segunda-feira, 25 de abril de 2016

Dois filmes - Nise; O tesouro



O tesouro (Corneliu Porumboiu, 2016). Com Cuzin Toma, Adrain Purcarescu, Radu Banzaru, Iulia Chiochinã. Tendo lido a crítica feita por um jornal carioca ao filme, resolvi comentá-lo conversando com o crítico em questão, ficou assim:

Não, Janot, a cena final de ‘O tesouro' não vale o filme inteiro, como se lê no comentário feito no jornal, o máximo que se pode conceber seria o bonequinho sentado apenas observando, sem aplaudir. A não ser que se curta passar mais de metade do filme olhando três homens conversando enquanto escavam sem parar em busca do tal tesouro. A situação econômica precária do país (Romênia) e dos personagens, a semelhança com nosso atraso social, o ‘jeitinho’ maroto a que recorrem alguns que vivem certos estágios de decadência, em vários momentos bem semelhantes a nosso modo de resolver as coisas, tudo leva a plateia à empatia, e ao riso. Eu achei menos graça, e fiquei meio impaciente com aquela falta de entrecho, ou melhor de ação, e sobretudo não deu para comprar aquela cena final edificante, nem mesmo se tivesse sido inspirada nas narrativas mais delirantes do universo maravilhoso de nossa literatura de cordel. Não achei verossímil, nem uma saída adequada sequer na ficção. E de boas ações o purgatório - das artes e da vida – está lotado.


Nise - o coração da loucura (Roberto Berliner, 2016). Com Glória Pires, Fabrício Boliveira, Simone Mazzer, Flávio Bauraqui, Fernando Eiras, Julio Adrião, Felipe Rocha, Claudio Jaborandy, Zé Carlos Machado, Bernardo Marinho, Georgiana Goes, Luciana Fregolente, Charles Fricks, Roberta Rodrigues.  
Filme indispensável, com muitos muitos acertos, e uma importância especial por contar uma parte fundamental de nossa história e prática manicomiais, ressaltando o desempenho dos atores, tanto da Glória Pires, que vive a psiquiatra, quanto do excelente grupo dos que fazem os doentes - esses, o coração pulsante do filme. Achei mais fraco o trabalho dos médicos, com exceção do ótimo Zé Carlos Machado, como o diretor. Como se trata, de modo especial, de um trabalho em que o grupo gera a energia-motora do filme, há elos mais ou menos fortes. O mais fraco me pareceu o crítico de arte Mario Pedrosa, vivido por Charles Fricks, que achei inconvincente, aquém de sua importância real na história que se conta. E essa história está muito bem relacionada aos acontecimentos na bela crítica que li numa noite de insônia, escrita por Fernando Pardal, no site Esquerda Diário e que, apesar de começar com um erro feio de ortografia (no lead, talvez nem seja de sua responsabilidade, não sei), vale a leitura por situar com precisão o contexto político-social dos acontecimentos narrados, que me parecem fundamentais para compreender melhor a importância de Nise para a psiquiatria brasileira. Mas o filme vale por si mesmo, em suas escolhas e acertos.

O site referido, veja aqui


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Alguns filmes - março/abril

Ave, Cesar (Ethan e Joel Cohen, 2016). Com George Clooney, Scarlett Johansson, Josh Brolin, Ralph Fiennes. Que delícia ver esse filme, uma homenagem dos irmãos Cohen não apenas às grandes produções, astros e estrelas da década de cinquenta, mas ao cinema estadunidense, aquele que nossos pais viram, e nossa memória registrou como grande cinema, quando se vestia paletó e gravata para sair e ver um filme. Os atores estão no limite entre encarnar o personagem e fazer sua paródia, mas sempre com humor e ternura. Sim, acho que tudo ali ressoa homenagem aos grandes do cinemão: as coreografias aquáticas magníficas, aqui protagonizadas por Scarlett Johansson; os arroubos épicos, que nos lembram a grandeza de Spartacus, ou Ben-Hur, na caracterização ambígua de Clooney, muito boa; os números de sapateado, na verdade, um número de sapateado excelente, liderado por - ora, pois pois - Channing Tatum, agora vestidíssimo, e arrasando. E Josh Brolin também faz um trabalho de primeira, como o regente da orquestra toda. Para mim, nota dez.


Rua Coverfield, 10: (Dan Trachtenberg, 2016) Com Mary Elizabeth Winstead, John Goodman, John Gallagher Jr, Maya Erskine. Dois terços do filme acontecem dentro de um bunker, onde uma mulher e dois homens supostamente se refugiam de um ataque nuclear. Ela desconfia quase sempre de que seu protetor parece mais um raptor, mas vai se adaptando, até que a coisa fica esquisita demais e ela resolve fugir. E nessa fugida é que o diretor dá uma volta no espectador, tipo - vocês pensavam que era só um filme banal sobre psicótico americano sequestrador de moças? Não, temos outros trunfos na manga. E o final fica assim, como direi? Uma outra vertente de um gênero igualmente fértil se abre, mas não tira a sensação de déjà vu.


A juventude (Paolo Sorrentino, 2016). Com Michael Caine, Harvey Keytel, Rachel Weisz, Jane Fonda. A gente percebe que se trata de uma temática semelhante à de outro filme dele, A grande beleza, ou seja, questões relativas à percepção da vida em momento de declínio, como estar na vida e na velhice, em que dois personagens se entregam aos projetos possíveis: um, dirigir seu filme- testamento; o outro, deleitar-se. Mas penso que aqui as discussões são mais complexas, as palavras nem sempre estão dizendo o que os atos realizam. Como na vida, há ao mesmo tempo a ação dos personagens, que nem sempre estão de acordo com o que eles pensam delas, ou dos outros, ou de suas próprias histórias, que a memória tinge de cores variadas, dependendo do momento, ou de quem lembra. Um filme rico, denso, interessante o tempo todo, que vale a pena ver e rever.


A segunda esposa: (Umut Dag, 2016), Com Begum Akkaya, Vedat Erincin, Nihal Koldas. Uma das experiências mais intensas sobre a delicadeza, o que nós, mulheres ocidentais, chamamos 'sororidade', mesmo que não seja esse o projeto do filme. Ele quer apenas tematizar o devotamento de uma esposa e mãe por sua família, mas o destino prega-lhe uma peça e tudo vai em direção oposta ao planejado. Salvo a delicadeza extrema dessas duas personagens, e seu encontro único. Um filme para se ver com prazer.


Mais forte que bombas (Joachim Trier, 2016). Com Isabelle Huppert, Gabriel Byrne, Jesse Eisenberg, Devin Druid. Um filme que a princípio não diz bem a que veio, mas à medida que avança vamos percebendo os nós e as tramas que envolvem os homens daquela família (o marido, os dois filhos), em torno da mulher, de seu trabalho como fotógrafa de guerra, e de sua morte. Tudo vai-se revelando quando o mais velho começa a fazer a arrumação das fotos e descobre novos ângulos da vida de sua mãe, anos depois do acidente de carro que a matou, e tudo se embaralha com seu momento atual, o filho recém nascido, as dúvidas; também começamos a ver melhor o irmão mais jovem, imerso em um mundo cheio de asperezas, próprias da idade, mas igualmente cindido pelas rupturas - com a mãe, com o pai com quem não consegue dialogar, com o mundo dos afetos, dos amigos. Tudo no filme soa como um flash estourado, em que estilhaços reverberam em cada vida, em cada fotograma, em cada um de nós. Um dos melhores filmes que vi no mês.


Diplomacia (Volker Schlöndorff, 2016). Com André Dussollier, Niels Arestrup, Burghart Klaubner. Um filme em que o espectador gruda na tela apenas com a atuação de dois atores, em conversas dentro de um quarto, a respeito de destruir ou não Paris na saída final dos alemães da segunda guerra. Magnífico trabalho de atores, embora tudo pareça simples, leve e sério ao mesmo tempo. Um jogo de conversas e argumentos, que nos cativa até o fim.



A senhora da van (Nicholas Hytner, 2016). Com Maggie Smith, Alex Jennings, Jim Broadbent. Achei uma história meio bobinha, um filme que quase nunca engrena em interesse, uma personagem meio caricata, mas onde aparece a radiância de sempre da Maggie Smith. Só vale por ela.



quinta-feira, 7 de abril de 2016

São Miguel dos Milagres


Seis dias em São Miguel dos Milagres, Maceió (AL) deixam qualquer pessoa em estado de graça total. 

Esse povoado, com um mar bem morninho, quase quente em certas horas, faz parte da chamada Rota Ecológica, que engloba outros semelhantes em paisagem, na direção sul/norte do litoral - Paripueira, Barra de Sto. Antonio, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga, Maragogi.


Uma das maneiras de chegar ao povoado é contratando o traslado com a própria pousada onde se vai ficar. No meu caso, optei pela que me pareceu oferecer o melhor custo/benefício, a Pousada do Sonhoque conheci primeiro pelo site do Ricardo Freire , na aba Rota Ecológica, onde se pode ter todo tipo de informação sobre as inúmeras pousadas da região. Depois, a partir de um comentário no próprio site do Freire, cheguei ao post da Cristina Leonhardt, este aqui, que me convenceu do acerto de minha escolha. Também no site ótimo da Silvinha, o Matraqueando, se pode ler sobre o lugar, e pousada. A pousada distribui seus quartos à volta de um espaço verde belíssimo, e fica de frente para o mar, onde se pode mergulhar bem de tardinha, quando o sol a pino esmorece, ou bem cedinho, quando a maré começa a subir. 


 Uma brisa constante me fez errar a percepção sobre a quentura do sol, e no primeiro dia fui caminhar para conhecer a praia e voltei com as costas muito, muito ardidas. Sorte que uma senhora francesa bem solícita me ofereceu e passou em minhas costas um creme hidratante adequado à situação, e pude dormir à noite. Depois, descobri que eu tinha levado Bepantol creme, e isso realmente foi o que me salvou.

Na diária está incluído o café da manhã, que não fica exposto em balcão, como costuma ocorrer em hotéis, mas se pede a cada dia a partir das opções disponíveis. Em geral, tem frutas (mamão, melancia, melão, manga), ovos mexidos, tapioca com recheio a escolher, sanduíche com pão normal e integral, queijos, sucos etc. Gostei todos os dias do café da manhã.

Já no quesito refeições, ou se usa o restaurante da pousada, ou se procura o que há no entorno. Fui conhecer o restaurante do Enildo,mas no dia em que fui havia muita mosca, e todos tivemos que comer com aquele fumacê nas mesas, para espantar as famigeradas. Achei que ia comer peixe fresco, mas era meio sem gosto tudo, e caro também, não curti.

Já na pousada, o que achei interessante foi um creme de legumes feito pela ajudante do chef, mas não o que ele faz - são dois pratos inteiramente diferentes, se feito por um, ou pela outra. Acabou rolando um certo stress com esse chef, e eu perdi uma chance de ouro de ser delicada. Por essa cena: depois de um certo clima tenso por conta de modos diferentes de trabalhar, me indispus com ele nem me lembro exatamente por quê. Uma noite, cheguei no restaurante para comer uma pizza, que já havia pedido, e havia uma mesa com uma flor, das inúmeras que ele me vira fotografar ao longo de minha estadia. Achei que era uma mesa reservada para o casal de franceses, e a flor era para Micheline, a linda senhora de cabelos brancos como os meus, e mega gentil. Olhei a flor, senti ciúmes, e me peguei pensando - quem manda ser irascível, e sentei-me uma mesa à frente. Jantei, agradeci e elogiei o que ele havia feito, e fiquei mais um pouco ao final da refeição - a tempo de ver que ninguém havia sentado na mesa com a flor, e quando me retirei, ele também retirou a flor (quando entendi, quase chorei. De todo modo, sempre haverá aquela flor em minha memória, seu gesto, e minha dúvida). 

Outra opção interessante para quem vai sozinho, e não tem com quem dividir as refeições, acabei descobrindo no restaurante que fica ao lado da Pousada, o Angá Beach Hotel, que tem um espaço imenso com mesas que atendem também a não hóspedes. O cardápio oferece opções interessantes para crianças, a um preço realmente em conta - o prato é bem pra criança mesmo, mas se não for comer muito,achei ótimo. 

Dos passeios, não fui ver o tal peixe-boi marinho, porque achei muito caro, e porque amei ver os peixinhos nos arrecifes de coral. Ia sozinha no barco, com o barqueiro indicado pela pousada, e ele foi gentil de colocar no segundo dia um guarda-sol grande para me proteger, e usei protetor solar forte. Lá, ele me emprestava o snorkel e eu podia ficar embaixo d'água, olhando aqueles lindinhos. Fui duas vezes, e gostei das duas, a despeito do excesso de selfies das pessoas dentro do mar, junto com os peixinhos - as moças quase pediam aos peixinhos pra dar um sorriso para a câmera. 


Andei por perto, para conhecer outras pousadas, e as há de todo tipo e preço, desde as mais caras e sofisticadas, até a mais simples e com preço acessível. Nesse segundo time, gostei muito dos Chalés Maresiaque visitei, e achei simpático o dono, interessantes os quartos, e bons os preços.

Voltaria a ficar na Pousada do Sonho, claro, mas há inúmeras outras ao longo da Rota, espalhadas pelos povoados, e creio que a grande escolha aqui é mesmo estar imerso  
na natureza, em contato com a tepidez e a imensidão de um mar morno, manso e belíssimo.







Quarto com chão de cimento, muito bom


Espaço de convivência coletiva, bem no meio da pousada, e onde o wi-fi pega melhor.


Frutas do café da manhã.

Vista de dentro do restaurante, durante as refeições.
Varandinha na entrada do quarto.

Vista de dentro do restaurante do Enildo.




Olhando de dentro do espaço de convivência, um lugar fresco e agradável de se estar, e onde se conversa com os outros hóspedes.





Mapa da Rota Ecológica, com seus vários povoados, e algumas pousadas. Clique para ver melhor.










Pousada do Sonho: cada diária saiu, em março de 2016, por R$ 180,00. Do total, metade deve ser paga por depósito bancário no dia da reserva. 

Transfer do aeroporto até a pousada, em torno de uma hora e meia, feito pelo jovem e simpático João Carlos, com quem a gente conversa e não vê o tempo passar, ficou por R$ 180,00, mas o preço regular é 200,00.




domingo, 21 de fevereiro de 2016

O quarto de Jack



O quarto de Jack (Lenny Abrahamson, 2015). Com Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen.

O filme tem origem no livro O quarto, da escritora irlandesa Emma Donoghue, que assina o roteiro e diz não se basear em um caso específico de sequestro, mas no de inúmeras mulheres e crianças mantidas reféns, em várias partes do mundo. O livro faz parte do currículo de leitura em escolas portuguesas, ou seja, possui um conjunto de qualidades que o referendam como exemplar e formador do caráter de jovens, além de ser contado pelo garoto, com senso de humor e ingenuidade, estratégia que também aparece nesta adaptação fílmica, mas talvez sem o mesmo forte rendimento dramático.

O filme tem dois claros momentos: o primeiro, quando Jack acaba de completar cinco anos, e os dois - mãe e filho - se movem no exíguo quarto, de modo a nos fazer compartilhar sua forma de estar ali: móveis e objetos do cotidiano são considerados amigos, que ele cumprimenta e com quem conversa, num recurso anímico que enfatiza a absoluta solidão da criança. Apesar disso, Jack e sua mãe, Joy, perfazem as tarefas do cotidiano com relativa tranquilidade, alegria mesmo, e cabe a nós, espectadores, a sensação claustrofóbica de emparedamento, já que vemos a exiguidade do espaço que os personagens parecem não perceber mais.

O segundo ocorre quando o plano de fuga pensado pela mãe, e empreendido pela criança, acaba dando certo, e os vemos agora no mundo da família, depois de sete anos enclausurada, ela, e desde que nasceu, ele. Aqui, o cerne são as dificuldades inerentes à reconexão com o mundo, para a mãe, e as descobertas que a criança começa a fazer de um universo totalmente desconhecido, que só vislumbrara por escassas imagens de TV . 

A história impressiona pela crueldade da situação nela mesma, embora filmicamente ela funcione talvez menos do que no livro, salvo esses momentos em que a emoção se mescla ao sentimento de claustrofobia e, aos poucos, de incredulidade, quando todo o quadro, e a situação, se revelam a nossa compreensão, finalmente.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Brooklyn



Brooklyn (John Crowley, EUA, 2015). Com Saiorse Ronan, Domhnall Gleeson, Emory Cohen

Nem foi o filme correto, tampouco a atuação igualmente correta da Saiorse Ronam como Eilis Lacey, que me chamaram a atenção nesse filme que me pareceu exemplarmente regular, mas a imagem de mulher que ele contrói, com pontos de contato e outros de afastamento com relação ao excelente Carol, que se passa também na década de cinquenta, e ainda em cartaz. 

Brooklyn explora a vida de uma imigrante irlandesa, uma moça simples e católica, que se muda para o bairro nova-iorquino em busca de uma vida mais rica em experiências, e de emprego. A história flui sem grandes conflitos, nem grandes dramas, salvo os inerentes à vida no exílio: saudades da família, muitas; conquistas profissionais que chegam depois de esforços; amor que chega também de forma simples, sem dramas nem grandes peripécias.

Talvez essa vida sem muitos alardes, esse caminho pela normatividade regulada, e aprovada também pela Igreja, talvez a mediania excessiva, se cabe a antítese, esteja na raiz do contraste que parece haver entre essas duas figuras femininas, tão próximas no tempo em que foram retratadas, e tão distantes uma da outra quanto à figuração de feminino que representam. 


Se Carol, personagem de Cate Blanchett, seria antípoda de Eilis Lacey, é possível que Therese Belivet, a personagem de Rooney Mara, seja sua prima-irmã - no que ambas têm de projetos de vida em seus inícios, suas dificuldades, seus sonhos de uma vida melhor, sua vontade de ascender através do trabalho bem feito. Essa proximidade ocorre até mesmo na forma como o tempo medeia as relações amorosas de ambas, em seu vagar, suas pausas, seu ritmo lento. 

Mas é a Carol de Blanchett que imprime o vigor, a força, o magnetismo, a segurança, a transgressão e o devir na personagem que, para mim, representa a imagem de mulher que nos traduz, e ainda está em construção, mais de meio século depois. Não apenas no modo como está saindo de seu casamento, mas sobretudo no modo como se liberta da armadilha preparada para que se mantenha presa nele, num dos diálogos mais bonitos e libertadores do filme. 

Carol organiza um conjunto de valores, de forças, de temas e de situações que constitui ainda hoje um desafio para a vasta maioria de nós. Mas sem sua coragem e energia estaríamos todas muito aquém dos direitos que vimos desde então arduamente conquistando, e alargando.  


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O filho de Saul

O filho de Saul (László Nemes, Hungria, 2015). Com Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Todd Charmont, Sándor Zsótér.


Um dos filmes mais difíceis que já vi não apenas nos últimos anos, mas em minha vida. Uma experiência estética angustiante, em razão da câmera histérica que não para um segundo de se movimentar em torno desse homem, desse rosto, desse desespero que constitui a insana tentativa para salvar o corpo de um garoto que ele acredita ser seu filho - esse é o traço estético-formal que mais tem chamado a atenção de todos, críticos e espectadores. 

Mas é o que se ouve por trás, o que se vê de relance, o que se percebe como sombra, gritos, correrias, dores lancinantes - é do que está em segundo plano que o filme trata, e essa, para mim, foi a angústia cortante que me trespassou ao longo da projeção. A horas tantas, não via mais o homem, mas os cenários que ele percorreu, entrando e saindo dos fornos, pedaços de gente sendo puxadas, filas imensas de pessoas indo 'fazer a desinfecção', covas e tiros e mortos e vivos e pedaços e tudo num amontoado delirante, de que aquele homem me pareceu a metonímia: louco, olhando sem se deter, focado em outro ponto de fuga, em outro lugar dentro dele, irracionalmente duro para fazer cumprir o ritual de um enterro quando a seu lado, atrás, em frente, sob qualquer ângulo, só havia morte e pó. 

Uma experiência única, duríssima e desesperante, de devastação.      

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Uma crítica muito boa, aqui:

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/14/cultura/1452782405_801210.html

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Amy

Amy (Asif Kapadia, 2015).  Com Amy Winehouse, Tony Bennett, Peter Doherty. (Netflix)


Vi com tristeza e perplexidade como uma menina frágil, criada aparentemente sem grandes necessidades materiais, torna-se peça numa engrenagem brutal, inclusive para seu próprio pai, que me pareceu a pior pessoa para ela, até mais do que o namorado-veneno.

Quando ele a aconselha, a pedido dela, e pela primeira vez, que ela não precisa se internar para tratar-se do problema com álcool, ele assina ali a sentença de morte da filha. Nem ela mesma sabia que precisava tanto daquela figura, que se ausentou de sua vida cedo, retorna quando ela começa a fazer sucesso, e depois vai sugando sua energia, trocando-a por vinte dinheiros.

O momento mais cruel desse desamor ocorre quando ela está tentando pela enésima vez se organizar, ter paz, descansar, já muito famosa e rica, o pai vai visitá-la numa ilha linda, e a filma incansavelmente, pede selfies dela com fãs, a menina-mulher um fiapo de gente, e ele implacável, sugando tudo que podia dela, que lhe pede clemência, e ele ignora. Minha conclusão: pais a gente tem o direito de escolher, mas nem sempre consegue, e alguns são tóxicos para os filhos. 

De resto, o doc é um retrato realista e cruel do que a mídia pode fazer contra uma celebridade despreparada para o sucesso repentino, que se coloca à mercê dos comentários mais vis, mais baixos, como os que alguns apresentadores de programas de humor estadunidenses fazem com ela. Ninguém quis realmente ajudá-la, nem ela mesma, e depois que a engrenagem de shows e o espetáculo da mídia chegou ao ápice, ela mesma se encarregou de falecer publicamente, e dói vê-la num dos últimos shows, que ela não conseguiu fazer, de tão chapada. Muito tristes - vida, filme. 

Mas a voz e as canções persistem, e seguem conosco.  



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O regresso

O regresso, Alejandro González Iñárritu (2016). Com Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson etc.

Depois de ver O regresso, a gente sai do cinema pensando que o Iñárritu, ao imaginar o filme, pensou de imediato em Leonardo DiCaprio, e também lembrou de parodiar o verso célebre de Drummond: 'Vai, Leo, ter seu Oscar na vida'. Porque o filme é do Leo, para o Leo, com a alma do Leo, e suas vísceras, quase literalmente. Nem importa mais se ele ganha ou não a estatueta. Acho que o público já deu - eu dou.


O filme marca-se por cenas deslumbrantes, em meio a florestas, árvores esplendorosas, altas, belíssimas, por onde os homens se caçam, se perdem, se matam, se acham, se perseguem, se protegem. E por rios, descidas violentas de águas, descidas em remanso, carregando ou não cadáveres, ou feridos. Há também montanhas geladas, e nevascas, e um céu para onde o Hugh Glass, personagem de DiCaprio, olha com certa frequência, de onde sua amada morta lhe sussurra caminhos, modos de se achar naquelas vastidões, ou brenhas.

E se fundamenta no embate entre a força de um homem, vivido por Leo, claro, contra a traição dos pares, que se tornam inimigos; contra os elementos da natureza (nevasca, frio, chuva) e contra a fúria dos animais, aqui representada pela já notória cena de luta entre ele e um urso grande, muito grande, de onde o personagem sai em frangalhos, mas vivo (é ficção, aventura, e invenção, claro). E onde, basicamente, começa sua viagem épica. Pois trata-se de uma jornada épica, de um homem solitário, em busca de vingança contra a traição e em busca de redenção para o filho.

Por isso, é também um filme de cenas estonteantes, de uma violência bruta, bárbara, e duas sobretudo marcam o espectador: a já mencionada luta com o urso, e o agasalho cavalar que ele se oferece a horas tantas, sob forte nevasca. Queria eu poder explicar melhor do que se trata, porque é muito incrível, mas prometi ser menos 'spoilenta', e calo-me. Mas tudo é grandioso ali, e ele vale muito as duas horas e meia. De ação, heroísmo, e muito sangue.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Que viva Eisenstein!

‘Que Viva Eisenstein! - 10 Dias que Abalaram o México’ (Peter Greenaway). Com Elmer Bäck, Luiz Alberti, Stelio Savante, Maya Zapata.

Pelo trailer, não dava para ver do que o filme trata, verdadeiramente, e que me pareceu ser a iniciação sexual desse personagem Eisenstein, que já chega no quarto do hotel em México tirando toda a roupa, ficando peladão diante dos funcionários e das funcionárias - esses, meio sem saber o que fazer face ao pênis movente. Por aí já se tem a medida do laissez-faire em que se transformará o tempo – muito mais do que dez dias – em que o artista tenta fazer um filme, diz que está fazendo, fala sobre isso com algumas pessoas, elas também meio à deriva na fita, porque o que importa mesmo, o plot e o cerne do interesse deste filme que vemos, é a relação que se estabelece entre o meio infantil, em termos afetivos, e totalmente alucinado, em termos existenciais, Eisenstein, vivido com a precisão dos perdidos, por Bäck, e o rapaz que será seu acompanhante durante todo o tempo ali, o ótimo Luiz Alberti, com seu olhar ironicamente penetrante. 

O filme vagueia meio sem direção em vários momentos (aliás, Frida Kahlo e Diego Rivera estão na porta do hotel para saudar o visitante ilustre, sumindo em seguida da tela, e do filme), talvez para expressar a vanguarda do diretor-personagem, mas é muito firme no propósito de nada esconder quando se trata da relação sexual explícita, erótica, forte e singelamente transgressora entre esses dois homens. Parece ter sido o fiat lux de sua existência, e o filme aposta firmemente no caráter educativo do sexo, ou seja, em sua função de trazer um conhecimento e uma experiência transcendentais e fundamentais àquele que vem de um país comunista, com regras extremamente severas quanto ao uso erótico do corpo, e do sexo entre homens.

Muito interessante também o foco na naturalidade com que a cultura mexicana lida com a morte, não apenas a pequena morte do orgasmo, mas a grande morte, através da ludicidade e fantasias que servem para cooptá-la, fazendo a ligação entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Eisenstein acolhe aquela cultura, em tudo oposta à sua, e entrega-se ao novo com a mesma fome com que se descobre amante. O filme, em síntese, vale mais por seu caráter de Bildungsroman, no sentido erótico, do protagonista, do que por seu possível perfil de um diretor genial. Esse ficou confuso, e talvez tenha sido a melhor expressão do próprio Eisenstein, who knows.

Notas:

1) Talvez seja hora de rever o único outro filme que vi de Greenaway, isso já faz muitos e muitos anos: ‘O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante’ (1989).

2)  No blog abaixo achei comentário e descrição interessantes sobre as caveiras e as comemorações que ocorrem no Dia dos Mortos em México:

http://mochilabrasil.uol.com.br/blog/dia-de-muertos-mexico


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Dois filmes em fevereiro


Suíte francesa (Saul Dibb). Com Michelle Williams, Matthias Schoenaerts, Sam Riley, Kristin Scott Thomas.

Um drama romântico, com todos os ingredientes para permanecer na memória, que se passa na segunda guerra mundial, num pequeno povoado francês, com todos os ingredientes do gênero, só que agora com a beleza de Michelle e o charme indiscutível de Matthias. A história é quase a mesma que já vimos tantas vezes no cinema sobre o amor, a solidão das mulheres, cujos maridos foram lutar na guerra, as invasões bárbaras, a ganância da elite, sempre protegendo o seu patrimônio ou suas regalias, custe o que custar. A música é o elemento forte no filme, o que liga os dois protagonistas: uma canção inacabada é tocada ao piano por Bruno, o oficial alemão que ocupa a mansão de Mme. Angellier (Kristin, ótima), sogra de Lucille. É ela que se esgueira para ouvi-la, embevecida, pela porta entreaberta do quarto do inimigo. Estão dadas as cartas para o jogo amoroso começar, entre desejo e culpa, traição e pertencimento. Um filme que se vê com prazer, se não se espera dele nada além de uma boa história de amor, guerra e traição.



O novíssimo testamento (Jaco von Dormael). Com Benoit Poelvoorde, Yolando Moreau, Catherine Deneuve, Pili Groyne, François Damien, Serge Larivière.

O filme é uma comédia bem escrachada sobre um Deus cujo poder se perde sem o uso de seu computador. Ele tem uma esposa, e uma filha, muito zangada pela forma horrorosa como ele se comporta em casa, e no trabalho, razão por que detona o computador do pai, não sem antes mandar para todos os humanos uma mensagem informando a data da morte de cada um, e de todo mundo. Daí vêm as peripécias todas, envolvendo um grupo de 'apóstolos' que a menina vai aliciando ao longo de sua estada na terra, que é onde se encaixa a personagem de Deneuve, numa tirada meio 'A bela e a fera' cuja síntese seria: mulher bela vive um casamento sem afeto nem sexo com um marido pra lá de blasé. Um dia a mulher encontra a filha de Deus, Ea, e esta lhe diz que sua vida está ligada ao circo; partem as duas para um e lá a bela Martine se depara com a jaula do orangotango - que lhe estende um dedo, e as lágrimas rolam no rosto da mulher. É paixão fulminante, e para sempre. Juro! Vão morar juntos, e o marido quando volta encontra a mulher (agora ex, claro) deitada na cama com ele, sim, ele, o orangotango. É por aí um pouco que caminha o tom farsesco e engraçado, quase sempre, do filme. O final é de um feminino um tanto piegas, para minha 'escola da mulher', mas há, sim, uma piscadela para o gênero feminino, mesmo meio torto, acho. Eu ri menos do que a plateia que estava em minha sessão. Mas achei engraçado, quand même.