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Foi muito divertido ver os bastidores daquele acontecimento cujos ecos ouvi quando era bem jovem, e me parecia então uma coisa de outro planeta, para seres livres e desenvolvidos, libertários e libertinos, como não soía acontecer por aqui, embora vivêssemos meio furiosamente também, como todos em todo canto, acho.
Além disso, Aconteceu em Woodstock tem algumas cenas memoráveis, como a descida no tobogã de lama, uma grande farra. A mais interessante talvez seja a viagem com ácido que os três jovens fazem, nunca tinha visto uma viagem filmada com tanta intensidade, ficou bonito, meio apocalíptico, meio expressionista-fantamasgórico, se se pode falar assim.
Claro que não faltam as indefectíveis frases apologéticas à grandeza da 'civilização estadunidense', do tipo: vai lá, fulano, ver o que significa estar no centro do mundo, sugerindo que o festival era o acontecimento último do mundo ocidental naquele momento. Hoje, de longe e não mais tão ingênua, só posso dizer - menos, minha gente, menos...
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Outro filme bonitinho é 500 dias com ela. Apesar de ser uma novela romântica, não é bobinha e fiquei ligada na história o tempo todo, porque o roteiro é inteligente, os atores são de medianos para bons e o tempo passa com interesse até o final - aliás, o final é um tantinho inesperado, e interessante.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009
domingo, 15 de novembro de 2009
2012
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Dos filmes-catástrofe que já vi, esse 2012 fica muito próximo daquela partida ao meio magistral do Titanic. Tem um momento, a partir das primeiras rachaduras no chão, que a coisa engrena e a gente não desgruda mais o olho da tela e dá adeus à verossimilhança, atitude mais do que sensata para ver esse tipo de filme.
Está certo que o cérebro não desliga no automático, e fico ainda constrangida com aquele ideário fajuto deles a respeito de certos valores que são inteiramente fictícios, mas eles postulam com a maior cara de pau do universo - como diz vosso presidente, nunca na história da indústria um cinema foi tão idiotamente ideológico como o cinema deles tem sido, sobretudo nesse cinemão em que entram ação enlouquecida, salvação da humanidade, gestos de altruísmo, defesa do indivíduo comum, capaz de redimir o coletivo tirânico e/ou injusto, recolocando tudo nos devidos eixos, não faltando o presidente negro que oferece sua vida em holocausto para salvar quem (ou o quê)? A humanidade, claro.
(Meu cérebro indesligável pensava em como o Bush real estava a milhas de distância daquele ideal, mas enfim...). Ah, e tem também a indefectível bandeira estadunidense, é quase como uma praga, não há filme B (ou C ou D, todo o alfabeto, digamos) sem a tal bandeira, nos lugares mais inesperados.
Bom, mas tirando isso tudo, tem ação à beça, os caras sabem fazer essa coisa funcionar, tudo é muito rápido e emocionante e a gente quase não respira, oprimida pela hecatombe incomensurável e inexorável que devasta tudo e até mesmo - hélas, horrores - nosso Cristo Redentor tomba tangido pelas águas e pelos fogos que viram a terra de ponta-cabeça. No final, ... bom, são muitas emoções, é melhor ir lá ver.
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Dos filmes-catástrofe que já vi, esse 2012 fica muito próximo daquela partida ao meio magistral do Titanic. Tem um momento, a partir das primeiras rachaduras no chão, que a coisa engrena e a gente não desgruda mais o olho da tela e dá adeus à verossimilhança, atitude mais do que sensata para ver esse tipo de filme.
Está certo que o cérebro não desliga no automático, e fico ainda constrangida com aquele ideário fajuto deles a respeito de certos valores que são inteiramente fictícios, mas eles postulam com a maior cara de pau do universo - como diz vosso presidente, nunca na história da indústria um cinema foi tão idiotamente ideológico como o cinema deles tem sido, sobretudo nesse cinemão em que entram ação enlouquecida, salvação da humanidade, gestos de altruísmo, defesa do indivíduo comum, capaz de redimir o coletivo tirânico e/ou injusto, recolocando tudo nos devidos eixos, não faltando o presidente negro que oferece sua vida em holocausto para salvar quem (ou o quê)? A humanidade, claro.
(Meu cérebro indesligável pensava em como o Bush real estava a milhas de distância daquele ideal, mas enfim...). Ah, e tem também a indefectível bandeira estadunidense, é quase como uma praga, não há filme B (ou C ou D, todo o alfabeto, digamos) sem a tal bandeira, nos lugares mais inesperados.
Bom, mas tirando isso tudo, tem ação à beça, os caras sabem fazer essa coisa funcionar, tudo é muito rápido e emocionante e a gente quase não respira, oprimida pela hecatombe incomensurável e inexorável que devasta tudo e até mesmo - hélas, horrores - nosso Cristo Redentor tomba tangido pelas águas e pelos fogos que viram a terra de ponta-cabeça. No final, ... bom, são muitas emoções, é melhor ir lá ver.
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
Para sempre teu, Caio F.
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A primeira coisa que me chamou a atenção no livro Para sempre teu, Caio F., de Paula Dip, foi a foto na capa, feita por Claudio Etges, um instantâneo interessantíssimo, que pega a face dele assim de lado, com a mão no rosto, sorrindo e meio se escondendo, como a gente faz quando diz que não quer tirar uma foto, só que nesse caso a gente percebe claramente que ele está curtindo muito aquele momento, e há também serenidade e alegria e timidez na foto, traços que bem pertenciam ao personagem. Enfim, uma foto magnífica. Depois, li na livraria mesmo a introdução, feita pela autora, e aí não teve jeito - tive de trazer, não podia deixá-lo mais, porque a moça escreve muito bem, traça um roteiro de uma longa conversa por carta com Caio e com as questões do tempo deles, que são também minhas questões. Além disso, amo cartas e Caio amava Hilda e todos de algum modo falam de coisas que me dizem respeito, de um tempo que foi e é meu também.
Assim, leio o livro da Paula e me emociono em vários momentos, eu que nunca fui assim tão fã da literatura do Caio, embora tenha tido seu Morangos mofados naquela primeira edição da Brasiliense, de 1982. Lembro de que li os contos então mas não sei se gostei. Desde que Caio voltou à cena cultural com insistência, procurei o livro para reler, mas ele perdeu-se, devo ter dado a algum ex-aluno, enfim, terei de comprar de novo. Não estou certa de que sou ainda uma leitora para ele, mas essas cartas e as lembranças da Paula, essas, com certeza, também me pertencem.
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Paula Dip. Para sempre teu, Caio F. Rio de Janeiro: Record, 2009.
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A primeira coisa que me chamou a atenção no livro Para sempre teu, Caio F., de Paula Dip, foi a foto na capa, feita por Claudio Etges, um instantâneo interessantíssimo, que pega a face dele assim de lado, com a mão no rosto, sorrindo e meio se escondendo, como a gente faz quando diz que não quer tirar uma foto, só que nesse caso a gente percebe claramente que ele está curtindo muito aquele momento, e há também serenidade e alegria e timidez na foto, traços que bem pertenciam ao personagem. Enfim, uma foto magnífica. Depois, li na livraria mesmo a introdução, feita pela autora, e aí não teve jeito - tive de trazer, não podia deixá-lo mais, porque a moça escreve muito bem, traça um roteiro de uma longa conversa por carta com Caio e com as questões do tempo deles, que são também minhas questões. Além disso, amo cartas e Caio amava Hilda e todos de algum modo falam de coisas que me dizem respeito, de um tempo que foi e é meu também.
Assim, leio o livro da Paula e me emociono em vários momentos, eu que nunca fui assim tão fã da literatura do Caio, embora tenha tido seu Morangos mofados naquela primeira edição da Brasiliense, de 1982. Lembro de que li os contos então mas não sei se gostei. Desde que Caio voltou à cena cultural com insistência, procurei o livro para reler, mas ele perdeu-se, devo ter dado a algum ex-aluno, enfim, terei de comprar de novo. Não estou certa de que sou ainda uma leitora para ele, mas essas cartas e as lembranças da Paula, essas, com certeza, também me pertencem.
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Paula Dip. Para sempre teu, Caio F. Rio de Janeiro: Record, 2009.
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Dois filmes
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A primeira metade de À procura de Eric achei entediante, por razões puramente pessoais (ou seja, não se trata de cenas ruins, eu é que não gosto do que elas tratam). A impressão que me deu foi de que o Ken Loach se tocou em algum momento que o filme estava virando um clube do bolinha, com aquele monte de carteiros, todos homens, tentando alegrar o colega que só conseguia conversar com a fotografia de um jogador de futebol, então o universo do futebol também está bem presente no filme todo, e aquelas conversas chatinhas de homens em torno da bola, bem como a paixão desmedida deles pelo jogo, e as piadinhas totalmente sem graça - acho todo esse universo muito distante de mim. Depois, o tal jogador, Eric Cantona, um astro do Manchester United, afinal se corporifica e vai orientar o homem (também Eric) no sentido de buscar sua possível felicidade.
Surge a ex-mulher, Lily, primeiro em flashbacks dos bailes da juventude, quando a moda entre os jovens era dançar rock and roll à la elvis - aí o filme começa a ficar interessante, há drama, tensão, as cenas do baile são bem engraçadas, todo mundo já viveu algo semelhante na adolescência, acho.
Também se adensa o conflito entre Eric pai e os enteados, e a partir daí, com a entrada da mulher em cena, os dois núcleos de conflito se adensam - os dois filhos e a luta contra marginais; as tentativas de Eric de vencer o medo de se aproximar da ex-mulher, a quem abandonou com sua filha ainda pequena; a real fraternidade entre os amigos de jogo e de vida. Enfim, a graça agora daqueles homens tem graça, e o filme caminha com pernas mais ágeis, leves, densas e delicadas. No final, um ótimo filme, muito bom mesmo.
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Já em O solista, os dois atores estão excelentes, mas meus olhos ficaram felizes ao ver sempre, sempre e de novo o Robert Downey Jr, que está deslumbrantemente lindo... Acho que o Jamie Foxx tem um desempenho digno de Oscar, mas como o personagem dele é mais chapado, com aquela cara de esquizo quase sempre, as nuances de interpretação ficam mais por conta do Downey, que além de tudo se mostra a meus olhos com muita coragem, porque frequenta a zona de miséria onde habitam os addicts mais lascados de LA, e vejo sempre ele e ele ali, ou seja, o ator real que lutou contra sua dependência de drogas, e o personagem que busca ajudar o outro a encontrar seu rumo.
Acho que ambos dão show de interpretação. Para lacrimar os olhos nem precisava aquela trilha sonora, tanto a clássica quanto a não-clássica, das boas. Das ótimas.
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A primeira metade de À procura de Eric achei entediante, por razões puramente pessoais (ou seja, não se trata de cenas ruins, eu é que não gosto do que elas tratam). A impressão que me deu foi de que o Ken Loach se tocou em algum momento que o filme estava virando um clube do bolinha, com aquele monte de carteiros, todos homens, tentando alegrar o colega que só conseguia conversar com a fotografia de um jogador de futebol, então o universo do futebol também está bem presente no filme todo, e aquelas conversas chatinhas de homens em torno da bola, bem como a paixão desmedida deles pelo jogo, e as piadinhas totalmente sem graça - acho todo esse universo muito distante de mim. Depois, o tal jogador, Eric Cantona, um astro do Manchester United, afinal se corporifica e vai orientar o homem (também Eric) no sentido de buscar sua possível felicidade.
Surge a ex-mulher, Lily, primeiro em flashbacks dos bailes da juventude, quando a moda entre os jovens era dançar rock and roll à la elvis - aí o filme começa a ficar interessante, há drama, tensão, as cenas do baile são bem engraçadas, todo mundo já viveu algo semelhante na adolescência, acho.
Também se adensa o conflito entre Eric pai e os enteados, e a partir daí, com a entrada da mulher em cena, os dois núcleos de conflito se adensam - os dois filhos e a luta contra marginais; as tentativas de Eric de vencer o medo de se aproximar da ex-mulher, a quem abandonou com sua filha ainda pequena; a real fraternidade entre os amigos de jogo e de vida. Enfim, a graça agora daqueles homens tem graça, e o filme caminha com pernas mais ágeis, leves, densas e delicadas. No final, um ótimo filme, muito bom mesmo.
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Já em O solista, os dois atores estão excelentes, mas meus olhos ficaram felizes ao ver sempre, sempre e de novo o Robert Downey Jr, que está deslumbrantemente lindo... Acho que o Jamie Foxx tem um desempenho digno de Oscar, mas como o personagem dele é mais chapado, com aquela cara de esquizo quase sempre, as nuances de interpretação ficam mais por conta do Downey, que além de tudo se mostra a meus olhos com muita coragem, porque frequenta a zona de miséria onde habitam os addicts mais lascados de LA, e vejo sempre ele e ele ali, ou seja, o ator real que lutou contra sua dependência de drogas, e o personagem que busca ajudar o outro a encontrar seu rumo.
Acho que ambos dão show de interpretação. Para lacrimar os olhos nem precisava aquela trilha sonora, tanto a clássica quanto a não-clássica, das boas. Das ótimas.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Ser ou não ser
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Eu ia entrar em recesso por tempo indeterminado, como o Idelber, mas no meu caso por falta absoluta de leitores, já que os meus 2 ou 3 resolveram fazer forfait.
Mas eis que surge a sempre pródiga e bem-vindíssima Melissa para de novo salvar esse blog do naufrágio completo.
En hommage, minha leitura desse romance do McEwan, que acabou por se revelar melhor do eu pensava, aí embaixo.
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Eu ia entrar em recesso por tempo indeterminado, como o Idelber, mas no meu caso por falta absoluta de leitores, já que os meus 2 ou 3 resolveram fazer forfait.
Mas eis que surge a sempre pródiga e bem-vindíssima Melissa para de novo salvar esse blog do naufrágio completo.
En hommage, minha leitura desse romance do McEwan, que acabou por se revelar melhor do eu pensava, aí embaixo.
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Jardim de cimento
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Não, não é absolutamente chato o livro (na verdade, seu primeiro romance) do Ian McEwan, como havia aventado rapidamente lá embaixo, é que eu demorei um pouco a engrenar na leitura e as frases mais descritivas, enquanto as coisas não estão claras, faz parecer lento. Mas ele vai ficando cada vez melhor a partir do momento em que a mãe dos quatro irmãos morre.
Desde que enterram a mulher num baú, dentro do qual jogam cimento e o deixam ficar no sótão, o leitor vai ficando cada vez mais interessado naquelas vidas totalmente entregues ao deus dará, sem lei nem grei, incapazes de sentir profundamente seja o que for - dor, luto, alegria, vergonha. É como se pairassem num lugar sem constrições sociais, sem regras a que obedecer, o que não significa em absoluto que sejam bestializados, mas que vão cada dia mais se colocando à margem da vida comum, violando as normas sem que isso nos pareça absurdo. Só estranho. Como se estivessem anestesiados, já que tampouco veem o tempo passar.
Assim, vão amolecendo os sentidos, e vão descobrindo mais e mais nos corpos uns dos outros uma existência, um estar-no-mundo, uma força que, não sendo pensada, nutre-se mais e mais das sensações epidérmicas. Essa aproximação física dos irmãos é narrada sem detalhes, meio por alto, nos moldes da letargia de que são possuídos, mas nem por isso deixa de pulsar a carga erótica, sobretudo no encontro final entre os dois irmãos.
Toda a estranheza daquelas vidas aumenta quando entra em cena um quinto personagem (ou sexto, já que a mãe morta está viva na história), algo como um namorado da irmã mais velha. Ele vai, de algum modo, suspender o véu do senso comum e sublinhar o estranho daquilo tudo. Espécie de anjo exterminador, quando flagra a namorada na cama com o irmão sabemos que nada mais será como antes. Ele desce, transtornado, ouvem-se marretadas no sótão, um carro que dá a partida e, logo, outros carros com sirene ligada que se aproximam. Os irmãos (Julie, por volta de 17 anos; Jack, 15 anos, narrador; Sue, 13 anos e Tom, talvez 11 anos) estão todos agora no mesmo quarto, trancam a porta e continuam desejando ignorar a realidade.
Começamos a varrer a sujeira e recolhê-la em caixas de papelão, que carregávamos para as latas de lixo. Sue nos ouviu e desceu para ajudar. Desentupimos os ralos, lavamos as paredes, esfregamos o chão. Enquanto Sue e eu atacávamos os pratos, Julie foi comprar os gêneros alimentícios. Acabamos no exato momento em que ela voltou, e logo começamos a cortar os legumes parar preparar um grande cozido. (p. 77-8).
Não estávamos tristes, e sim excitados, numa espécie de torpor. Esquecíamos de falar baixinho até que um de nós fazia shhh! Conversamos sobre a festa de aniversário junto à cama de mamãe e a exibição de Julie, pedindo que a repetisse. Ela chutou algumas roupas para o lado e se pôs de cabeça para baixo num movimento felino, as pernas bronzeadas mal se movendo ao atingir a vertical. Sue e eu aplaudimos baixinho. Foi o som de dois ou três carros parando do lado de fora, as batidas de portas e os passos apressados de várias pessoas no caminho que levava à porta da frente que acordaram Tom. Através de uma abertura nas cortinas, uma luz giratória projetava um reflexo ondulante na parede do quarto. Tom sentou-se, piscando os olhos, e ficou observando aquele efeito luminoso. Reunimo-nos em torno do berço e Julie, inclinando-se para a frente, o beijou.
"Muito bem", ela disse, "que soninho gostoso, não foi?" (p.129).
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Ian McEwan. O jardim de cimento. Tradução Jorio Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.
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Não, não é absolutamente chato o livro (na verdade, seu primeiro romance) do Ian McEwan, como havia aventado rapidamente lá embaixo, é que eu demorei um pouco a engrenar na leitura e as frases mais descritivas, enquanto as coisas não estão claras, faz parecer lento. Mas ele vai ficando cada vez melhor a partir do momento em que a mãe dos quatro irmãos morre.
Desde que enterram a mulher num baú, dentro do qual jogam cimento e o deixam ficar no sótão, o leitor vai ficando cada vez mais interessado naquelas vidas totalmente entregues ao deus dará, sem lei nem grei, incapazes de sentir profundamente seja o que for - dor, luto, alegria, vergonha. É como se pairassem num lugar sem constrições sociais, sem regras a que obedecer, o que não significa em absoluto que sejam bestializados, mas que vão cada dia mais se colocando à margem da vida comum, violando as normas sem que isso nos pareça absurdo. Só estranho. Como se estivessem anestesiados, já que tampouco veem o tempo passar.
Assim, vão amolecendo os sentidos, e vão descobrindo mais e mais nos corpos uns dos outros uma existência, um estar-no-mundo, uma força que, não sendo pensada, nutre-se mais e mais das sensações epidérmicas. Essa aproximação física dos irmãos é narrada sem detalhes, meio por alto, nos moldes da letargia de que são possuídos, mas nem por isso deixa de pulsar a carga erótica, sobretudo no encontro final entre os dois irmãos.
Toda a estranheza daquelas vidas aumenta quando entra em cena um quinto personagem (ou sexto, já que a mãe morta está viva na história), algo como um namorado da irmã mais velha. Ele vai, de algum modo, suspender o véu do senso comum e sublinhar o estranho daquilo tudo. Espécie de anjo exterminador, quando flagra a namorada na cama com o irmão sabemos que nada mais será como antes. Ele desce, transtornado, ouvem-se marretadas no sótão, um carro que dá a partida e, logo, outros carros com sirene ligada que se aproximam. Os irmãos (Julie, por volta de 17 anos; Jack, 15 anos, narrador; Sue, 13 anos e Tom, talvez 11 anos) estão todos agora no mesmo quarto, trancam a porta e continuam desejando ignorar a realidade.
Começamos a varrer a sujeira e recolhê-la em caixas de papelão, que carregávamos para as latas de lixo. Sue nos ouviu e desceu para ajudar. Desentupimos os ralos, lavamos as paredes, esfregamos o chão. Enquanto Sue e eu atacávamos os pratos, Julie foi comprar os gêneros alimentícios. Acabamos no exato momento em que ela voltou, e logo começamos a cortar os legumes parar preparar um grande cozido. (p. 77-8).
Não estávamos tristes, e sim excitados, numa espécie de torpor. Esquecíamos de falar baixinho até que um de nós fazia shhh! Conversamos sobre a festa de aniversário junto à cama de mamãe e a exibição de Julie, pedindo que a repetisse. Ela chutou algumas roupas para o lado e se pôs de cabeça para baixo num movimento felino, as pernas bronzeadas mal se movendo ao atingir a vertical. Sue e eu aplaudimos baixinho. Foi o som de dois ou três carros parando do lado de fora, as batidas de portas e os passos apressados de várias pessoas no caminho que levava à porta da frente que acordaram Tom. Através de uma abertura nas cortinas, uma luz giratória projetava um reflexo ondulante na parede do quarto. Tom sentou-se, piscando os olhos, e ficou observando aquele efeito luminoso. Reunimo-nos em torno do berço e Julie, inclinando-se para a frente, o beijou.
"Muito bem", ela disse, "que soninho gostoso, não foi?" (p.129).
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Ian McEwan. O jardim de cimento. Tradução Jorio Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
pedaços de histórias
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Escrevo outro blog há algum tempo, onde assistematicamente comento algumas fotos antigas minhas e o que elas possam significar para mim hoje.
Não pretendo publicar esses posts aqui, apenas esse trecho, em homenagem a Anna V, que começou uma série biográfica muito interessante. São vidas bem diferentes as nossas, mas tudo são, ao fim e ao cabo, histórias.
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O que é bem verdadeiro na foto: a mãe parece querer abraçar os filhos todos, protegê-los, e seu braço direito parece ter uma extensão que vai até o filho homem. Infelizmente, ela não conseguiu concretizar esse gesto ao longo da vida do filho, que morreu jovem, de tiro.
O pai olha para o outro lado, afastado dos filhos e da mulher, braços cruzados em torno de si. Como sempre fora, como sempre fizera.
A mãe sempre foi mais do que seu condição social permitia. Teve uma infância e juventude sem privações, e a vida só ficou muito ruim depois que casou, contra a vontade da família e a despeito de todos os avisos sobre a natureza desregrada do futuro marido. Ela se apaixonou por ele e comeu o pão que aquele amassou, praticamente abandonada à própria sorte, com três filhos para criar (eram quatro, mas uma morreu com seis meses), já que o marido saía para jogar e ficava vários dias fora de casa.
Até que um dia a mãe teve um ataque de loucura e resolveu vender tudo que tinha na casa e vir para o Rio de Janeiro, onde já morava seu irmão mais novo. Quando o pai percebeu que a casa estava no osso e que a mulher não mudaria sua decisão, ele mesmo seguiu na frente para arranjar trabalho e levar a família.
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Escrevo outro blog há algum tempo, onde assistematicamente comento algumas fotos antigas minhas e o que elas possam significar para mim hoje.
Não pretendo publicar esses posts aqui, apenas esse trecho, em homenagem a Anna V, que começou uma série biográfica muito interessante. São vidas bem diferentes as nossas, mas tudo são, ao fim e ao cabo, histórias.
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Essa foto ilustra a chegada da "família imperial ao Rio de Janeiro", mas não corresponde ao que mostra: uma típica família de classe média baixa, feliz, harmoniosa, desfrutando de um domingo de paz nas cercanias da antiga Quinta da Boa Vista. As coisas só têm a aparência de tranquilidade, porque o patriarca e a matriarca dessa família não se falavam, e eram pobres que nem Jó.
O que é bem verdadeiro na foto: a mãe parece querer abraçar os filhos todos, protegê-los, e seu braço direito parece ter uma extensão que vai até o filho homem. Infelizmente, ela não conseguiu concretizar esse gesto ao longo da vida do filho, que morreu jovem, de tiro.
O pai olha para o outro lado, afastado dos filhos e da mulher, braços cruzados em torno de si. Como sempre fora, como sempre fizera.
A mãe sempre foi mais do que seu condição social permitia. Teve uma infância e juventude sem privações, e a vida só ficou muito ruim depois que casou, contra a vontade da família e a despeito de todos os avisos sobre a natureza desregrada do futuro marido. Ela se apaixonou por ele e comeu o pão que aquele amassou, praticamente abandonada à própria sorte, com três filhos para criar (eram quatro, mas uma morreu com seis meses), já que o marido saía para jogar e ficava vários dias fora de casa.
Até que um dia a mãe teve um ataque de loucura e resolveu vender tudo que tinha na casa e vir para o Rio de Janeiro, onde já morava seu irmão mais novo. Quando o pai percebeu que a casa estava no osso e que a mulher não mudaria sua decisão, ele mesmo seguiu na frente para arranjar trabalho e levar a família.
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sábado, 24 de outubro de 2009
O santo sujo II
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Já cumpri o dever de assistir à segunda parte daquele filme para me dar o direito de opinar com decência, o que não fiz porque achei que ele não valia o trabalho.
O outro objeto aos pedaços que comentei aqui foi o livro do Humberto Werneck – Santo sujo, a vida de Jayme Ovalle, que faltava começar do começo, o que fiz agora porque gostei demais dele, e dessa parte tanto quanto da outra.
Nessa metade inicial muitas coisas me interessaram: a origem paraense de Ovalle leva Werneck a descrever a fantástica riqueza gerada pelo ciclo da borracha no Pará e Amazonas, que a gente conhece dos livros de história mas fica muito mais interessante num livro de memórias, porque vira uma espécie de ‘causo’ contado, e bem contado. Também amei as cartas de Mario de Andrade e de Manuel Bandeira a respeito da figura de Ovalle.
Bandeira foi amigo de primeira ordem, divulgou e escreveu em várias ocasiões sobre a Nova Gnomonia, uma brincadeira classificatória de seres e coisas de acordo com sua vocação de ser ou estar no mundo, seu temperamento, suas ambições, enfim, havia muitas variáveis que entravam na definição de algo ou alguém como uma das cinco categorias dessa estranha confraria (os dantas, os parás, os kernianos, os onésimos, os mozarlescos), que acabou virando quase uma ‘filosofia’ para inúmeros intelectuais que conheceram, conviveram e amaram as diatribes ovallianas.
Se Vinicius de Moraes era um entusiasta da classificação gnomônica, foi ainda Bandeira quem se empenhou para que Mario viesse a conhecer Ovalle e desse sua opinião a respeito do amigo, o que Mario faz numa carta magistral, não apenas no estilo (duro e claro e com aquela lucidez absurda que o caracterizava), mas também na perspicácia psicológica, já que havia estado poucos dias com Ovalle nessa ocasião.
A carta, datada de 22⁄07⁄1926, transcrita por Werneck, nos oferece um retrato em preto e branco do biografado:
Quem é mesmo uma maravilha é o Ovalle. Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo para eu ser eu queria ser o Ovalle.
[...]
Não é que eu deixe de ver também perfeitamente os defeitos, isto é, as desqualidades dele porém o sentimento que ele me inspira é esquisito: uma profunda admiração misturada com uma profunda piedade. Tenho certeza que não o deprecio com esta piedade porque não é da pobreza limpa dele é uma espécie de piedade transcendente pela ingenuidade maravilhosa dele porque adquiri a certeza de que ele se engana profundamente a respeito de si mesmo.
Isso percebi muito bem. Existe nele um desequilíbrio enorme entre a grandeza das idéias que alimenta ou antes deseja, deseja palermamente sem nenhuma coragem e sem nenhum esforço para conseguir o desejado, e as faculdades que possui. Ele tem uma falha enorme na inteligência, a falta de autocrítica, e com isso ele se engana a respeito de si mesmo tenazmente. É até dramático da gente observar. (p. 77).
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Humberto Werneck. O santo sujo : a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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Já cumpri o dever de assistir à segunda parte daquele filme para me dar o direito de opinar com decência, o que não fiz porque achei que ele não valia o trabalho.
O outro objeto aos pedaços que comentei aqui foi o livro do Humberto Werneck – Santo sujo, a vida de Jayme Ovalle, que faltava começar do começo, o que fiz agora porque gostei demais dele, e dessa parte tanto quanto da outra.
Nessa metade inicial muitas coisas me interessaram: a origem paraense de Ovalle leva Werneck a descrever a fantástica riqueza gerada pelo ciclo da borracha no Pará e Amazonas, que a gente conhece dos livros de história mas fica muito mais interessante num livro de memórias, porque vira uma espécie de ‘causo’ contado, e bem contado. Também amei as cartas de Mario de Andrade e de Manuel Bandeira a respeito da figura de Ovalle.
Bandeira foi amigo de primeira ordem, divulgou e escreveu em várias ocasiões sobre a Nova Gnomonia, uma brincadeira classificatória de seres e coisas de acordo com sua vocação de ser ou estar no mundo, seu temperamento, suas ambições, enfim, havia muitas variáveis que entravam na definição de algo ou alguém como uma das cinco categorias dessa estranha confraria (os dantas, os parás, os kernianos, os onésimos, os mozarlescos), que acabou virando quase uma ‘filosofia’ para inúmeros intelectuais que conheceram, conviveram e amaram as diatribes ovallianas.
Se Vinicius de Moraes era um entusiasta da classificação gnomônica, foi ainda Bandeira quem se empenhou para que Mario viesse a conhecer Ovalle e desse sua opinião a respeito do amigo, o que Mario faz numa carta magistral, não apenas no estilo (duro e claro e com aquela lucidez absurda que o caracterizava), mas também na perspicácia psicológica, já que havia estado poucos dias com Ovalle nessa ocasião.
A carta, datada de 22⁄07⁄1926, transcrita por Werneck, nos oferece um retrato em preto e branco do biografado:
Quem é mesmo uma maravilha é o Ovalle. Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo para eu ser eu queria ser o Ovalle.
[...]
Não é que eu deixe de ver também perfeitamente os defeitos, isto é, as desqualidades dele porém o sentimento que ele me inspira é esquisito: uma profunda admiração misturada com uma profunda piedade. Tenho certeza que não o deprecio com esta piedade porque não é da pobreza limpa dele é uma espécie de piedade transcendente pela ingenuidade maravilhosa dele porque adquiri a certeza de que ele se engana profundamente a respeito de si mesmo.
Isso percebi muito bem. Existe nele um desequilíbrio enorme entre a grandeza das idéias que alimenta ou antes deseja, deseja palermamente sem nenhuma coragem e sem nenhum esforço para conseguir o desejado, e as faculdades que possui. Ele tem uma falha enorme na inteligência, a falta de autocrítica, e com isso ele se engana a respeito de si mesmo tenazmente. É até dramático da gente observar. (p. 77).
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Humberto Werneck. O santo sujo : a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Picadinho de filmes
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Dos filmes sem grandes expectativas que vi e de que gostei, Algo que você precisa saber é dos mais valem a saída, com uma Charlotte Rampling meio esnobe, mas sempre interessante, com aqueles olhos um tanto inchados, mas expressivos. De todo modo, o casal formado pela filha e pelo policial são os personagens mais fortes para mim, ele sobretudo, com aquela cara de doido e uns olhos muito intensos. Uma história de amor e seus reveses, com segredos do passado que enriquecem a narrativa.
Outro filme simplesinho de que gostei bem foi Te amarei para sempre, uma história de amor bem clássica, cujos protagonistas vencem todas as barreiras e ficam juntos, apesar do 'distúrbio neurológico' do amado sumir nas situações mais inesperadas - até na hora do casamento o cara dá uma escapadela e viaja no tempo. O que acaba dando dinamismo à ação - quando menos se espera, bump! lá vai o rapaz para outro tempo e espaço. Numa dessas é que... bem, tem de ver o filme, vale a diversão.
Sobre Desinformante!, minha impressão é que o diretor enrolou quase o filme inteiro, e no quinto final pensou: caramba, o tempo está acabando e eu ainda não disse nada importante - aí ele acorda e o filme fica ágil, engraçado e trágico ao mesmo tempo, com desenlaces muito bons para aquela confusão toda. Pena que já quase no final.
Sobre Distrito 9, não vou comentar aqui, embora tenha feito algumas observações nos comentários para o Egídio.
E Anticristo não tive mesmo coragem de ver, acho que vai ser mais sofrimento do que prazer, e meu copo dessa parte da vida já está de bom tamanho.
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Dos filmes sem grandes expectativas que vi e de que gostei, Algo que você precisa saber é dos mais valem a saída, com uma Charlotte Rampling meio esnobe, mas sempre interessante, com aqueles olhos um tanto inchados, mas expressivos. De todo modo, o casal formado pela filha e pelo policial são os personagens mais fortes para mim, ele sobretudo, com aquela cara de doido e uns olhos muito intensos. Uma história de amor e seus reveses, com segredos do passado que enriquecem a narrativa.
Outro filme simplesinho de que gostei bem foi Te amarei para sempre, uma história de amor bem clássica, cujos protagonistas vencem todas as barreiras e ficam juntos, apesar do 'distúrbio neurológico' do amado sumir nas situações mais inesperadas - até na hora do casamento o cara dá uma escapadela e viaja no tempo. O que acaba dando dinamismo à ação - quando menos se espera, bump! lá vai o rapaz para outro tempo e espaço. Numa dessas é que... bem, tem de ver o filme, vale a diversão.
Sobre Desinformante!, minha impressão é que o diretor enrolou quase o filme inteiro, e no quinto final pensou: caramba, o tempo está acabando e eu ainda não disse nada importante - aí ele acorda e o filme fica ágil, engraçado e trágico ao mesmo tempo, com desenlaces muito bons para aquela confusão toda. Pena que já quase no final.
Sobre Distrito 9, não vou comentar aqui, embora tenha feito algumas observações nos comentários para o Egídio.
E Anticristo não tive mesmo coragem de ver, acho que vai ser mais sofrimento do que prazer, e meu copo dessa parte da vida já está de bom tamanho.
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sábado, 17 de outubro de 2009
Distrito 9
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Escrevi um comentário sobre a metade do filme que consegui ver. Vou tentar ver o resto para publicar ou não o texto.
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Vi a outra metade do filme hoje, segunda-feira. Se me perguntarem do que eu gostei nele, responderei: nada.
Vale a pena comentar tal coisa? Acho que não.
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Mas acabei de assistir na TV uma boa parte de um filme magnífico, que nunca havia visto antes: Venus, com um Peter O'Toole deslumbrante, Vanessa Redgrave já lindamente de rugas, e uma jovem, por quem o personagem de O'Toole se enamora, muito interessante. Nunca, dantes, havia compreendido tão bem o desejo premente dos velhos por mais vida - neste velho, em particular, a gente percebe em cada poro de O'Toole a urgência de viver, amar e arrancar da vida suas últimas gotas de prazer. Filmaço, que vou procurar nas lojas e assistir completo.
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Escrevi um comentário sobre a metade do filme que consegui ver. Vou tentar ver o resto para publicar ou não o texto.
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Vi a outra metade do filme hoje, segunda-feira. Se me perguntarem do que eu gostei nele, responderei: nada.
Vale a pena comentar tal coisa? Acho que não.
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Mas acabei de assistir na TV uma boa parte de um filme magnífico, que nunca havia visto antes: Venus, com um Peter O'Toole deslumbrante, Vanessa Redgrave já lindamente de rugas, e uma jovem, por quem o personagem de O'Toole se enamora, muito interessante. Nunca, dantes, havia compreendido tão bem o desejo premente dos velhos por mais vida - neste velho, em particular, a gente percebe em cada poro de O'Toole a urgência de viver, amar e arrancar da vida suas últimas gotas de prazer. Filmaço, que vou procurar nas lojas e assistir completo.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009
o vento voa esvoaçando tudo
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Eu sou - na verdade, fiquei - pior que a Juliette Binoche em Chocolate: ouve barulho de vento forte nas janelas e já quer partir, por isso fico arrumada para sair a qualquer momento. Nesse instante, faço o que a sensatez recomenda: aguardo o homem que vai trocar as esquadrias de alumínio das janelas, para ver se elas param de bater e de atormentar.
Nesse estado de suspensão da lucidez - enquanto o vento zune - não dá para ler, não dá para quase nada, a não ser que tudo seja trancado, algodão nos ouvidos para não escutar barulho de vento e/ou janela sssibilando, ar condicionado ligado e quietinha vendo um filme na TV. Acho que isso dá pra fazer.
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Eu sou - na verdade, fiquei - pior que a Juliette Binoche em Chocolate: ouve barulho de vento forte nas janelas e já quer partir, por isso fico arrumada para sair a qualquer momento. Nesse instante, faço o que a sensatez recomenda: aguardo o homem que vai trocar as esquadrias de alumínio das janelas, para ver se elas param de bater e de atormentar.
Nesse estado de suspensão da lucidez - enquanto o vento zune - não dá para ler, não dá para quase nada, a não ser que tudo seja trancado, algodão nos ouvidos para não escutar barulho de vento e/ou janela sssibilando, ar condicionado ligado e quietinha vendo um filme na TV. Acho que isso dá pra fazer.
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coisas estranhas acontecem
domingo, 11 de outubro de 2009
Bastardos inglórios
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Acho que a pergunta que nos fazemos quase sempre ao final de um filme - se gostamos, não gostamos - não se coloca muito com relação a Bastardos inglórios, do Tarantino. Afinal quem tem prazer em ver nazistas sendo escalpelados, ou sendo mortos a porretes, ou umas 300 pessoas (nazistas, claro) ardendo nas chamas do inferno de uma sala de cinema trancada e sem possibilidade de escape? Só doido ou sádico.
No entanto, a gente vê o filme como enorme interesse e se pergunta aonde ele vai nos levar, o que tudo aquilo significa, que loucura é aquela, já que ninguém mais aguenta cenas com malvados nazistas e aliados do bem sendo massacrados. A coisa estranha já começa com a música de abertura, que nos remete a filmes românticos e melosos. Acompanhamos desconfiados o que vemos na tela e essa desconfiança é um dado intrínseco a tudo que veremos ao longo da fita, na medida em que Tarantino desconstrói todo o tempo cada cena, fazendo-a ser relida pelas inúmeras referências fílmicas, seja sob a forma de paródia, seja como homenagem, seja como elemento de humor.
Parece que vemos dois filmes ao mesmo tempo - esse e todos os outros a que vários momentos remetem, mesmo que não conheçamos inteiramente (ou que eu não conheça) com quem ou com que fime se dialoga ali. Por exemplo, toda a situação do incêndio no cinema é antológica, já a vimos no cinema-catástrofe inúmeras vezes e a refilmagem de Tarantino corresponde, para mim, por exemplo, à retomada da cena na escadaria de O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, cuja melhor homenagem se dá em Os intocáveis, de Brian de Palma, no tiroteio entre mocinhos e bandidos, enquanto um carrinho com um bebê desce escada abaixo. O filme de Tarantino parece dialogar com a história do cinema, e a gente o vê um pouco também como um livro, em que outras histórias a contrapelo se formam à medida que se lê.
Além disso, tem o ator que faz o caçador de nazistas, o até então desconhecido Christoph Waltz, que rouba mesmo a cena do Brad Pitt e de qualquer outro com quem contracena, e vale todos os olhos fechados dos momento escatológicos.
Por último, o encontro final entre Pitt e Waltz me pareceu a cereja no topo do bolo: afinal, Tarantino está rindo do mote de que toda a humanidade quer viver na América, terra da liberdade, democracia e oportunidades?; está relendo a cena final de Caçada ao outubro vermelho?, ou está mesmo afirmando o que a cena diz? Não haver apenas uma opção parece ser um dos encantos de seu cinema.
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Acho que a pergunta que nos fazemos quase sempre ao final de um filme - se gostamos, não gostamos - não se coloca muito com relação a Bastardos inglórios, do Tarantino. Afinal quem tem prazer em ver nazistas sendo escalpelados, ou sendo mortos a porretes, ou umas 300 pessoas (nazistas, claro) ardendo nas chamas do inferno de uma sala de cinema trancada e sem possibilidade de escape? Só doido ou sádico.
No entanto, a gente vê o filme como enorme interesse e se pergunta aonde ele vai nos levar, o que tudo aquilo significa, que loucura é aquela, já que ninguém mais aguenta cenas com malvados nazistas e aliados do bem sendo massacrados. A coisa estranha já começa com a música de abertura, que nos remete a filmes românticos e melosos. Acompanhamos desconfiados o que vemos na tela e essa desconfiança é um dado intrínseco a tudo que veremos ao longo da fita, na medida em que Tarantino desconstrói todo o tempo cada cena, fazendo-a ser relida pelas inúmeras referências fílmicas, seja sob a forma de paródia, seja como homenagem, seja como elemento de humor.
Parece que vemos dois filmes ao mesmo tempo - esse e todos os outros a que vários momentos remetem, mesmo que não conheçamos inteiramente (ou que eu não conheça) com quem ou com que fime se dialoga ali. Por exemplo, toda a situação do incêndio no cinema é antológica, já a vimos no cinema-catástrofe inúmeras vezes e a refilmagem de Tarantino corresponde, para mim, por exemplo, à retomada da cena na escadaria de O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, cuja melhor homenagem se dá em Os intocáveis, de Brian de Palma, no tiroteio entre mocinhos e bandidos, enquanto um carrinho com um bebê desce escada abaixo. O filme de Tarantino parece dialogar com a história do cinema, e a gente o vê um pouco também como um livro, em que outras histórias a contrapelo se formam à medida que se lê.
Além disso, tem o ator que faz o caçador de nazistas, o até então desconhecido Christoph Waltz, que rouba mesmo a cena do Brad Pitt e de qualquer outro com quem contracena, e vale todos os olhos fechados dos momento escatológicos.
Por último, o encontro final entre Pitt e Waltz me pareceu a cereja no topo do bolo: afinal, Tarantino está rindo do mote de que toda a humanidade quer viver na América, terra da liberdade, democracia e oportunidades?; está relendo a cena final de Caçada ao outubro vermelho?, ou está mesmo afirmando o que a cena diz? Não haver apenas uma opção parece ser um dos encantos de seu cinema.
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Good-bye...Solo
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Good-bye... Solo é um filme muito melancólico, ao mesmo tempo muito esperançoso, porque os dois protagonistas vivenciam todo o tempo
esses dois sentimentos: esperança e profundo desalento. Somos levados de um lado a outro: Solo e sua vitalidade, sua vontade de estar vivo, de fazer coisas pelas quais precisa lutar e que precisa ainda alcançar; Williams, um homem mais velho ainda do que as muitas rugas sugerem, um jeito duro de olhar e de ser - alguém que sofreu demais e cujo coração desandou num 'pote até aqui de mágoa'.
Durante todo o filme, torcemos para que o final não seja o que se anuncia desde o primeiro diálogo entre os dois, que esse homem e seu peso sejam tocados pela energia de Solo, que não chegue o dia 20, ou que um milagre aconteça até lá. E acontece uma paisagem deslumbrante nessa tal montanha, cuja força do vento devolve para quem joga qualquer treco que se jogue do alto dela. Solo chega à beira do precipício e, ajudado pela enteada, joga um pedaço de pau e aguarda uns minutos até que o vento traga-o de volta. Nem volta o toco, nem o homem antes deixado lá sozinho.
Na próxima cena, uma miríade de cores deslumbrantes, árvores vermelhas, amarelas, verdes - tudo intenso, tudo vivo, filmado do alto, como num precipício.
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Good-bye... Solo é um filme muito melancólico, ao mesmo tempo muito esperançoso, porque os dois protagonistas vivenciam todo o tempo
esses dois sentimentos: esperança e profundo desalento. Somos levados de um lado a outro: Solo e sua vitalidade, sua vontade de estar vivo, de fazer coisas pelas quais precisa lutar e que precisa ainda alcançar; Williams, um homem mais velho ainda do que as muitas rugas sugerem, um jeito duro de olhar e de ser - alguém que sofreu demais e cujo coração desandou num 'pote até aqui de mágoa'.
Durante todo o filme, torcemos para que o final não seja o que se anuncia desde o primeiro diálogo entre os dois, que esse homem e seu peso sejam tocados pela energia de Solo, que não chegue o dia 20, ou que um milagre aconteça até lá. E acontece uma paisagem deslumbrante nessa tal montanha, cuja força do vento devolve para quem joga qualquer treco que se jogue do alto dela. Solo chega à beira do precipício e, ajudado pela enteada, joga um pedaço de pau e aguarda uns minutos até que o vento traga-o de volta. Nem volta o toco, nem o homem antes deixado lá sozinho.
Na próxima cena, uma miríade de cores deslumbrantes, árvores vermelhas, amarelas, verdes - tudo intenso, tudo vivo, filmado do alto, como num precipício.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Santo sujo
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Terminei de ler Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle, e agora vou começar do começo. Explico: quando o livro chegou, abri-o lá pela metade e comecei a ler. Não consegui parar e continuei até o fim, adorando tudo: a escrita do Humberto Werneck - ótima frase, concisa, clara, bonita, o encadeamento da história, a história mesma e o personagem, claro.
O livro é lindíssimo, fotos muitas com os grandes nomes da nossa cultura literária do modernismo, uma certa nostalgia ao ver suas carinhas jovens, e o universo do Ovalle afinal desvendado. Sim, porque todos nós que lidamos com literatura brasileira conhecemos a figura dele assim de relance, em citações de tantos grandes autores e poetas, até mesmo em Macunaíma Ovalle aparece, e eu nunca soube dele mais do que aquelas referências pipocadas, sempre curiosas e instigantes.
Uma vez, uma colega de faculdade me disse que tinha vontade de fazer pesquisa sobre Ovalle, comentou alguns traços engraçados e/ou esquisitos dele, e havia mesmo em torno da figura uma certa aura de misticismo, algo como se Ovalle fosse um encantado. E não é que era mesmo? Werneck nos dá um retrato perfeito desse encantado - um homem meio simplório, mas amado por seus amigos, seus interlocutores, a quem seduzia com idéias muito pessoais e criativas. Era carente da afeição dos amigos, generoso, um tanto místico e bastante intuitivo. Tinha algumas percepções agudas, semelhantes às dos médiuns, conversava com Deus sem cerimônia, falava dele como de um parceiro próximo, e essas tiradas bem humoradas estão espalhadas pelos livros de alguns de nossos melhores homens de letras. Ah, e era quase analfabeto, o que torna as traduções de seus poemas em inglês por sua mulher, Virginia Peckham, uma outra aventura, bem engraçada, às vezes.
Senti falta apenas de saber mais dos outros filhos de Virginia, já que a respeito de Mariana, a filha de Ovalle, que tem uns 57 anos hoje, ficamos conhecendo uma história bem interessante sobre como conheceu seu futuro marido.
Quando a história de uma vida é assim tão bem narrada, como Werneck o faz, essa vida passa a fazer parte de nossa história, ela é incorporada, tornamo-nos parceiros, amigos, próximos. Amei conhecer Ovalle.
Ah, um dos endereços da família foi na Rua Benjamin Constant, 55, na Glória.
Minha mãe mora nessa rua, moro perto e quando passar por esse prédio, ele terá outro significado para mim.
****
O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida.
Manuel Bandeira
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Humberto Werneck. Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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Terminei de ler Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle, e agora vou começar do começo. Explico: quando o livro chegou, abri-o lá pela metade e comecei a ler. Não consegui parar e continuei até o fim, adorando tudo: a escrita do Humberto Werneck - ótima frase, concisa, clara, bonita, o encadeamento da história, a história mesma e o personagem, claro.
O livro é lindíssimo, fotos muitas com os grandes nomes da nossa cultura literária do modernismo, uma certa nostalgia ao ver suas carinhas jovens, e o universo do Ovalle afinal desvendado. Sim, porque todos nós que lidamos com literatura brasileira conhecemos a figura dele assim de relance, em citações de tantos grandes autores e poetas, até mesmo em Macunaíma Ovalle aparece, e eu nunca soube dele mais do que aquelas referências pipocadas, sempre curiosas e instigantes.
Uma vez, uma colega de faculdade me disse que tinha vontade de fazer pesquisa sobre Ovalle, comentou alguns traços engraçados e/ou esquisitos dele, e havia mesmo em torno da figura uma certa aura de misticismo, algo como se Ovalle fosse um encantado. E não é que era mesmo? Werneck nos dá um retrato perfeito desse encantado - um homem meio simplório, mas amado por seus amigos, seus interlocutores, a quem seduzia com idéias muito pessoais e criativas. Era carente da afeição dos amigos, generoso, um tanto místico e bastante intuitivo. Tinha algumas percepções agudas, semelhantes às dos médiuns, conversava com Deus sem cerimônia, falava dele como de um parceiro próximo, e essas tiradas bem humoradas estão espalhadas pelos livros de alguns de nossos melhores homens de letras. Ah, e era quase analfabeto, o que torna as traduções de seus poemas em inglês por sua mulher, Virginia Peckham, uma outra aventura, bem engraçada, às vezes.
Senti falta apenas de saber mais dos outros filhos de Virginia, já que a respeito de Mariana, a filha de Ovalle, que tem uns 57 anos hoje, ficamos conhecendo uma história bem interessante sobre como conheceu seu futuro marido.
Quando a história de uma vida é assim tão bem narrada, como Werneck o faz, essa vida passa a fazer parte de nossa história, ela é incorporada, tornamo-nos parceiros, amigos, próximos. Amei conhecer Ovalle.
Ah, um dos endereços da família foi na Rua Benjamin Constant, 55, na Glória.
Minha mãe mora nessa rua, moro perto e quando passar por esse prédio, ele terá outro significado para mim.
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O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida.
Manuel Bandeira
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Humberto Werneck. Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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terça-feira, 6 de outubro de 2009
o livro rosa e o jabuti
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Não conheço todos os livros que ganharam o último Jabuti, mas conheço o livro rosa - que tirou o segundo lugar de poesia - organizado pela Viviana Bosi, pesquisadora muito competente, aliás, mas, lamento informar, o Antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa não é sequer um livro - ou melhor, é só isso mesmo, um objeto livro bonito, muitíssimo belo, com um conteúdo totalmente confuso e desorganizado, sem qualquer referência ou indicação ou pontuação ou o que quer que seja que o torne uma leitura à altura da poesia de Ana Cristina.
Aliás, devo dizer que amo a poesia de Ana C., já escrevi um decente ensaio (eu acho) sobre ela, mas convenhamos, bilhetinhos rabiscados, poeminhas inacabados, recadinhos pra amigos, riscadinhos e desenhinhos - nada disso faz um livro de poesia, mesmo sendo de Ana C., mestra do coloquial e das confidências.
Acho mesmo uma total falta de respeito à memória da poeta, que era bem ciosa de revisões e cuidadosa quanto ao produto final de seus poemas. Ela não merece esse desserviço a seu trabalho, acho uma rasteira na sua obra, tanto maior porque muito de sua poesia publicada tem esse lastro de alguma coisa mais fácil, em razão do apelo ao coloquial e da conversa ao pé do ouvido com o leitor, além de estratégias de sedução e cartas escritas para nós, que as lemos.
Enfim, o livro é belo enquanto objeto, e tem algum interesse para os fominhas da crítica genética, que querem ver o sangue do autor impresso na obra. Mas não é um livro de poesia. É um livro apenas, um belo livro-objeto. A poesia que nele há, se houver, a poeta não teve tempo de extrair.
****
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana C., A teus pés. Ática/IMS, 1998, p. 89).
****
Não conheço todos os livros que ganharam o último Jabuti, mas conheço o livro rosa - que tirou o segundo lugar de poesia - organizado pela Viviana Bosi, pesquisadora muito competente, aliás, mas, lamento informar, o Antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa não é sequer um livro - ou melhor, é só isso mesmo, um objeto livro bonito, muitíssimo belo, com um conteúdo totalmente confuso e desorganizado, sem qualquer referência ou indicação ou pontuação ou o que quer que seja que o torne uma leitura à altura da poesia de Ana Cristina.
Aliás, devo dizer que amo a poesia de Ana C., já escrevi um decente ensaio (eu acho) sobre ela, mas convenhamos, bilhetinhos rabiscados, poeminhas inacabados, recadinhos pra amigos, riscadinhos e desenhinhos - nada disso faz um livro de poesia, mesmo sendo de Ana C., mestra do coloquial e das confidências.
Acho mesmo uma total falta de respeito à memória da poeta, que era bem ciosa de revisões e cuidadosa quanto ao produto final de seus poemas. Ela não merece esse desserviço a seu trabalho, acho uma rasteira na sua obra, tanto maior porque muito de sua poesia publicada tem esse lastro de alguma coisa mais fácil, em razão do apelo ao coloquial e da conversa ao pé do ouvido com o leitor, além de estratégias de sedução e cartas escritas para nós, que as lemos.
Enfim, o livro é belo enquanto objeto, e tem algum interesse para os fominhas da crítica genética, que querem ver o sangue do autor impresso na obra. Mas não é um livro de poesia. É um livro apenas, um belo livro-objeto. A poesia que nele há, se houver, a poeta não teve tempo de extrair.
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olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana C., A teus pés. Ática/IMS, 1998, p. 89).
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009
bric à brac
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Bom, voltei de Fortaleza e lá passei alguns bons momentos, mas o sol estava de rachar o crânio e eu não devo/posso ficar exposta a ele. Além disso, peguei uma dermatite atópica (embora bem tópica, na pálpebra inferior, onde os óculos de sol se atritam com a bochecha...:), então não havia muito sentido em ficar com essa limitação de sol, porque o que essa cidade mais tem é mesmo a estrela mais amarela e ardente que conheço.
De todo modo, descobri os últimos porquês da minha relação com a cidade, desvendei enfim as partes que faltavam da minha breve mas intensa história por lá. E minha certeza de que esse espaço de blog vai terminar em breve (não apenas o meu, mas essa forma de escrita e comunicação) vem de que essas descobertas, o que afinal seria a coisa mais interessante dessa minha viagem (que está longe de ser apenas turística, aliás, nem gosto de ir onde turista vai) não cabem aqui nesse espaço, por demais pessoais.
Do que se pode falar, visitei a casa de José de Alencar, que foi restaurada, uma casa bem singela, como se pode ver, se se pensa com os padrões de hoje, para um sujeito que adquiriu tal importância na cultura brasileira e cujo pai foi senador "pela província do Ceará de 2 de maio de 1832 até sua morte", como lemos na wiki.

Se viveu numa casinha pequenina, algumas árvores da propriedade são deslumbrantes, sobretudo uma delas, majestosa, que fotografei olhandoalgum tempo para cima, em direção a ele, e foi quando peguei a tal dermatite. De todo modo, ela (a tal) me levou a uma dermatologista que, meus senhores, era tudo de bom, além de ter uma bica de água no banheiro que parecia uma mini fonte de versalhes, um espanto.
Aliás, Fortaleza me apresenta sempre umas coisas ótimas, que eu nunca tinha visto antes... enfim, minha província é aqui, it seems.


Ah, e vi três bobagens: A verdade nua e crua; Se beber, não case e Up - altas aventuras, que abandonei quase no final, sem paciência. Das duas outras besteiras, olhei melhor a primeira do que a segunda, esta última super besteirol cheio daquelas ideologias safadinhas lá deles.
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Ah, de novo, lendo três livros ao mesmo tempo e amando o último: O jardim de cimento (Ian McEwan, meio chatinho); (Suicídios exemplares (Vila-Matas, tema e escrita muito bons); Santo sujo - a vida de Jayme Ovalle (Humberto Werneck, bom demais, e vou querer falar, quando terminar de ler, do meu encanto por essa figura e pela narrativa do Werneck, que coisa...).
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Bom, voltei de Fortaleza e lá passei alguns bons momentos, mas o sol estava de rachar o crânio e eu não devo/posso ficar exposta a ele. Além disso, peguei uma dermatite atópica (embora bem tópica, na pálpebra inferior, onde os óculos de sol se atritam com a bochecha...:), então não havia muito sentido em ficar com essa limitação de sol, porque o que essa cidade mais tem é mesmo a estrela mais amarela e ardente que conheço.
De todo modo, descobri os últimos porquês da minha relação com a cidade, desvendei enfim as partes que faltavam da minha breve mas intensa história por lá. E minha certeza de que esse espaço de blog vai terminar em breve (não apenas o meu, mas essa forma de escrita e comunicação) vem de que essas descobertas, o que afinal seria a coisa mais interessante dessa minha viagem (que está longe de ser apenas turística, aliás, nem gosto de ir onde turista vai) não cabem aqui nesse espaço, por demais pessoais.
Do que se pode falar, visitei a casa de José de Alencar, que foi restaurada, uma casa bem singela, como se pode ver, se se pensa com os padrões de hoje, para um sujeito que adquiriu tal importância na cultura brasileira e cujo pai foi senador "pela província do Ceará de 2 de maio de 1832 até sua morte", como lemos na wiki.
Se viveu numa casinha pequenina, algumas árvores da propriedade são deslumbrantes, sobretudo uma delas, majestosa, que fotografei olhandoalgum tempo para cima, em direção a ele, e foi quando peguei a tal dermatite. De todo modo, ela (a tal) me levou a uma dermatologista que, meus senhores, era tudo de bom, além de ter uma bica de água no banheiro que parecia uma mini fonte de versalhes, um espanto.
Aliás, Fortaleza me apresenta sempre umas coisas ótimas, que eu nunca tinha visto antes... enfim, minha província é aqui, it seems.
Ah, e vi três bobagens: A verdade nua e crua; Se beber, não case e Up - altas aventuras, que abandonei quase no final, sem paciência. Das duas outras besteiras, olhei melhor a primeira do que a segunda, esta última super besteirol cheio daquelas ideologias safadinhas lá deles.
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Ah, de novo, lendo três livros ao mesmo tempo e amando o último: O jardim de cimento (Ian McEwan, meio chatinho); (Suicídios exemplares (Vila-Matas, tema e escrita muito bons); Santo sujo - a vida de Jayme Ovalle (Humberto Werneck, bom demais, e vou querer falar, quando terminar de ler, do meu encanto por essa figura e pela narrativa do Werneck, que coisa...).
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
esses dias 2
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Como sou uma pessoa vamos dizer... incomum (para ser educada comigo mesma :), e tenho muitas milhas que nunca usei e vão expirar em breve, resolvi me dar duas chances de voltar de Fortaleza, para onde vou amanhã, sábado. Posso voltar na quarta ou na sexta próximas. Pode não parecer, mas ter as duas possibilidades me deixa mais tranquila.
Na verdade, não nasci para pensar o quero fazer no futuro, mal sei o que quero fazer hoje, então viajar nem sempre é mamão com açúcar para mim, porque quero ir numa hora específica, sem planos e planilhas, e quero voltar quando me der na telha, o que, convenhamos, poucos podem.
De todo modo, a coisa boa é que não perco quase todo o FestRio que acaba de começar por aqui.
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Como sou uma pessoa vamos dizer... incomum (para ser educada comigo mesma :), e tenho muitas milhas que nunca usei e vão expirar em breve, resolvi me dar duas chances de voltar de Fortaleza, para onde vou amanhã, sábado. Posso voltar na quarta ou na sexta próximas. Pode não parecer, mas ter as duas possibilidades me deixa mais tranquila.
Na verdade, não nasci para pensar o quero fazer no futuro, mal sei o que quero fazer hoje, então viajar nem sempre é mamão com açúcar para mim, porque quero ir numa hora específica, sem planos e planilhas, e quero voltar quando me der na telha, o que, convenhamos, poucos podem.
De todo modo, a coisa boa é que não perco quase todo o FestRio que acaba de começar por aqui.
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Moscou
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Há uma onda de documentários brasileiros nas telas, e eu tenho gostado, em geral, do que tenho visto. Então, animada, fui ao Arteplex ver Moscou, do Eduardo Coutinho, uma espécie de olhar por trás dos ensaios da peça As três irmãs, do Tchecov, realizados pelo grupo Galpão, de Belo Horizonte, e dirigido pelo Enrique Diaz.
Fui também incentivada pelas três estrelas da crítica, com vontade de achar esse também muito bom (eu já tinha gostado, há tempos, de Edifício Master, sem grandes arroubos), mas não consegui me conectar com a proposta do filme, ao mesmo tempo muito simples e muito complicada. Os atores não me "convocaram" em nenhum momento, achei que se tratava de uma coisa meio estilizada, encenada demais para ser natural. Enfim, acabei saindo um pouco antes do final, torcendo até então para que o filme fizesse algum sentido pra mim. Não fez.
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Há uma onda de documentários brasileiros nas telas, e eu tenho gostado, em geral, do que tenho visto. Então, animada, fui ao Arteplex ver Moscou, do Eduardo Coutinho, uma espécie de olhar por trás dos ensaios da peça As três irmãs, do Tchecov, realizados pelo grupo Galpão, de Belo Horizonte, e dirigido pelo Enrique Diaz.
Fui também incentivada pelas três estrelas da crítica, com vontade de achar esse também muito bom (eu já tinha gostado, há tempos, de Edifício Master, sem grandes arroubos), mas não consegui me conectar com a proposta do filme, ao mesmo tempo muito simples e muito complicada. Os atores não me "convocaram" em nenhum momento, achei que se tratava de uma coisa meio estilizada, encenada demais para ser natural. Enfim, acabei saindo um pouco antes do final, torcendo até então para que o filme fizesse algum sentido pra mim. Não fez.
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terça-feira, 8 de setembro de 2009
Caninos brancos
Para Melissa e Osvjor, que provocaram
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Não se para de ler Caninos brancos, não se pode parar de ler porque um livro de aventuras como esse exige que se saiba qual será o destino daquele cão. São muitas as aventuras - e desventuras - que ele vive, mas em nenhum momento somos fragilizados por seus infortúnios. Ele é um ser nietzscheano por excelência: nobre, aristocrático, distingue-se dos demais de sua espécie, pensa de modo altaneiro e, por isso, conserva-se em relativa solidão, com pensamentos profundos a respeito de quase tudo na vida.
Sim, porque ele pensa como gente grande, ou melhor, o narrador coloca nesse cão algumas das mais altas reflexões sobre a natureza da vida selvagem, da competição, da sobrevivência em condições extremas; e, depois que os humanos cruzam seu caminho, ele aprenderá sobre as mais diversas e antagônicas expressões da grandeza e miséria em sua relação com eles.
Embora a técnica de tornar quase humano o cão, por seus pensamentos, o aproxime da cadela de Vidas secas, é com Paulo Honório, no entanto, que ele guarda estreitas semelhanças, como ocorre nesse trecho, graciliânico por excelência:
Se as coisas houvessem corrido de outro modo, talvez agora ele fosse diferente. Se Lip-Lip não tivesse existido, se Caninos Brancos tivesse passado a sua infância na companhia dos outros cachorros, talvez existissem nele mais características de cão e mostrasse mais simpatia pela sua raça. Se Castor Cinzento possuísse a sensibilidade chamada carinho, chamada amor, poderia ter tocado o fundo da natureza de Caninos Brancos e feito vir à superfície toda a espécie de qualidades boas. Mas tal não acontecera e, assim, o barro adquirira nesses moldes a forma que hoje tinha, a de um ser taciturno e solitário, desafetuoso e feroz, inimigo de toda a sua raça. (p. 116-170).
Suas aventuras constituem uma saga, que ele vivencia intensa e inteiramente, amoldando-se ora a uma situação de violência extrema contra si; ora de luta pela sobrevivência em condições terrivelmente inóspitas; ora, no final, reaprendendo - e refletindo incessantemente sobre isso - a lidar com o afeto de um novo senhor, brando e amoroso, a quem ele entregará sua vida, quase literalmente. E sentimo-nos reconfortados quando ele encontra, enfim, seu lugar no mundo dos bichos e dos homens.
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Jack London. Caninos brancos. Tradução: equipe da editora. São Paulo: Martin Claret.
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Não se para de ler Caninos brancos, não se pode parar de ler porque um livro de aventuras como esse exige que se saiba qual será o destino daquele cão. São muitas as aventuras - e desventuras - que ele vive, mas em nenhum momento somos fragilizados por seus infortúnios. Ele é um ser nietzscheano por excelência: nobre, aristocrático, distingue-se dos demais de sua espécie, pensa de modo altaneiro e, por isso, conserva-se em relativa solidão, com pensamentos profundos a respeito de quase tudo na vida.
Sim, porque ele pensa como gente grande, ou melhor, o narrador coloca nesse cão algumas das mais altas reflexões sobre a natureza da vida selvagem, da competição, da sobrevivência em condições extremas; e, depois que os humanos cruzam seu caminho, ele aprenderá sobre as mais diversas e antagônicas expressões da grandeza e miséria em sua relação com eles.
Embora a técnica de tornar quase humano o cão, por seus pensamentos, o aproxime da cadela de Vidas secas, é com Paulo Honório, no entanto, que ele guarda estreitas semelhanças, como ocorre nesse trecho, graciliânico por excelência:
Se as coisas houvessem corrido de outro modo, talvez agora ele fosse diferente. Se Lip-Lip não tivesse existido, se Caninos Brancos tivesse passado a sua infância na companhia dos outros cachorros, talvez existissem nele mais características de cão e mostrasse mais simpatia pela sua raça. Se Castor Cinzento possuísse a sensibilidade chamada carinho, chamada amor, poderia ter tocado o fundo da natureza de Caninos Brancos e feito vir à superfície toda a espécie de qualidades boas. Mas tal não acontecera e, assim, o barro adquirira nesses moldes a forma que hoje tinha, a de um ser taciturno e solitário, desafetuoso e feroz, inimigo de toda a sua raça. (p. 116-170).
Suas aventuras constituem uma saga, que ele vivencia intensa e inteiramente, amoldando-se ora a uma situação de violência extrema contra si; ora de luta pela sobrevivência em condições terrivelmente inóspitas; ora, no final, reaprendendo - e refletindo incessantemente sobre isso - a lidar com o afeto de um novo senhor, brando e amoroso, a quem ele entregará sua vida, quase literalmente. E sentimo-nos reconfortados quando ele encontra, enfim, seu lugar no mundo dos bichos e dos homens.
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Jack London. Caninos brancos. Tradução: equipe da editora. São Paulo: Martin Claret.
domingo, 6 de setembro de 2009
Two lovers
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Sobre Amantes, só posso dizer que não entendo por que o Joaquin Phoenix quer tanto ser um cantor medíocre, quando pode ser um ótimo ator às vezes, como se dá aqui. Todos os atores envolvidos no trio amoroso estão muito bem, e Gwyneth Paltrow me convenceu mais do que em qualquer outro trabalho (acho-a, em geral, bem chatinha, e bem certinha também...). Além disso, tem uma lindíssima Isabella Rossellini fazendo uma mãe compreensiva e amorosa. O final é mesmo o que todos dizem - e viva a sanidade!
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Sobre Amantes, só posso dizer que não entendo por que o Joaquin Phoenix quer tanto ser um cantor medíocre, quando pode ser um ótimo ator às vezes, como se dá aqui. Todos os atores envolvidos no trio amoroso estão muito bem, e Gwyneth Paltrow me convenceu mais do que em qualquer outro trabalho (acho-a, em geral, bem chatinha, e bem certinha também...). Além disso, tem uma lindíssima Isabella Rossellini fazendo uma mãe compreensiva e amorosa. O final é mesmo o que todos dizem - e viva a sanidade!
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Loki, Arnaldo Baptista
Dois documentários sobre músicos me emocionaram, e Loki, Arnaldo Baptista, sobretudo, mais que Coração vagabundo, me deixou todo o tempo em estado de suspensão, os sentimentos expostos e algum chororô. O interessante é que ambos focalizam músicos que fizeram eclodir a Tropicália, e ambos tiveram em suas vidas, em algum momento, a presença de uma mulher que lhes deu impulso e sustentação: no caso de Arnaldo Baptista, sua atual mulher Lucinha Barbosa, ajudou-o na reconstrução da própria vida, da autoestima, dos pequenos e grandes passos para continuar na roda da criação; no caso de Caetano, Paula Lavigne produziu não apenas esse documentário, mas quase tudo que diz respeito à carreira do ex-marido desde que se casaram.
Loki emociona do começo ao fim e foi uma revelação olhar os vários períodos da história desse músico (e do país), acompanhar as oscilações entre a alegria mais genuína do grupo inicial e a desestruturação subseqüente, sobretudo (sabemos pelos depoimentos) a partir da entrada do ácido na vida deles; a juventude e a exuberância dos Mutantes e, com eles, viajar um pouco na minha própria memória, relembrar os festivais de música que paravam o país e que fizeram parte da minha história também; os momentos criativos e as várias fases mediadas pela dor enorme de perder o amor de Rita; a tentativa de suicídio, a lenta recuperação, o ostracismo, as internações e a volta do grupo, agora com Zélia Duncan, que deu um depoimento muito bonito, aliás há vários depoimentos tocantes sobre a importância do Arnaldo para a cultura musical do país.
Eu desconhecia quase tudo, mais que isso, tinha um pouco de preconceito, alimentado sobretudo pela ignorância pura e simples, mas também por gostar de Rita Lee e ter sempre percebido quase tudo que dizia respeito aos Mutantes a partir da ótica dela, inclusive essa participação da Zélia no revival do grupo achei despropositada e meio arrivista, quando não é nada disso, trata-se de um tributo lindíssimo à figura do artista e da história do grupo.
O filme se passa sempre em vários tempos – há o passado do grupo, a efervescência dos acontecimentos iniciais da carreira, Tropicália incluída; a retomada recente e o show internacional, com a tietagem para mim inesperada a Arnaldo; há o artista no presente, meio isolado em Juiz de Fora mas tranquilo e expressando-se também através da pintura; e há depoimentos de vários artistas sobre a trajetória dele e sua importância para a música brasileira – é bonito ver Lobão falando, Nelson Motta, o irmão Sérgio Dias, que faz mea culpa mais de uma vez, e até Sean Lenon elogiando Arnaldo rasgadamente.
Mas o que vi de mais interessante, e de mais forte também, foi essa combinação todo o tempo entre vidas de jovens exuberantes, em seu completo vigor e predisposição para a felicidade, e as vicissitudes desse homem na atualidade, quando se percebe a luta ferrenha pela vida plena e para estar no estado criativo (com o auxílio luxuoso da mulher). É como se o esplendor da vida fosse confrontado continuamente com sua inescapável finitude e, nesse sentido, o filme impõe uma reflexão imediata e contundente sobre nossa fragilidade, mas também sobre nossa capacidade de recriarmo-nos, de avançar para mais vida, do jeito que for.
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Já o filme sobre Caetano mostra Caetano sendo ele mesmo. Mas quando canta, ah, aí não tem mesmo pra ninguém, amo ouvir sua voz e amo as canções que ele canta. O resto a gente vai levando...
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domingo, 30 de agosto de 2009
Indignação
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Primeiro, as coisas de que não tenho gostado na literatura de Roth: uma certa exacerbação das pesquisas, sejam elas de natureza histórica, como se dá aqui, sejam as de caráter científico, porque acho que a ficção perde sempre, mesmo quando o texto ganha numa certa acurácia.
No caso desse romance, o autor chega mesmo a colocar no final uma "Nota histórica", em que ele situa e explica as transformações sociais que, na década de 60, chegaram à "preconceituosa e apolítica Winesburg"), bem como faz várias observações, logo depois dessa Nota (no que ele chama de "Créditos") sobre a tradução do hino nacional da China utilizada no corpo do texto; sobre o fato de que "a maior parte do diálogo atribuído a Marcus Messner nas páginas 79-81 é reproduzida praticamente ipsis litteris da palestra de Bertrand Russel" e ainda sobre a literalidade das citações de um tal livro The growth of the American Republic.
Nada disso tem muita importância para a ficção ela mesma, e esse tipo de comentário não acrescenta absolutamente nenhuma qualidade extra que o romance já não tenha, com o agravante de que fragiliza o pacto de não-verdade com o leitor que uma boa obra precisa estabelecer em bases bem sólidas (só como exemplo, para estar no espírito do pacto investigativo que tais pesquisas propõem, fui ao google para ver se realmente existia a tal Winesburg University e encontrei uma outra de nome bem semelhante, cuja frase de apresentação em sua homepage diz o seguinte: As a Christian institution, Waynesburg University believes that faith, learning and serving are interconnected parts of a greater whole. Our students lay foundations for lives of purpose and impact. Welcome to a dynamic community that proudly states, "I am Waynesburg University!").
Esse é o mesmo espírito que preside as falas do diretor da instituição ficcional, e que de algum modo provocam as reações mais exaltadas e as falas mais apaixonadas do protagonista na defesa intransigente de sua própria liberdade de pensar, de agir, agnosticismo incluído, mas existir ou não o modelo deixa de ser relevante face às cenas inventadas a respeito das querelas morais e religiosas do personagem.
Outro dado que, a meu ver, fragiliza o romance de Roth é a presença excessiva da cultura americana do Norte, suas traços estão profundamente arraigados em sua prosa, diria que o autor fincou os dois pés nessa tradição e é de lá que arma suas tramas, muito boas, é verdade, mas ainda assim com um certo ar local.
Mais um senão, esse ligado ao problema da 'pesquisa, é que para tratar da família de um açougueiro (pai, mãe, filho) - e um açougueiro kosher --, Roth dá um banho de sangue na narrativa, e os cortes, as matanças de animais, o torcer de pescoço das aves, tudo remete a um excesso de sangue que não (me) interessa muito, e a impressão que dá é que ele estudou direitinho a lição, compreendeu por dentro a mecânica dos cortes para poder escrever sobre o assunto - só que deixou a marca desse domínio na narrativa, como um molde um tanto vazado.
Então, o que me fez ler Indignação até o final, e ler com vontade (mas nem tanto prazer), foi o que sempre me parece ser o melhor dele: a linguagem, a capacidade de contar histórias com domínio técnico da escrita, de modo que a gente segue os fios narrativos, engrena todas as tramas, mesmo quando o romance termina por um resumão, numa espécie de último lance -- sob o título "Saindo de baixo" --, em que o autor explica em quatro páginas o fim trágico do protagonista, em sua inapelável opção pela guerra.
Trechinho:
Cresci cercado de sangue -- sangue e sebo, afiadores de faca, máquinas de fatiar e dedos amputados em parte ou por inteiro nas mãos de meus três tios, assim como na de meu pai -- e jamais me acostumei com isso, jamais gostei disso. O pai de meu pai, morto antes de eu nascer, fou um açougueiro kosher (era o Marcus cujo nome herdei e que, devido a sua perigosa ocupação, não tinha metade de um polegar), como o eram os três irmãos de meu, pai, tio Muzzy, tio Shecky e tio Artie, cada qual dono de uma loja semelhante à nossa em locais diferentes de Newark. Sangue nos estrados de madeira que ficavam atrás dos mostruários refrigerados de porcelana e vidro, sangue nas balanças, nos afiadores, margeando o rolo de papel encerado, no bocal da mangueira que usávamos para lavar o chão da geladeira -- o cheiro de sangue era a primeira coisa que eu sentia quando ia visitar meus tios e tias em suas lojas. (p. 35).
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Philip Roth. Indignação. Trad. Jairo Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009.
Primeiro, as coisas de que não tenho gostado na literatura de Roth: uma certa exacerbação das pesquisas, sejam elas de natureza histórica, como se dá aqui, sejam as de caráter científico, porque acho que a ficção perde sempre, mesmo quando o texto ganha numa certa acurácia.
No caso desse romance, o autor chega mesmo a colocar no final uma "Nota histórica", em que ele situa e explica as transformações sociais que, na década de 60, chegaram à "preconceituosa e apolítica Winesburg"), bem como faz várias observações, logo depois dessa Nota (no que ele chama de "Créditos") sobre a tradução do hino nacional da China utilizada no corpo do texto; sobre o fato de que "a maior parte do diálogo atribuído a Marcus Messner nas páginas 79-81 é reproduzida praticamente ipsis litteris da palestra de Bertrand Russel" e ainda sobre a literalidade das citações de um tal livro The growth of the American Republic.
Nada disso tem muita importância para a ficção ela mesma, e esse tipo de comentário não acrescenta absolutamente nenhuma qualidade extra que o romance já não tenha, com o agravante de que fragiliza o pacto de não-verdade com o leitor que uma boa obra precisa estabelecer em bases bem sólidas (só como exemplo, para estar no espírito do pacto investigativo que tais pesquisas propõem, fui ao google para ver se realmente existia a tal Winesburg University e encontrei uma outra de nome bem semelhante, cuja frase de apresentação em sua homepage diz o seguinte: As a Christian institution, Waynesburg University believes that faith, learning and serving are interconnected parts of a greater whole. Our students lay foundations for lives of purpose and impact. Welcome to a dynamic community that proudly states, "I am Waynesburg University!").
Esse é o mesmo espírito que preside as falas do diretor da instituição ficcional, e que de algum modo provocam as reações mais exaltadas e as falas mais apaixonadas do protagonista na defesa intransigente de sua própria liberdade de pensar, de agir, agnosticismo incluído, mas existir ou não o modelo deixa de ser relevante face às cenas inventadas a respeito das querelas morais e religiosas do personagem.
Outro dado que, a meu ver, fragiliza o romance de Roth é a presença excessiva da cultura americana do Norte, suas traços estão profundamente arraigados em sua prosa, diria que o autor fincou os dois pés nessa tradição e é de lá que arma suas tramas, muito boas, é verdade, mas ainda assim com um certo ar local.
Mais um senão, esse ligado ao problema da 'pesquisa, é que para tratar da família de um açougueiro (pai, mãe, filho) - e um açougueiro kosher --, Roth dá um banho de sangue na narrativa, e os cortes, as matanças de animais, o torcer de pescoço das aves, tudo remete a um excesso de sangue que não (me) interessa muito, e a impressão que dá é que ele estudou direitinho a lição, compreendeu por dentro a mecânica dos cortes para poder escrever sobre o assunto - só que deixou a marca desse domínio na narrativa, como um molde um tanto vazado.
Então, o que me fez ler Indignação até o final, e ler com vontade (mas nem tanto prazer), foi o que sempre me parece ser o melhor dele: a linguagem, a capacidade de contar histórias com domínio técnico da escrita, de modo que a gente segue os fios narrativos, engrena todas as tramas, mesmo quando o romance termina por um resumão, numa espécie de último lance -- sob o título "Saindo de baixo" --, em que o autor explica em quatro páginas o fim trágico do protagonista, em sua inapelável opção pela guerra.
Trechinho:
Cresci cercado de sangue -- sangue e sebo, afiadores de faca, máquinas de fatiar e dedos amputados em parte ou por inteiro nas mãos de meus três tios, assim como na de meu pai -- e jamais me acostumei com isso, jamais gostei disso. O pai de meu pai, morto antes de eu nascer, fou um açougueiro kosher (era o Marcus cujo nome herdei e que, devido a sua perigosa ocupação, não tinha metade de um polegar), como o eram os três irmãos de meu, pai, tio Muzzy, tio Shecky e tio Artie, cada qual dono de uma loja semelhante à nossa em locais diferentes de Newark. Sangue nos estrados de madeira que ficavam atrás dos mostruários refrigerados de porcelana e vidro, sangue nas balanças, nos afiadores, margeando o rolo de papel encerado, no bocal da mangueira que usávamos para lavar o chão da geladeira -- o cheiro de sangue era a primeira coisa que eu sentia quando ia visitar meus tios e tias em suas lojas. (p. 35).
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Philip Roth. Indignação. Trad. Jairo Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Jack London
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Há anos atrás, quando lecionava teoria da literatura, costumava trabalhar em todos os cursos iniciantes com um conto de Jack London chamado "A histórica de Keesh". Essa leitura vinha acoplada à de um texto teórico de Walter Benjamin chamado "O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov", em que se discutem noções ligadas à experiência, ao saber comunitário que passa de pai para filho, à tradição, enfim, organizadas em torno do que ele chama de representantes arcaicos, nas figuras do camponês sedentário, do marinheiro e do artífice, embriões dos futuros narradores. Há momentos muito belos no texto de Benjamin, e (quase) todo ele é muito bom de ler. Por exemplo, quando fala da natureza da verdadeira narrativa, diz que "ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida - de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas, se 'dar conselhos' parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis." (p. 200).
Então, o conto de Jack London, mais do que o Leskov com que Benjamin trabalha, vai palmilhar os conceitos à perfeição, numa história muito singela e bonita. Trata-se de um ritual de passagem de um menino (índio) para a vida adulta, e do que será necessário fazer para obter o respeito dos mais velhos e encontrar seu lugar na tribo. O conto é simples, a linguagem de London é de um classicismo magnético e há sempre alguma moral em suas histórias, sem que isso torne pesada a narrativa, ou menos interessante o seu final.
De todo modo, tudo isso é para chegar a A praga escarlate, uma novela curta, que comprei por curiosidade e pra ler enquanto faço fisioterapia no joelho. Já terminei (a novela, não a fisio) e gostei muito. Quem conhece a história pode supor que sou definitavente macabra, mais do que meramente masoquista...:) pois se estamos vivendo a tal pandemia, de que tenho horrores de medo, tinha mesmo de ler uma história que fala do fim da humanidade por causa de uma peste vermelha, que mata todo mundo em questão de minutos? Pois é, mas é London quem conta, e conta tão bem que não resisti (igual ao pombo do Paulo Mendes Campos) e tive de ir lendo, ir lendo, até... bom, mas há esperanças, pois ainda sobraram o narrador e mais uns três ou quatro para recomeçar toda a saga humana, olé...
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Jack London (1876 - 1916). "A história de Keesh". In Os melhores contos de Jack London. Círculo do Livro, s/d.
____. A praga escarlate (1912). Trad. Roberto DeNice. Ilustrações Gordon Grant. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003. Clássicos Conrad.
Walter Benjamin. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.197-221.
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Há anos atrás, quando lecionava teoria da literatura, costumava trabalhar em todos os cursos iniciantes com um conto de Jack London chamado "A histórica de Keesh". Essa leitura vinha acoplada à de um texto teórico de Walter Benjamin chamado "O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov", em que se discutem noções ligadas à experiência, ao saber comunitário que passa de pai para filho, à tradição, enfim, organizadas em torno do que ele chama de representantes arcaicos, nas figuras do camponês sedentário, do marinheiro e do artífice, embriões dos futuros narradores. Há momentos muito belos no texto de Benjamin, e (quase) todo ele é muito bom de ler. Por exemplo, quando fala da natureza da verdadeira narrativa, diz que "ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida - de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas, se 'dar conselhos' parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis." (p. 200).
Então, o conto de Jack London, mais do que o Leskov com que Benjamin trabalha, vai palmilhar os conceitos à perfeição, numa história muito singela e bonita. Trata-se de um ritual de passagem de um menino (índio) para a vida adulta, e do que será necessário fazer para obter o respeito dos mais velhos e encontrar seu lugar na tribo. O conto é simples, a linguagem de London é de um classicismo magnético e há sempre alguma moral em suas histórias, sem que isso torne pesada a narrativa, ou menos interessante o seu final.
De todo modo, tudo isso é para chegar a A praga escarlate, uma novela curta, que comprei por curiosidade e pra ler enquanto faço fisioterapia no joelho. Já terminei (a novela, não a fisio) e gostei muito. Quem conhece a história pode supor que sou definitavente macabra, mais do que meramente masoquista...:) pois se estamos vivendo a tal pandemia, de que tenho horrores de medo, tinha mesmo de ler uma história que fala do fim da humanidade por causa de uma peste vermelha, que mata todo mundo em questão de minutos? Pois é, mas é London quem conta, e conta tão bem que não resisti (igual ao pombo do Paulo Mendes Campos) e tive de ir lendo, ir lendo, até... bom, mas há esperanças, pois ainda sobraram o narrador e mais uns três ou quatro para recomeçar toda a saga humana, olé...
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Jack London (1876 - 1916). "A história de Keesh". In Os melhores contos de Jack London. Círculo do Livro, s/d.
____. A praga escarlate (1912). Trad. Roberto DeNice. Ilustrações Gordon Grant. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003. Clássicos Conrad.
Walter Benjamin. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.197-221.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Fantasma sai de cena
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Muita gente já escreveu sobre o livro de Roth, que saiu aqui em meados de 2008, por isso vou apenas pontuar algumas questões que me tocaram em especial.
Primeiro, o fato de ele tratar, entre outras coisas, da velhice, da decadência física, da doença e da morte sem qualquer vestígio de complacência ou pieguice. O narrador-protagonista, um homem de 71 anos que tem incontinência urinária, fruto de um câncer de próstata, volta a Nova Iorque depois de um retiro de 10 anos vivendo e escrevendo num vilarejo, para tentar um tratamento que o libere das fraldas. Mas a vida lhe reserva surpresas inesperadas: ele se apaixona por uma jovem mulher casada e se abisma face ao desejo inesperado, que não supunha ainda possível.
Há vários aspectos interessantes no livro, e um dos traços de sua literatura - a metaficção - aqui aparece não apenas como técnica utilizada em determinados momentos, mas como tema, pois uma das tramas do romance diz respeito à feitura da biografia de um escritor amigo do protagonista, e este se opõe ferozmente ao projeto do jovem carreirista, batendo de frente com ele ao longo de todo o romance, até porque esse rapaz seria, em princípio, amante da mulher por quem ele se apaixonara.
De todo modo, será uma longa carta de protesto escrita então pela ex-amante (Amy Bellette) do escritor morto, para uma revista, que trará para o leitor uma posição muito clara e argumentos convincentes a respeito dos malefícios que os estudos culturais e, por extensão, a prevalência da biografia, de episódios da vida do escritor sobre o escrito, trouxeram para os estudos literários. Um trecho dela:
Antigamente as pessoas inteligentes usavam a literatura para pensar. Esse tempo passou. Durante o período da guerra fria, na União Soviética e nos seus satélites na Europa Oriental, eram os escritores sérios que eram expulsos da literatura; agora, nos Estados Unidos, é a literatura que foi expulsa como influência séria sobre a percepção da vida. Hoje em dia, a maneira mais comum de utilizar a literatura, tal como se vê nas páginas de cultura dos jornais mais esclarecidos e nos departamentos de letras das universidades, é tão avessa aos objetivos da literatura criativa e às compensações que ela proporciona ao leitor de mente aberta, que seria melhor se a literatura não tivesse mais nenhuma utilidade pública.
O jornalismo cultural do seu jornal - quanto mais abundante ele se torna, pior fica. Assim que assumimos as simplificações ideológicas e o reducionismo biográfico do jornalismo cultural, a essência do artefato se perde. O seu jornalismo cultural não passa de fofocas de tablóides disfarçadas de interesse pelas 'artes', e tudo aquilo que ele toca se reduz ao que não é. Quem é a celebridade, qual é o preço, qual é o escândalo? Quais as transgressões que foram cometidas pelo escritor, e não contra as exigências da estética literária, mas contra a filha, o filho, a mãe, o pai, o cônjuge, a amante, o amigo, o editor ou o animal de estimação? (p.177).
Vejo aqui muito das diatribes vociferadas por Harold Bloom contra os estudos culturais e a crítica feminista nos departamentos universitários norte-americanos há alguns anos atrás. Acredito que Roth inspirou-se nas idéias dele para escrever essa carta por sua personagem, e ela só não se transforma em libelo, ou prejudica o romance por seu caráter excessivamente "de tese" porque está dentro do contexto temático do romance, não se trata de cena meramente periférica.
A crença nos malefícios da 'pesquisa biográfica' em detrimento do valor literário da obra é um dos pilares da estrutura do romance, e ela se amalgama naturalmente ao projeto do protagonista, que se propõe metas bastante difíceis em sua volta à cidade grande: ele busca a cura para sua doença, mesmo conhecendo sua intangibilidade; ele se apaixona perdidamente por uma jovem (casada), mesmo sabendo da impossibilidade de um desfecho satisfatório para sua paixão; ele luta contra os modos e as modas (culturais) do tempo, sabendo de antemão ser uma briga inútil.
E porque há esse caráter quase épico em sua jornada, queremos acreditar também em suas causas, torcemos para que nem tudo desmorone a sua volta, embora saibamos que dificilmente isso deixará de ocorrer.
Quando nada mais dá certo para ele, saímos também da leitura com o mesmo sentimento melancólico que nos domina à leitura de "A máquina do mundo", de Drummond:
"E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e as aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e meu próprio ser desenganado,
[...]
A treva mais estrita já pousara,
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas".
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CDA. A máquina do mundo. In: Poesia e prosa completa. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1973, p. 271.
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Philip Roth. Fantasma sai de cena. Trad. Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
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Muita gente já escreveu sobre o livro de Roth, que saiu aqui em meados de 2008, por isso vou apenas pontuar algumas questões que me tocaram em especial.
Primeiro, o fato de ele tratar, entre outras coisas, da velhice, da decadência física, da doença e da morte sem qualquer vestígio de complacência ou pieguice. O narrador-protagonista, um homem de 71 anos que tem incontinência urinária, fruto de um câncer de próstata, volta a Nova Iorque depois de um retiro de 10 anos vivendo e escrevendo num vilarejo, para tentar um tratamento que o libere das fraldas. Mas a vida lhe reserva surpresas inesperadas: ele se apaixona por uma jovem mulher casada e se abisma face ao desejo inesperado, que não supunha ainda possível.
Há vários aspectos interessantes no livro, e um dos traços de sua literatura - a metaficção - aqui aparece não apenas como técnica utilizada em determinados momentos, mas como tema, pois uma das tramas do romance diz respeito à feitura da biografia de um escritor amigo do protagonista, e este se opõe ferozmente ao projeto do jovem carreirista, batendo de frente com ele ao longo de todo o romance, até porque esse rapaz seria, em princípio, amante da mulher por quem ele se apaixonara.
De todo modo, será uma longa carta de protesto escrita então pela ex-amante (Amy Bellette) do escritor morto, para uma revista, que trará para o leitor uma posição muito clara e argumentos convincentes a respeito dos malefícios que os estudos culturais e, por extensão, a prevalência da biografia, de episódios da vida do escritor sobre o escrito, trouxeram para os estudos literários. Um trecho dela:
Antigamente as pessoas inteligentes usavam a literatura para pensar. Esse tempo passou. Durante o período da guerra fria, na União Soviética e nos seus satélites na Europa Oriental, eram os escritores sérios que eram expulsos da literatura; agora, nos Estados Unidos, é a literatura que foi expulsa como influência séria sobre a percepção da vida. Hoje em dia, a maneira mais comum de utilizar a literatura, tal como se vê nas páginas de cultura dos jornais mais esclarecidos e nos departamentos de letras das universidades, é tão avessa aos objetivos da literatura criativa e às compensações que ela proporciona ao leitor de mente aberta, que seria melhor se a literatura não tivesse mais nenhuma utilidade pública.
O jornalismo cultural do seu jornal - quanto mais abundante ele se torna, pior fica. Assim que assumimos as simplificações ideológicas e o reducionismo biográfico do jornalismo cultural, a essência do artefato se perde. O seu jornalismo cultural não passa de fofocas de tablóides disfarçadas de interesse pelas 'artes', e tudo aquilo que ele toca se reduz ao que não é. Quem é a celebridade, qual é o preço, qual é o escândalo? Quais as transgressões que foram cometidas pelo escritor, e não contra as exigências da estética literária, mas contra a filha, o filho, a mãe, o pai, o cônjuge, a amante, o amigo, o editor ou o animal de estimação? (p.177).
Vejo aqui muito das diatribes vociferadas por Harold Bloom contra os estudos culturais e a crítica feminista nos departamentos universitários norte-americanos há alguns anos atrás. Acredito que Roth inspirou-se nas idéias dele para escrever essa carta por sua personagem, e ela só não se transforma em libelo, ou prejudica o romance por seu caráter excessivamente "de tese" porque está dentro do contexto temático do romance, não se trata de cena meramente periférica.
A crença nos malefícios da 'pesquisa biográfica' em detrimento do valor literário da obra é um dos pilares da estrutura do romance, e ela se amalgama naturalmente ao projeto do protagonista, que se propõe metas bastante difíceis em sua volta à cidade grande: ele busca a cura para sua doença, mesmo conhecendo sua intangibilidade; ele se apaixona perdidamente por uma jovem (casada), mesmo sabendo da impossibilidade de um desfecho satisfatório para sua paixão; ele luta contra os modos e as modas (culturais) do tempo, sabendo de antemão ser uma briga inútil.
E porque há esse caráter quase épico em sua jornada, queremos acreditar também em suas causas, torcemos para que nem tudo desmorone a sua volta, embora saibamos que dificilmente isso deixará de ocorrer.
Quando nada mais dá certo para ele, saímos também da leitura com o mesmo sentimento melancólico que nos domina à leitura de "A máquina do mundo", de Drummond:
"E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e as aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e meu próprio ser desenganado,
[...]
A treva mais estrita já pousara,
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas".
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CDA. A máquina do mundo. In: Poesia e prosa completa. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1973, p. 271.
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Philip Roth. Fantasma sai de cena. Trad. Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
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sábado, 15 de agosto de 2009
A onda do livro
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Um grande amigo me perguntou outro dia se eu tinha Escrever, da Marguerite Duras, eu disse sim, e fiquei de mandar para ele uma cópia, pois em princípio a obra está esgotada há algum tempo.
Procurando nos vários lugares em que ele poderia estar, acabei achando-o numa prateleira do quarto de empregada e fui reler alguns textos para tentar descobrir qual o interesse do meu amigo, já que ele não quis me contar por telefone (eu mais ou menos entendi por quê, mas quero muito ler o que vai sair daquela mente privilegiada...).
Eu já havia feito menção a esse livro num post de novembro de 2007, mas não havia lido todos os cinco pequenos textos, apenas o primeiro está com algumas anotações e fui ler os outros. No conjunto, trata-se de um tipo de reflexão muito pessoal de Duras sobre o ato de escrever e sobre a criação, com algumas ótimas percepções a respeito dessas atividades, muitas frases belas, tocantes, imagens fortes - e uma irmandade com Clarice nisso tudo, até mesmo na descrição minuciosa da morte de uma mosca, prima-irmã da barata sartreana de Clarice.
Ao fim e ao cabo, é um livro para se ler abrindo em qualquer página, encontrando alguns pensamentos luminosos, outros que são expressão daquela sensibilidade dos à beira de, de que fazem parte Duras, Clarice, V. Woolf, H. Hilst, mulheres-escritoras extremamente angustiadas e talentosas, para quem escrever era um ofício, muitas vezes, penoso - e indispensável como respirar.
Assim, abrindo ao acaso a página 112, leio:
Que existam também animais sem identidade, bolsões inchados e ocos, a doçura de uma pintura muito antiga, que lhes teria dado identidade. Signos com o aspecto de serem coisas. Troncos de árvore que vão embora, disparam. Trechos de serpentes marinhas na umidade das fontes, dos musgos. Jorros, errupções, possíveis aproximações entre a idéia, a coisa, a permanência da coisa, sua inanidade, a matéria dela, da cor, da luz, e Deus sabe o que mais.
Nesse livro, os cinco textos tratam mais ou menos disso: frases intensas sobre sentimentos extremos ligados ao ato de criar, de viver, e também de morrer.
Em alguns momentos, sentimos a peso do tempo nessa escrita, nem tudo flui como há anos, quando escrever como se respira era não apenas uma forma nova de se estar na escrita, mas quase uma postura política daquela que escrevia. Acho que alguma coisa ficou vincada, marcada e já pertence ao passado, mas sempre se encontram momentos de beleza, pequenas intensidades.
Um pouco diverso é o diapasão de romances como O deslumbramento de Lol V. Stein, por exemplo, um dos mais extraordinários livros que já li, ou O vice-cônsul, também deslumbrante.
No fim, Duras me leva para um certo tipo de literatura feita por mulheres com o qual trabalhei durante muitos anos, e me dou conta de que quase não escrevi sobre elas aqui. Quem sabe qualquer dia.
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Um grande amigo me perguntou outro dia se eu tinha Escrever, da Marguerite Duras, eu disse sim, e fiquei de mandar para ele uma cópia, pois em princípio a obra está esgotada há algum tempo.
Procurando nos vários lugares em que ele poderia estar, acabei achando-o numa prateleira do quarto de empregada e fui reler alguns textos para tentar descobrir qual o interesse do meu amigo, já que ele não quis me contar por telefone (eu mais ou menos entendi por quê, mas quero muito ler o que vai sair daquela mente privilegiada...).
Eu já havia feito menção a esse livro num post de novembro de 2007, mas não havia lido todos os cinco pequenos textos, apenas o primeiro está com algumas anotações e fui ler os outros. No conjunto, trata-se de um tipo de reflexão muito pessoal de Duras sobre o ato de escrever e sobre a criação, com algumas ótimas percepções a respeito dessas atividades, muitas frases belas, tocantes, imagens fortes - e uma irmandade com Clarice nisso tudo, até mesmo na descrição minuciosa da morte de uma mosca, prima-irmã da barata sartreana de Clarice.
Ao fim e ao cabo, é um livro para se ler abrindo em qualquer página, encontrando alguns pensamentos luminosos, outros que são expressão daquela sensibilidade dos à beira de, de que fazem parte Duras, Clarice, V. Woolf, H. Hilst, mulheres-escritoras extremamente angustiadas e talentosas, para quem escrever era um ofício, muitas vezes, penoso - e indispensável como respirar.
Assim, abrindo ao acaso a página 112, leio:
Que existam também animais sem identidade, bolsões inchados e ocos, a doçura de uma pintura muito antiga, que lhes teria dado identidade. Signos com o aspecto de serem coisas. Troncos de árvore que vão embora, disparam. Trechos de serpentes marinhas na umidade das fontes, dos musgos. Jorros, errupções, possíveis aproximações entre a idéia, a coisa, a permanência da coisa, sua inanidade, a matéria dela, da cor, da luz, e Deus sabe o que mais.
Nesse livro, os cinco textos tratam mais ou menos disso: frases intensas sobre sentimentos extremos ligados ao ato de criar, de viver, e também de morrer.
Em alguns momentos, sentimos a peso do tempo nessa escrita, nem tudo flui como há anos, quando escrever como se respira era não apenas uma forma nova de se estar na escrita, mas quase uma postura política daquela que escrevia. Acho que alguma coisa ficou vincada, marcada e já pertence ao passado, mas sempre se encontram momentos de beleza, pequenas intensidades.
Um pouco diverso é o diapasão de romances como O deslumbramento de Lol V. Stein, por exemplo, um dos mais extraordinários livros que já li, ou O vice-cônsul, também deslumbrante.
No fim, Duras me leva para um certo tipo de literatura feita por mulheres com o qual trabalhei durante muitos anos, e me dou conta de que quase não escrevi sobre elas aqui. Quem sabe qualquer dia.
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sexta-feira, 14 de agosto de 2009
erva-doce contra gripe
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Eu estou para comentar Fantasma sai de cena há algum tempo, mas faltam forças nesse momento, e por enquanto vai esse texto que recebi por email sobre prevenção caseira da gripe, que eu não sei se funciona, mas erva-doce nunca fez mal a ninguém, não é mesmo?
****
Prevenção caseira p/o H1N1
O anis estrelado, amplamente cultivado na China, é o extrato-base (75%), da produção do comprimido Tamiflu, da Roche (empresa do antigo Secretário de Defesa dos EUA Donald Runsfield).
Mas, como é um pouco difícil encontrar o anis estrelado aqui no Brasil, podemos usar o nosso anis mesmo – a erva-doce – pois esta erva possui as mesmas substâncias, ou seja, o mesmo princípio ativo do anis estrelado, e age como anti-inflamatório, sedativo da tosse, expectorante, digestivo, contra asma, diarréia, gases, cólicas, cãibras, náuseas, doenças da bexiga, gastrointestinais, etc...
Seu efeito é rápido no organismo e baixa um pouco a pressão, devendo ser feito o chá com apenas uma colher de café das sementes para cada 200ml de água, administrado uma a duas vezes dia, de preferência após uma refeição em que se tenha ingerido sal.
Ajude a divulgar o uso da erva-doce como preventivo do H1N1, ou mesmo como remédio a ser tomado imediatamente após os primeiros sintomas de gripe, pois seu princípio ativo poderá bloquear a reprodução do vírus e mesmo evitar seu maior contágio.
Porém, pouco ou nada adiantará utilizar a erva-doce após 36 horas do possível contágio pelo H1N1, pois a erva não terá mais força substancial para bloquear a propagação do vírus no sistema respiratório.
Efeitos colaterais: pequena sonolência nas 2 primeiras horas - evitar dirigir e/ou operar máquinas.
Nota: O uso da erva-doce é alternativo e poderá ser até eficaz, mas não substitui a assistência médica necessária.
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Eu estou para comentar Fantasma sai de cena há algum tempo, mas faltam forças nesse momento, e por enquanto vai esse texto que recebi por email sobre prevenção caseira da gripe, que eu não sei se funciona, mas erva-doce nunca fez mal a ninguém, não é mesmo?
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Prevenção caseira p/o H1N1
O anis estrelado, amplamente cultivado na China, é o extrato-base (75%), da produção do comprimido Tamiflu, da Roche (empresa do antigo Secretário de Defesa dos EUA Donald Runsfield).
Mas, como é um pouco difícil encontrar o anis estrelado aqui no Brasil, podemos usar o nosso anis mesmo – a erva-doce – pois esta erva possui as mesmas substâncias, ou seja, o mesmo princípio ativo do anis estrelado, e age como anti-inflamatório, sedativo da tosse, expectorante, digestivo, contra asma, diarréia, gases, cólicas, cãibras, náuseas, doenças da bexiga, gastrointestinais, etc...
Seu efeito é rápido no organismo e baixa um pouco a pressão, devendo ser feito o chá com apenas uma colher de café das sementes para cada 200ml de água, administrado uma a duas vezes dia, de preferência após uma refeição em que se tenha ingerido sal.
Ajude a divulgar o uso da erva-doce como preventivo do H1N1, ou mesmo como remédio a ser tomado imediatamente após os primeiros sintomas de gripe, pois seu princípio ativo poderá bloquear a reprodução do vírus e mesmo evitar seu maior contágio.
Porém, pouco ou nada adiantará utilizar a erva-doce após 36 horas do possível contágio pelo H1N1, pois a erva não terá mais força substancial para bloquear a propagação do vírus no sistema respiratório.
Efeitos colaterais: pequena sonolência nas 2 primeiras horas - evitar dirigir e/ou operar máquinas.
Nota: O uso da erva-doce é alternativo e poderá ser até eficaz, mas não substitui a assistência médica necessária.
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domingo, 9 de agosto de 2009
por um fio
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Convidada por uma grande amiga, fomos ver Por um fio, peça baseada em livro de Dráuzio Varela sobre alguns de seus pacientes com câncer terminal, e ao longo da peça me deu muita vontade de ler o livro, porque os esquetes parecem mais textos do que dramaturgia, embora alguns casos contados - como o do irmão do autor, sobretudo - emocionem e façam pensar sobre essa coisa louca que é estar vivo e poder morrer a qualquer instante, uma consciência que um paciente de câncer agudiza, por várias razões, entre elas o inesperado de tudo.
Acho que os melhores momentos da dupla de atores se dá quando entra em cena o ator - Rodolfo Vaz - porque ele encena mais suas falas, muda inclusive o tom da voz, imprime humor ao que diz, enquanto ela - Regina Braga - tem menos êxito em suas dramatizações, embora demonstre um notável domínio da voz e das nuanças de tom ao falar.
De todo modo, algumas histórias realmente tocam, outras passam como se alguém nos contasse sobre esses casos - cada de um de nós já ouviu (ou viveu) algo parecido e se identifica, claro.
Achei muito bom o cenário, mesmo que uma certa platitude se perceba ao sugerir o outono das vidas que se narram com as folhas secas e os bancos vazios da praça - mas é bonito, e serve com louvor aos fins de pontuar o que se desenrola no palco.
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Convidada por uma grande amiga, fomos ver Por um fio, peça baseada em livro de Dráuzio Varela sobre alguns de seus pacientes com câncer terminal, e ao longo da peça me deu muita vontade de ler o livro, porque os esquetes parecem mais textos do que dramaturgia, embora alguns casos contados - como o do irmão do autor, sobretudo - emocionem e façam pensar sobre essa coisa louca que é estar vivo e poder morrer a qualquer instante, uma consciência que um paciente de câncer agudiza, por várias razões, entre elas o inesperado de tudo.
Acho que os melhores momentos da dupla de atores se dá quando entra em cena o ator - Rodolfo Vaz - porque ele encena mais suas falas, muda inclusive o tom da voz, imprime humor ao que diz, enquanto ela - Regina Braga - tem menos êxito em suas dramatizações, embora demonstre um notável domínio da voz e das nuanças de tom ao falar.
De todo modo, algumas histórias realmente tocam, outras passam como se alguém nos contasse sobre esses casos - cada de um de nós já ouviu (ou viveu) algo parecido e se identifica, claro.
Achei muito bom o cenário, mesmo que uma certa platitude se perceba ao sugerir o outono das vidas que se narram com as folhas secas e os bancos vazios da praça - mas é bonito, e serve com louvor aos fins de pontuar o que se desenrola no palco.
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esses dias
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Por medo da gripe suína não fui a fortaleza, cancelei até mesmo um dia de hospedagem já paga, que ficará de crédito para quando eu puder ir; também não vou ficar na pousada do caju, em alagoas, por cujas fotos me apaixonei, durante mais uma semana de férias escolares, dessa vez não apenas por medo da gripe (sobretudo ter de passar pelo galeão), mas porque parece que a rótula do meu joelho direito derreteu, e dói que dói.
Estou, ao invés dessas viagens, fazendo um percurso diário até a fisioterapia mais próxima, usando gelo e aguardando que possa andar de novo, ao menos nos arredores. Pelo visto, já é coisa à beça.
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Por medo da gripe suína não fui a fortaleza, cancelei até mesmo um dia de hospedagem já paga, que ficará de crédito para quando eu puder ir; também não vou ficar na pousada do caju, em alagoas, por cujas fotos me apaixonei, durante mais uma semana de férias escolares, dessa vez não apenas por medo da gripe (sobretudo ter de passar pelo galeão), mas porque parece que a rótula do meu joelho direito derreteu, e dói que dói.
Estou, ao invés dessas viagens, fazendo um percurso diário até a fisioterapia mais próxima, usando gelo e aguardando que possa andar de novo, ao menos nos arredores. Pelo visto, já é coisa à beça.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009
à deriva
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Primeira sessão do Arteplex, poucas pessoas e as que aguardam no saguão não parecem preocupadas com gripe, seja A, B ou C, salvo um senhor de cabelos brancos sentado numa das mesinhas, que segura e abre esse pequeno objeto de plástico que está em todos os aposentos aqui em casa: o potinho de álcool em gel. Uma pessoa apenas, o que me dá um certo reconforto, parece que estou num paraíso infenso a doenças ou a rumores catastróficos.
Quase não tenho o que dizer a respeito de À deriva. Trata-se de um filme sobre valores e esses valores são discutidos dentro de uma família de classe média e de nível intelectual mais ou menos alto (o pai é escritor), com filhos adolescentes e crise aguda entre o pai e a mãe.
Não é um mundo que eu reconheça, ou pelo qual me interesse, e no aspecto técnico nada me chamou a atenção em especial, embora a paisagem de Arraial do Cabo (ou Búzios, não sei), seja muito bonita.
De todo modo, achei sofrível a atuação do casal de adolescentes, e a menina é fraquíssima. A única personagem para quem meus olhos acenaram alguma atenção foi o de Déborah Bloch, que faz uma bêbada e mulher mal amada muito bem: convincente, madura, bonita, boa atriz, a única com alguma existência para mim.
****
Sobre A proposta, que vi no mesmo dia aproveitando a bonança, é o mesmo filme que a gente já viu muitas vezes, inclusive com a Bullock, e que essa indústria produz há milênios, portanto o modelo e a forma já foram testados à exaustão, inclusive por aqui, de modo que o resultado é também o que se espera: algumas risadas e um tempo de pura distração, que passa rápido.
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Primeira sessão do Arteplex, poucas pessoas e as que aguardam no saguão não parecem preocupadas com gripe, seja A, B ou C, salvo um senhor de cabelos brancos sentado numa das mesinhas, que segura e abre esse pequeno objeto de plástico que está em todos os aposentos aqui em casa: o potinho de álcool em gel. Uma pessoa apenas, o que me dá um certo reconforto, parece que estou num paraíso infenso a doenças ou a rumores catastróficos.
Quase não tenho o que dizer a respeito de À deriva. Trata-se de um filme sobre valores e esses valores são discutidos dentro de uma família de classe média e de nível intelectual mais ou menos alto (o pai é escritor), com filhos adolescentes e crise aguda entre o pai e a mãe.
Não é um mundo que eu reconheça, ou pelo qual me interesse, e no aspecto técnico nada me chamou a atenção em especial, embora a paisagem de Arraial do Cabo (ou Búzios, não sei), seja muito bonita.
De todo modo, achei sofrível a atuação do casal de adolescentes, e a menina é fraquíssima. A única personagem para quem meus olhos acenaram alguma atenção foi o de Déborah Bloch, que faz uma bêbada e mulher mal amada muito bem: convincente, madura, bonita, boa atriz, a única com alguma existência para mim.
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Sobre A proposta, que vi no mesmo dia aproveitando a bonança, é o mesmo filme que a gente já viu muitas vezes, inclusive com a Bullock, e que essa indústria produz há milênios, portanto o modelo e a forma já foram testados à exaustão, inclusive por aqui, de modo que o resultado é também o que se espera: algumas risadas e um tempo de pura distração, que passa rápido.
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sábado, 1 de agosto de 2009
Saltando e pousando
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A exposição 'Virada Russa' foca sua atenção na produção artística criada na Rússia desde o começo do século XX até a década de 1930, importante não apenas para a cultura russa, mas para toda a arte internacional daquele período.
O conjunto de obras selecionadas inclui a produção de importantes artistas do período, como Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, entre outros. Ao todo, são 123 obras, todas pertencentes ao acervo do Museu Estatal de São Petersburgo. A mostra tem curadoria de Yevgenia Petrova, Joseph Kiblitsky, Rodolfo de Athaydee Ania Rodríguez Alonso.
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Às quatro da tarde, cansada de estar cansada e um tantinho down, saí de casa e fui ao CCBB ver as várias exposições que ali pousam. Sem dúvida, a Virada Russa é uma mega exposição, com trabalhos importantíssimos de artistas idem do começo do século passado.
Se eu disser que gostei de tudo, estarei mentindo. Algumas obras não me disseram muita coisa, outras têm um certo ar de libelo próprio da conjuntura política do país (e do mundo) à época. Mas o quadro "Composição 224", do Kandinsky, emociona ver de perto - cores fortes, intensas, traço inquieto e ardente, me levaram a procurar outras obras dele que não estão na exposição e realmente o homem é fera, muito bom.
(Se eu disser que a sensação é próxima àquela de ver os quadros de Van Gogh ali na sua frente, no Rijksmuseum, em Amsterdam, nos idos da década de 80, vai parecer pedantismo? Então não digo, mas é...:).
Não vou me meter a falar de Construtivismo e Suprematismo porque quem quiser pesquisa na rede sobre tais movimentos, mas havia lá jovens com instrutores explicando os quadros, as épocas, os valores, as circunstâncias em que surgiram os artistas e os estilos. Eu parei e ouvi um pouco, mas adorei não estar "a serviço", seja conduzindo alunos, seja tendo de fazer algum tipo de trabalho sério sobre.
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Outras exposições interessantes: a de fotografias sobre a fome, embora eu tenha muitas restrições a algumas fotos, por demais apelativas; a Rebobine, por favor, cheia de jovens animados com seus filmes, ou querendo fazer um; a das moedas, me senti um dinossauro porque vi notas de cruzeiro que eu peguei na mão, há séculos atrás... são notas e moedas de todos os cantos do mundo, e quando entramos pisamos num mar de moedas, meio aflitivo, não sei por quê... De todo modo, ótima exposição, bem feitíssima. Enfim, o CCBB é festa para a cultura.
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E para aproveitar o embalo, pousei atambém no Oi, futuro para ver mais trabalhos sobre fotografia. Não gostei de uma sala com flashes intensos espocando das quatro paredes, nem de um outro em que a imagem de alguém se choca na parede (muito barulho e flashes intensos, rápidos, não se vê quase nada e a gente quase fica cega), mas gostei de um trabalho em que vários homens estão postados em uma parede e se movem imperceptivelmente quando a gente olha bem. Achei que eles se moviam com o movimento do espectador e fiquei acenando, mas não, eles se movem um tiquinho por si mesmos.
Gostei também de uma exposição de fotos na tela, com depoimentos sobre por que cada um fotografa. Eu também fotografo porque há uns momentos da/na vida que não se repetem, como uma espécie de graça da existência. Quando se consegue captar numa foto um momento desse é muito bom.
A exposição 'Virada Russa' foca sua atenção na produção artística criada na Rússia desde o começo do século XX até a década de 1930, importante não apenas para a cultura russa, mas para toda a arte internacional daquele período.
O conjunto de obras selecionadas inclui a produção de importantes artistas do período, como Kandinsky, Maliévitch, Chagall, Rodchenko, Tátlin, Goncharova, entre outros. Ao todo, são 123 obras, todas pertencentes ao acervo do Museu Estatal de São Petersburgo. A mostra tem curadoria de Yevgenia Petrova, Joseph Kiblitsky, Rodolfo de Athaydee Ania Rodríguez Alonso.
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Às quatro da tarde, cansada de estar cansada e um tantinho down, saí de casa e fui ao CCBB ver as várias exposições que ali pousam. Sem dúvida, a Virada Russa é uma mega exposição, com trabalhos importantíssimos de artistas idem do começo do século passado.
Se eu disser que gostei de tudo, estarei mentindo. Algumas obras não me disseram muita coisa, outras têm um certo ar de libelo próprio da conjuntura política do país (e do mundo) à época. Mas o quadro "Composição 224", do Kandinsky, emociona ver de perto - cores fortes, intensas, traço inquieto e ardente, me levaram a procurar outras obras dele que não estão na exposição e realmente o homem é fera, muito bom.
(Se eu disser que a sensação é próxima àquela de ver os quadros de Van Gogh ali na sua frente, no Rijksmuseum, em Amsterdam, nos idos da década de 80, vai parecer pedantismo? Então não digo, mas é...:).
Não vou me meter a falar de Construtivismo e Suprematismo porque quem quiser pesquisa na rede sobre tais movimentos, mas havia lá jovens com instrutores explicando os quadros, as épocas, os valores, as circunstâncias em que surgiram os artistas e os estilos. Eu parei e ouvi um pouco, mas adorei não estar "a serviço", seja conduzindo alunos, seja tendo de fazer algum tipo de trabalho sério sobre.
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Outras exposições interessantes: a de fotografias sobre a fome, embora eu tenha muitas restrições a algumas fotos, por demais apelativas; a Rebobine, por favor, cheia de jovens animados com seus filmes, ou querendo fazer um; a das moedas, me senti um dinossauro porque vi notas de cruzeiro que eu peguei na mão, há séculos atrás... são notas e moedas de todos os cantos do mundo, e quando entramos pisamos num mar de moedas, meio aflitivo, não sei por quê... De todo modo, ótima exposição, bem feitíssima. Enfim, o CCBB é festa para a cultura.
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E para aproveitar o embalo, pousei atambém no Oi, futuro para ver mais trabalhos sobre fotografia. Não gostei de uma sala com flashes intensos espocando das quatro paredes, nem de um outro em que a imagem de alguém se choca na parede (muito barulho e flashes intensos, rápidos, não se vê quase nada e a gente quase fica cega), mas gostei de um trabalho em que vários homens estão postados em uma parede e se movem imperceptivelmente quando a gente olha bem. Achei que eles se moviam com o movimento do espectador e fiquei acenando, mas não, eles se movem um tiquinho por si mesmos.
Gostei também de uma exposição de fotos na tela, com depoimentos sobre por que cada um fotografa. Eu também fotografo porque há uns momentos da/na vida que não se repetem, como uma espécie de graça da existência. Quando se consegue captar numa foto um momento desse é muito bom.
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E por fim, o carioca é mesmo muito sem noção: ao final das várias salas da grande exposição do CCBB, já quase na quarta ou quinta seção, gente pra caramba, e uma moça jovem começa a assoar o nariz com força, dava para ver que ela estava bastante gripada... eu só olhei em sua direção e me retirei imediatamente, mas acho o fim alguém ir a um lugar público e em espaço fechado naquele estado, e isso eu acharia mesmo sem o advento da infuenza A. Tá gripado? Fica em casa de repouso, ou então faz programa ao ar livre, mas não leva seus vírus para tantas outras pessoas, é uma questão de civilidade e de boa educação. Enfim, é isso.
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