Prenda-me (Jean Paul Lillienfeld), com Sophie Marceau, Miou-Miou, Marc Barbé. Uma mulher (Sophie Marceau) faz uma malinha, sai de casa, joga anel e relógio na lixeira e se encaminha a uma delegacia de madrugada, para se entregar pelo assassinato do marido ocorrido há dez anos, crime que prescreverá no dia seguinte.
Começa aí um tour de force entre ela, em seu desejo implacável de ser presa por ter empurrado do parapeito da varanda o marido violento, espancador, sádico, que a violentou ao longo desses dez anos, e a policial vivida por Miou-Miou, que se recusa a aceitar a culpa e a prisão dessa mulher. Como se não bastasse, o filho vai crescendo sem o pai e vai-se tornando ele também um sádico, espalhando ano após ano retratos do homem ausente pela casa, até cobrir quase todo o espaço com a memória - eu diria - do mal.
Fiquei muito irritada a maior parte do tempo, sem paciência com aquela determinação e sem entender por que uma pessoa fica tão doente, mas tão doente que aceita passivamente ser espancada e ainda por cima conviver por longos anos com uma culpa indevida, porque ela não matou o marido, já que, primeiro, apenas encostou no infeliz e ele caiu quase sozinho, porque estava bêbado; segundo, foi legítima defesa, porque o monstro a estava espancando. Então, torcia pra que a policial vencesse aquela arengação de uma vez por todas. E ela vence, finalmente.
A mulher sai já de manhã, derrotada, mas livre. Só que de repente a policial aparece à porta da delegacia e diz a frase fatal: que pode fazer o boletim de ocorrência com data de ontem, antes da prescrição do crime, que ela pode ser presa ainda, se quiser. A mulher volta, é presa e na cena seguinte e última ela está atrás das grades tendo uma conversa muito importante e esclarecedora com o filho. Nessa conversa entendemos por que ela queria tanto ser presa. Ela realmente precisava desse ato libertador - por paradoxal que seja - porque foi o único pela qual assumiu inteira responsabilidade: ter matado o marido deu sentido aos anos todos de tortura a que fora submetida - ela havia feito alguma coisa a respeito: ela o havia matado. Pena que somente na cena final o espectador sinta-se, finalmente, livre daquele peso.
Adeus, minha rainha (Benoît Jacquot), com Léa Seydoux, Diane Kruger, Virginie Ledoyen. Uma história dos bastidores nos momentos finais da Queda da Bastilha, passada no palácio de Versalhes, mas já nos finalmentes e pelo ângulo basicamente dos serviçais da corte. No caso, a leitora de Maria Antonieta, Sidonie, vivida pela linda e ótima Léa Seydoux, apaixonada por sua ama; a paixão de Antonieta por outra mulher, Gabrielle de Pontiac, uma nobre jovem e bela, que será instada a fugir da França pela própria rainha, já que sua cabeça é a segunda na lista dos que serão enforcados pelos revolucionários.
O filme vai pontuando muito mais os esforços da rainha para proteger sua amada e as nuances do devotamento de sua serva, que culmina com a fuga do país disfarçada com as roupas da amante de Antonieta, Gabrielle. Ao reconhecer-se longe daquela a quem serviu com desvelo e amor, Sidonie vê-se sem identidade, sem saber quem é a partir de então. Achei meio excessivo no tempo, mas interessante.
A datilógrafa (Régis Roinsard), com Roman Duris, Déborah François, Bérénice Béjot. Trata-se de um filme mergulhado nos valores e na cultura da passagem dos anos sessenta para o início dos setenta, e nisso vi o interesse maior, apesar de que poderia ser enxugado, não precisava tanto tempo para contar uma história relativamente boba.
A comédia versa sobre uma secretária meio desastrada, excelente datilógrafa, muito rápida nos teclados, que se apaixona pelo jovem patrão, um esportista fracassado, que decide treiná-la para ser campeã mundial do concurso de datilografia (sim, isso existia, e talvez exista ainda na terra das competições). Ela vai vencendo as etapas até chegar à final nos EUA. Ele será convencido de que com amor ela não terá a dureza necessária para ganhar o campeonato, e parte. Ela continuará sozinha sua maratona. No final... bom, o óbvio acontece, claro.
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Talvez não caiba aqui uma sessão nostalgia, mas reconheço inteiramente aquela moça, sou de um tempo em que uma menina pobre aprendia, ao invés do tricô e crochê do tempo da mãe, a datilografia e a estenografia, instrumentos necessários para tentar entrar no mercado de trabalho. Fiz ambos os cursos, embora nunca tenha conseguido usar os caracteres estenográficos. Mas foi o inglês do Ibeu (com bolsa) o fundamental para meu futuro profissional .Ah, e também fiz tricô bem, e bordei. O filme me fez habitar esse espaço da memória por algum tempo - breve como poeira leve.
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Talvez não caiba aqui uma sessão nostalgia, mas reconheço inteiramente aquela moça, sou de um tempo em que uma menina pobre aprendia, ao invés do tricô e crochê do tempo da mãe, a datilografia e a estenografia, instrumentos necessários para tentar entrar no mercado de trabalho. Fiz ambos os cursos, embora nunca tenha conseguido usar os caracteres estenográficos. Mas foi o inglês do Ibeu (com bolsa) o fundamental para meu futuro profissional .Ah, e também fiz tricô bem, e bordei. O filme me fez habitar esse espaço da memória por algum tempo - breve como poeira leve.





























