedade refletem-se também nas Forças Armadas. E a agressividade de Bolsonaro é uma reação a essas mudanças. Ou talvez, como sugere Laci, uma reação particular de cunho psicológico. “Tenho plena convicção de que ele é um gay internalizado. Que, sozinho, em frente ao espelho, ele diz: “Eu sou uma bichona!’”.
Na entrevista abaixo, percebe-se que Fernando é mais falante que Laci, mas também bem mais diplomático:
Congresso em Foco - Toda vez que surgem polêmicas como essas das declarações de Jair Bolsonaro, surge a ideia de que a carreira militar é incompatível com a homossexualidade. Como vocês respondem a essa ideia?
Fernando - O deputado Bolsonaro é uma voz remanescente de uma turma que está vinculada a um pensamento ultrpassado, arbitrário, antidemocrático. A questão da opção sexual jamais vai definir o caráter de qualquer profissional, independentemente do ramo de trabalho. O que existe nas Forças Armadas é um grande tabu, vinculado à ideia da necessidade de uma certa virilidade para o combate. Dissemina-se a ideia de que um homossexual não teria a autoridade necessária para o comando.
E isso é verdade?
Fernando - Existem líderes militares históricos, comandantes de grandes exércitos, que eram homossexuais. O caso, por exemplo, de Alexandre, o Grande. A tropa, de um modo geral, conhecia a sua orientação sexual, e isso jamais o impediu de ter grandes vitórias militares. É verdade, era um outro tempo, uma outra cultura. Essa perseguição à homossexualidade cresce com o cristianismo. Mas o fato é que a opção homossexual de Alexandre, o Grande, o não o impediu de ser um grande soldado. Além disso, é uma grande mentira achar que os únicos dois homossexuais no Exército éramos eu e o Laci.
Vocês não são um caso isolado, então?
Fernando - Estamos longe de sermos um caso isolado. O fato de nós dois termos saído do armário, como se diz, não significa que eu deva cobrar o mesmo de outros que não queiram fazê-lo. Mas a gente conhece ene casos de até generais que são homossexuais. Eu já vivi experiências muito desconfortáveis de ter sido assediado dentro da caserna. E nem por isso deixei de obedecer ao comando dessas pessoas. Claro, não se pode aceitar assédio, porque é um comportamento que não cabe em nenhuma profissão. Mas não é pelo fato de ser homossexual que essa pessoa não tenha capacidade de comando.
Há, então, um comportamento hipócrita?
Fernando - E que se torna extremamente autoritário para quem enfrentar a hipocrisia e assumir a verdade das suas opções. As Forças Armadas estão inseridas na nossa sociedade. Não pode prevalecer essa visão ultrapassada de Bolsonaro de uma instituição à parte do resto da sociedade, com regras e leis próprias.
Mas Bolsonaro certamente deve falar por uma parcela da sociedade e das Forças Armadas ...
Fernando - O que eu acredito é que o Bolsonaro queria ganhar exposição. Duvido que ele tivesse mesmo confundido a palavra negra dita por Preta Gil pela palavra gay. Isso é altamente improvável. Ele realmente buscou uma aparição pública. É típico de políticos inescrupulosos como ele. O Bolsonaro é que é o verdadeiro Tiririca. E aqui não quero de modo algum desmerecer o Tiririca. É que o palhaço, de fato, é ele. É claro que existem, sim, débeis mentais – não dá para usar outra palavra – que votam nele. Afinal, me parece que ele já tem sete mandatos. Mas isso precisa mudar. E está mudando.
Mas ainda seria muito forte o preconceito nas Forças Armadas?
Fernando - Quantos comandantes negros nós tivemos? Quantas mulheres em postos de comando? Ninguém. Mas eu acredito que a fala de Bolsonaro hoje é representativa de um pequeno grupo. Mas de um pequeno grupo que ainda tem muita capacidade de influência. Não é muito diferente de como pensam os principais comandantes e generais do Exército. O Bolsonaro funciona como um mal necessário. Ele não reflete o comportamento institucional do Exército que até,por força da disciplina, evita se manifestar em questões polêmicas. Como o Bolsonaro não tem esse compromisso, aciona-se ele. Curioso que o Bolsonaro se diga representante dos militares, enalteça tanto os militares, e já há muito tempo ele não seja um militar.
Ele não seria tanto assim representante dos militares?
Fernando - Não no sentido de realmente discutir e ser capaz de concretizar os anseios dos militares. Por que, por exemplo, ele não discute por que o soldado, na ativa, não possa votar e ser votado? O soldado é cidadão de segunda classe? Por que não discute o absurdo de um soldado ser preso disciplinarmente e não ter direito a habeas corpus? De não ser julgado pela mesma justiça dos demais cidadãos? Por que não discute os códigos militares obsoletos? A questão da remuneração dos militares, cada vez mais aviltada?
Laci – Eu penso que Bolsonaro, na verdade, é um malandro que finge ser representante dos militares para viver de dinheiro público. Como militar, que eu ainda sou, eu vejo que ele é totalmente desacreditado na instituição. Ele é usado pela cúpula para dar esses recadinhos, pra fazer esse auêzinho. Mas, no meio, ele é desacreditado. Acham que ele é um palhaço.
Fernando – A gente fica buscando algo de concreto que ele tenha feito pela família militar, e não acha.
Laci – Ele tem o circo montado. Ele é o palhaço para angariar os votinhos dele. Na verdade, eu tenho plena convicção de que, na verdade, o Bolsonaro é um gay internalizado, um homossexual dentro de uma concha.
Você tem convicção disso? Que o ódio dele aos homossexuais vem daí?
Laci – Ele vê no espelho um homossexual e quer matar, destruir ele mesmo. A voz dele tem que ecoar para os quatro cantos do mundo e dizer: “Eu não sou isso! Eu não sou isso!”. Mas quando ele olha no espelhinho dentro de cada, ele deve dizer: “Eu sou uma bichona!” Ele deve ficar com vontade de quebrar o espelho. Garanto que ele quebrou muitos espelhos na cada dele.
Fernando – Quando você é heterossexual convicto, porque a homossexualidade vai lhe incomodar tanto?
Em contrapartida, como, de fato, repercute no meio militar a situação de vocês? Há apoio a vocês no meio militar?
Fernando – Às vezes, é difícil para a sociedade civil entender o que acontece no meio militar. A obediência no meio militar se dá muitas vezes pelo medo. Um comandante pode mandar prender um soldado por até 30 dias sem dar satisfação a ninguém. Então, as pessoas se retraem. Elas dão apoio velado. Nós sentimos que tivermos um grande apoio, mesmo que velado. E houve gente que se expôs e deu apoio explícito. E pagaram um preço alto por isso. Por exemplo, um major médico que atendeu o Laci e viu que ele estava doente, e que não era verdade a história de deserção, que teve prejuízos sérios por essa posição.
O que pode acontecer com quem claramente se manifesta, por exemplo, a favor de vocês?
Fernando – Há diversas formas de punição, também veladas. Pode-se alegar um outro motivo para punir. Ou mesmo criar dificuldades para a vida do militar. Imagine o transtorno que é para um militar, por exemplo, que está com a sua vida estruturada, filhos na escola, ser de uma hora para outra transferido para outra cidade. Muitas vezes, alega-se a necessidade dessa transferência para punir alguém. E o soldado, para manter a sua vida estável, se cala. É mais fácil a pessoa se acovardar. No caso do Laci, 18 médicos se envolveram para criar a história de que ele era um desertor. Cumprimento do dever não tem outro nome, às vezes, que covardia, não ter coragem de reagir a isso. Por outro lado, se você reage, acontece como está acontecendo conosco. O que eu vou fazer da vida? Eu tenho 15 anos de vida no Exército, com uma ficha considerada irrepreensível, diversas condecorações. Nunca fiz outra coisa. Não sei fazer outra coisa. Então, a gente não pode ser tão taxativo ao condenar quem se cala. Mas não deixa de ser uma forma de covardia.
Quando vocês entraram no Exército, vocês já tinham assumido a orientação sexual de vocês? Como isso surgiu?
Fernando – No meu caso, foi muito difícil a descoberta da homossexualidade. Eu vim de uma família muito católica, muito conservadora. A Igreja é muito perversa nesse sentido, de que tudo é pecado, que se desvia da dita normalidade. Então, no meu caso, essa descoberta durou muito tempo. Quando eu entrei no Exército, eu ainda não tinha essa convicção do que de fato eu era como ser humano. Eu sentia necessidade de experimentar, mas não tinha coragem. O despertar aconteceu já nas Forças Armadas. E o que isso mudou na minha carreira militar? Nada. Isso me traz uma mágoa muito grande. Por que, de uma hora para outra, eu já não era mais o soldado de ficha ilibada, com medalhas por bons serviços prestados à Nação?
E no seu caso, Laci?
Laci – Para mim, foi uma coisa mais natural. Antes de entrar no Exército, já sentia atração por pessoas do mesmo sexo. Na minha juventude, meus relacionamentos eram com mulheres, mas eu tinha atração por homens. Eu não tive problema na cabeça com relação a isso. Se eu gostasse de uma mulher, ficaria com uma mulher. Se gostasse de um homem, ficaria com um homem. Na minha cabeça, era assim.
Na sua cabeça. E na prática?
Laci – Na prática, a gente começou o relacionamento em 1997. Foi o primeiro relacionamento assim.
E a perseguição, como começou?
Fernando – O ano que marcou tudo foi 2006. Desde 2001, o Laci tinha um problema neurológico que o afastava de algumas atividades. Ele tem umas síncopes, umas vertigens, que o atacam de vez em quando. E durante muito tempo, o Exército aceitou isso. Em 2006, ele ficou de cama um bom tempo. Mas, na verdade, a perseguição começou sobre mim.
Sobre você?
Fernando – Eu era gerente de um sistema de saúde que autorizava cirurgias de algo custo. E verifiquei que havia um esquema de fraudes. A coisa foi tomando uma proporção muito grande que saiu do controle. Como começou a crescer, atingir muita gente, começaram uma verdadeira devassa na minha para me atacar. Buscavam um ponto fraco. E o ponto fraco foi a questão da homoafetividade. Antes de nós começarmos a nos relacionar, nós morávamos juntos, numa república. E, embora depois a gente não confirmasse a nossa relação, começaram os comentários. A coisa foi ganhando uma proporção cada vez maior. Aí, para encobrir a corrupção que havia na questão da autorização para cirurgias de alto custo, começou a perseguição. “Tem que perseguir esses dois viados filhos da puta”, como disseram. A coisa começou com punições rotineiras. Chegou atrasado, não fez determinado exercício, etc. A maioria abaixa a cabeça. E isso é a razão dos diversos suicídios que acontecem no meio militar. A diferença é que não abaixamos a cabeça. Ao contrário, fomos cada vez reagindo mais. A gente resolveu enfrentar a situação. E a gente percebeu que a forma melhor de enfrentar era dizer a verdade. Porque a verdade incomoda muito. Então, procuramos a revista Época para explicitar a verdade. Nós já tínhamos procurado o Ministério Público. Mas a justiça é extremamente lenta. Então, nós fomos à imprensa para denunciar nossa situação como forma de nos defendermos.
E isso resolveu?
Fernando - Houve mais perseguição. Houve uma ordem para sermos transferidos, para nos separar. Eu iria para São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e ele para o estado de São Paulo. A Procuradoria dos Direitos do Cidadão barrou essa transferência. E, aí, diante da doença do Laci, foi mais fácil partir para cima dele. Dizer que não havia doença nenhuma, e caracterizar as ausências dele como deserção. Puniram ele para me calar. Quando a coisa se tornou insuportável, procuramos a revista Época. Nosso relacionamento e a denúncia do que estávamos passando virou capa da revista. Foi aí que eu creio que se armou uma armadilha para nós.
Que armadilha?
Fernando – Nós fomos convidados a ir a São Paulo para dar uma entrevista ao programa de Luciana Gimenez, na rede TV!, logo depois da publicação da revista. O Laci, para o Exército, era tido como foragido, porque ele era classificado como desertor. Para ir para São Paulo, providenciamos a saída por Goiânia, porque se saíssemos por Brasília, Laci seria preso no aeroporto. Nós combinamos rotas de fuga com a emissora para o caso de se tentar cumprir a ordem de prisão de Laci. Mas, ao contrário, enquanto o programa acontecia, a emissora foi sendo cercada. Um aparato extremamente desproporcional. Laci saiu da emissora preso. Ele foi primeiro para um hospitla militar em São Paulo. Mas, no dia seguinte, às 6h do hospital, um helicóptero pousou e nos levou para o aeroporto. De lá, fomos colocados num avião Bandeirantes, de lançamento de tropa de paraquedistas, e não sabíamos para onde nós iríamos. Passa tudo pela cabeça da gente nessa hora. Nos levaram para Belo Horizonte. Eu só fiquei mais tranquilo depois que o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) entrou e nos protegeu. Mas, quando chegou o fim de semana, estávamos já em Brasília, levaram Laci para o quartel. Deram uma surra nele. Tortura. Saco plástico na cabeça. Ficou lá preso 58 dias. Até que o Superior Tribunal Militar mandou que ele fosse solto. Foi uma grande vitória. Abre precedentes para outros casos de deserção, porque há um entendimento firmado de que o desertor tem que ficar 60 dias presos pelo menos esperando o processo. Essa decisão abre precedentes para outras. Enfim, nós tivemos situações constrangedoras, mas muita coisa foi conquistada. Nossa história vai ser levada até maio para a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nossa proposta é condenar o país por esses abusos. Porque o Exército é uma instituição do governo brasileiro. A estrutura governamental foi extremamente condescendente com esse estado de coisas.
O desejo de vocês, ao final do processo, é a reincorporação às Forças Armadas?
Fernando – No caso do Laci, ele ainda é soldado.
Na ativa?
Laci – Estou na ativa. De licença médica, agora.
Fernando – Eu saí. Fui obrigado a sair. Eles começaram um processo de expulsão. Seria um processo demorado. Enfrentar esse processo iria me atrapalhar. Na defesa de Laci. Eu depois escrevi um livro. Eles me deram uma porta de saída. Eu saí.
Laci – No meu caso, há um processo de reforma, por meus problemas de saúde. Eu, normalmente, já deveria ter sido reformado – aposentado – pelos meus problemas de saúde. Mas isso não aconteceu por conta dessa perseguição.
Fernando – O que a gente sofreu, não há dinheiro que pague. Vai ficar marcado para o resto das nossas vidas. O reconhecimento da perseguição homofóbica ajudaria a diminuir esse sentimento de injúria que sofremos. E serviria como exemplo para outros casos não aconteçam. Porque, insisto, o nosso caso não é um caso isolado.
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Daqui: http://congressoemfoco.uol.com.br/casal-de-sargentos-gays-responde-a-bolsonaro.html
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terça-feira, 29 de março de 2011
ele tinha a força
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Admirei sempre a coragem do ex-vice presidente, a alegria com que ele saudava a vida, a força imbatível com que teimava em enfrentar seus males, com ajuda da melhor medicina, que suas condições econômicas permitiam - sim, eu sei que a fortuna veio com os mesmos vícios que a de quase todos os muito ricos nesse país.
Mas a a luta contra a doença era admirável e transparecia também uma grande conexão com a vida, e isso independe de dinheiro, tem mais a ver com energia pessoal, fé, crenças, que sei eu. Sempre que voltava ao hospital me fazia lembrar que a vida é breve passagem.
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Admirei sempre a coragem do ex-vice presidente, a alegria com que ele saudava a vida, a força imbatível com que teimava em enfrentar seus males, com ajuda da melhor medicina, que suas condições econômicas permitiam - sim, eu sei que a fortuna veio com os mesmos vícios que a de quase todos os muito ricos nesse país.
Mas a a luta contra a doença era admirável e transparecia também uma grande conexão com a vida, e isso independe de dinheiro, tem mais a ver com energia pessoal, fé, crenças, que sei eu. Sempre que voltava ao hospital me fazia lembrar que a vida é breve passagem.
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domingo, 27 de março de 2011
mano a mano
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Estou achando alguns argumentos de Caetano em defesa da irmã interessantes, sobretudo um que ele não explora como deveria a respeito dos problemas inerentes à Lei Rouanet. O fato é que parece que os artistas todos 'captam' no mercado e quanto mais, melhor para eles, seguindo agora o mote de nosso adorável capitalismo selvagem.
Outro motivo que me leva a trazer a defesa de Caetano (sim, ele é sempre muito complicado de ter as idéias cooptadas, porque quando nos convence num momento, enfurece-nos em outro) é que parece indiscutível que Bethânia tem-se mostrado absolutamente digna ao longo de sua carreira nesses tantos anos. Concordo muito, e isso não é exatamente comum em nossa cultura do sauve qui peut.
Então, aqui está o mano empunhando a palavra em defesa da irmã:
http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/03/27/caetano-veloso-sai-em-defesa-de-maria-bethania-na-polemica-sobre-blog-924098835.asp
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Estou achando alguns argumentos de Caetano em defesa da irmã interessantes, sobretudo um que ele não explora como deveria a respeito dos problemas inerentes à Lei Rouanet. O fato é que parece que os artistas todos 'captam' no mercado e quanto mais, melhor para eles, seguindo agora o mote de nosso adorável capitalismo selvagem.
Outro motivo que me leva a trazer a defesa de Caetano (sim, ele é sempre muito complicado de ter as idéias cooptadas, porque quando nos convence num momento, enfurece-nos em outro) é que parece indiscutível que Bethânia tem-se mostrado absolutamente digna ao longo de sua carreira nesses tantos anos. Concordo muito, e isso não é exatamente comum em nossa cultura do sauve qui peut.
Então, aqui está o mano empunhando a palavra em defesa da irmã:
http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/03/27/caetano-veloso-sai-em-defesa-de-maria-bethania-na-polemica-sobre-blog-924098835.asp
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quarta-feira, 16 de março de 2011
Não sei não
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Como ainda não posso escrever com todos os dedos (a maldição da tendinite me persegue ainda), vou copiando e colando aqui o que me chama a atenção no cotidiano, só para não desativar de vez o blog.
Essa notícia me pareceu meio esquisita, imagina se todos os artistas quiserem fazer blogs subvencionados por nós, contribuintes. Não sei não, mas é uma grana alta para cantar uma música por dia, mesmo sendo a Bethânia.
***********
A cantora Maria Bethânia conseguiu autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão e criar um blog.
A ideia é que o site "O Mundo Precisa de Poesia" traga diariamente um vídeo da cantora interpretando grandes obras.
A direção dos 365 vídeos seria de Andrucha Waddington.
Há três anos, Bethânia se envolveu numa polêmica ao ter um pedido de captação, de R$ 1,8 milhão para uma turnê, rejeitado pela área técnica do ministério.
O então titular da pasta, Juca Ferreira ignorou o parecer e autorizou a captação de R$ 1,5 milhão.
A informação é da coluna Mônica Bergamo, publicada na Folha desta quarta-feira (16). A íntegra da coluna está disponível para assinantes do jornal e do UOL.
Daqui: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/889245-maria-bethania-tera-r-13-milhao-para-criar-blog.shtml
Como ainda não posso escrever com todos os dedos (a maldição da tendinite me persegue ainda), vou copiando e colando aqui o que me chama a atenção no cotidiano, só para não desativar de vez o blog.
Essa notícia me pareceu meio esquisita, imagina se todos os artistas quiserem fazer blogs subvencionados por nós, contribuintes. Não sei não, mas é uma grana alta para cantar uma música por dia, mesmo sendo a Bethânia.
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A cantora Maria Bethânia conseguiu autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão e criar um blog.
A ideia é que o site "O Mundo Precisa de Poesia" traga diariamente um vídeo da cantora interpretando grandes obras.
A direção dos 365 vídeos seria de Andrucha Waddington.
Há três anos, Bethânia se envolveu numa polêmica ao ter um pedido de captação, de R$ 1,8 milhão para uma turnê, rejeitado pela área técnica do ministério.
O então titular da pasta, Juca Ferreira ignorou o parecer e autorizou a captação de R$ 1,5 milhão.
A informação é da coluna Mônica Bergamo, publicada na Folha desta quarta-feira (16). A íntegra da coluna está disponível para assinantes do jornal e do UOL.
Daqui: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/889245-maria-bethania-tera-r-13-milhao-para-criar-blog.shtml
quarta-feira, 2 de março de 2011
ainda a mesma droga
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Daqui: http://forum.cifraclub.com.br/forum/3/121176/
Tendinite: como diz o nome é uma inflamação nos tendões.
Existem vários tipos de inflamações prejudiciais à performance do músico, e as que mais atacam os guitarristas são a própria tendinite, a tenossivite e a sindrome do túnel de carpo.
A Tendinite é a inflamação nos tendões (papinho manjado esse já). Tenossivite é a inflamação nas bainhas dos tendões, estrutura que envolve os tendões, por onde estes deslizam e se nutrem. E a Sindrome do Túnel de Carpo é uma pressão causada no túnel com esse nome, decorrente, não necessariamente, de uma inflamação dentro ou fora dele. Esse túnel encontra-se entre o pulso e a palma da mão. Dentro, passam tendões e nervos, os quais são comprimidos quando há problemas, causando dor intensa, falta de reflexo, podendo afetar o sistema nervoso da pessoa.
O inchaço causado pela inflamação aperta os tendões e nervos, causando as dores.
Na verdade o que nos prejudica realmente não é a inflamação em si, e sim as conseqüências como a pressão causada por ela quando em excesso. O tendão, ou até mesmo músculo, fica tensionado (motivo das dores quando em repouso). Isso tudo estressa-o, promovendo as lesões no tecido. Essas lesões são como feridas, deixando o tecido com fendas, e acumulando mais inflamação nos buracos novos. Se não bastasse, a circulação é afeta também, o inchaço impede o fluxo normal de sangue, e com ele nutrientes, sais mineirais e trocas gasosas.
Calma, não é com todos os afetados que acontece, isso é apenas uma progressão do que pode acontecer caso o tratamento não começo o mais cedo possível.
Sintomas:
Dor latente ao movimento ou até mesmo coceiras (digo coceiras pois quando a circulação é afetada um sintoma é esse).
Fadiga muscular e falta de força para atividades cotidianas.
Cãimbras (decorrente da fadiga).
Em casos mais graves: Imobilidade e Inflexibilidade consideráveis, seguidos de ainda mais dor.
E nos casos gravíssimos: perda total da sensibilidade e mobilidade, e deformação.
Precauções:
Todos sabemos... devemos alongar antes e depois de qualquer exercício físico. Isso vale, também, para o ato de tocar qualquer instrumentos. Como estamos falando de instrumentos de corda, começamos pelos dedos, pulsos e antebraços. Depois braços e ombros, e, se preferir, pescoço e costas. Qualquer tipo de alongamento para esses grupos são válidos. Fica inviável mostrá-los aqui sem fotos, mas se precisar, podes procurar qualquer personal trainer, médicos ortopedistas, traumatologistas, fisiatras ou fisioterapeutas e perguntar-lhes quais alongamentos podem ser realizados.
As inflamações normalmente nos aparecem em articulações (pulsos, joelhos, cotovelos) ou então em feixes com muitos tendões (antebraços, ombros), por isso devemos sempre estar atentos a mobilidade e flexibilidade destes. Então, estude seu corpo, tente prever seus limites para tentar superá-los com êxito, sem causar problemas. Ter uma boa flexibilidade requer uma compensação para estabilizar a articulação. Possuir tônus muscular suficiente para segurar a sua flexibilidade é vital para até mesmo evitar torções.
A falta de potássio, cálcio e sódio são causadores de deficiências em músculos e tendões. Cãimbras, cansaço rápido, atrofia (perda de massa e força) e impermeabilidade das células são indicadores da má alimentação. Nessas condições a LER (lesão por esforço repetitivo) e a inflamação criam forças para nos perturbar. O potássio encontramos principalmente na banana. O cálcio no leite, de preferência o integral. E o sódio no sal de cozinha. Ou seja, com exceção do potássio, temos nossas necessidades supridas.
Praticar exercícios físicos é muito importante para manter os tendões resistentes e no lugar ( = a manter estabilidade). Recomendo basquete, remo, musculação, enfim, algum esporte que movimente, de forma suave, os pulsos.
Aquecer os braços é importante quando o clima é frio ou úmido. E de preferência aquecer antes de alongar para evitar lesões pelo alongamento. Obs.: o aquecer a que me refiro não é fazer cromatismo na guitarra, é aumentar a temperatura de seus braços antes de alongar para depois tocar na guitarra.
Importante ainda, é o descanso entre atividades que utilizem os mesmos grupos musculares. Toque guitarra durante uma hora e descanse 15 minutos ou mais (o importante é sentir-se bem), alongando. Pelas minhas pesquisas, a causa primeira das lesões vinculadas a inflamações são má postura e exagero de tempo na prática das atividades. O descanso é tão importante quanto o resto. Pode-se tocar as 12 horas por dia como de costume, desde que haja intervalos de 1 hora com descansos.
Recuperação: (leia aqui somente se o assunto não o está apavorando)
Inflamação nos tendões é um processo rápido à medida que vamos perdendo força na região afetada. Mas a "desinflamação" é muito lenta. Os tratamentos, muitas vezes, são vagarosos e parecem nunca dar resultado. O que devemos ter em mente é o cuidado durante o tratamento e DEPOIS também.
Primeiro, lembre-se, a inflamação penetra nas frestas deixadas pela perda de massa dos tendões, causada pela pressão exercida no local. Bolsas de gelo são recomendadas por serem antiflamatórios e analgésicos. No Brasil, o método mais usado ainda é o gelo, por se tratar do avanço máximo que temos disponível por aqui à grande população. O gelo dá ótimos resultados sim, mas como tratamos com o corpo humano, algumas pessoas demonstram intolerância ao gelo, tendo que optar por outras formas de tratamento "caseiro". Um problema do gelo é a contração muscular causada, acarretando mais dores, mas sempre em primeiro caso tente o gelo (mas saiba distinguir a dor causada pela sua intolerância da de mau uso do gelo, como no caso da aplicação excessiva que dá aquela sensação de queimação). Então, gelo local por 20 minutos em média, não passe de 30 minutos para não "congelar" o músculo. E nunca gele o seu braço e vá tocar guitarra, espere o tempo necessário até que possas aquecer-se, alongar e tocar novamente. Recomendado passar gelo após tocar.
Há remédios anti-inflamatórios e injeções (para casos extremos, como perda total de movimento e sensibilidade) que em alguns casos não resolve o problema, mas devem ser testados (com conhecimento de seu médico!), pois um tratamento fisioterápico torna-se dispendioso, porém ideal.
PROCURE UM MÉDICO para orientar-se. Remédios à base de Diclofenaco (princípio ativo dos anti-inflamatórios mais populares para tendinites) não devem ser utilizados por mais de 2 semanas (salvo prescrição médica), por causarem uma série de efeitos colaterais a curto prazo: raciocínio lento e agravamento ou surgimento de problemas respiratórios, circulares e cardíacos.
Aos primeiros sintomas, como cansaço, rigidez, dor e inflexibilidade, dirija-se a um profissional, não será um texto retirado da internet que examinará o seu caso e lhe dará uma receita.
O padrão é não cessar atividade musical, continue tocando sua guitarra, mas sem exageros, e escolha fazer atividades que estimulem a musculatura de seus pulsos e antebraços. Importante pensar em um trabalho de reposição da força perdida com o problema. Procure um profissional habilitado para esse tipo de recondicionamento muscular, ou o seu médico.
Adriano "Extrapolation" Medeiros
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Daqui: http://forum.cifraclub.com.br/forum/3/121176/
Tendinite: como diz o nome é uma inflamação nos tendões.
Existem vários tipos de inflamações prejudiciais à performance do músico, e as que mais atacam os guitarristas são a própria tendinite, a tenossivite e a sindrome do túnel de carpo.
A Tendinite é a inflamação nos tendões (papinho manjado esse já). Tenossivite é a inflamação nas bainhas dos tendões, estrutura que envolve os tendões, por onde estes deslizam e se nutrem. E a Sindrome do Túnel de Carpo é uma pressão causada no túnel com esse nome, decorrente, não necessariamente, de uma inflamação dentro ou fora dele. Esse túnel encontra-se entre o pulso e a palma da mão. Dentro, passam tendões e nervos, os quais são comprimidos quando há problemas, causando dor intensa, falta de reflexo, podendo afetar o sistema nervoso da pessoa.
O inchaço causado pela inflamação aperta os tendões e nervos, causando as dores.
Na verdade o que nos prejudica realmente não é a inflamação em si, e sim as conseqüências como a pressão causada por ela quando em excesso. O tendão, ou até mesmo músculo, fica tensionado (motivo das dores quando em repouso). Isso tudo estressa-o, promovendo as lesões no tecido. Essas lesões são como feridas, deixando o tecido com fendas, e acumulando mais inflamação nos buracos novos. Se não bastasse, a circulação é afeta também, o inchaço impede o fluxo normal de sangue, e com ele nutrientes, sais mineirais e trocas gasosas.
Calma, não é com todos os afetados que acontece, isso é apenas uma progressão do que pode acontecer caso o tratamento não começo o mais cedo possível.
Sintomas:
Dor latente ao movimento ou até mesmo coceiras (digo coceiras pois quando a circulação é afetada um sintoma é esse).
Fadiga muscular e falta de força para atividades cotidianas.
Cãimbras (decorrente da fadiga).
Em casos mais graves: Imobilidade e Inflexibilidade consideráveis, seguidos de ainda mais dor.
E nos casos gravíssimos: perda total da sensibilidade e mobilidade, e deformação.
Precauções:
Todos sabemos... devemos alongar antes e depois de qualquer exercício físico. Isso vale, também, para o ato de tocar qualquer instrumentos. Como estamos falando de instrumentos de corda, começamos pelos dedos, pulsos e antebraços. Depois braços e ombros, e, se preferir, pescoço e costas. Qualquer tipo de alongamento para esses grupos são válidos. Fica inviável mostrá-los aqui sem fotos, mas se precisar, podes procurar qualquer personal trainer, médicos ortopedistas, traumatologistas, fisiatras ou fisioterapeutas e perguntar-lhes quais alongamentos podem ser realizados.
As inflamações normalmente nos aparecem em articulações (pulsos, joelhos, cotovelos) ou então em feixes com muitos tendões (antebraços, ombros), por isso devemos sempre estar atentos a mobilidade e flexibilidade destes. Então, estude seu corpo, tente prever seus limites para tentar superá-los com êxito, sem causar problemas. Ter uma boa flexibilidade requer uma compensação para estabilizar a articulação. Possuir tônus muscular suficiente para segurar a sua flexibilidade é vital para até mesmo evitar torções.
A falta de potássio, cálcio e sódio são causadores de deficiências em músculos e tendões. Cãimbras, cansaço rápido, atrofia (perda de massa e força) e impermeabilidade das células são indicadores da má alimentação. Nessas condições a LER (lesão por esforço repetitivo) e a inflamação criam forças para nos perturbar. O potássio encontramos principalmente na banana. O cálcio no leite, de preferência o integral. E o sódio no sal de cozinha. Ou seja, com exceção do potássio, temos nossas necessidades supridas.
Praticar exercícios físicos é muito importante para manter os tendões resistentes e no lugar ( = a manter estabilidade). Recomendo basquete, remo, musculação, enfim, algum esporte que movimente, de forma suave, os pulsos.
Aquecer os braços é importante quando o clima é frio ou úmido. E de preferência aquecer antes de alongar para evitar lesões pelo alongamento. Obs.: o aquecer a que me refiro não é fazer cromatismo na guitarra, é aumentar a temperatura de seus braços antes de alongar para depois tocar na guitarra.
Importante ainda, é o descanso entre atividades que utilizem os mesmos grupos musculares. Toque guitarra durante uma hora e descanse 15 minutos ou mais (o importante é sentir-se bem), alongando. Pelas minhas pesquisas, a causa primeira das lesões vinculadas a inflamações são má postura e exagero de tempo na prática das atividades. O descanso é tão importante quanto o resto. Pode-se tocar as 12 horas por dia como de costume, desde que haja intervalos de 1 hora com descansos.
Recuperação: (leia aqui somente se o assunto não o está apavorando)
Inflamação nos tendões é um processo rápido à medida que vamos perdendo força na região afetada. Mas a "desinflamação" é muito lenta. Os tratamentos, muitas vezes, são vagarosos e parecem nunca dar resultado. O que devemos ter em mente é o cuidado durante o tratamento e DEPOIS também.
Primeiro, lembre-se, a inflamação penetra nas frestas deixadas pela perda de massa dos tendões, causada pela pressão exercida no local. Bolsas de gelo são recomendadas por serem antiflamatórios e analgésicos. No Brasil, o método mais usado ainda é o gelo, por se tratar do avanço máximo que temos disponível por aqui à grande população. O gelo dá ótimos resultados sim, mas como tratamos com o corpo humano, algumas pessoas demonstram intolerância ao gelo, tendo que optar por outras formas de tratamento "caseiro". Um problema do gelo é a contração muscular causada, acarretando mais dores, mas sempre em primeiro caso tente o gelo (mas saiba distinguir a dor causada pela sua intolerância da de mau uso do gelo, como no caso da aplicação excessiva que dá aquela sensação de queimação). Então, gelo local por 20 minutos em média, não passe de 30 minutos para não "congelar" o músculo. E nunca gele o seu braço e vá tocar guitarra, espere o tempo necessário até que possas aquecer-se, alongar e tocar novamente. Recomendado passar gelo após tocar.
Há remédios anti-inflamatórios e injeções (para casos extremos, como perda total de movimento e sensibilidade) que em alguns casos não resolve o problema, mas devem ser testados (com conhecimento de seu médico!), pois um tratamento fisioterápico torna-se dispendioso, porém ideal.
PROCURE UM MÉDICO para orientar-se. Remédios à base de Diclofenaco (princípio ativo dos anti-inflamatórios mais populares para tendinites) não devem ser utilizados por mais de 2 semanas (salvo prescrição médica), por causarem uma série de efeitos colaterais a curto prazo: raciocínio lento e agravamento ou surgimento de problemas respiratórios, circulares e cardíacos.
Aos primeiros sintomas, como cansaço, rigidez, dor e inflexibilidade, dirija-se a um profissional, não será um texto retirado da internet que examinará o seu caso e lhe dará uma receita.
O padrão é não cessar atividade musical, continue tocando sua guitarra, mas sem exageros, e escolha fazer atividades que estimulem a musculatura de seus pulsos e antebraços. Importante pensar em um trabalho de reposição da força perdida com o problema. Procure um profissional habilitado para esse tipo de recondicionamento muscular, ou o seu médico.
Adriano "Extrapolation" Medeiros
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
sobre livros de memórias
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Pedi licença a Adriana Lisboa, que publicou em seu blog, e copio o ótimo artigo daqui:
The Problem With Memoirs By NEIL GENZLINGER
Illustration by Timothy Goodman Published: January 28, 2011
In: http://www.nytimes.com/2011/01/30/books/review/Genzlinger-t.html?_r=2&ref=books
There was a time when you had to earn the right to draft a memoir, by accomplishing something noteworthy or having an extremely unusual experience or being such a brilliant writer that you could turn relatively ordinary occurrences into a snapshot of a broader historical moment. Anyone who didn’t fit one of those categories was obliged to keep quiet. Unremarkable lives went unremarked upon, the way God intended.
But then came our current age of oversharing, and all heck broke loose. These days, if you’re planning to browse the “memoir” listings on Amazon, make sure you’re in a comfortable chair, because that search term produces about 40,000 hits, or 60,000, or 160,000, depending on how you execute it.
Sure, the resulting list has authors who would be memoir-eligible under the old rules. But they are lost in a sea of people you’ve never heard of, writing uninterestingly about the unexceptional, apparently not realizing how commonplace their little wrinkle is or how many other people have already written about it. Memoirs have been disgorged by virtually everyone who has ever had cancer, been anorexic, battled depression, lost weight. By anyone who has ever taught an underprivileged child, adopted an underprivileged child or been an underprivileged child. By anyone who was raised in the ’60s, ’70s or ’80s, not to mention the ’50s, ’40s or ’30s. Owned a dog. Run a marathon. Found religion. Held a job.
So in a possibly futile effort to restore some standards to this absurdly bloated genre, here are a few guidelines for would-be memoirists, arrived at after reading four new memoirs. Three of the four did not need to be written, a ratio that probably applies to all memoirs published over the last two decades. Sorry to be so harsh, but this flood just has to be stopped. We don’t have that many trees left.
1
That you had parents and a childhood does not of itself qualify you to write a memoir. This maxim, which was inspired by an unrewarding few hours with “Disaster Preparedness,” by Heather Havrilesky, is really a response to a broader problem, a sort of grade inflation for life experiences. A vast majority of people used to live lives that would draw a C or a D if grades were being passed out — not that they were bad lives, just bland. Now, though, practically all of us have somehow gotten the idea that we are B+ or A material; it’s the “if it happened to me, it must be interesting” fallacy.
And so Havrilesky, a former writer for Salon who is now a critic for the iPad publication The Daily, spends 239 pages dragging us through what seems to be an utterly ordinary childhood in North Carolina. Her mother is a little odd, but no odder than yours or mine. There is a divorce, but so what? There are siblings. “We filled each other with fear and anger, then made jokes and laughed together, to soften the blows,” she writes — in other words, they did what all siblings do.
The prose isn’t particularly surprising, and, more to the point, neither is the selection of anecdotes: cheerleader tryouts, crummy teenage jobs and, that favorite of oversharers everywhere, the loss of virginity. Maybe the vignette about the time she and her sister wrote to Amy Carter at the White House would have made a passable subplot in an episode of a mediocre Disney sitcom. The rest belongs on a blog.
2
No one wants to relive your misery. Say you get stuck under a rock and have to cut off your own arm to escape. If, as you’re using your remaining hand to write a memoir about the experience, your only purpose in doing so is to make readers feel the blade and scream in pain, you should stop. You’re a sadist, not a memoirist; you merely want to make readers suffer as you suffered, not entertain or enlighten them.
Sean Manning did not lose any limbs, but he did watch his mother die a lingering death from cancer, and in “The Things That Need Doing” he pummels us with the details of every intubation, change in medication and debate with doctors. Why does he do this? It’s certainly not to memorialize his mother; not only does he tell us little about her, but he also strips her of any and all dignity by describing in voyeuristic detail her vomiting, diaper changes and such.
No, the sole purpose of this memoir, like many, many others concerning some personal trial, is to generate sympathy for its author. Manning, who was in his mid-20s when he took his lengthy turn at the bedside, seems on every page to be looking for someone to say, “Poor Sean; how about a hug?” But it’s the reader who will need a hug after choking down this orgy of self-congratulation and self-pity. That’s what happens when immature writers write memoirs: they don’t realize that an ordeal, served up without perspective or perceptiveness, is merely an ordeal.
3
If you’re jumping on a bandwagon, make sure you have better credentials than the people already on it. Imitation runs rampant in memoir land. There can’t be just one book by a bulimic or former war correspondent or spouse of an Alzheimer’s sufferer; there has to be a pile. And lately, the biggest pile of all has been books by parents, siblings and teachers of people with autism.
Allen Shawn, who teaches at Bennington College, is the latest to climb on this heap, with “Twin.” The gimmick: his twin sister, now in her 60s, is autistic. Seems like a potentially interesting variation of the overworked theme. Until, that is, you start reading the book and realize that Shawn’s parents — his father was William Shawn, editor of The New Yorker — had his twin, Mary, institutionalized when she was 8, and that, psychic twinship or not, Allen Shawn doesn’t really know a thing about her.
Shawn describes how the family would arrive in a limousine for their occasional visits with Mary, an image that will infuriate those who have not had the luxury of paying someone else to make their problems go away. “Only a more naturally unified and self-sacrificing family than ours could have tolerated the enormous challenge of bringing her up at home,” he writes of Mary, part of a stunningly tone-deaf attempt to explain away the institutionalization as necessary because the rest of the family was quirky and William Shawn was busy not only with work but also with being a lifelong adulterer.
Institutionalization was just what people did back then, you say? “I am awestruck that, even in the time of my childhood, there were families that had the love, fortitude and resourcefulness to incorporate such children into their world,” Shawn writes near the end of this appalling example of coattail-grabbing. Yes, there were. And they’re the ones who are qualified to add to the heap of autism memoirs.
4
If you still must write a memoir, consider making yourself the least important character in it. That is basically what Johanna Adorjan has done in “An Exclusive Love” (translated by Anthea Bell), her spare, beautiful exploration of why her grandparents killed themselves. Adorjan, a journalist in Berlin, artfully reconstructs the day in 1991 when her grandparents, who lived in Denmark, took their own lives in a suicide pact. Although she is part of the story, she wisely keeps herself on its edges, occasionally noting personality traits or mementos she inherited from her grandparents, but mostly bringing the two of them to life through her recollections and the memories of contemporaries she interviews.
“We all felt the force of her thrift,” she writes of her grandmother. “Her presents were always received apprehensively: what were we not going to be pleased to get this time? I remember T-shirts much too small for me, and you knew from the smell of them that they had been in my grandparents’ house for a long time (in fact they smelled as if they had been stored in an ashtray). A book that looked as if it had been read. A bottle not quite full of bath foam.”
This fascinating couple, who had survived the Holocaust and the Hungarian uprising of 1956, come slowly into focus for the author and the reader simultaneously, or so Adorjan makes it seem. That’s what makes a good memoir — it’s not a regurgitation of ordinariness or ordeal, not a dart thrown desperately at a trendy topic, but a shared discovery.
Maybe that’s a good rule of thumb: If you didn’t feel you were discovering something as you wrote your memoir, don’t publish it. Instead hit the delete key, and then go congratulate yourself for having lived a perfectly good, undistinguished life. There’s no shame in that.
Neil Genzlinger is a staff editor at The Times
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Pedi licença a Adriana Lisboa, que publicou em seu blog, e copio o ótimo artigo daqui:
The Problem With Memoirs By NEIL GENZLINGER
Illustration by Timothy Goodman Published: January 28, 2011
In: http://www.nytimes.com/2011/01/30/books/review/Genzlinger-t.html?_r=2&ref=books
There was a time when you had to earn the right to draft a memoir, by accomplishing something noteworthy or having an extremely unusual experience or being such a brilliant writer that you could turn relatively ordinary occurrences into a snapshot of a broader historical moment. Anyone who didn’t fit one of those categories was obliged to keep quiet. Unremarkable lives went unremarked upon, the way God intended.
But then came our current age of oversharing, and all heck broke loose. These days, if you’re planning to browse the “memoir” listings on Amazon, make sure you’re in a comfortable chair, because that search term produces about 40,000 hits, or 60,000, or 160,000, depending on how you execute it.
Sure, the resulting list has authors who would be memoir-eligible under the old rules. But they are lost in a sea of people you’ve never heard of, writing uninterestingly about the unexceptional, apparently not realizing how commonplace their little wrinkle is or how many other people have already written about it. Memoirs have been disgorged by virtually everyone who has ever had cancer, been anorexic, battled depression, lost weight. By anyone who has ever taught an underprivileged child, adopted an underprivileged child or been an underprivileged child. By anyone who was raised in the ’60s, ’70s or ’80s, not to mention the ’50s, ’40s or ’30s. Owned a dog. Run a marathon. Found religion. Held a job.
So in a possibly futile effort to restore some standards to this absurdly bloated genre, here are a few guidelines for would-be memoirists, arrived at after reading four new memoirs. Three of the four did not need to be written, a ratio that probably applies to all memoirs published over the last two decades. Sorry to be so harsh, but this flood just has to be stopped. We don’t have that many trees left.
1
That you had parents and a childhood does not of itself qualify you to write a memoir. This maxim, which was inspired by an unrewarding few hours with “Disaster Preparedness,” by Heather Havrilesky, is really a response to a broader problem, a sort of grade inflation for life experiences. A vast majority of people used to live lives that would draw a C or a D if grades were being passed out — not that they were bad lives, just bland. Now, though, practically all of us have somehow gotten the idea that we are B+ or A material; it’s the “if it happened to me, it must be interesting” fallacy.
And so Havrilesky, a former writer for Salon who is now a critic for the iPad publication The Daily, spends 239 pages dragging us through what seems to be an utterly ordinary childhood in North Carolina. Her mother is a little odd, but no odder than yours or mine. There is a divorce, but so what? There are siblings. “We filled each other with fear and anger, then made jokes and laughed together, to soften the blows,” she writes — in other words, they did what all siblings do.
The prose isn’t particularly surprising, and, more to the point, neither is the selection of anecdotes: cheerleader tryouts, crummy teenage jobs and, that favorite of oversharers everywhere, the loss of virginity. Maybe the vignette about the time she and her sister wrote to Amy Carter at the White House would have made a passable subplot in an episode of a mediocre Disney sitcom. The rest belongs on a blog.
2
No one wants to relive your misery. Say you get stuck under a rock and have to cut off your own arm to escape. If, as you’re using your remaining hand to write a memoir about the experience, your only purpose in doing so is to make readers feel the blade and scream in pain, you should stop. You’re a sadist, not a memoirist; you merely want to make readers suffer as you suffered, not entertain or enlighten them.
Sean Manning did not lose any limbs, but he did watch his mother die a lingering death from cancer, and in “The Things That Need Doing” he pummels us with the details of every intubation, change in medication and debate with doctors. Why does he do this? It’s certainly not to memorialize his mother; not only does he tell us little about her, but he also strips her of any and all dignity by describing in voyeuristic detail her vomiting, diaper changes and such.
No, the sole purpose of this memoir, like many, many others concerning some personal trial, is to generate sympathy for its author. Manning, who was in his mid-20s when he took his lengthy turn at the bedside, seems on every page to be looking for someone to say, “Poor Sean; how about a hug?” But it’s the reader who will need a hug after choking down this orgy of self-congratulation and self-pity. That’s what happens when immature writers write memoirs: they don’t realize that an ordeal, served up without perspective or perceptiveness, is merely an ordeal.
3
If you’re jumping on a bandwagon, make sure you have better credentials than the people already on it. Imitation runs rampant in memoir land. There can’t be just one book by a bulimic or former war correspondent or spouse of an Alzheimer’s sufferer; there has to be a pile. And lately, the biggest pile of all has been books by parents, siblings and teachers of people with autism.
Allen Shawn, who teaches at Bennington College, is the latest to climb on this heap, with “Twin.” The gimmick: his twin sister, now in her 60s, is autistic. Seems like a potentially interesting variation of the overworked theme. Until, that is, you start reading the book and realize that Shawn’s parents — his father was William Shawn, editor of The New Yorker — had his twin, Mary, institutionalized when she was 8, and that, psychic twinship or not, Allen Shawn doesn’t really know a thing about her.
Shawn describes how the family would arrive in a limousine for their occasional visits with Mary, an image that will infuriate those who have not had the luxury of paying someone else to make their problems go away. “Only a more naturally unified and self-sacrificing family than ours could have tolerated the enormous challenge of bringing her up at home,” he writes of Mary, part of a stunningly tone-deaf attempt to explain away the institutionalization as necessary because the rest of the family was quirky and William Shawn was busy not only with work but also with being a lifelong adulterer.
Institutionalization was just what people did back then, you say? “I am awestruck that, even in the time of my childhood, there were families that had the love, fortitude and resourcefulness to incorporate such children into their world,” Shawn writes near the end of this appalling example of coattail-grabbing. Yes, there were. And they’re the ones who are qualified to add to the heap of autism memoirs.
4
If you still must write a memoir, consider making yourself the least important character in it. That is basically what Johanna Adorjan has done in “An Exclusive Love” (translated by Anthea Bell), her spare, beautiful exploration of why her grandparents killed themselves. Adorjan, a journalist in Berlin, artfully reconstructs the day in 1991 when her grandparents, who lived in Denmark, took their own lives in a suicide pact. Although she is part of the story, she wisely keeps herself on its edges, occasionally noting personality traits or mementos she inherited from her grandparents, but mostly bringing the two of them to life through her recollections and the memories of contemporaries she interviews.
“We all felt the force of her thrift,” she writes of her grandmother. “Her presents were always received apprehensively: what were we not going to be pleased to get this time? I remember T-shirts much too small for me, and you knew from the smell of them that they had been in my grandparents’ house for a long time (in fact they smelled as if they had been stored in an ashtray). A book that looked as if it had been read. A bottle not quite full of bath foam.”
This fascinating couple, who had survived the Holocaust and the Hungarian uprising of 1956, come slowly into focus for the author and the reader simultaneously, or so Adorjan makes it seem. That’s what makes a good memoir — it’s not a regurgitation of ordinariness or ordeal, not a dart thrown desperately at a trendy topic, but a shared discovery.
Maybe that’s a good rule of thumb: If you didn’t feel you were discovering something as you wrote your memoir, don’t publish it. Instead hit the delete key, and then go congratulate yourself for having lived a perfectly good, undistinguished life. There’s no shame in that.
Neil Genzlinger is a staff editor at The Times
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