segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Entrevista
Numa entrevista do João Moreira Salles ao Canal Brasil ele comentava sobre a possível prepotência no filme, que era possível haver, sim, que talvez fosse inevitável na relação com um empregado de tantos anos, que morava na casa. Também observou que não quisera mesmo ouvir as confidências do empregado, que o corte dado fora proposital. Fiquei pensando que talvez meu comentário sobre a ajuda para comprar o apartamento tenha sido inadequado: e se o patrão tiver ajudado o empregado a ter aquele imóvel, ou mesmo se tiver dado a ele o apartamento? Pode ser, e jamais saberei porque isso não é uma coisa que qualquer dos filhos vá contar.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Santiago
Santiago é um documentário estranho, que diz muito de seu diretor, João Moreira Salles, e das delícias que as diferenças de classe instituem. Em princípio, foi corajoso expor-se daquela maneira, mostrar sua intolerância para com o ex-empregado da mansão, sua rispidez ao dirigir-se a ele, sua prepotência mesmo, no tom de voz, nas ordens que dá. Depois ele amansa e faz um mea culpa que não convence muito, meio piegas ao aproximar a morte do empregado à dos pais e chamar os irmãos para o filme.
Sobre Santiago, ele mesmo, primeiro de tudo: como é que um homem que trabalhou 30 (TRINTA!) anos para uma das famílias mais ricas do país acabou seus dias num apartamentozinho minúsculo, no Leblon, é verdade, mas minúsculo. Me lembra a Danuza confessando em seu livro Quase tudo que, em momento de brabeza na vida, ganhou um apartamento de presente de sua grande amiga Lilly Marinho (que não era Marinho então). Danuza não era o mordomo da Lilly, bien sûr, era sua grande amiga, mas mesmo assim acho que não custava nada o tal imperador dos bancos financiar a juros decentes uma moradia melhor para seu empregado de tantos anos. Êta elitizinha voraz e fominha.
Segundo: minha leitura para as idiossincrasias de Santiago está ligada ao fato de que ele foi um homem que não teve vida própria por muitos anos, com uma identidade inteiramente colada a seu ofício - servir diligentemente os ricos, daí a construção de uma incomensurável teia de vidas reais, nobres, valorosas, que ele anotou pacientemente ao longo de toda a vida. Ele mesmo diz que mora completamente só, mas nunca está sozinho, pois todas aquelas pessoas conversam com ele. Lembra muito, com as sutis diferenças entre sanidade e insanidade, o Bispo do Rosário, recolhendo coisas. No caso de Santiago, coletando vidas, estórias e histórias com as quais ia enriquecendo seu prodigioso imaginário e dando vazão a uma requintada inteligência.
Minha impressão é que se trata de um dos mais fortes documentários sobre a solidão humana, e sobre como sobreviver a ela, ainda fruindo da vida muitos bons momentos: a ópera, as castanholas, a dança.
E o amor? Santiago queria contar - tentou esboçar a frase 'sou daqueles seres malditos...', ao que a autoridade do autor (do outro) retruca em frase breve - 'isso não precisa' e ele ainda resmunga um som ininteligível. Acabou. Nada mais pode ser dito sobre... quase tudo.
Santiago - as tiradas dele são ótimas: a filmagem, o tititi dos porteiros do prédio onde mora, ele resume tudo com a observação: vão me embalsamar, ou empalhar, o que dá no mesmo. Não é o máximo de crueldade? Joãozinho não percebe, nem ouve, mas nós ouvimos. Ouviu, João?
O filme, ele mesmo, tem muitas falhas, repetições, planos chapados e uma estética 'suja', como a literatura de Clarice, que constituem sua força maior. Deixar o leitor em contato com 'quase tudo', não limpar o filme nem o que ocorreu nas filmagens faz parte do seu processo e, nesse sentido, torna-se um documentário interessante, acaba provocando o espectador, convocando-o para assumir uma posição face ao que está vendo.
Sobre Santiago, ele mesmo, primeiro de tudo: como é que um homem que trabalhou 30 (TRINTA!) anos para uma das famílias mais ricas do país acabou seus dias num apartamentozinho minúsculo, no Leblon, é verdade, mas minúsculo. Me lembra a Danuza confessando em seu livro Quase tudo que, em momento de brabeza na vida, ganhou um apartamento de presente de sua grande amiga Lilly Marinho (que não era Marinho então). Danuza não era o mordomo da Lilly, bien sûr, era sua grande amiga, mas mesmo assim acho que não custava nada o tal imperador dos bancos financiar a juros decentes uma moradia melhor para seu empregado de tantos anos. Êta elitizinha voraz e fominha.
Segundo: minha leitura para as idiossincrasias de Santiago está ligada ao fato de que ele foi um homem que não teve vida própria por muitos anos, com uma identidade inteiramente colada a seu ofício - servir diligentemente os ricos, daí a construção de uma incomensurável teia de vidas reais, nobres, valorosas, que ele anotou pacientemente ao longo de toda a vida. Ele mesmo diz que mora completamente só, mas nunca está sozinho, pois todas aquelas pessoas conversam com ele. Lembra muito, com as sutis diferenças entre sanidade e insanidade, o Bispo do Rosário, recolhendo coisas. No caso de Santiago, coletando vidas, estórias e histórias com as quais ia enriquecendo seu prodigioso imaginário e dando vazão a uma requintada inteligência.
Minha impressão é que se trata de um dos mais fortes documentários sobre a solidão humana, e sobre como sobreviver a ela, ainda fruindo da vida muitos bons momentos: a ópera, as castanholas, a dança.
E o amor? Santiago queria contar - tentou esboçar a frase 'sou daqueles seres malditos...', ao que a autoridade do autor (do outro) retruca em frase breve - 'isso não precisa' e ele ainda resmunga um som ininteligível. Acabou. Nada mais pode ser dito sobre... quase tudo.
Santiago - as tiradas dele são ótimas: a filmagem, o tititi dos porteiros do prédio onde mora, ele resume tudo com a observação: vão me embalsamar, ou empalhar, o que dá no mesmo. Não é o máximo de crueldade? Joãozinho não percebe, nem ouve, mas nós ouvimos. Ouviu, João?
O filme, ele mesmo, tem muitas falhas, repetições, planos chapados e uma estética 'suja', como a literatura de Clarice, que constituem sua força maior. Deixar o leitor em contato com 'quase tudo', não limpar o filme nem o que ocorreu nas filmagens faz parte do seu processo e, nesse sentido, torna-se um documentário interessante, acaba provocando o espectador, convocando-o para assumir uma posição face ao que está vendo.
domingo, 26 de agosto de 2007
Enquanto Pauls descansa
E enquanto não volto ao livro do Pauls, aproveito o embalo dos policiais para começar O sono eterno, do Raymond Chandler, o primeiro livro dele, em edição da L&PM Pocket vendida em bancas de jornais.
A apresentação da capa final promete:
"O cenário [de O sono eterno] é a Califórnia no difícil período da Depressão, nos anos 30. Marlowe surge como um personagem tão fascinante quanto complexo: detetive particular, cínico, aparência de durão, mas com um lado generoso e sentimental. À margem dos tiras, dos clientes e dos marginais, Marlowe é um solitário convivendo com as mazelas de um tempo difícil, na cidade grande apinhada de perdedores."
O livro foi adaptado para o cinema sob o título À beira do abismo, com Humphrey Bogart e Lauren Bacall.
Vamos a ele, então.
A apresentação da capa final promete:
"O cenário [de O sono eterno] é a Califórnia no difícil período da Depressão, nos anos 30. Marlowe surge como um personagem tão fascinante quanto complexo: detetive particular, cínico, aparência de durão, mas com um lado generoso e sentimental. À margem dos tiras, dos clientes e dos marginais, Marlowe é um solitário convivendo com as mazelas de um tempo difícil, na cidade grande apinhada de perdedores."
O livro foi adaptado para o cinema sob o título À beira do abismo, com Humphrey Bogart e Lauren Bacall.
Vamos a ele, então.
sábado, 25 de agosto de 2007
Garcia-Roza e o Espinosa sem saída
Enquanto não decido o que fazer com O passado, vou pegando outras coisas pra ler, e acabei de acabar Espinosa sem saída, de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Comecei a gostar de seus romances policiais com O silêncio da chuva, depois li Perseguido e Berenice procura. Acho interessante no Garcia-Rosa o fato dele ser um professor por tantos anos de teoria psicanalítica, um acadêmico com vários livros publicados nessa área, sem nunca ter atendido pacientes, isso é meio raro; depois, a audácia de escrever romance policial sem qualquer tradição brasileira mais forte do gênero - isso parece facilitar as coisas, mas acho que torna tudo mais difícil, porque o sujeito tem de caminhar sozinho, meio sem pai nem mãe.
E não é a mesma coisa ter lido toda Highsmith, Chandler, Hammett e tutti quanti da tradição policial, porque um escritor brasileiro precisa também de referências na língua materna, uma tradição de escrita e pensamento ficcionais brasileiros. Aliás, ele começou tardíssimo, aos sessenta anos, e isso é bastante inspirador; terceiro, ele achou um caminho muito próprio, uma linguagem simples mas não simplória - tem senso de humor, seu Espinosa tem caráter, identidade própria, inteligência, ironia, esperteza no bom sentido, enfim, é um sujeito bem interessante.
Além disso, os romances mapeiam regiões e bairros do Rio de Janeiro e acaba sendo um prazer extra caminhar com os personagens por ruas nossas conhecidas e por onde passamos com freqüência, como ocorre nesse com relação ao bairro de Copacabana. Foi difícil largar o livro antes de chegar ao final, só lamentei um pouco de frouxidão exatamente nessa parte final, como se o autor tivesse ficado cansado da estória e tivesse resolvido acabar de qualquer jeito. Mas vale o tempo e a leitura.
_____
Garcia-Roza. Espinosa sem saída. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
E não é a mesma coisa ter lido toda Highsmith, Chandler, Hammett e tutti quanti da tradição policial, porque um escritor brasileiro precisa também de referências na língua materna, uma tradição de escrita e pensamento ficcionais brasileiros. Aliás, ele começou tardíssimo, aos sessenta anos, e isso é bastante inspirador; terceiro, ele achou um caminho muito próprio, uma linguagem simples mas não simplória - tem senso de humor, seu Espinosa tem caráter, identidade própria, inteligência, ironia, esperteza no bom sentido, enfim, é um sujeito bem interessante.
Além disso, os romances mapeiam regiões e bairros do Rio de Janeiro e acaba sendo um prazer extra caminhar com os personagens por ruas nossas conhecidas e por onde passamos com freqüência, como ocorre nesse com relação ao bairro de Copacabana. Foi difícil largar o livro antes de chegar ao final, só lamentei um pouco de frouxidão exatamente nessa parte final, como se o autor tivesse ficado cansado da estória e tivesse resolvido acabar de qualquer jeito. Mas vale o tempo e a leitura.
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Garcia-Roza. Espinosa sem saída. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Desistir de um livro
É difícil desistir de um livro, sobretudo de um autor best seller, conceituado, com ótimas resenhas e, last but not least, convidado da FLIP! :). Tá certo, qualquer arroz de festa vai à flip, mas estou quase desistindo de ler O passado, do Alan Pauls, por razões diversas, a mais forte é que esse livro tem uma frase impossível, um estilo muuuuuito literário, que quer demaaaais fazer literatura, alta literatura, um livro cheio de acontecimentos em torno desse casal Rímini e Sofia. Eu não aguento mais frases como essas:
No entanto, mesmo parecendo alheio, era como se soubessem tudo desse mundo. Conheciam o mecanismo do ardor, a lógica do engano, as molas secretas da dominação e do desprezo, todas as chaves que moviam, davam brilho e às vezes aniquilavam a vida dos outros. Seus quadros da situação eram precisos; raras vezes falhavam ao fazer um diagnóstico; e quando davam conselhos - uma coisa excepcional, que só concordavam em fazer nos casos mais graves ou urgentes, de tão reativos que eram a tudo que pudesse confundir-se com a manipulação emocional -, cuidavam muito bem das fragilidades, dos impulsos, das propensões capazes de viciar a operação de parcialidade.
(São Paulo: Cosacnaify, p. 39).
Mas ainda não desisti de vez, vou continuar tentando achar uma porta.
Enquanto isso, vou devorando o Espinosa sem saida, depois conto mais.
No entanto, mesmo parecendo alheio, era como se soubessem tudo desse mundo. Conheciam o mecanismo do ardor, a lógica do engano, as molas secretas da dominação e do desprezo, todas as chaves que moviam, davam brilho e às vezes aniquilavam a vida dos outros. Seus quadros da situação eram precisos; raras vezes falhavam ao fazer um diagnóstico; e quando davam conselhos - uma coisa excepcional, que só concordavam em fazer nos casos mais graves ou urgentes, de tão reativos que eram a tudo que pudesse confundir-se com a manipulação emocional -, cuidavam muito bem das fragilidades, dos impulsos, das propensões capazes de viciar a operação de parcialidade.
(São Paulo: Cosacnaify, p. 39).
Mas ainda não desisti de vez, vou continuar tentando achar uma porta.
Enquanto isso, vou devorando o Espinosa sem saida, depois conto mais.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
blog do carpinejar
Nossa, o blog do Fabrício Carpinejar, grande poeta, é bom demais, vejam só a crônica que ele escreveu hoje (20/08) sobre os amigos não se visitarem, só se vendo quando marcam com muita antecedência, e que perdem o sentido do encontro casual, do estar juntos só por estar, de bobeira na vida. Eu sinto a mesmíssima coisa, e fico pensando que um dos fatores para essa deserção dos amigos seria a própria cidade do Rio, tão bela e tão 'pra fora' que ninguém mais precisa de ninguém, é só sair à rua que já se está 'no meio do mundo', daí que todo mundo precisa de ficar sozinho em casa pra compensar, mas não sei não. De todo modo, o Fabrício consegue flagrar esse sentimento de modo definitivo em http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Todos se le van
Alguém escreveu este verso: Si le vent avait sufflé du Nord, mes pins de Basilac étaient perdus e esse alguém vai morrer também. CDA morreu. JCMN também. Eu vou morrer. Todos os meus amigos, amigas, os ricos (os pobres já morrem demais), os mal vestidos, os bem, os gordos -- os magros também, mas menos. Estar aqui, lá, nos chateaux franceses, nos palácios dos irmãos jaloux americanos, no daquele magnata do cinema idem -- tinha um rio a correr dentro do palácio – qual o nome dele? -- em qualquer lugar de ontem, de hoje ou de amanhã -- todos vamos morrer. Eu também vou morrer. HH morreu há pouco, ela quis morrer -- a graça da vida era ela descer líquida, mas na velhice tudo desanda, fígado, rins, ossos, e a vontade de escrever não sustenta o futuro -- que futuro quando os anos depois dos (90? 70? 80?) já afunilam a chegada final do lance final do currículo-labirinto. Todos MORREREMOS. Fim. Ana CC não quis esperar, deu aflição no pensamento e ela preferiu voar pela janela afora, libertas quae sera tamen. Drummond nunca mais vai passear na orla de Copa ou sentar no banco da praça, tomando ar fresco e olhando as meninas que passam em doce balanço, nem Vinicius, nem Jobim. Chico também vai morrer, eu vou morrer, L vai morrer, my mother vai morrer, my sister idem, R também vai, e M e T e F todo o alfabeto vai morrer.
Que nome pôr no lugar de todo mundo? Ah, Borges também morreu, embora tenha vivido mais intensamente do que qualquer de nós.
Que nome pôr no lugar de todo mundo? Ah, Borges também morreu, embora tenha vivido mais intensamente do que qualquer de nós.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
entrevista do Tezza
Ao invés de mais comentários sobre O filho eterno, remeto para a entrevista do autor que está em
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/cadernog/conteudo.phtml?id=684690&tit
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/cadernog/conteudo.phtml?id=684690&tit
domingo, 12 de agosto de 2007
O filho eterno é ótimo
Por que O filho eterno, do Cristovão Tezza (Rio de Janeiro: Record, 2007), é tão bom: porque mantendo tensão constante entre vida e ficção, radicaliza na criação de uma estória pungente, verdadeira, dura, sem pieguices, cruel mesmo, que coloca em xeque os sentimentos de decepção de um pai face ao nascimento de seu primeiro filho com síndrome de Down.
Nunca antes havia lido nada tão contundente sobre esse universo e, no ajuste de contas com sua história que o narrador nos propõe, somos levados a rever nossos próprios preconceitos, nossa hipocrisia face ao "inteiramente outro". E como se trata de uma obra-prima, o livro empreende um ajuste de contas não apenas com o filho, com sua história particular e familiar, mas com acontecimentos que formaram nossa cultura recente, discutindo alguns dos temas dos que viveram jovens os anos 70. Há muitas sacadas interessantes ao longo da obra sobre as experiências pessoais do narrador, que não estão desconectadas da reflexão sobre quem somos e por que somos ainda esse país tão sem saída. Sobre a ditadura:
[...] uma ditadura militar, por si só, é a derrota da lei -- os anos 1970 foram universalmente marcados pela idéia da corrosão legal. Vamos encurtar caminho de uma vez, diziam todos, à esquerda e à direita. Antes, se Deus não existisse, tudo era permitido; como Deus já é carta fora do baralho, agora tudo é permitido se o Estado é criminoso. (p. 91).
Há ainda muito a comentar sobre esse pai e seu Felipe.
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Cristovão Tezza, O filho eterno. Rio de Janeiro: Record:2007.
Nunca antes havia lido nada tão contundente sobre esse universo e, no ajuste de contas com sua história que o narrador nos propõe, somos levados a rever nossos próprios preconceitos, nossa hipocrisia face ao "inteiramente outro". E como se trata de uma obra-prima, o livro empreende um ajuste de contas não apenas com o filho, com sua história particular e familiar, mas com acontecimentos que formaram nossa cultura recente, discutindo alguns dos temas dos que viveram jovens os anos 70. Há muitas sacadas interessantes ao longo da obra sobre as experiências pessoais do narrador, que não estão desconectadas da reflexão sobre quem somos e por que somos ainda esse país tão sem saída. Sobre a ditadura:
[...] uma ditadura militar, por si só, é a derrota da lei -- os anos 1970 foram universalmente marcados pela idéia da corrosão legal. Vamos encurtar caminho de uma vez, diziam todos, à esquerda e à direita. Antes, se Deus não existisse, tudo era permitido; como Deus já é carta fora do baralho, agora tudo é permitido se o Estado é criminoso. (p. 91).
Há ainda muito a comentar sobre esse pai e seu Felipe.
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Cristovão Tezza, O filho eterno. Rio de Janeiro: Record:2007.
Lya e o coro burro
Hoje li a crônica de Lya Luft na Veja de 15/08/2007 e não gostei nada. Acho que ela dá as mãos à mídia tola para comemorar o dia dos pais, aproveitando para criticar azedamente uma mãe que ela viu no aeroporto chamar um desses pais de "o boca-aberta do seu pai". Depois, descreve seu próprio pai, um santo, pelo que se lê, ou alguém muito próximo disso.
O que a escritora talvez não perceba é a quantidade de criança que não tem nada para comemorar nesse dia, simplesmente porque o pai sumiu, nunca deu notícias, é desconhecido ou se lixa pro filho. Acho ruim essa avalanche de propagandas na mídia em dia de pai, de mãe, de avó, que só faz render dinheiro pra lojista e sofrimento para quem não tem a quem homenagear. Acho também falta de tato uma escritora talentosa como a Lya se prestar a esse papel de culto ao pai no seu dia, ainda por cima esculachando a possível mãe-bruxa que ela só vê de relance no aeroporto, sem saber nada sobre a história daquela família.
Outra coisa, Lya, só tendo um pai perfeito, como você, para achar que "não importa se é pai separado, pai solteiro, pai sem grana, pai sem graça, pai sem muito jeito, pai que a mãe procura diminuir, ou pai amado e feliz." Alto lá, minha cara: cada um desses tipos importa muitíssimo para seus filhos particulares, e só porque você teve um pai tão perfeito não autoriza sair generalizando o que não conhece só para fazer coro com a mídia imbecil. Me poupe!
Ao invés dessa baboseira de rendição ao comércio, quem quiser saber sobre o que significa ser pai deve ler O filho eterno, do Cristovão Tezza, que além de ser um romance extraordinário, coloca pelo avesso e dá um nó em toda nossa compreensão leiga e preconceituosa sobre os portadores de Down.
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O que a escritora talvez não perceba é a quantidade de criança que não tem nada para comemorar nesse dia, simplesmente porque o pai sumiu, nunca deu notícias, é desconhecido ou se lixa pro filho. Acho ruim essa avalanche de propagandas na mídia em dia de pai, de mãe, de avó, que só faz render dinheiro pra lojista e sofrimento para quem não tem a quem homenagear. Acho também falta de tato uma escritora talentosa como a Lya se prestar a esse papel de culto ao pai no seu dia, ainda por cima esculachando a possível mãe-bruxa que ela só vê de relance no aeroporto, sem saber nada sobre a história daquela família.
Outra coisa, Lya, só tendo um pai perfeito, como você, para achar que "não importa se é pai separado, pai solteiro, pai sem grana, pai sem graça, pai sem muito jeito, pai que a mãe procura diminuir, ou pai amado e feliz." Alto lá, minha cara: cada um desses tipos importa muitíssimo para seus filhos particulares, e só porque você teve um pai tão perfeito não autoriza sair generalizando o que não conhece só para fazer coro com a mídia imbecil. Me poupe!
Ao invés dessa baboseira de rendição ao comércio, quem quiser saber sobre o que significa ser pai deve ler O filho eterno, do Cristovão Tezza, que além de ser um romance extraordinário, coloca pelo avesso e dá um nó em toda nossa compreensão leiga e preconceituosa sobre os portadores de Down.
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