sexta-feira, 10 de maio de 2013

Festival de cinema francês


Prenda-me (Jean Paul Lillienfeld), com Sophie Marceau, Miou-Miou, Marc Barbé. Uma mulher (Sophie Marceau) faz uma malinha, sai de casa, joga anel e relógio na lixeira e se encaminha a uma delegacia de madrugada, para se entregar pelo assassinato do marido ocorrido há dez anos, crime que prescreverá no dia seguinte.

Começa aí um tour de force entre ela, em seu desejo implacável de ser presa por ter empurrado do parapeito da varanda o marido violento, espancador, sádico, que a violentou ao longo desses dez anos, e a policial vivida por Miou-Miou, que se recusa a aceitar a culpa e a prisão dessa mulher. Como se não bastasse, o filho vai crescendo sem o pai e vai-se tornando ele também um sádico, espalhando ano após ano retratos do homem ausente pela casa, até cobrir quase todo o espaço com a memória - eu diria - do mal.

Fiquei muito irritada a maior parte do tempo, sem paciência com aquela determinação e sem entender por que uma pessoa fica tão doente, mas tão doente que aceita passivamente ser espancada e ainda por cima conviver por longos anos com uma culpa indevida, porque ela não matou o marido, já que, primeiro, apenas encostou no infeliz e ele caiu quase sozinho, porque estava bêbado; segundo, foi legítima defesa, porque o monstro a estava espancando. Então, torcia pra que a policial vencesse aquela arengação de uma vez por todas. E ela vence, finalmente.

A mulher sai já de manhã, derrotada, mas livre. Só que de repente a policial aparece à porta da delegacia e diz a frase fatal: que pode fazer o boletim de ocorrência com data de ontem, antes da prescrição do crime, que ela pode ser presa ainda, se quiser. A mulher volta, é presa e na cena seguinte e última ela está atrás das grades tendo uma conversa muito importante e esclarecedora com o filho. Nessa conversa entendemos por que ela queria tanto ser presa. Ela realmente precisava desse ato libertador - por paradoxal que seja - porque foi o único pela qual assumiu inteira responsabilidade: ter matado o marido deu sentido aos anos todos de tortura a que fora submetida - ela havia feito alguma coisa a respeito: ela o havia matado. Pena que somente na cena final o espectador sinta-se, finalmente, livre daquele peso.

Adeus, minha rainha (Benoît Jacquot), com Léa Seydoux, Diane Kruger, Virginie Ledoyen. Uma história dos bastidores nos momentos finais da Queda da Bastilha, passada no palácio de Versalhes, mas já nos finalmentes e pelo ângulo basicamente dos serviçais da corte. No caso, a leitora de Maria Antonieta, Sidonie, vivida pela linda e ótima Léa Seydoux, apaixonada por sua ama; a paixão de Antonieta por outra mulher, Gabrielle de Pontiac, uma nobre jovem e bela, que será instada a fugir da França pela própria rainha, já que sua cabeça é a segunda na lista dos que serão enforcados pelos revolucionários.

O filme vai pontuando muito mais os esforços da rainha para proteger sua amada e as nuances do devotamento de sua serva, que culmina com a fuga do país disfarçada com as roupas da amante de Antonieta, Gabrielle. Ao reconhecer-se longe daquela a quem serviu com desvelo e amor, Sidonie vê-se sem identidade, sem saber quem é a partir de então. Achei meio excessivo no tempo, mas interessante.

A datilógrafa (Régis Roinsard), com Roman Duris, Déborah François, Bérénice Béjot. Trata-se de um filme mergulhado nos valores e na cultura da passagem dos anos sessenta para o início dos setenta, e nisso vi o interesse maior, apesar de que poderia ser enxugado, não precisava tanto tempo para contar uma história relativamente boba.

A comédia versa sobre uma secretária meio desastrada, excelente datilógrafa, muito rápida nos teclados, que se apaixona pelo jovem patrão, um esportista fracassado, que decide treiná-la para ser campeã mundial do concurso de datilografia (sim, isso existia, e talvez exista ainda na terra das competições). Ela vai vencendo as etapas até chegar à final nos EUA. Ele será convencido de que com amor ela não terá a dureza necessária para ganhar o campeonato, e parte. Ela continuará sozinha sua maratona. No final... bom, o óbvio acontece, claro.
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Talvez não caiba aqui uma sessão nostalgia, mas reconheço inteiramente aquela moça, sou de um tempo em que uma menina pobre aprendia, ao invés do tricô e crochê do tempo da mãe, a datilografia e a estenografia, instrumentos necessários para tentar entrar no mercado de trabalho. Fiz ambos os cursos, embora nunca tenha conseguido usar os caracteres estenográficos. Mas foi o inglês do Ibeu (com bolsa) o fundamental para meu futuro profissional .Ah, e também fiz tricô bem, e bordei.  O filme me fez habitar esse espaço da memória por algum tempo - breve como poeira leve.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Festival de cinema francês

Hoje vi Aconteceu em Saint-Tropez (Danièle Thompson) e Pedalando com Molière (Philippe Le Guay). O segundo acho que chega perto de uma obra-prima, não sei.

O primeiro é uma delícia de 'comédia de erros', imbroglios mil acontecem entre os membros de uma família, cujos 'personagens' são muito peculiares: dois irmãos, com suas mulheres e filhas, opostos um do outro em temperamentos e profissões; duas primas, filhas deles, que se amam como irmãs; a mulher do empresário de diamantes, vivida pela linda e ótima Monica Belluci; a mulher do músico erudito (Kad Merad), que morre logo no início da trama atropelada quando vai comprar um sanduíche de pastrami para o marido, ao final de um concerto. Essa morte ocasiona uma série de desdobramentos na história, quase todos tragicômicos. Por exemplo, o cadáver, por uma série de acontecimentos engraçados, será velado na casa do irmão rico (Eric Elmonisno, muito bom) onde está também acontecendo o casamento da filha dele. Há muitos fios unindo essa família de loucos engraçadíssimos, sobretudo o avô meio senil (Ivry Gitlis), meio escrachado que, como quase todos os velhos experientes, tem noção de que os filhos já o vêem morto a qualquer hora. O final é muito bonitinho, mas totalmente improvável, mesmo numa família daquele calibre, dadas as humanas condições ainda vigentes.

O segundo é basicamente um tour de force esplêndido entre dois atores magistrais: Fabrice Luchini e Lambert Wilson, cujo mote será a encenação da peça O misantropo, de Molière.

Luchini faz um ator, Serge Tanneur, que se retirou do mundo teatral, decepcionado com sua falsidade e hipocrisia, e exilou-se numa pequena cidade da França, Île de Ré, chuvosa e fria na ocasião. Ele será visitado pelo antigo amigo Gauthier, um famoso ator de seriado televisivo, aclamado pelo público e reconhecido por onde vai. Ele visita o antigo colega e o convida para encenar com ele a peça de Molière. Todo (ou quase todo) o filme será então o ensaio feito por esse dois atores, ao longo de cinco dias, ao fim dos quais Tanneur decidirá se volta ou não aos palcos.

O que me pareceu espantosamente bom, ao longo de quase duas horas de filme, foi o entrosamenteo entre os dois atores, a destreza com que eles falam "os versos" da peça de Molière, bem como a vivacidade com que a realidade de cada um vai preenchendo as falas de seus personagehs, sejam eles Alceste ou Philinte (cujos papeis revezam), ou melhor, como cada personagem vai-se infiltrando na postura de cada um deles.

Há uma espécie de guerra entre os dois, não apenas de egos, mas de talentos - tanto no palco do teatro que fingem, quanto no 'palco' da tela. Ao final - li que o Lambert Wilson não gostou do desfecho escolhido - fica-se sem saber se o personagem de Luchini incorporou de vez o misantropo da peça que ensaiava, ou se o ensaio serviu para que o misantropo que ele efetivamente era fizesse afinal sua morada definitiva naquele ser. Acho viáveis as duas possibilidades. Mesmo vê-lo encarando o horizonte sem fim, numa praia deserta de gente ou de bicho, e recitando seu ódio à humanidade, deixa no espectador um gosto de: bem feito, quem mandou ser tão maldoso? Ou: Nossa, ninguém nunca foi tão só no mundo.

Festival de cinema francês

Mais dois filmes ótimos vistos ontem - Além do arco-íris (Agnès Jaoul) e Uma dama em Paris (Ilmar Raag).

O primeiro é uma história que retoma o conto de fadas às avessas. Dirigida pela mesma atriz que faz a mãe de uma das meninas em Feito gente grande, Agnès Jaoul, que também trabalha no filme como uma atriz que produz peças infantis, usando em seu trabalho a varinha mágica dos contos maravilhosos que, de algum modo, fará a narrativa funcionar.
Na trama, uma jovem apaixona-se à primeira vista por um jovem músico, cujo pai trata-o com frieza e distância, é muito racional e a quem uma cartomante há anos previra a morte para muito em breve. Há também um crítico de arte, muito rigoroso e respeitado, que um dia vem a conhecer o jovem músico e aprecia muito suas composições, sugerindo que o grande Horowitz poderá tocar seu último concerto. Esse mesmo crítico vem a conhecer a jovem apaixonada pelo músico, numa situação em que ela está perdida em uma bifurcação da floresta e ele sugere-lhe um desafio sobre o caminho a tomar, dependendo de ela ser pragmática ou romântica. O filme, então, aproxima todos esses personagens por algum viés, seja ele do amor, do trabalho, da descoberta, da solidariedade ou do medo. Ao final, o que parecia ser de um jeito, acaba se transformando em outra coisa. Muito interessante, sobretudo a dureza com que a mocinha acaba descobrindo que o caminho romântico desejado não corresponde exatamente à realidade, conforme o tapa que recebe do ex-amante pra acordar de um porre. O filme segura o espectador em todas as situações, e a Jaoul sobressai em cena por conta da intensidade do olhar, sobretudo, e da rapidez na expressão verbal - certos tiques de linguagem permanecem conosco ainda depois (não sei repetir porque são sons, não palavras, ou parecem).

Uma dama em Paris seria talvez o menos dinâmico do conjunto, acho que porque as ações basicamente acontecem dentro do apartamento onde mora Frida, a estoniana que vive há muitos anos em Paris e parece ter tido uma vida cheia de aventuras e liberdade sexual, razão por que seus compatriotas próximos a detestam. Hoje ela é uma mulher idosa muito solitária, muito enfezada e muito rebelde, que se recusa a aceitar ajuda da cuidadora, chamada pelo ex-amante porque ela já tentara se matar. O papel é vivido por uma decadente e perfeita Jeanne Moreau. Perfeita porque o papel é mesmo o de uma mulher que já foi muito livre e encontra-se hoje em decadência física, embora brigando contra isso. A Moreau segura o papel, com seu talento e aquelas roupas lindas e elegantes, mas conta muito também a atriz Laine Mäge, que faz a cuidadora, muito boa. Ela também tem a função de flanar por Paris e assim nos mostrar alguns encantos da cidade - mas não há um olhar turístico nela, há o olhar de quem veio para ficar, ou seja, é comedido, não é deslumbrado. No final, a velha dama tem a atitude mais acertada para todos, e resume uma das facetas mais interessantes não apenas de sua personalidade - a liberdade -, mas igualmente um dos traços culturais com que são identificados os franceses: não há como ser fiel ou monogâmico no amor.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Festival de cinema francês

Nem percebi e já estamos de novo compartilhando filmes ótimos nesse Festival. Gosto de ouvir a língua francesa, de observar como essa cultura tem aspectos interessantes, insights bem diferentes das mega produções com recursos tecnológicos de última geração, a que estamos acostumados no cinemão - de que gosto também, diga-se de passagem. Mas é bom poder partilhar esse outro universo mental, cheio de delicadezas e de outras energias. Há senões também, claro, e pelo menos dois filmes franceses recentes, do Festival ou não, me irritaram um pouco por seu viés meio excessivo no culto às divas - ou assim compreendi.

Vi quatro filmes até agora. O primeiro, Camille Claudel 1915, já comentei aí embaixo.

Anos incríveis (Michel Leclerc) é uma comédia divertida sobre um grupo de amigos anarquistas que cria um canal de TV com fins revolucionários. A graça do filme está na tarefa quixotesca desses jovens meio radicais, meio à margem, de vencer o sistema a partir de esquetes quase mambembes, e nas tentativas de furar o bloqueio do principal canal aberto. Tudo é um tanto gauche, esmolambado, mas o humor está exatamente nesse descompasso entre as regras vigentes da cultura de massa e a enorme pretensão, tão própria aos jovens, de mudar tudo com tão poucos recursos. Emmanuelle Béart faz uma apresentadora daquele tipo de programa apelativo e sensacionalista, e parece mesmo fisicamente decadente, combinando à perfeição com seu personagem.

Os sabores do palácio (Christian Vincent), com Catherine Frot vivendo uma cozinheira cheia de charme, vigor e personalidade, traz vários presentes ao espectador, todos  relacionados ao preparo com esmero de pratos arrasadores - sim, a horas tantas parece até covardia, e claro que dá vontade de comer todas aquelas maravilhas, produzidas pela talentosa artista. Acho que há um pequeno parentesco com A festa de Babette, nesse lugar único em que a cultura francesa se diferencia, ou seja, na reverência absoluta com que compreende e atualiza a gastronomia como forma de arte. E também uma sutil notação sobre as consequências dessa cozinha para os mortais corpos que não estejam em ótimo estado: os médicos impõem restrições aos alimentos que o Presidente poderá consumir a partir de um certo momento. E assim, há também curvas na estrada de Hortense, não é um filme polarizado apenas na cozinha, embora ela seja seu foco e seu dínamo. As razões pelas quais ela está agora, no tempo presente, cozinhando prum bando de marmanjos numa estação gélida da Antártica vai-se revelando aos poucos, enquanto conhecemos sua interessante história, apresentada em flash back.

Feito gente grande (Carine Tardieu), com Agnès Jaoul, Denis Podalydès, Isabelle Carré é um filmaço com duas crianças estupendas, não apenas duas atrizes ótimas, mas duas personagens inesquecíveis. O filme é delicado e belo, ao mesmo tempo que as duas meninas arrasam com seu humor um tanto escatológico. Há solidão, alegrias, fantasmas difíceis de lidar, incompreensões, sofrimentos - é como se o diretor filmasse abaixado, na mesma altura das meninas, olhando com elas os sentimentos mais fortes, os baques, as faltas, as dúvidas, a presença constante da morte, sempre na perspectiva delas, com sua imprecisão, mas também com sua energia enorme em direção inelutável à vida - sempre mais vida, mesmo quando a grande dama passa entre elas. É muito bonito, muito terno, muito alegre e triste também. Ou seja, um ótimo filme, e ainda tem a Isabella Rossellini fazendo uma terapeuta na medida perfeita. Bom demais.

sábado, 4 de maio de 2013

Camille Claudel 1915

Decepcionante. Muito decepcionante. Não acho que a grande expectativa em torno desse filme - Camille Claudel 1915 (Bruno Dumont) - tenha contribuído para a decepção que tive ao longo da projeção. Nem as condições péssimas de projeção que o cinema São Luiz ofereceu hoje - até porque a platéia se divertiu com os problemas técnicos ao longo de quase meia hora.

O filme é decepcionante porque transformou a vida de uma artista inquieta, intensa, forte, dramática, talentosa em um único momento de um único ano dessa vida, expondo basicamente o dia a dia de um manicômio e seus habitantes, talvez para enfatizar a crueldade dos que impuseram aquele mundo à artista. Eu esperava mais. Esperava que o filme discutisse, nem que fosse em flashbacks, as grandes questões que imprimiram intensidade à vida da protagonista - dela, com certeza, se pode dizer que 'sua vida daria um romance', quiçá um filme menos monocromático. Nem mesmo o irmão, o poeta Paul  Claudel, vivido por um inexpressivo Jean-Luc Vincent, deixa de ser figurado como um quase beato, impassível diante da dor da irmã. Teria sido necessário aglutinar os outros personagens que fizeram da história de Camille esse beco sem saída, de modo que o espectador compreendesse melhor por que ela foi encarcerada; que papel teve Rodin em seu martírio; de que modo os dois artistas autofagicamente se engalfinharam; sob que condições a mãe, a família, enfim, pode infligir tão cruel castigo à filha. Enfim, sempre houve, e haverá, perguntas demais em torno da vida de Camille - não será esse o filme que vai discuti-las, ou mesmo expô-las. 

Como se apresenta, penso que a história serve basicamente à expressão de uma atriz, é um solo de Juliette Binoche, um filme para ela, e não um filme para ou sobre a vida de Camille. Pena. Vendo essa versão, continuo achando mais fiel e interessante o drama Camille Claudel (Bruno Nuytten, 1988), com uma Adjani belíssima e trágica, um Depardieu intenso como Rodin, enfim os personagens que viveram em torno da vida da artista e imprimiram sua marca numa das mulheres mais interessantes e talentosas da passagem do século dezenove para o vinte (1864-1943), cujo enigma se mantém ainda vivo e nos interessa até hoje. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dez

Tentei de várias formas consertar o layout desse post, mas não consigo, tudo volta a ficar assim, acho que teria de re-escrever tudo para endireitá-lo. Então, considero que ele escolheu sua própria forma, e espero que essa forma não seja para todos os outros. Siga assim, então, ao menos se pode ler. Sorry, folks.

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O quarteto (Dustin Hoffman) pertence à rara (embora cada vez menos raro, ainda bem) categoria de filmes sobre as atribulações nas vidas de pessoas idosas. Seria mesmo um desperdício deixar de assistir na tela, no teatro ou onde quer que seja a essa extraordinária Maggie Smith que, praticamente por ela mesma, já vale o filme. Mas há um ótimo time batendo bola com ela (Tom Courtenay, Billy Connolly, Pauline Collins, Michael Gambon) e o filme torna-se uma diversão de altíssimo nível.

A visitante francesa (Hong Sang-soo), com Isabelle Huppert, é uma coisa assim, como direi - chatinha? Pois a volta dela em situações diferentes mostra seu talento, sim, mas não conseguiu me interessar a ponto de não ficar irritada com tanto vaivém. No final, só torcia pra não ter mais uma historinha a ser contada, com ou sem o talento da Huppert. Acho que ela é ótima, mas esse tipo de exercício de interpretação me pareceu um tanto vaidoso demais.

Vai que dá certo (Maurício Farias), com Danton Mello, Lucio Mauro Filho. A gente ri, sim, mas tem um pouco de vergonha desse riso. Não queria bancar a politicamente correta, mas a leveza com que os guapos rapazes cometem as infrações e acham uma graça enorme de tudo; o modo sorrateiro como eles acreditam que o que fizeram não terá consequências e o final assim meio fingidamente surpreso com a retomada das funções equívocas, tudo muito naturalizado, tudo bacana - não sei não, achei um tanto frouxo em tudo, meio esquisito e não sei explicar direito exatamento onde, ou por quê. 

Oblivion (Joseph Kosinski), com Tom Cruise, Olga Kurylenko et alii. Cumpre tudo que promete, mas que é um tantinho confuso, é. E aquele final absolutamente convencional e piegas, ninguém merece. Mas dá pra assistir até o fim sem dormir.

Chamada de emergência (Brad Anderson), com Halle Berry, Abigail Breslin. Gostei, a Halle está ótima, a moça que era a miss Sunshine também colabora, e a tensão segura o espectador o tempo todo. Só tenho restrição à cena final - acho que estou ficando uma senhora moralista, oh céus. 
Ginger e Rosa  (Sally Potter), com Elle Fanning, Alice Englert , além de uma Annette Bening envelhecida e ótima. Fui ver instigada pela década de sessenta, mas o que se vê é menos uma imersão nessa época do que uma investigação sobre as dificuldades de uma jovem diante não apenas do mundo exterior, com a ameaça de hecatombe pela bomba atômica, mas também de suas próprias divisões e esfacelamentos face às questões da vida em geral - amizade, família, sociedade, tudo um pouco desmorona em torno dela, que vai sucumbindo junto. É um filme bonito e triste, vale a pena ser visto.
Bárbara (Christian Petzold) com Nina Hoss, Ronald Zehrfeld. Já vi há algum tempo, mas lembro da intensidade dessa atriz, Nina Ross, e lembro de que gostei desse filme cheio de mistérios, suspenses, segredos, coisas inquietantes acontecendo até tudo ser esclarecido, destinos mudados e finais imprevistos. Ela, a atriz, é dona completa do filme, e faz um senhor trabalho.
2 dias em Nova Iorque (Julie Delpy). Julie Delpy, Chris Rock. A gente ri um pouco, mas as piadas são meio infames. O lugar comum impera, e nem Chris Rock querendo ser sério, ou a Delpy fazendo-se de francesa (que ela efetivamente é), misturado àquele humor geral meio grotesco, junto com as conversas horrorosas do Chris com a imagem do Barack Obama, enfim é tudo muito esquisito e estapafúrdio, um tanto over e quase nada se salva.
Um bom partido (Gabriele Muccino). Gerard Butler, Uma Thurman, Catherine Zeta-Jones, Jessica Biel. Ele - Gerald Butler - até que está um gato com aquelas rugas e cabelo meio dourado ondulado, mas essa penca de atrizes lindas, poderosas e talentosas fazendo personagens que só vêem a sua frente uma transa com o treinador George é um pouco excessivo até para o Butler. De resto, a Biel faz a contento a mocinha que se separa do marido perdedor, mas continua uma apaixonada enrustida por ele, embora esteja numa relação de três anos com um sujeito aparentemente centrado, organizado e o oposto do ex, como se poderia esperar. Tudo previsível, mesmo o final que parecia ser um, e continuou sendo o previsto pelo lugar comum - família unida jamais será vencida.


O abismo prateado (Karim Anouïz). Alessandra Negrini, Thiago Martins, Otto Jr. Acho que o povo na faixa dos trinta vai gostar do filme. Eu confesso pouca paciência para esse tipo de temática - o abandono do marido comunicado à mulher por uma mensagem telefônica - mesmo reconhecendo que a Alessandra Negrini faz um ótimo trabalho - e olha que ela não sai de cena quanse nunca, faz a sofrida e confusa e perdida com muita competência. Mas não me vi atraída pela história, pelo filme ou pelo modo de olhar a situação do Anouiz aqui, embora goste muito do trabalho dele. Talvez seja mesmo só um hiato geracional e o filme seja melhor do que meus olhos puderam ver. 

Mais uma observação: há uma cena da Negrini numa boate, dançando catártica e loucamente, que achei bonita - é forte, tudo que ela está vivendo está ali, naquele momento, sendo exorcizado. E a menina que faz a filha do Thiago Martins - ambos meio à deriva na história e na vida (deles e de Violeta), é uma graça de atriz. Vasculhei a rede em busca do nome dela e não encontrei em lugar algum. Ela está na foto acima, ao lado do pai. E aqui:


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Um porto seguro

Está certo - Um porto seguro (Lasse Hallstrom) é mesmo piegas, a protagonista (Julianne Hough) quase dá vexame de tão inexpressiva em sua atuação, mas tem um ótimo (e lindo, claro) Josh Duhamel,e a outra atriz (Cobie Smulders) dá conta direitinho de ser a "amiga" que nos trará surpresas ao final. Mas se tem tantos pontos negativos (e tem), por que gostei do filme? Porque Um porto seguro é mesmo só pra distrair, emocionar e fazer chorar um tantinho. Além disso, tem injustiça contra mulher, ou melhor, marido violento e agressivo, além de alcoólatra, o que dá à mocinha todas as chances de ter o espectador a seu lado, torcendo por ela, mesmo sem entender quase até o final do que ela foge tanto, e mesmo que ela seja tão bonitinha e tão fraquinha como atriz. De todo modo, gostei de ter visto, gostei da pegada de filme sobre o "além" do final - na verdade, seria ótimo se as coisas funcionassem daquela maneira - quase todos nós, que crescemos sob a égide do mundo cristão e seus mitos de salvação, temos certa nostalgia da carta que ela recebe.

E quase sempre gosto dos filmes do Lasse, em seus aspectos redentores e muitas vezes pueris, pra não dizer piegas (mas quem fez dissertação sobre a poesia de Adélia Prado tem seu lado piegas e, mesmo, kitsch - that's me). Assim, vejo sempre que passa na TV Um lugar para recomeçar, acho bom demais. Também gosto muito de Chocolate, Chegadas e partidas; mas não curti Sempre a seu lado, por bobinho demais.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

A criada

Não sei se é porque estou num momento de vida extremamente sensível à questão do trabalho dos cuidadores de idosos, no Brasil existindo sob a esfera do trabalho doméstico, que esse ano deu uma guinada em termos de direitos e deveres dos dois pólos envolvidos - especificamente, eu e a cuidadora de minha mãe. O fato é que vi esse filme chileno - A criada (Sebastián Silva, 2009) - com quase fervor, tendo quase sempre em meu horizonte imaginativo a Clarice da angustiosa imersão no quarto da empregada em A paixão segundo G.H., e muito a Macabéa de A hora da estrela. A protagonista é uma Macabéa num tom um pouco menor (de desespero e carência), em escala um pouco mais humana, mas continua sendo de uma precariedade afetiva absoluta, tocante e intangível. São de uma crueza tão estridente suas maldades, ao mesmo tempo em que ela se mostra tão comovente em suas tentativas para impedir a divisão de 'seu território' de amor e conquista ao longo de uma vida - aquela família que lhe dá tão pouco, que lhe deu tão pouco em vinte anos de trabalho e convivência.

Então aparece, finalmente, uma ajudante que não tem medo dela, que lhe dá um inesperado abraço, mesmo diante da recusa e do repúdio. Macabéa/Raquel fica atônita, não sabe bem o que é aquilo, nunca tinha sentido o afeto ou a compaixão ou a proximidade do amor assim, de repente e gratuitamente. Há uma cena de choro catártico e as coisas parecem fazer mais sentido para ela a partir de então. Vai tentando costurar as pontas de si mesma naquelas linhas novas: compra uma blusa bonita para si, como a que vê no closet da patroa; e outra, bonita e cara, que dá de presente à nova amiga no aniversário. É tudo muito simples, singelo mesmo o embate que ela trava com a falta de... quase tudo. A atriz é magistral, tem uns olhares absolutamente perfeitos para tudo que quer expressar; tem também um ar de abobada-esperta que faz o sorriso do espectador ficar meio sem jeito ou sem gosto por comprender e aceitar aquilo, tentando com ela subir um pouco mais naquela confusa falta de. Achei um filmaço - tudo que se trança nas relações entre copa, cozinha e a sala dos patrões está ali, dito de uma forma que não poderia ser mais eficaz, simples e complexa ao mesmo tempo.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

De livros e livros

Hoje o Francisco, da livraria/sebo Beta de Aquarius (www.betadequarius.com.br) veio aqui em casa, olhou, separou, escolheu e ao final do exame levou uma boa parte de minha biblioteca. Alguns foram sem dó nem piedade, outros relutei em deixar partir, outros ainda não pude abandonar. O mais polêmico foi o enorme e muito bonito livro com material inédito de Ana Cristina Cesar, editado pelo IMS - Poemas e prosa da pasta rosa, que já comentei aqui. Ele olhou pra mim e disse: - desse eu tenho certeza de que você não vai se desfazer. Respondi na hora: - pode levar. E expliquei por quê - mais ou menos o que já disse aqui em algum lugar.

Enfim, muitos e muitos dos meus livros habitam agora a rua Buarque de Macedo 72, inclusive aqueles que eu mesma escrevi - esses, doei-os, cinco exemplares de cada um, tomara que alguém se interesse - acho triste ver o livro da gente lá, esperando alguém olhar pra ele e convidá-lo pra dançar. :)

Terminei há pouco de arrumar a bagunça dos que ficaram: coloquei em ordem, cumprimentei todos que sobreviveram, e os que não deixei partir: Barthes, Foucault, Nietzsche, Benjamin etc; Clarice, Hilda, Ana Cristina, Rosa, Graciliano, Machado etc; os poetas quase todos; também ficaram os livrinhos verdes de obras completas, serviço inestimável da Nova Aguilar; os autores que não li, e os novos que recém conheci: valter hugo mãe, por exemplo. Enfim, a biblioteca ficou num tamanho razoável, pronta para receber os novos entes que por certo ainda virão. Quanto a escrever sobre eles, não sei quando ou se voltarei a fazer.

domingo, 7 de abril de 2013

Dois, talvez

Estou gostando dessa estratégia de ver dois filmes no mesmo dia, e ter entrado na sala errada do Arteplex para ver O último Elvis e me deparar com as cenas finais de A busca foi ótimo, me fez lembrar as peripécias do FestRio. Saí da sala e vi que tinha ainda bastante tempo pro café e pro pão de queijo. Aliás, o novo espaço do Scada Café ficou muito bom, sempre gostei dali por ser mais discreto e também por causa de um atendente que não vi dessa vez, talvez esteja de férias, que eu chamo em meu afeto de 'pessoa almodóvar' - é uma figura meiga e doce, que parece saída de um filme desse cineasta. Nunca conversamos muito, mas quando era mais assídua ali, tipo uma vez por semana, ele me tratava gentilmente e eu gostava (gosto) muito de vê-lo, tenho um afeto gratuito por ele, gosto de seu ar de diva, de sua postura ao mesmo tempo séria e doce, e do fato de que talvez ele queira ser ela - e isso, por essas plagas, sempre é uma ralação a mais.

No Estação Rio vi, primeiro, A parte dos anjos (Ken Loach), cuja direção já prenunciava o filmaço que é. O protagonista, vivido Paul Branningan, é um sujeito que, tendo tudo pra dar errado em sua vida, faz uma coisa certa: tem um filho, mas não é apenas por conta desse filho que ele torce o destino torto que parecia ser sua cruz eterna. Ele encontra pelo caminho alguns anjos, um deles na figura do oficial responsável por sua condicional, que leva o grupo de problemáticas e engraçadas pessoas a visitar uma destilaria de uísque. A partir daí, o rapaz fadado ao insucesso vai costurando as possibilidades de torcer o destino a seu favor, com inteligência e argúcia. É um filme simples, mas tudo se encaixa com perfeição: os valores, a relação dos maus e do bom policial, as chances que percebe e cuja intuição diz a ele para não deixar escapar. E ele não deixa, embora até nos últimos minutos a mala suerte teime em espreitá-lo, em avançar sobre ele. Ele dá uma volta nela, e achamos ótimo.

O último Elvis é um exemplar do que o cinema argentino tem de bom - tocante, forte, expõe uma certa cafonice na figura de um latino que cultua Elvis a ponto de não ter dúvidas de que é Elvis. Sua realidade de cover, no entanto, é dura; sua vida pessoal é cheia de buracos: a ex-mulher o despreza; a filha tem um tanto de vergonha dele; os cachês de suas apresentações não são pagos - e a vida vai seguindo, de fracasso em fracasso, até que um acidente grave deixa a ex-mulher em coma e ele tem de cuidar da filha. Ela aprende a compreender o trabalho do pai, passa a minimamente respeitá-lo e quando isso acontece já está na hora de a filha voltar para a mãe, que ficou bem, afinal. E é hora igualmente dele realizar o sonho de uma vida: fazer a viagem que sempre sonhou, entrar na casa "dele", do Elvis que ele acredita ser, e fechar o ciclo de suas apresentações do mesmo modo que seu "alter-ego". O filme é triste, melancólico, mas quando o ator John McInerny solta a voz para cantar as canções do ídolo, não desgrudamos olhos e ouvidos: ficamos hiptonizados por sua voz e pelas lembranças de um passado que - parece - teima em não querer morrer jamais.

PS: Escrito metade há uma semana, terminado hoje.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sobre artes e seus impactos

Ver dois filmes no mesmo dia, em horários seguidos, e estando com a vida meio enrolada, às vezes dá um samba meio doido.

Pois então, A caça (Thomas Vinterberg) tem aquela força dos filmes sem saída, das situações irremediáveis, em que alguém entra sem sequer imaginar num alçapão e mesmo conseguindo sair, cheio de lanhuras, jamais será o mesmo. O filme é absurdamente bom porque o espectador sabe o tempo todo que aquilo tudo é um pesadelo, e quer contar a todo mundo, quer ajudar, dizer, explicar, mas fica sentado na cadeira, grudado, assistindo à derrocada daquele homem, preso àquela vila - por que ele não vai embora, não larga aquela droga de cidade e de gente, depois que se sabe do relatório da polícia? Porque o buraco é mais embaixo, sempre é: aquele é o lugar dele, aquelas são as pessoas que ele conheceu a vida toda, esse é o seu mundo. Será preciso resolver-se ali - e com eles. E resolvem-se os impasses, as coisas parecem entrar nos eixos. Parecem. Porque, lembra-nos Drummond, 'de tudo fica um pouco'. E o tiro que quase o acerta na caçada entre amigos será esse resíduo imorredouro, mancha indelével com a qual ele terá de conviver vida afora, sem ter qualquer responsabilidade por sua mácula. E o ator, Mads Mikkelsen, não poderia ter feito melhor o seu trabalho - convincente ao extremo em sua aparente dureza.

Francisco Brennand (Mariana Brennand Fortes), dirigido pela neta do artista, me parece um documentário necessário, uma espécie de balanço de uma vida dedicada à construção de uma obra. Tudo é obra e tudo é arte na existência desse homem, agora com 86 anos (um ano menos que minha mãe), as mãos trêmulas, mas a voz forte, o pensamento claro e coerente. Há nele uma ponta de vaidade pelo que construiu, o que me parece muitíssimo coerente com a magnitude de sua entrega, e de seu legado. Acho que o trabalho dele é pessoalíssimo, grandiloquente, há um mundo de referências arcaicas, mitologias pessoais e universais que se espraiam em pinturas e esculturas grandiosas, fortes. E há homenagens a poetas, versos e retratos de outros artistas inscritos em murais, colagens, desenhos, roteiros - vida e arte, trançadas e traçadas até o limite. Hermila Guedes narra o filme, mas no final dá um testemunho da força do artista, quando se percebe em sua voz e em seu diálogo com ele uma certa humildade no tom, uma forma de falar diferente da locutora que ouvíramos até então. Isso me pareceu um tributo a mais, uma reverência, talvez. Um: estou diante de:

E aproveitando o mundo criado pelo primeiro filme, observo que esse universo de vilarejo, com suas mazelas características, me lembrou muito A festa de Babette, o livro, não o filme. Há no filme uma atmosfera gótica, um mundo quase fantasmal que cria um interesse forte no espectador - o contraste entre a atmosfera noturna, os personagens em sua velhice espectral numa cidade espectral face à vivacidade do banquete que Babette oferece a eles rende um filme extremamente inquietante, quase bizarro em sua estranha beleza. Já no livro desaparece esse contraste, e fica a linguagem quase clássica de Karen Blixen, sua habilidade para criar uma personagem cuja grandeza reside no contraste entre sua função na casa das irmãs, seu comportamento de humilde serviçal, e sua arte - a percepção aguda de que faz arte, e grande arte, é memorável: "Pobre?, disse Babette. Sorriu para si mesma ao ouvir isso. "Não, nunca vou ser pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista, madames, nunca é pobre. Temos algo, madames, a respeito do qual as outras pessoas não fazem a menor ideia." (p. 53).

Era isso que se ouvia na voz de Hermila; é disso que se trata com relação a Brennand; foi isso que Mikkelsen me fez igualmente compreender.

terça-feira, 19 de março de 2013

A busca


Acho que todos nós temos algum tipo de rasura, em algum momento, ao menos, nessa complicada trajetória da relação pai/mãe/filho, dependendo a intensidade dessa fissura na vida de cada um da percepção que se tenha de ter recebido mais ou menos amor na infância.

O belíssimo filme A busca (Luciano Moura) captura de forma terna, lírica, enfática, certeira e emocionante um momento de crise nessa trajetória da relação de um pai, sobretudo, e seu filho.

Trata-se de um filme sobre encontrar o pai, o amor do pai, que parece rompido, numa cadeia que vai do filho Pedro, vivido suavemente por Brás Moreau Leme, passando por Theo Gadelha, no desempenho excepcional de Wagner Moura, ao avô excluído, que quer reintegrar-se à família, vivido pelo talento consagrado de Lima Duarte, na cena que fecha o filme - pequena, forte e emocionante.

O trabalho do Wagner emociona, não apenas porque ele fica o tempo todo na tela, em closes fortes e expressivos, mas sobretudo porque ele nos torna cúmplices dessa vontade de compreender o movimento do filho - para onde foi, o que foi fazer, com quem está, onde está, se está. Refazer o caminho do filho, em sua busca, será também refazer-se, ir topando com o desconhecido e com o inesperado de que a vida é feita, e que ele, Theo, já esquecera. Momentos intensos no rastro do filho (e do filme): o parto que ele faz de uma moça amiga de seu filho, na beira de um rio de águas geladas, num acampamento neo-hippie; a carona que dá a um grupo de jovens indo a uma rave, quando parece relembrar o jovem que foi; a tentativa frustrada de atravessar o rio no bote; reconhecer o desenho do filho na oficina; avistar Pedro andando a cavalo, morro acima, uma das cenas mais bonitas e poéticas do filme - ele, morro acima, tranquilo, como alguém perdido e achado ao mesmo tempo, aquele jeito de menino sério e tenaz. E continua na sequência do pai emparelhar a moto com o cavalo e não ser reconhecido pelo filho. Tudo é bonito, tudo tem força, tudo é intenso e terno para mim.

O final é um achado, e não ligo a mínima que haja um tantinho de pieguice na reunião dos três: pai, filho e neto. Não tem como ser diferente no contexto dessa busca. Parece justo que o filho leve o pai a re-encontrar-se com seu passado, com sua história, com suas raízes - é para isso que existem as crises, as dores, as perdas. Queria muito ter visto os três conversando, tomando café da manhã, olhando uns para os outros. Queria que não terminasse ali. Enfim, tudo muito bom, do começo ao fim.

(E como se não bastasse, já tinha levantado pra sair quando ouço uma canção ao mover dos créditos, na voz portentosamente suave de Arnaldo Antunes. Paro, volto, sento de novo. Ouço. É uma espécie de psiu que ela faz para mim; um sublinhado; um asterisco; umas aspas que ela abre na percepção da história. Diz: 'olhe, veja, escute, preste atenção - sou eu, eu. Me ame do jeito que eu sou, não do jeito que você quer que eu seja'. É perfeita.).


segunda-feira, 4 de março de 2013

Buquê de livros - Cosac

Pelo andar da minha carruagem de leitora, esse vai ser meu arsenal para, talvez, o primeiro semestre, com algum otimismo. Querendo muito escrever sobre O filho de mil homens, do valter hugo mãe, que já terminei há tempos, mas levou outro tempão para chegar ao fim. Acho um livro dificílimo de comentar, já comecei a escrever, mas nada de engrenar. De todo modo, essa promoção da Cosac está excelente, e muito desse buquê precioso confesso que está aqui por conta da edição soberba, do livro ele-mesmo, objeto de amor que estará sempre presente em minha vida (já tenho e já li o Bartleby, por exemplo, só não resisti a essa edição). Mas é preciso serenidade para ler. É preciso um nível  mínimo de estresse. É preciso que a vida me dê uma folga. Acho que vou tirar essa folga na marra. Da vida, claro.