Não sei se por estar vivendo uma experiência nova em minha vida, numa fase não tão nova; ou se porque estou, nesse momento, meio em trânsito existencialmente, com as coisas que nos constituem em suspensão, em estado de espera, o fato é que achei A vida secreta de Walter Mitty (Ben Stiller, 2013) um filme sensacional - uma ode à imaginação, às transformações, à ousadia, ao cinema, sobretudo ao cinemão norte-americano, em seu melhor nível, aquele dos efeitos especiais, dos super poderes, mas também o cinema de invenção, de bons intérpretes e ótimas atuações; de mocinhos e causas nobres, valores altos e trabalhos dignamente realizados.
Além disso tudo, tem os atores perfeitos em seus papéis, do protagonista-diretor-produtor Ben Stiller, comovente em seu intento de fazer uma mega produção com alma, coragem e competência; à mãe, interessantíssima em sua cumplicidade com os filhos e seu bolo poderoso, vivida por Shirley MacLaine, uma lenda que se oferece ao espectador com generosidade e grandeza; à amada, eleita por Mitty, vivida com meiguice por Kristen Wiig.
E à homenagem ao cinema, ao grande cinemão de ação e sonhos, soma-se a homenagem à fotografia, ao jornalismo feito por gente grande, ética e profissional, representado pelo fotógrafo vivido - eu tenho que usar o adjetivo: magistralmente - por Sean Penn. Ele demora a aparecer, mas quando aparece (brevemente) sintetiza muito do que o filme pode significar, uma luz grande se abre em torno de tudo, ele mesmo está tão poderosamente belo, com suas rugas e sua sabedoria de intérprete, fazendo um personagem afeito a extremos, e a belezas extremas, que ficamos meio sem ar, com os dois lá no alto da montanha, tocaiando a beleza breve que passa em forma de tigre raro (e uma frase-anátema, algo como 'a beleza não tem pressa em mostrar-se'), e deixando-se viver o instante-aquele, no momento em que acontece: achei uma das cenas mais poderosas do filme, que condensa uma de suas fortes vertentes: a vida é aqui, e agora.
Um filme que nos faz querer mudar - o mundo, a vida, o destino, as vontades. Muito bom, e um prazer enorme de ver.
PS. Durante todo o filme, desejei ter feito parte da história do cinema deles, de ter estudado a sério o métier, de ter realizado alguma obra de peso e ter passado uma temporada aprendendo com os bons em boa Academia. Pensava em Sundance, talvez pela presença de MacLaine, ou seja, da própria história do cinema norte-americano, junto com seu irmão Warren Beatty. E em Robert Redford. Enfim, divagava.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
sábado, 21 de dezembro de 2013
It's raining cats and dogs
De qualquer modo, estou sentindo como se Iemanjá estivesse exageradamente me saudando, e me abençoando, e agradeço. Sei que as pessoas humildes e simples, que moram em áreas de risco, estão absolutamente desamparadas, perderam suas coisas e casas, precisam de ajuda, e o prefeito da cidade, o homem que deveria estar aqui para dar suporte e apoio e cumprir o dever para o qual foi eleito e ganha salário, viajou na quinta feira para Nova Iorque, para ver de perto a neve dos ricos.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Tá certo
Eu fico muito impressionada com o seguinte: sessenta e oito pessoas, até hoje, ou camundongos, ou dogs, ou frestas de janela ou porta entraram para ler ou passar os olhos ou sem querer esbarraram aqui na postagem sobre Azul é a cor mais quente. Nenhum ou nenhuma quis ou teve vontade ou se animou a dizer um simples: oi.
Tá certo.
Atualizando: cento e um fantasmas mudos em 28/12 - que coisa esquisita.
Tá certo.
Atualizando: cento e um fantasmas mudos em 28/12 - que coisa esquisita.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Indo e vindo
Indo para Vila Velha. Indo e vindo, parece que assim será. Outras plagas também estão nos planos. Planos andando.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Azul é a cor mais quente (com spoilers)
Sem sombra de dúvida é um filme corajoso, e longo - e excessivo, esse de Abdellatif Kechiche (2013), com a dupla Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, ambas fortemente empenhadas no projeto, como se verá nas telas. Uma história de amor, por um lado clássica, com direito a todos os capítulos que tais histórias comportam: paixão arrebatadora, sexo selvagem, enjoo momentâneo de uma das partes, traição por bobeira, abandono sem querer, abandono por escolha, choros e ranger de dentes. E, claro, cenas de sexo lésbico fortes, intensas, interessantes. Mas...
Primeiro, a personagem Adèle, a mais jovem, chora demais, e tem uma boca estranha, e um olhar excessivamente pedinte, e carente e... não dá, esse mundo dos excessos e intensidades das paixões, assim eviscerado ao olhar do espectador, não me pertence, minha sensibilidade enjoa daquele festim de intensidades desenfreadas, mesmo reconhecendo que está tudo certo, é assim mesmo, não se ama nesse tempo em tom menor. Já a personagem de Léa Seydoux, Emma, aparece mais contida, não apenas porque mais madura, mas porque é a parte que lhe toca na relação, e isso rende um personagem mais interessante a meu olhar - mais rico, mais bonito, mais forte, mais sabendo o que quer. Mas, não impede que - segundo -, algumas conversas soem datadas, figurando uma cultura tipicamente francesa no sentido mais artificial - citar Sartre, os papos sobre pintura, Klimt, Picasso etc, tudo meio solto, meio vago mas querendo engatar uma imagem ao mesmo tempo de palco um tanto ilustrado e de conversa-que-quer-impressionar-em-seus-começos, que meu olho captou como 'ai, que cansaço'.
De resto, achei mesmo cansativo todo o processo, e algumas falhas como o sumiço da família da jovem a partir da comemoração dos dezoito anos; ou a vocação irreprochável para o magistério que a atuação nega, no ar blasé com que a professora administra (mal) a aula e o ditado. Mas há cenas bonitas, claro, algumas excelentes mesmo - as de sexo, por exemplo, são, como direi - didáticas?; as de dança da moça que chora, mas que dança muito belamente; a cena no bar, ótima tentativa de retomada frustrada, embora o escorrido do nariz da jovem tenha me incomodado terrivelmente (aliás, o modo dela mastigar também); e a cena final, quando afinal ela sai da relação e engata outra marcha no passo de sua vida. Gostei muito que o rapaz não a tenha visto, que ela tenha seguido sozinha sem a companhia dele - de outro modo teria sido uma traição ao filme, acho.
****
E o texto me pareceu melhor.
Primeiro, a personagem Adèle, a mais jovem, chora demais, e tem uma boca estranha, e um olhar excessivamente pedinte, e carente e... não dá, esse mundo dos excessos e intensidades das paixões, assim eviscerado ao olhar do espectador, não me pertence, minha sensibilidade enjoa daquele festim de intensidades desenfreadas, mesmo reconhecendo que está tudo certo, é assim mesmo, não se ama nesse tempo em tom menor. Já a personagem de Léa Seydoux, Emma, aparece mais contida, não apenas porque mais madura, mas porque é a parte que lhe toca na relação, e isso rende um personagem mais interessante a meu olhar - mais rico, mais bonito, mais forte, mais sabendo o que quer. Mas, não impede que - segundo -, algumas conversas soem datadas, figurando uma cultura tipicamente francesa no sentido mais artificial - citar Sartre, os papos sobre pintura, Klimt, Picasso etc, tudo meio solto, meio vago mas querendo engatar uma imagem ao mesmo tempo de palco um tanto ilustrado e de conversa-que-quer-impressionar-em-seus-começos, que meu olho captou como 'ai, que cansaço'.
De resto, achei mesmo cansativo todo o processo, e algumas falhas como o sumiço da família da jovem a partir da comemoração dos dezoito anos; ou a vocação irreprochável para o magistério que a atuação nega, no ar blasé com que a professora administra (mal) a aula e o ditado. Mas há cenas bonitas, claro, algumas excelentes mesmo - as de sexo, por exemplo, são, como direi - didáticas?; as de dança da moça que chora, mas que dança muito belamente; a cena no bar, ótima tentativa de retomada frustrada, embora o escorrido do nariz da jovem tenha me incomodado terrivelmente (aliás, o modo dela mastigar também); e a cena final, quando afinal ela sai da relação e engata outra marcha no passo de sua vida. Gostei muito que o rapaz não a tenha visto, que ela tenha seguido sozinha sem a companhia dele - de outro modo teria sido uma traição ao filme, acho.
****
E o texto me pareceu melhor.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
O estranho caso de Angélica
Para Egídio
Menos do que sobre a morte de uma jovem, o filme explora a questão do olhar, da fotografia como elemento formal de conhecimento do mundo - além do protagonista ser fotógrafo por profissão (vivido pelo neto do cineasta, Ricardo Trepa), ele é também um homem obsedado por capturar instantes de vida através da lente, e quando ele fotografa o corpo inerte de uma jovem morta, durante a sessão de fotos ela abre os olhos e sorri para ele. A partir daí sua alma esvai-se, ele não tem mais domínio sobre si, nem sobre a realidade que o circunda - o que, afinal, caracteriza um dos estágios agudos da paixão.
Apaixonado pela figura bela e plácida que ele retrata, sua vida foge a seu controle, e apenas fotografar pode trazê-lo ao chão da vida: as fotos que faz dos homens trabalhando a terra resumem alguns temas primordiais aqui: fotografias realistas ao extremo, e belíssimas, assemellham-se a quadros da pintura clássica; a adesão irrestrita aos valores vigorosos de uma certa tradição do trabalho manual, do trabalho com a terra; a escuta dos cantos de trabalho, uma tradição rural que se apaga mais e mais com a velocidade das mudanças contemporâneas, e que Oliveira põe-nos a ouvir, em sintonia com uma paisagem deslumbrante das terras, das colinas, das árvores, dos casarões antigos (a igreja, a casa de chão rangente, martelando os passos dos vivos, onde habita a morta; a pensão, cujos aposentos ecoam ruídos estranhos durante a noite).
E há as conversas entre os hóspedes da pensão, conversas que beiram o non sense a princípio, mas que vão revelando uma ligação com o aspecto surreal que tomou a paixão do fotógrafo: a par dos voos noturnos do protagonista com sua amada, realizados em estado de transe hipnótico, os homens ao redor da mesa e a mulher brasileira, uma engenheira emérita vivida por Ana Maria Magalhães, entretêm uma dessas conversas estranhas, mas que, de algum modo, explica a um Isaac confuso e à beira da exaustão, a possibilidade quase real de haver um sentido para suas viagens noturnas com o, talvez, ectoplasma de sua amada morta. Ele ouve tudo de pé, afastado do grupo de hóspedes, como será sua postura em relação a eles todo o tempo - estranho ao cotidiano da casa, de certo modo estrangeiro ao mundo contemporâneo, de que se afastará mais e mais.
Um filme estranho, belo e difícil para o olhar acostumado à velocidade dos tempos atuais. Mas que nos deixa pregados diante da tela, imersos num mundo onde a beleza caminha de um modo original, e intransigentemente pessoal.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Thaise Diaz - poeta
De vez em quando um ex-aluno, ou mesmo alguém que não conheço, mas que leu alguma coisa minha, sobretudo a respeito de Hilda Hilst, escreve pedindo algum tipo de ajuda ou de orientação. Confesso que já havia esquecido o que eu teria feito por essa mestranda, Thaise, mas qual não foi minha surpresa ao receber, há algum tempo, esse belíssimo poema e um agradecimento. O que quer que eu tenha feito por ela, ou dito, sequer tangencia a beleza do gesto dessa moça, ou seu enorme talento para a forma poética.
O nome dela é Thaise Maria Diaz, uma professora que defendeu na Unimontes, em junho de 2012, a Dissertação de Mestrado "Agonia da carne: mística e erotismo em A obscena senhora D, de Hilda Hilst", que comecei a ler, encantada - o que não é comum de acontecer com trabalhos acadêmicos. Ela é não apenas ótima poeta, mas uma pensadora de primeira, e uma escritora rara.
Outro poema, também aqui.
____
Quando ele partiu
Quando ele partiu
O nome dela é Thaise Maria Diaz, uma professora que defendeu na Unimontes, em junho de 2012, a Dissertação de Mestrado "Agonia da carne: mística e erotismo em A obscena senhora D, de Hilda Hilst", que comecei a ler, encantada - o que não é comum de acontecer com trabalhos acadêmicos. Ela é não apenas ótima poeta, mas uma pensadora de primeira, e uma escritora rara.
Outro poema, também aqui.
____
Não soneto de despedida II
Para Vera Queiroz
Quando ele partiu
o dia amanhecera a nossa cara
As flores de Enrico Bianco
em total abandono
se abriam
Enquanto
Kazuo Ohno lindamente
para nós dançava
Quando ele partiu
Orides decretou a crueldade
dos signos e do amor
Quando ele partiu
não olhou para trás
Não disse adeus
ou algo mais
engoliu a frase tatuada em meu braço
E comeu sem cerimônia, o poema
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Capitão Phillips (com spoilers)
Eu nem vou dizer da minha frustração ao ver esse Capitão Phillips (Paul Greengrass, 2013), com Tom Hanks fazendo seu bom trabalho habitual, e Barkhad Abdi, o chefe do grupo de piratas inimigo - cuja atuação me pareceu uma das poucas coisas convincentes do filme, aliás o grupo somali me pareceu convincente em sua raiva, mas vou apenas enumerar uma ou duas coisinhas que percebi como absolutamente insatisfatórias:
1. um filme para os sócios do clube do Bolinha. Sim, eu sei que não há piratas somalis mulheres, até porque as mulheres somalis estão tentando escapar do genocídio que há anos grassa na região, e na tripulação de um navio cargueiro imenso tampouco cabem mulheres, parece. Bom, não importa, não há qualquer mulher atuando na tela, salvo uma esposa de Phillips em aparição relâmpago, que serve apenas para sublinhar o protagonista como homem-família;
2. um filme feito para o Tom Hanks posar de mocinho, muito bom moço mesmo, com uma postura humanitária louvável durante todos os acontecimentos envolvendo a invasão de seu navio: quando um dos invasores corta o pé nos cacos de vidro, ele se apieda de sua juventude desperdiçada; na proteção de sua tripulação; no jeito de pacificador que ele apresenta ao longo de todo o processo;
3. um filme surpreendentemente cheio de furos, ao tentar nos convencer, primeiro, de que um mega navio como aquele, com carga valendo milhões, não tem um grupo armado de proteção, não apenas contra piratas, mas contra qualquer outra ameaça; segundo, que quatro homens armados, mas muito frágeis fisicamente, controlem rapidamente um navio com uma tripulação de homens robustos e bem mais numerosa. Parece que esses personagens nunca viram um filme de Rambo, ou desconhecem que a indústria onde ele foi produzido investe rios de dinheiro na ideologia do 'justiceiro solitário'. Como ficaram todos tão de repente acuados e burrinhos, não me pareceu verossímel;
4. a tentativa de Hanks de escapar jogando-se ao mar, e sua posterior captura pelos 'bandidos' (parecem tão frágeis esses homens que chamar de bandidos soa quase como agressão), parece filme de Groucho Marx - é primária, patética e inconcebível que os homens daqueles navios de socorro norte-americanos, com todos os seus super equipamentos e radares e sonares e lunetas não tenham visto claramente e identificado o homem ao mar, nem podido atirar nos piratas, nem resgatá-lo, nem nada;
5. mais inconcebível ainda me pareceu que três navios de grande porte, além de um avião com vários soldados de elite, tenham ficado horas e horas à volta de um bote salva vidas ridiculamente pequeno, com os piratas e o capitão como refém, acuados todos pelas formiguinhas armadas. Não ficou convincente sob nenhuma hipótese o fato, verídico ou não, daqueles três portentos da marinha norte-americana terem tomado tamanha volta de três somalis famintos, mesmo que armados. Segundo a tradição de seu cinema, não teria sobrado nem pó pra contar a história se houvesse mais verossimilhança com sua própria tradição cinematográfica;
6. o resgate final de Hanks foi fácil, toda aquela lenga lenga de pontaria era só pra encher o saco e criar um pseudo suspense, e o filme alonga tal desenlace até o infinito da paciência do espectador. Eu levantei irritadíssima antes do fim, mas vi de pé a cena patética em que a médica do navio de resgate fala com ele, que aparenta estar aparvalhado e emocionado, chorando sem controle, como se tivesse acontecido um milagre, ou ele estivesse transtornado pela morte de seus captores. Muito, muito triste ver o Hanks fazer aquelas caras ridículas. Prefiro mil vezes vê-lo conversando com um coco, mas com convicção total.
6. a trilha é irritante, e existe para aumentar significativamente a tensão geral que o filme deveria criar, e só cria irritação. Em mim, pelo menos.
7. de onde veio aquele bonequinho aplaudindo o filme de pé que eu vi no jornal, e me levou, de certo modo, a ver o filme? Vergonha dos outros. O filme é mico. Micaço, até para os padrões da indústria deles nesse tipo de produção.
1. um filme para os sócios do clube do Bolinha. Sim, eu sei que não há piratas somalis mulheres, até porque as mulheres somalis estão tentando escapar do genocídio que há anos grassa na região, e na tripulação de um navio cargueiro imenso tampouco cabem mulheres, parece. Bom, não importa, não há qualquer mulher atuando na tela, salvo uma esposa de Phillips em aparição relâmpago, que serve apenas para sublinhar o protagonista como homem-família;
2. um filme feito para o Tom Hanks posar de mocinho, muito bom moço mesmo, com uma postura humanitária louvável durante todos os acontecimentos envolvendo a invasão de seu navio: quando um dos invasores corta o pé nos cacos de vidro, ele se apieda de sua juventude desperdiçada; na proteção de sua tripulação; no jeito de pacificador que ele apresenta ao longo de todo o processo;
3. um filme surpreendentemente cheio de furos, ao tentar nos convencer, primeiro, de que um mega navio como aquele, com carga valendo milhões, não tem um grupo armado de proteção, não apenas contra piratas, mas contra qualquer outra ameaça; segundo, que quatro homens armados, mas muito frágeis fisicamente, controlem rapidamente um navio com uma tripulação de homens robustos e bem mais numerosa. Parece que esses personagens nunca viram um filme de Rambo, ou desconhecem que a indústria onde ele foi produzido investe rios de dinheiro na ideologia do 'justiceiro solitário'. Como ficaram todos tão de repente acuados e burrinhos, não me pareceu verossímel;
4. a tentativa de Hanks de escapar jogando-se ao mar, e sua posterior captura pelos 'bandidos' (parecem tão frágeis esses homens que chamar de bandidos soa quase como agressão), parece filme de Groucho Marx - é primária, patética e inconcebível que os homens daqueles navios de socorro norte-americanos, com todos os seus super equipamentos e radares e sonares e lunetas não tenham visto claramente e identificado o homem ao mar, nem podido atirar nos piratas, nem resgatá-lo, nem nada;
5. mais inconcebível ainda me pareceu que três navios de grande porte, além de um avião com vários soldados de elite, tenham ficado horas e horas à volta de um bote salva vidas ridiculamente pequeno, com os piratas e o capitão como refém, acuados todos pelas formiguinhas armadas. Não ficou convincente sob nenhuma hipótese o fato, verídico ou não, daqueles três portentos da marinha norte-americana terem tomado tamanha volta de três somalis famintos, mesmo que armados. Segundo a tradição de seu cinema, não teria sobrado nem pó pra contar a história se houvesse mais verossimilhança com sua própria tradição cinematográfica;
6. o resgate final de Hanks foi fácil, toda aquela lenga lenga de pontaria era só pra encher o saco e criar um pseudo suspense, e o filme alonga tal desenlace até o infinito da paciência do espectador. Eu levantei irritadíssima antes do fim, mas vi de pé a cena patética em que a médica do navio de resgate fala com ele, que aparenta estar aparvalhado e emocionado, chorando sem controle, como se tivesse acontecido um milagre, ou ele estivesse transtornado pela morte de seus captores. Muito, muito triste ver o Hanks fazer aquelas caras ridículas. Prefiro mil vezes vê-lo conversando com um coco, mas com convicção total.
6. a trilha é irritante, e existe para aumentar significativamente a tensão geral que o filme deveria criar, e só cria irritação. Em mim, pelo menos.
7. de onde veio aquele bonequinho aplaudindo o filme de pé que eu vi no jornal, e me levou, de certo modo, a ver o filme? Vergonha dos outros. O filme é mico. Micaço, até para os padrões da indústria deles nesse tipo de produção.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Serra Pelada
Grande, excelente trabalho de Heitor Dhalia, esse Serra Pelada (2013), que parece ter levado vários anos para ficar pronto, e eu vi como um filme épico, trágico, violento, além de brasileiríssimo, nisso que retrata um episódio sem similar em nossa história: esse amontoado de trinta mil homens, em sua fase mais densamente povoada, em busca de ouro, tomados pela doença do ouro, do enriquecimento fácil e, para alguns, do poder a ferro e fogo.
Impressiona a recriação do garimpo, as forças que se criam em torno dele, movidas pelo poder do ouro, pela ambição desmesurada que vai nascendo a cada pepita encontrada. Os amigos se estranham, os aliados se matam para ocupar mais espaço, seja no garimpo, seja no coração das poucas mulheres belas, em meio a tantas que fervilham à caça de recompensas financeiras por sexo, num leilão em que ganha quem tem mais dinheiro e sabe matar mais rápido.
Além desse décor quase fantasmagórico e surreal, os atores principais, e os secundários também, estão ótimos, com destaque para Wagner Moura, (já vi aquela expressão quando diz a frase "e precisava chegar a isso?"), mas seu cinismo é perfeito, além da dupla Julio Andrade e Juliano Cazarré, que praticamente carregam o filme, muito bons ambos. Matheus Nachtergaele fica menos tempo em cena, e convence um pouco menos como o terror do pedaço; Sophie Charlotte dá conta da mulher linda e sexy disputada a bala pelos amantes, que ganha alforria depois de muito sofrer.
A trilha sonora acompanha a barranqueira geral, e faz todo sentido naquele mundo de prostíbulos, de gosto pelo brega e pelo sertanejo. Não tendo eu a menor paciência para esse universo musical (só faço turismo de barco pelo Nordeste com protetor de ouvido), aqui essa referência musicial torna-se muito atraente e sensual, com aquele monte de gente suada e colada feito abelha em colmeia. Vendo pelo olhar da câmera, dá até pra bater pezinho no ritmo. Por tudo, um filmaço, que merece muito ser visto.
Impressiona a recriação do garimpo, as forças que se criam em torno dele, movidas pelo poder do ouro, pela ambição desmesurada que vai nascendo a cada pepita encontrada. Os amigos se estranham, os aliados se matam para ocupar mais espaço, seja no garimpo, seja no coração das poucas mulheres belas, em meio a tantas que fervilham à caça de recompensas financeiras por sexo, num leilão em que ganha quem tem mais dinheiro e sabe matar mais rápido.
Além desse décor quase fantasmagórico e surreal, os atores principais, e os secundários também, estão ótimos, com destaque para Wagner Moura, (já vi aquela expressão quando diz a frase "e precisava chegar a isso?"), mas seu cinismo é perfeito, além da dupla Julio Andrade e Juliano Cazarré, que praticamente carregam o filme, muito bons ambos. Matheus Nachtergaele fica menos tempo em cena, e convence um pouco menos como o terror do pedaço; Sophie Charlotte dá conta da mulher linda e sexy disputada a bala pelos amantes, que ganha alforria depois de muito sofrer.
A trilha sonora acompanha a barranqueira geral, e faz todo sentido naquele mundo de prostíbulos, de gosto pelo brega e pelo sertanejo. Não tendo eu a menor paciência para esse universo musical (só faço turismo de barco pelo Nordeste com protetor de ouvido), aqui essa referência musicial torna-se muito atraente e sensual, com aquele monte de gente suada e colada feito abelha em colmeia. Vendo pelo olhar da câmera, dá até pra bater pezinho no ritmo. Por tudo, um filmaço, que merece muito ser visto.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Apenas o vento
Filme difícil de assistir por sua contundência ao mostrar episódios de extermínio de pessoas de origem cigana na Hungria, ocorridos entre 2008 e 2009, Apenas o vento (Bence Fliegauf, 2012) já está em cartaz há bastante tempo, e só agora pude entender a razão de sua longevidade no circuito - sua qualidade fílmica e de denúncia, sem ser em momento algum panfletário.
Tendo como referência o mote do andarilho, como são reconhecidos os ciganos, o filme acompanha de perto, muitas vezes em closes intensos, como esse da belíssima personagem adolescente (Gyöngyi Lendvai), as idas e vindas da mãe, vivida por Katalin Toldi, do filho, um expressivo e intenso Lajos Sárkány, todos indo pra lá e pra cá, em caminhos sem rumo, como os do filho, mas atento a tudo e a todos, sentindo no ar o que está por vir; indo e vindo da escola, no caso da filha, ou a caminho dos vários empregos, como faz a mãe.
Um dos aspectos mais impactantes do filme é a violência contumaz contra um povo, a contínua sensação de se estar acuado, acossado por uma foice que sentimos cairá a qualquer momento, sobre qualquer uma daquelas cabeças, que não tem de quem se valer. Daí a solidão absurda desses seres, o deambular constante, como feras acuadas, de que são emblemáticos a mãe, fortíssima em sua expressão de medo contido, e o menino, que caminha a esmo tentando sentir-se seguro em algum canto - até achar um canto real como refúgio, no meio do mato - mas até essa gruta será descoberta por alguém, ainda que amigo.
O filme nos deixa atônitos, com dó de todos nós, que vivemos esses tempos de barbárie e, de certo modo, nos torna cúmplices por omissão dos crimes cometidos por nosso semelhante, contra nossos irmãos. Minha mãe, uma senhora muito simples, tem uma frase que considero um ensinamento profundo: ninguém deve sentir-se sozinho no mundo, porque todo vivente é filho de Deus e, portanto, é meu irmão. No limite, para o bem e para o mal.
Tendo como referência o mote do andarilho, como são reconhecidos os ciganos, o filme acompanha de perto, muitas vezes em closes intensos, como esse da belíssima personagem adolescente (Gyöngyi Lendvai), as idas e vindas da mãe, vivida por Katalin Toldi, do filho, um expressivo e intenso Lajos Sárkány, todos indo pra lá e pra cá, em caminhos sem rumo, como os do filho, mas atento a tudo e a todos, sentindo no ar o que está por vir; indo e vindo da escola, no caso da filha, ou a caminho dos vários empregos, como faz a mãe.
Um dos aspectos mais impactantes do filme é a violência contumaz contra um povo, a contínua sensação de se estar acuado, acossado por uma foice que sentimos cairá a qualquer momento, sobre qualquer uma daquelas cabeças, que não tem de quem se valer. Daí a solidão absurda desses seres, o deambular constante, como feras acuadas, de que são emblemáticos a mãe, fortíssima em sua expressão de medo contido, e o menino, que caminha a esmo tentando sentir-se seguro em algum canto - até achar um canto real como refúgio, no meio do mato - mas até essa gruta será descoberta por alguém, ainda que amigo.
O filme nos deixa atônitos, com dó de todos nós, que vivemos esses tempos de barbárie e, de certo modo, nos torna cúmplices por omissão dos crimes cometidos por nosso semelhante, contra nossos irmãos. Minha mãe, uma senhora muito simples, tem uma frase que considero um ensinamento profundo: ninguém deve sentir-se sozinho no mundo, porque todo vivente é filho de Deus e, portanto, é meu irmão. No limite, para o bem e para o mal.
Assinar:
Postagens (Atom)






