Os belos dias de Aranjuez, de Win
Wenders, com Reda Kateb, Sophie Semin, Jens Harzer, Nick Cave.
Entendi finalmente a importância
do 3D para Wenders – aqui, esse modo de filmar torna-se imprescindível, um
achado mesmo. O filme é muito bom, um legítimo Wenders no sentido de que é
cinema de arte, sem concessões, e ocorre do seguinte modo: um escritor senta-se
em sua mesa de trabalho, acompanhamos seu processo de escrita e seu olhar para
fora da sala, e da máquina de escrever, e vemos um casal conversando - são os
personagens que ele está criando, presentificando-se no filme que vemos.
Eles conversam sentados em torno
de uma mesa redonda, e a sua volta um jardim deslumbrante, absolutamente local
de todas as delícias da beleza natural, expande-se a nosso olhar por graça e
obra do 3D, nunca antes visto dessa maneira por mim - cada detalhe das plantas,
das cores, da brisa que faz esvoaçar folhas, flores, tudo é paradisíaco.
A conversa gira em torno de
histórias da vida de ambos, cujos termos são previamente combinados, como
encenadas num palco, como falas de personagens de um teatro. Eles falam de sua
infância, dos amores, da primeira vez etc - ela, mais que ele. Essas conversas
não são entrelaçadas, são meio soltas – ela fala dela, ele ouve, depois ele
fala sobre a experiência dele em Aranjuez, mas não há relação entre o que ela
diz, e o que ele responde, ou melhor, ele não responde, ele encena sua
fala.
Num certo momento, ela se empolga
com a questão do amor, do sentido do amor para a mulher que ela é, e diz umas
coisas muito estranhas, para mim, sobre a majestade do amor submisso, de um
tipo de amor de mulher que se entrega a um homem e que diz ‘sim’ a uma espécie
de submissão, ou seja, tudo que nós, mulheres, hoje, refutamos. Mas no contexto
de tudo que diz, do modo como vê esse ato como entrega total, acho que faz
sentido. Na verdade, tudo é tão puramente encenado ali, que fica difícil trazer
as experiências relatadas por ambos para a vida real, ou lhes emprestar nossos
valores. E há vários níveis de encenação: o escritor que escreve e ouve músicas
de Nick Cave, que depois aparece ele mesmo tocando uma canção romântica; a
conversa entre o homem e a mulher, cujos temas e o modo de abordagem foram
pactuados entre eles, teatro, portanto; há todo o tempo em cima da mesa do
escritor uma pequena maquete da cenografia onde ocorre a conversa do casal: uma
mesa redonda e duas cadeiras vazias.
Enfim, o filme é puramente arte,
encenação, e deslumbramento causado pela paisagem capturada por essa técnica
em 3D, em seu pleno estado de arte: cada folha, cada flor, cada planta,
tudo tem vida, é pulsante, lindíssimo - tive vontade várias vezes de fotografar
as flores, ou de comê-las.
Gostei muito de 'Loving'
(Jeff Nichols. Com Ruff Nega, Joel Edgerton, Michael Shannon, Marton Csokas)
porque trata da primeira família interracial na Virgínia, que luta durante mais
de 10 anos na justiça, e ganha na Suprema Corte, o direito ao casamento, e
consequentes direitos civis. As duas horas do filme passam leve, nada
atrapalha nosso interesse pelo sucesso daqueles dois. Filme ótimo, inteiro em
seus valores e bem conduzido sempre.

Já 'Voyage of time:
Life's journey', super esperado Doc do Terrence Malick, me pareceu um percurso
longo por todos os cantos do planeta, com imagens estonteantes, de beleza
acachapante, de ar, terra, fogo, mar, com privilégio desse último, de seus
seres estranhos e magníficos, alguns dos quais já vistos em Docs do National
Geographic, via Netflix. Um detalhe: a voz narrativa é bela, mas repete-se
bastante sua interpelação à mãe terra; e nós, humanos, quando aparecemos, não
estamos bem na fita. Na verdade, somos os scumbags of the earth. Ressalto ainda
que a fotografia é de uma qualidade desconcertante - tudo se vê nos mínimos
detalhes, até lágrima em pedra (rs).

O ornitólogo, de
João Pedro Rodrigues. Com Paul Hamy, Xelo Cagiao, João Pedro Rodrigues, Han
Wen, Chan Suan. Trata-se de um filme franco-português meio inacreditável, que
trata do seguinte: um estudioso de aves está observando cegonhas negras,
espécie em extinção. Em certo momento ele entra no caiaque, para ir embora, e
se distrai olhando mais uma vez seus pássaros queridos. Acontece o que a gente
já sabe: o rio tem rios corredeiras, o caiaque vira, e ele será encontrado mais
tarde, desacordado, por duas chinesas meio loucas, que estão perdidas na mata.
A partir daqui, senhores, eu não posso dizer que a coisa flui, porque a
perdição do homem foi a perdição do filme.
A gente entende que a proposta
talvez tenha sido a de construir uma fábula sobre a transformação do homem sob
situações difíceis, extremas, mas a coisa toda degringola de tal maneira, vira
uma história sem pé nem cabeça, e ao final a redenção acontece, meio que na
marra, ou seja, infringindo todas as leis de uma lógica qualquer, ou de uma
certa verossimilhança, mesmo fílmica. A paisagem é muito bonita, mesmo, mas
esse filme foi visto depois do deslumbre de fotografia do filme de Malick,
então achei meio embaçadas até mesmo as cores dos vastos ambientes que, me
parece, constituem suas melhores qualidades.