Uma mega produção, cheia de astros de primeira grandeza, que atuam com maestria e alguns com a cumplicidade que se espera dos grandes amigos, como se dá com Matt Damon e o diretor, ator, correteirista e produtor George Clooney (o homem joga em todas as posições, e acho que o faz bem), com um tema simpático e ainda não visto sobre a destruição e a rapinagem feita pelos alemães nos anos de guerra, quando obras de valor inestimável foram roubadas, queimadas, outras milhares simplesmente escondidas em grandes espaços, como minas abandonadas.
O filme mostra as façanhas de um grupo de não soldados, mas amantes da arte e especialistas, que resolve tomar a si a tarefa de salvar alguns espécimes do grande patrimônio da arte universal. Não é um filme de ação eletrizante, nem mais uma história de guerra, nem mesmo uma comédia, embora flerte com esse gênero - mas o grupo acaba formando uma espécie de exército brancaleone, em que os mocinhos estão todos imbuídos dos melhores sentimentos e das melhores intenções quando à salvaguarda dos bens culturais, de modo que o espectador fica agradecido pelo empenho e torce pela realização das tarefas - o que ocorre, em meio a baixas de homens e de obras.
O filme, afinal, se vê com prazer pela causa que defende, e pela presença desse time imbatível, com destaque para o pequeno mas decisivo e excelente papel de Cate Blanchett. Sua presença é um alento sempre, e promove a mesma alegria que o personagem de Clooney experimenta (e nós também, claro) ao encontrar a Virgem com o Menino, de Michelangelo, única de suas esculturas fora da Itália - mais precisamente em Bruges, na Bélgica.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Paulo Scott; poemas de Claudia Roquette Pinto
Esse volume foi comentado por Paulo Henriques Britto e trata da obra de Claudia Roquette Pinto. Eu tenho dela em algum lugar nas caixas da mudança, e já devo ter lido em algum momento, Corola e Margem de manobra, mas vistos os poemas assim, iluminados pela inteligência de Paulo Henrique, me deparei com alguns poemas ótimos, percepções bem interessantes sobre o ofício de escrever, e ao final me peguei pensando: que grande poeta essa Roquette Pinto!
Dois deles:
O primeiro beijo
Íntimo do medo
(e não avesso a ele)
o rosto indecifrável sequer denuncia
a tropa de cavalaria
que lhe sacode o peito.
Enquanto as mãos,
na exposição do argumento,
tremem visivelmente,
ele permanece sereno, pousado
(gota de orvalho sobre a agulha do pinheiro)
no momento presente.
Daí o seu poder deriva:
de não querer domar a coisa viva,
mas cavalgá-la com graça
(o corpo não se opõe ao desejo).
Ele é dono do seu medo,
e o abraça.
(p. 73)
____
O torneado hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais - nem por um instante -
bouleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro - ou de logro -
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.
(p. 67)
____
Claudia Roquette Pinto. Coleção Ciranda da Poesia. Apresentação de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.
Paulo Scott. Ithaca Road. São Paulo: Cia das Letras, 2013.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
sessenta e cinco
Hoje faço 65 anos. Não tenho a menor ideia do que isso
significa, mas é uma idade difícil. Achei que os cinquenta fossem um marco, e
talvez tenham sido, mas não me senti assim, como estou me sentindo, meio à
deriva, meio em abismo. Ainda era bem menina naquele então pra rir do meio
século - em 2000 estava me aposentando da Universidade, tinha a fantasia de que
me estava libertando para enfim procurar o trabalho para o qual havia nascido,
sem as obrigações de frequentar reuniões chatíssimas, nem ter que estar em sala
de aula às sete da manhã. Não foi bem assim que os anos se mostraram. Eu tomei
um ser sob meus cuidados, e descobri que tomar conta de outrem é minha
especialidade - e meu tormento também. E pude entender por que não tive filhos
- não foi apenas porque tive que trabalhar muito, estudar muito, escrever
muito, produzir muito, viajar muito - há mulheres que fazem tanto quanto eu fiz
e mantêm uma família, mesmo com dificuldades. Eu não poderia, porque cuidar
para mim é um ato de abnegação quase total. Eu não apenas cuido, como me torno
- exupéryanamente - para sempre responsável pelo ser cuidado. Daí que minha
vida, que ia ser livre, leve e solta, fincou-se no chão das responsabilidades e
durante anos não vi as três cores do filme.
Depois, outros acontecimentos
vieram, outras voltas no caminho, e outros cuidados me foram exigidos: entrei
em outra Universidade, voltei às aulas e à rotina acachapante; minha saúde
sofreu um baque, me tratei, sofri e fiquei relativamente boa - sempre by myself. O que eu não
sabia é que minha excessiva autossuficiência haveria de cobrar seu preço, e
cobrou sob forma de uma certa descompensação, que levaria alguns anos para se
resolver. Em seguida, ainda meio zonza, a mãe requer cuidados, sofre um AVC, e
a persona cuidadora entra em cena de novo. Desde 2010 venho exercendo o papel
com afinco, até que não deu mais e tive que - tive que - cair fora. Cheguei há
pouco mais de um mês nessa Vila Velha, que de velha não tem nada; nesse Espírito Santo, que eu acolho em seu
nome, e no meu.
Aos sessenta e cinco, recomeçar a busca, tentar cuidar de
mim com o mesmo zelo e afinco com que minhas asas sempre se abriram para
abrigar o que ou quem sob elas se recolhesse. Recolher as asas. Redefinir a
rota. Afinal, voar não é com os pássaros?
Sínteses, filmes II
5. Gloria: Paulina Garcia é Gloria, uma mulher já não tão jovem que busca se entender com suas necessidades de afeto, de sexo, de vida, com suas inerentes decepções. Um filme interessante, que se mantém assim pelo trabalho ótimo dessa atriz, embora nem sempre a graça das situações tenha toda a graça que se espera (pintar a casa do amante com paintball, por exemplo, podia ter sido mais).
6. Frozen: não vejo desenhos quase nunca, mas aqui parei com essas restrições, por falta de opções, e acabei ganhando mais esse gênero: vi e gostei muito do filme, e tenho tido sorte porque as mulheres têm sido privilegiadas nos desenhos a que assiti, e de que gostei (Valente achei lindinho também, sem contar Rio).
7. Pelos olhos de Maisie: um filme com muita ternura em torno das manifestações de afeto e de abandono por que passa essa menina, em quem nós todos nos vemos, com mais ou menos intensidade, já que, penso, há em todos nós um ser mais ou menos carente de afeto, cuja base vem desse lugar e desse tempo onde se encontra Maisie. Na verdade, as ações não acontecem pelos olhos dela, ou seja, por seu ponto de vista, mas em torno dela, sendo ela o centro dos acontecimentos, do vaivém do pai, da mãe, dos cuidadores - aqueles dois seres amorosos que ela teve a sorte de poder escolher como seus responsáveis e, por isso, tem grandes chances de ser feliz agora, e vir a sê-lo também na vida adulta.
8. Quando eu era vivo: um filme estranhíssimo, de um terror leve mas incômodo. Não sei bem o que pensar dele, não sei se é um filme de que se gosta ou sobre o qual se reconhece determinadas qualidades formais. Como não sou expert no último quesito, só posso dizer que não gostei, mas também não detestei, não saí da sala, vi até o fim aquela bizarrice. Penso que, afinal, trata-se de um filme sobre filiação, sobre como um filho recupera o amor do pai, embora o caminho até lá seja penoso, ou mais que isso - tenebroso. Aliás, fato raro (porque gosto de ir ao cinema sozinha), vi esse filme na companhia de um bom amigo.
9.Trapaça: um filme divertido, bem feito, com uma dinâmica meio frenética em torno dos trambiques e das situações tensas vividas por uma penca de ótimos atores, com destaque para o quarteto impagável formado por Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence e, de lambuja, os ótimos Jeremy Renner e ainda De Niro. Além disso, tem uns figurinos e umas caracterizações de personagens que em si já fazem a diversão.
10. Alabama Monroe: achei um deslumbre, um dos melhores filmes do conjunto que vi ultimamente, porque gosto quase sempre da tematização da morte (até hoje, Amor era meu filme preferido sobre o assunto), mas nunca havia visto uma discussão sobre a morte feita de modo ao mesmo tempo tão intensa, tão íntima e tão feliz - o feliz vai por conta da trilha sonora, e advém do trabalho dos dois protagonistas, que são cantores de música country americana. Na verdade, ele é vidrado nesse estilo de canção, o que acaba contagiando sua companheira. O filme tem nos cortes sua grande força, o que nos faz ir e vir continuamente ao passado e ao presente das situações vividas pelos personagens, de modo que as canções e as alegrias se mesclam aos momentos de perda, doença, dor, luto e morte sem grandes hiatos. Um filme que eu vi meio chorando, mas ao mesmo tempo num estado de espírito que se pode chamar de saltitante, com alguma liberdade, por causa das canções. E que achei muito bom.
6. Frozen: não vejo desenhos quase nunca, mas aqui parei com essas restrições, por falta de opções, e acabei ganhando mais esse gênero: vi e gostei muito do filme, e tenho tido sorte porque as mulheres têm sido privilegiadas nos desenhos a que assiti, e de que gostei (Valente achei lindinho também, sem contar Rio).
7. Pelos olhos de Maisie: um filme com muita ternura em torno das manifestações de afeto e de abandono por que passa essa menina, em quem nós todos nos vemos, com mais ou menos intensidade, já que, penso, há em todos nós um ser mais ou menos carente de afeto, cuja base vem desse lugar e desse tempo onde se encontra Maisie. Na verdade, as ações não acontecem pelos olhos dela, ou seja, por seu ponto de vista, mas em torno dela, sendo ela o centro dos acontecimentos, do vaivém do pai, da mãe, dos cuidadores - aqueles dois seres amorosos que ela teve a sorte de poder escolher como seus responsáveis e, por isso, tem grandes chances de ser feliz agora, e vir a sê-lo também na vida adulta.
8. Quando eu era vivo: um filme estranhíssimo, de um terror leve mas incômodo. Não sei bem o que pensar dele, não sei se é um filme de que se gosta ou sobre o qual se reconhece determinadas qualidades formais. Como não sou expert no último quesito, só posso dizer que não gostei, mas também não detestei, não saí da sala, vi até o fim aquela bizarrice. Penso que, afinal, trata-se de um filme sobre filiação, sobre como um filho recupera o amor do pai, embora o caminho até lá seja penoso, ou mais que isso - tenebroso. Aliás, fato raro (porque gosto de ir ao cinema sozinha), vi esse filme na companhia de um bom amigo.
9.Trapaça: um filme divertido, bem feito, com uma dinâmica meio frenética em torno dos trambiques e das situações tensas vividas por uma penca de ótimos atores, com destaque para o quarteto impagável formado por Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence e, de lambuja, os ótimos Jeremy Renner e ainda De Niro. Além disso, tem uns figurinos e umas caracterizações de personagens que em si já fazem a diversão.
10. Alabama Monroe: achei um deslumbre, um dos melhores filmes do conjunto que vi ultimamente, porque gosto quase sempre da tematização da morte (até hoje, Amor era meu filme preferido sobre o assunto), mas nunca havia visto uma discussão sobre a morte feita de modo ao mesmo tempo tão intensa, tão íntima e tão feliz - o feliz vai por conta da trilha sonora, e advém do trabalho dos dois protagonistas, que são cantores de música country americana. Na verdade, ele é vidrado nesse estilo de canção, o que acaba contagiando sua companheira. O filme tem nos cortes sua grande força, o que nos faz ir e vir continuamente ao passado e ao presente das situações vividas pelos personagens, de modo que as canções e as alegrias se mesclam aos momentos de perda, doença, dor, luto e morte sem grandes hiatos. Um filme que eu vi meio chorando, mas ao mesmo tempo num estado de espírito que se pode chamar de saltitante, com alguma liberdade, por causa das canções. E que achei muito bom.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Sínteses, filmes
Pensando alto sobre os filmes que vi na meia maratona do Rio, um pouco porque os queria ver, um pouco porque estar no ar condicionado era obrigatório, fica o seguinte:
1. Ninfomaníaca: pra mim, havia dois momentos distintos em termos de interesse - quando a Charlotte Gainsbourg aparecia contando sua história era chatíssima, o que salvava era o ouvido atento do personagem-pescador, o ótimo Stellan Skarsgard, que imprimiu uma dinâmica interessantíssima aos relatos cheios de culpa cristã da moça. Já quando a ação se voltava para o passado, em que se veem as travessuras sexuais da moça e sua amiga, as coisas ficam meio aquém do que o título sugere: o que vi foi menos maníacas, e mais ninfas inquietas com suas vidinhas bobas e fazendo do sexo uma forma de diversão e escape. As cenas finais talvez anunciem o que o filme tem a mostrar, porque até agora não me disse muito.
2. 12 anos de escravidão: filmes sobre holocausto e/ou sobre escravidão já foram quase todos feitos, e para emocionar e tocar o espectador precisa ser algo realmente novo. Aqui, a única coisa nova, segundo penso, foi o roteiro, porque nunca vira antes uma história sobre sequestro de homens negros livres vendidos como escravos - essa é uma das ignomínias que se denunciam no filme, dentre tantas outras. Mas ainda acho que o filme do Tarantino, Django livre, tem uma contribuição mais importante não apenas para o cinema, mas também para a causa da libertação - o homem branco no filme de Tarantino liberta o negro e o faz um igual no início da ação, de modo que o filme é sobre as aventuras em torno do tema da liberdade envolvendo os dois; já o escravo nesse filme leva doze anos para ser enfim libertado pelo homem branco que, não por acaso, é interpretado por Brad Pitt. As cenas grotescas, de açoites e chicotes e brancos desumanos já foram vistas, e nos cabe, no final, o mesmo papel de indignação face à inapelável e vergonhosa história nossa.
3. A grande beleza: não há ninguém, acredito, que não seja um adolescente, que não se tenha emocionado em algum momento com esse filme, que trabalha na esteira dos grandes filmes italianos, dos grandes clássicos e há essa travessia por momentos de uma vida que se exaure, e que exaure as possibilidades de brilho, de vivacidade - acho que os acima de sessenta entendem melhor, talvez, o travo um tanto amargo, talvez mais que irônico, que perpassa a voz desse personagem-narrador. Há uma curva mais adiante, mas ela não nos fechou ainda, então vivamos e tiremos da vida o melhor sabor que pudermos - se pudermos.
4. Philomena: filme de intérprete, para o brilho da sempre ótima Judi Dench. Eu gosto muitíssimo de ver essas grandes damas do cinema dando banho de talento, em filmes quase feitos para elas, adoro, talvez porque me sinta mais próxima delas agora. De todo modo, a história tem um lado politicamente correto, ao trazer essa mãe sem a mais leve sombra de preconceito ao saber que seu filho, já desaparecido, era gay e, mais que isso, inventa uma categoria engraçada na tentativa de achá-lo: bi-curioso, a propósito de uma moça que poderia tê-lo conhecido. Enfim, um filme divertido, que comenta criticamente o papel hipócrita e bajulador de ricos da Igreja que já conhecemos, carregado com galhardia pela Dench.
(continua)
1. Ninfomaníaca: pra mim, havia dois momentos distintos em termos de interesse - quando a Charlotte Gainsbourg aparecia contando sua história era chatíssima, o que salvava era o ouvido atento do personagem-pescador, o ótimo Stellan Skarsgard, que imprimiu uma dinâmica interessantíssima aos relatos cheios de culpa cristã da moça. Já quando a ação se voltava para o passado, em que se veem as travessuras sexuais da moça e sua amiga, as coisas ficam meio aquém do que o título sugere: o que vi foi menos maníacas, e mais ninfas inquietas com suas vidinhas bobas e fazendo do sexo uma forma de diversão e escape. As cenas finais talvez anunciem o que o filme tem a mostrar, porque até agora não me disse muito.
2. 12 anos de escravidão: filmes sobre holocausto e/ou sobre escravidão já foram quase todos feitos, e para emocionar e tocar o espectador precisa ser algo realmente novo. Aqui, a única coisa nova, segundo penso, foi o roteiro, porque nunca vira antes uma história sobre sequestro de homens negros livres vendidos como escravos - essa é uma das ignomínias que se denunciam no filme, dentre tantas outras. Mas ainda acho que o filme do Tarantino, Django livre, tem uma contribuição mais importante não apenas para o cinema, mas também para a causa da libertação - o homem branco no filme de Tarantino liberta o negro e o faz um igual no início da ação, de modo que o filme é sobre as aventuras em torno do tema da liberdade envolvendo os dois; já o escravo nesse filme leva doze anos para ser enfim libertado pelo homem branco que, não por acaso, é interpretado por Brad Pitt. As cenas grotescas, de açoites e chicotes e brancos desumanos já foram vistas, e nos cabe, no final, o mesmo papel de indignação face à inapelável e vergonhosa história nossa.
3. A grande beleza: não há ninguém, acredito, que não seja um adolescente, que não se tenha emocionado em algum momento com esse filme, que trabalha na esteira dos grandes filmes italianos, dos grandes clássicos e há essa travessia por momentos de uma vida que se exaure, e que exaure as possibilidades de brilho, de vivacidade - acho que os acima de sessenta entendem melhor, talvez, o travo um tanto amargo, talvez mais que irônico, que perpassa a voz desse personagem-narrador. Há uma curva mais adiante, mas ela não nos fechou ainda, então vivamos e tiremos da vida o melhor sabor que pudermos - se pudermos.
4. Philomena: filme de intérprete, para o brilho da sempre ótima Judi Dench. Eu gosto muitíssimo de ver essas grandes damas do cinema dando banho de talento, em filmes quase feitos para elas, adoro, talvez porque me sinta mais próxima delas agora. De todo modo, a história tem um lado politicamente correto, ao trazer essa mãe sem a mais leve sombra de preconceito ao saber que seu filho, já desaparecido, era gay e, mais que isso, inventa uma categoria engraçada na tentativa de achá-lo: bi-curioso, a propósito de uma moça que poderia tê-lo conhecido. Enfim, um filme divertido, que comenta criticamente o papel hipócrita e bajulador de ricos da Igreja que já conhecemos, carregado com galhardia pela Dench.
(continua)
sábado, 25 de janeiro de 2014
Flash words - e O lobo
***
Parece que vou precisar descobrir em breve sobre o que escrever neste blog, se quiser continuar mantendo esse diálogo virtualmente hipotético por aqui, já que não tenho visto mais sentido em escrever sobre: a) filmes; b) livros. Fechar a bodega também é uma hipótese, mas se não o fiz até agora, acho que continua.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Conversa de domingo
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Palermo shooting
Seguindo uma indicação de um amigo de amiga no facebook, fui dar num site excelente, que disponibiliza filmes inteiros, sem propaganda, sem material indesejado, só filmes em ótima transmissão. Espero ver vários, e o primeiro deles foi esse magnífico Palermo shooting, de Win Wenders (2008), com um ator interessantíssimo chamado Campino, que eu não conhecia mas que parece ser, ou ter sido, um artista meio cult; uma lindíssima atriz italiana, Giovanna Mezzogiorno; uma aparição rápida de Lou Reed; outra mais demorada da Milla Jovovich sendo ela mesma, e linda; e Dennis Hopper como a Morte, em momentos muito bons - de textos e interpretação.
Tudo no filme me interessou - a agilidade, quase feérica, em que vive imerso o fotógrafo, seu modo de trabalhar incansavelmente - acho que ele é obsessivo, no que somos aparentados; os deslocamentos pelos lugares, esse nomadismo, quando se exploram paisagens novas e sempre interessantes; o tema da morte, claro, em especial esse modo de personificá-la, que está também em Asas do desejo, o que faz com que ela, a morte, seja ao mesmo tempo intimidadora, por inescapável, e próxima a nós - tem a ver com uma visão aparentada com o mundo clássico, dos seres alados e mitológicos, mas ao mesmo tempo terrena, íntima, uma espécie de parente nosso, de que havíamos esquecido e reaparece inesperadamente - eu gosto muito do jeito como Wenders transita nesse mundo da morte, me sinto muito próxima de tudo.
E há o amor, a forma como esse homem vai-se deixando tocar pelo amor, pela vida em sua forma intensa, mas de outro modo - mais plena e comungante. Ele, que só conhecia o frenesi, passa a olhar e ver, não apenas fotografar, mas ver. O filme todo é bonito, tudo de que trata me interessa e gostei demais de ter visto.
Vale a pena conhecer o site onde fui encontrá-lo, onde há outros excelentes: http://www.cineclubecinemateca.com
Tudo no filme me interessou - a agilidade, quase feérica, em que vive imerso o fotógrafo, seu modo de trabalhar incansavelmente - acho que ele é obsessivo, no que somos aparentados; os deslocamentos pelos lugares, esse nomadismo, quando se exploram paisagens novas e sempre interessantes; o tema da morte, claro, em especial esse modo de personificá-la, que está também em Asas do desejo, o que faz com que ela, a morte, seja ao mesmo tempo intimidadora, por inescapável, e próxima a nós - tem a ver com uma visão aparentada com o mundo clássico, dos seres alados e mitológicos, mas ao mesmo tempo terrena, íntima, uma espécie de parente nosso, de que havíamos esquecido e reaparece inesperadamente - eu gosto muito do jeito como Wenders transita nesse mundo da morte, me sinto muito próxima de tudo.
E há o amor, a forma como esse homem vai-se deixando tocar pelo amor, pela vida em sua forma intensa, mas de outro modo - mais plena e comungante. Ele, que só conhecia o frenesi, passa a olhar e ver, não apenas fotografar, mas ver. O filme todo é bonito, tudo de que trata me interessa e gostei demais de ter visto.
Vale a pena conhecer o site onde fui encontrá-lo, onde há outros excelentes: http://www.cineclubecinemateca.com
domingo, 5 de janeiro de 2014
Álbum de família
Uma lavagem de roupa suja clássica entre membros de uma família, que se odeiam visceralmente, esse o núcleo dramático de Álbum de família (John Wells, 2013), em que brilha lá no alto a atuação magistral de Meryl Streep, em que pese alguns exageros de vez em quando - embora todos caibam no personagem, uma mãe em conversa com a morte, em razão de um câncer na boca, mas nem por isso disposta a fazer mea culpa do que quer que seja, ao contrário, irascível, meio louca pela dependência às drogas, odiando todo mundo, aí incluídas as filhas, que, por seu turno, têm pouquíssima compaixão por essa mãe em seu momento doloroso, mas dificílima de ser amada.
Trata-se de um filme de texto, longos diálogos cruéis e duros, entre todos os personagens, mas sobretudo entre essa mãe enlouquecida e suas três filhas, com destaque para a mais velha, Barbara, vivida por Julia Roberts, em seu primeiro filme com a 'grande dama'. Há duas cenas, ao menos, impagáveis: uma briga em que todos se envolvem e caem no chão, se batendo e debatendo, e uma cena em que Violet, a mãe, se embrenha no mato, correndo trôpega, vindo do funeral do marido, que se matara. O modo como todo seu corpo treme, de raiva e pela doença, impressiona. Ao longo da história, vemos uma matriarca demente que quer imperiosamente manter-se no poder e impor seu poder aos que a visitam, e já a abandonaram, tratando todo mundo de forma cruel e irônica, sobretudo Barbara, que se afastou dali há anos, e por isso torna-se a mais visada.
Trata-se de um filme poderoso, onde se ri eventualmente, porque em toda grande tragédia sempre há do que achar graça, mas é da solidão de todos os personagens, mesmo daqueles que estão em pares, da absoluta solidão de cada um de nós, que nos enxergamos em pedaços na tela, que fica a mensagem forte final.
Trata-se de um filme de texto, longos diálogos cruéis e duros, entre todos os personagens, mas sobretudo entre essa mãe enlouquecida e suas três filhas, com destaque para a mais velha, Barbara, vivida por Julia Roberts, em seu primeiro filme com a 'grande dama'. Há duas cenas, ao menos, impagáveis: uma briga em que todos se envolvem e caem no chão, se batendo e debatendo, e uma cena em que Violet, a mãe, se embrenha no mato, correndo trôpega, vindo do funeral do marido, que se matara. O modo como todo seu corpo treme, de raiva e pela doença, impressiona. Ao longo da história, vemos uma matriarca demente que quer imperiosamente manter-se no poder e impor seu poder aos que a visitam, e já a abandonaram, tratando todo mundo de forma cruel e irônica, sobretudo Barbara, que se afastou dali há anos, e por isso torna-se a mais visada.
Trata-se de um filme poderoso, onde se ri eventualmente, porque em toda grande tragédia sempre há do que achar graça, mas é da solidão de todos os personagens, mesmo daqueles que estão em pares, da absoluta solidão de cada um de nós, que nos enxergamos em pedaços na tela, que fica a mensagem forte final.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
A vida secreta de Walter Mitty
Não sei se por estar vivendo uma experiência nova em minha vida, numa fase não tão nova; ou se porque estou, nesse momento, meio em trânsito existencialmente, com as coisas que nos constituem em suspensão, em estado de espera, o fato é que achei A vida secreta de Walter Mitty (Ben Stiller, 2013) um filme sensacional - uma ode à imaginação, às transformações, à ousadia, ao cinema, sobretudo ao cinemão norte-americano, em seu melhor nível, aquele dos efeitos especiais, dos super poderes, mas também o cinema de invenção, de bons intérpretes e ótimas atuações; de mocinhos e causas nobres, valores altos e trabalhos dignamente realizados.
Além disso tudo, tem os atores perfeitos em seus papéis, do protagonista-diretor-produtor Ben Stiller, comovente em seu intento de fazer uma mega produção com alma, coragem e competência; à mãe, interessantíssima em sua cumplicidade com os filhos e seu bolo poderoso, vivida por Shirley MacLaine, uma lenda que se oferece ao espectador com generosidade e grandeza; à amada, eleita por Mitty, vivida com meiguice por Kristen Wiig.
E à homenagem ao cinema, ao grande cinemão de ação e sonhos, soma-se a homenagem à fotografia, ao jornalismo feito por gente grande, ética e profissional, representado pelo fotógrafo vivido - eu tenho que usar o adjetivo: magistralmente - por Sean Penn. Ele demora a aparecer, mas quando aparece (brevemente) sintetiza muito do que o filme pode significar, uma luz grande se abre em torno de tudo, ele mesmo está tão poderosamente belo, com suas rugas e sua sabedoria de intérprete, fazendo um personagem afeito a extremos, e a belezas extremas, que ficamos meio sem ar, com os dois lá no alto da montanha, tocaiando a beleza breve que passa em forma de tigre raro (e uma frase-anátema, algo como 'a beleza não tem pressa em mostrar-se'), e deixando-se viver o instante-aquele, no momento em que acontece: achei uma das cenas mais poderosas do filme, que condensa uma de suas fortes vertentes: a vida é aqui, e agora.
Um filme que nos faz querer mudar - o mundo, a vida, o destino, as vontades. Muito bom, e um prazer enorme de ver.
PS. Durante todo o filme, desejei ter feito parte da história do cinema deles, de ter estudado a sério o métier, de ter realizado alguma obra de peso e ter passado uma temporada aprendendo com os bons em boa Academia. Pensava em Sundance, talvez pela presença de MacLaine, ou seja, da própria história do cinema norte-americano, junto com seu irmão Warren Beatty. E em Robert Redford. Enfim, divagava.
Além disso tudo, tem os atores perfeitos em seus papéis, do protagonista-diretor-produtor Ben Stiller, comovente em seu intento de fazer uma mega produção com alma, coragem e competência; à mãe, interessantíssima em sua cumplicidade com os filhos e seu bolo poderoso, vivida por Shirley MacLaine, uma lenda que se oferece ao espectador com generosidade e grandeza; à amada, eleita por Mitty, vivida com meiguice por Kristen Wiig.
E à homenagem ao cinema, ao grande cinemão de ação e sonhos, soma-se a homenagem à fotografia, ao jornalismo feito por gente grande, ética e profissional, representado pelo fotógrafo vivido - eu tenho que usar o adjetivo: magistralmente - por Sean Penn. Ele demora a aparecer, mas quando aparece (brevemente) sintetiza muito do que o filme pode significar, uma luz grande se abre em torno de tudo, ele mesmo está tão poderosamente belo, com suas rugas e sua sabedoria de intérprete, fazendo um personagem afeito a extremos, e a belezas extremas, que ficamos meio sem ar, com os dois lá no alto da montanha, tocaiando a beleza breve que passa em forma de tigre raro (e uma frase-anátema, algo como 'a beleza não tem pressa em mostrar-se'), e deixando-se viver o instante-aquele, no momento em que acontece: achei uma das cenas mais poderosas do filme, que condensa uma de suas fortes vertentes: a vida é aqui, e agora.
Um filme que nos faz querer mudar - o mundo, a vida, o destino, as vontades. Muito bom, e um prazer enorme de ver.
PS. Durante todo o filme, desejei ter feito parte da história do cinema deles, de ter estudado a sério o métier, de ter realizado alguma obra de peso e ter passado uma temporada aprendendo com os bons em boa Academia. Pensava em Sundance, talvez pela presença de MacLaine, ou seja, da própria história do cinema norte-americano, junto com seu irmão Warren Beatty. E em Robert Redford. Enfim, divagava.
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