quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Downton Abbey - chovendo no molhado, mas como não fazê-lo

Ao final da terceira temporada de Downton Abbey, a última exibida aqui no Brasil, já me sinto órfã daqueles seres com quem convivi intensamente nas últimas duas semanas. E embora tudo já tenha sido dito a respeito dessa magnífica série, não resisto e deixo aqui minhas impressões.

Na segunda temporada os acontecimentos fluem velozmente em torno da Primeira Guerra Mundial, o casarão-quase-castelo virando uma espécie de clínica para convalescentes graduados, feridos em batalhas, e a aristocracia inglesa, e seu reverso axial, os serviçais, tentam adequar-se aos estranhos e sofridos novos hóspedes.

Matthew ficar paralítico e recobrar mais à frente todos os movimentos me pareceu uma homenagem aos dramalhões que imperavam nos antigos filmes de guerra, quando havia quase sempre um paralítico que voltava ao lar e à esposa metade do homem que partira – sem braços, ou pernas. Mas, para sorte do casal de protagonistas pelo qual todos torcemos, não apenas Matthew volta a andar, mas recupera também sua potência sexual, além de acontecer a morte da noiva meio sem graça, mas muito rica, pela gripe espanhola, que, aliás, quase leva também a condessa Cora Crawley, que quase não sobrevive.

De todo modo, um trabalho como esse esconde pepitas de ouro nos detalhes, além de constituir um painel vivo e interessantíssimo dos começos do que somos hoje: nós, mulheres emancipadas, feministas e com direitos civis assegurados; nós, cidadãos que lutamos a duras penas para manter e aumentar os direitos à igualdade das minorias sexuais e sociais, que no começo do século passado ainda são criminalizadas, como talvez ainda o sejam hoje em vários países e continentes; nós, os que lutamos para tornar livres homens e países tanto da escravidão individual, quanto da dependência servil, embora nem toda forma de colonização tenha sido extinta ainda; nós, por fim, que já conseguimos enxergar formas novas na constituição das famílias, além do núcleo pai-mãe-filho biológicos, vemos na série alguns ramos desse vasto tronco de uma árvore que ainda cresce, que ainda amadurece seus frutos, de modo que o afeto seja o laço a unir quem se procura, ou se deseja.

No núcleo dos serviçais há um vigor intenso, e ali travam-se algumas das batalhas mais visíveis do que aqui se mencionou. Uma delas por um dos personagens mais interessantes da história, o criado Rob James, que vai mudando de um ser humano quase abjeto, em sua mesquinharia, intensificada por sua parceria com Siobha, criada da condessa e, por essa função, detentora de um certo poder sobre os outros. Os dois serão aliados nas duas primeiras temporadas, mas as vidas e as situações se complexificam e tanto ele, quanto ela, adquirem uma densidade outra.

Ele, sobretudo, me tocou especialmente, porque seu erotismo voltado para homens o criminaliza, e não há o que ele possa fazer nesse sentido. A série mostra de modo muito claro, e muito simples ao mesmo tempo, o que significa ser diferente da maioria no terreno sexual, tendo que ser o que se é e ao mesmo tempo controlar os impulsos mais básicos, mais urgentes, sob pena de denúncia, exclusão e mesmo prisão. Ou seja, o tesão já matou, e não está tão distante esse tempo de nós como gostaríamos de acreditar, e como seria justo desejar.

Para as mulheres, igualmente, a série tem-se mostrado riquíssima no modo como apresenta os movimentos das filhas do conde de Granthan em direção a espaços mais amplos socialmente, sobretudo a mais nova, Sybil, e a do meio, Edith. Uma apaixona-se aos poucos pelas ideias de emancipação feminina, empenha-se na luta pelo voto da mulher, e acaba por ouvir, com a mente e o coração atentos, o que o chofer da família tem a dizer sobre direitos civis, liberdade e um nascente socialismo – apaixona-se pelas ideais, e pelo autor delas.

A outra, a mais jovem, essa de algum modo terá que cavar seu lugar num mundo novo que se inicia, a partir dos escombros das velhs ideias que teimam em cruzar seu caminho, e barrar suas escolhas. É sobretudo amorosamente que ela paga preços além do que deveria, mas nesse momento da série parece que ela começa a compreender sua própria força, e seu valor. Ela é muito especial, porque se constitui nesse entrelugar de várias coisas, de várias situações, pessoais e sociais. Por isso vai precisar empreender uma conquista de si mesma, de alguém que se constrói a partir de um novo modelo de mulher, de esposa, de filha, de profissional, de tudo. E também porque ela é a mais comum das três – não tem uma beleza excepcional, nem uma inteligência brilhante. Mas tem um talento especial e, nesse momento, esse será seu salvo conduto rumo ao controle de sua vida: ela sabe escrever.

O abutre, Dan Gilroy

O abutre. Dan Gilroy, 2014. Nota 9

O filme vai adquirindo força e interesse à medida que cresce a voracidade do personagem Louis Bloom, na magnífica interpretação de Jake Gyllenhaal, que vai num crescendo a partir do momento em que conhece Nina Romina (Rene Russo), diretora de jornal televisivo que primeiro percebe o notável faro daquele iniciante para as notícias pingando sangue, que alavancam a audiência, salvam sua carreira em franco descenso e levam o rapaz ao lugar que ele planejou para si, milímetro por milímetro. Para tanto, vai-se tornando o olho que registra os fatos mais grotescos, mais violentos, mais vis - um olho indiferente, que não se emociona, que só quer o registro do negror, o que aquilo pode render, o que trará audiência, o que lhe dará uma carreira.

O mais impressionante na atuação de Jake é a passagem que ele faz entre o jovem aspirante a qualquer coisa que possa lhe render algum trocado, a descoberta dessa forma de ganhar dinheiro e como ele vai-se adequando ao novo nicho, como ele vai ficando à vontade ao descobrir-se ali, num caminho tão sem querer encontrado, e tão fissuradamente percorrido.

Sim, porque Jake não adquire uma profissão, mas um vício: é preciso ir lá dentro do corpo dilacerado do outro, é preciso filmar mais perto, pelo avesso, mais fundo - na verdade, por que esperar que o acidente aconteça, por que não fazê-lo acontecer e filmá-lo no instante-já de sua acontecência? Trair o ajudante e filmar sua morte será apenas parte do percurso, um dos altos momentos de sua carreira. E a caracterização do ator, com os olhos esbugalhados, a magreza que ressalta ainda mais a expressão faminta, tudo nele, nessa máscara que ele cria, merece aplauso, e os prêmios que vierem.

A família Bélier

A família Bélier. Eric Lartigau, 2014. Nota 8,8

Impliquei um pouco com o filme por causa do ator, que tenho visto em quase todos os filmes franceses recentes. Mas fui capturada pela força de suas interpretações - Karin Viard, a mãe; François Damiens, o pai; e Louane Emera, a filha. Numa família em que todos são mudos, só a jovem filha fala, daí porque assumirá o papel de intérprete para os outros membros – filho menor, pai, mãe. Não apenas nas transações comerciais oriundas das vendas da fazenda, onde moram e trabalham, mas nas mais inusitadas situações – a da consulta ao ginecologista será apenas a mais engraçada.

Os atores fazem um trabalho extraordinário, expressando muitas e intensas emoções sem falar, utilizando o corpo (ela, um belo corpo, que aparece sublinhado), as mãos, os olhos, gestos, e a língua dos sinais. Acredito que não tenha sido fácil para eles aprender a se expressar, nesse nível, usando tal linguagem. Por outro lado, tal desafio para um ator pode ser muito enriquecedor, ou um fiasco completo. Aqui, todo o elenco saiu-se muitíssimo bem, e não sentimos falta de linguagem, até porque a certa altura a história da jovem assume a primazia, e passamos todos a torcer para que consiga fazer seu teste de canto em Paris.

E sua voz belíssima, a canção meio sentimental que interpreta, incorporando os pais em sua performance, deixam no espectador uma sensação boa, de que tudo pode, afinal, dar certo.

Brincante, Walter Carvalho

Brincante. Walter Carvalho, 2014. Nota 9

Brincante me comoveu em vários momentos, em sua proposta de apresentar o universo cultural de Antonio Nóbrega, esse artista originalíssimo, cujo trabalho envolve pesquisa etnográfica, resgate de canções e danças folclóricas de várias regiões do país, sobre cujas bases ele aporta novas inflexões e intensidades. É muito bonito ver o encontro de seu trabalho com a herança de Mário de Andrade, em que se identifica um par à altura, num filme belissimamente fotografado, não fora o diretor um de nossos melhores talentos nesse campo.

O filme compõe-se de esquetes pontuados tanto pela figura do personagem Tonheta, como pelo percurso do casal num caminhão, no qual carregam circo e fantasia pelo sertão adentro. Simultaneamente no interior do país, de onde retira a matéria prima de sua reflexão sobre a arte, e também ocupando espaços heterogêneos dentro da grande metrópole, Nóbrega passeia sua dança e sua arte pelos quatros cantos, imprimindo força, energia e intensa beleza a cada momento, em cada movimento.

Uma das inúmeras alegrias do espectador é ver como os jovens de seu Instituto dançam bem, como são intensos, viscerais, energéticos, tomando o frevo com experiência local para reinterpretá-lo e expandi-lo como dança contemporânea e universal. Se o frevo tem essa dimensão de pontuar um lugar cultural, em sua força centrífuga, será entretanto um extraordinário número de dança quase extática a condensar uma das vertentes dramáticas fundantes de uma estética que talvez se possa chamar "do árido" e "do seco", metáforas de um sertão que também compõe o universo de que se nutre a arte empenhada de Nóbrega.

O número apresenta homens e mulheres literalmente nascendo da terra e do barro, movendo-se lentamente cobertos por areia, contorcendo-se numa dança quase liturgia, à maneira dos poemas sobre o rio, de João Cabral de Melo Neto, como se lê nesse excerto de O cão sem plumas: "Aquele rio ... / Sabia dos caranguejos / de lodo e ferrugem. // Sabia da lama / como de uma mucosa. / Devia saber dos povos."

Um filme imprescindível para nos conhecermos - longe das selfies de pura vaidade, compõe um de nossos melhores retratos, e um dos mais expressivos momentos de nosso cinema.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Ida e volta

Cheguei em Vila Velha ano passado nesse mês de dezembro. Ia tangida pela opressão das obrigações familiares, sufocada por responsabilidades que não deveriam ter sido assumidas tão radicalmente, mas de que não havia como fugir - quando se trata de mãe, e de desamparo, não abandono. E sou de abandonar - abandono fácil lugares, cidades, pessoas que deixaram de me dizer alguma coisa. Mas não os desamparados, os sob minha guarda ou que dependem de mim. O problema ainda parece ser encontrar os limites, sempre tive dificuldades com os limites.

De todo modo, parece ser hora de voltar, e essa não é uma decisão fácil, porque não sou do time do "Rio, eu te amo" incondicional, sou das que veem uma das mais belas cidades do mundo imersa numa crise estrutural, onde a cultura passeia de mãos dadas com os desmandos, a crise de valores geral que assola o país, e os governantes. Uma cidade tomada pela especulação, sobretudo imobiliária; uma cidade difícil de ser abandonada, porque o que resta da família, a mãe sobretudo, que está no fim de sua vida difícil e atribulada, não arreda pé daqui, não abre mão da beleza que salta à vista. 


Ela não vê os problemas, não enxerga nada que não seja uma história de emancipação, de superação da pobreza pelo trabalho árduo, de sobrevivência com dignidade e liberdade, um tipo de conquista para uma mulher viúva e sozinha que, penso, só uma grande metrópole, como o Rio, poderia assegurar-lhe. Se se somar a esse gigantesco passo individual uma beleza deslumbrante, amizades construídas, espaços conquistados, entende-se perfeitamente que ela tenha fincado os pés, e a alma, nesta cidade, onde já comprou há décadas o jazigo final - uma transação inegociável, inadiável, irremovível. 

Agora, resta montar o quebra-cabeças dessa volta. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros atravessa as estrelas

Para não esquecer.

Poeta Lucia encontra poeta Manoel - e nós lemos as estrelas com que ambos povoam nossa parca existência com palavras-pirilampos. Nenhum poeta morre jamais.

Paulinho Assunção adicionou 2 novas fotos.
[LUCIA CASTELLO BRANCO: "PASSARINHO DESAPARECEU DE CANTAR"]
Só hoje soube, Manoel, que você já estava de partida. Acho que quem primeiro me avisou foi o silêncio em torno da manhã. Depois, meu coração ficou vazio e pensei: “um lápis sobre a península”. A imagem me pareceu sozinha e eu me lembrei daquela estrada, aquela que é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.
Pensei no seu livro que nunca foi publicado: “Nossa Senhora da Minha Escuridão”. E tive saudades do menino que me deu de presente a metade do título de um livro impublicável. Como me deu, no mais generoso dos gestos, sua letrinha miúda, em tantas cartas, em tantas pequenas confissões.
Pensei na menina que foi a seu encontro depois de dez anos de “nunca te vi, sempre te amei”. E no seu sorriso largo, ao me dizer: “sua alma também é linda”. E lembrei do seixo que te servia de bengala para caminhar. E do livro de Francis Ponge, deixado sobre a mesa de cabeceira. E das doses de uísque, nas conversas sobre poesia. E daquela frase, que nunca vou esquecer: “Agora tu vais ter que perder a tua melancolia”.
Mas foi também você quem me disse, citando Cioran, que, “num mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar”. E agora, Manoel, o que faço ao te ver assim, lá do alto, soprando minha melancolia de suas alturas de urubuir?
Queria estar ao pé da sua cama, no hospital, para te ler poemas. Os seus, de preferência. Assim eu começaria: “Sobre meu corpo se deitou a noite”. E seria, para os seus sonhos, o colchão de espumas. Mas fico aqui, de tão longe tão perto, imaginando que você dorme sobre a poesia e que ela, para sempre, há de te embalar. Ela, estrela maior – Stella – a velar o poeta.
Enquanto você dorme, Manoel, eu acordo a madrugada. Tenho vontade de gritar: “Ouçam, há um ruído na espessura do silêncio, um rasgão a anunciar uma era sem palavras”. E logo penso que o meu sabiá com trevas não suportaria tamanha estridência. Então me calo e ouço baixinho a sua voz: “Deixe, deixe, meu amor, tudo vai acabar. A gente vai desaparecendo que nem Carlitos no final da estrada. Deixe, deixe, meu amor”.
Lucia Castello Branco


sábado, 8 de novembro de 2014

Alcir Pécora - sobre a não-escrita necessária

Alcir Pécora escreveu nessa data, no site de crítica citado, um texto magnífico que eu necessito deixar aqui transcrito para me lembrar no futuro, quando achar que não fiz nada da minha vida porque faltou escrever a sério alguma coisa no campo da ficção. Só posso agradecer porque seus olhos e palavras me disseram o óbvio que, por ser óbvio, eu não via: não é, não foi, não será necessário. Se o fosse, já teria sido.

Sublinhei o que mais me tocou.


O inconfessável: escrever não é preciso


.

fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil. Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do não-fazer
(O Artista Inconfessável. Museu de Tudo, 1975, João Cabral, adulterado)


.
1. Ao contrário do que usualmente se supõe, a passagem dos anos não tem obrigação nenhuma de revelar algum grande autor ou mesmo um autor apenas razoavelmente bom. A regra estava valendo para o passado que revelou tantos autores extraordinários, quanto vale para os próximos cem ou mil anos, que talvez nunca vejam nenhum outro, assim como podem ver centenas deles. Se grandes autores apareceram com regularidade, ou aparecerão da mesma forma, isto são contingências, não necessidade ou decorrência lógica de um conjunto quantitativo sempre crescente de escritos.
2. Antologias de autores promissores ou novos lançamentos de escritores contemporâneos não cessam de aparecer, por piores que sejam eles. Alguns são jovens, outros são célebres, outros são simples amigos do editor: qualquer coisa basta. Por isso mesmo, nada é suficiente como critério de edição, e o publicado basicamente ajuda a encobrir a percepção evidente de que não há nada de relevante sendo escrito, e nem mesmo há indícios de que essa relevância possa ser descoberta outra vez no domínio da literatura.
3. Não parece haver nada relevante sendo escrito, e esta é a mais provável razão desse poço, desse mar de coisa escrita.
4. A suposta necessidade de aparecimento de novos grandes autores é, no melhor dos casos, apenas uma reação contra a situação de contingência radical que é a nossa. Nada garante, entretanto, que, no futuro, leremos algum novo grande autor, a despeito de todos os grandes que existiram antes. A despeito mesmo da probabilidade amigável de que, num mundo sem fim, algum escritor decente se ponha de pé, e ande, assim como num mundo de macacos há boa probabilidade de que um deles possa tomar um desvio inesperado em sua evolução e virar homem.
5. Probabilidade, mesmo uma boa probabilidade, não é necessidade, mas apenas média projetada de eventos. Resulta, portanto, que um grande autor é o resultado imponderável de um conjunto de circunstâncias e ocorrências inesperadas sem qualquer garantia de repetição de seus termos de existência.
6. A suposta necessidade, já agora como hipótese medianamente ruim, se apresenta como um efeito psicológico primário associado a uma estratégia usual de mercado que finge lançar novos produtos “definitivos” a cada dia. Isto posto, é certo que nenhum crime contra-natura foi cometido, quando se percebe como são poucos os escritores brasileiros surgidos nos últimos 30 anos a que se poderia aplicar a categoria de autor a sério.
7. Agora, na pior das hipóteses possíveis, as publicações de novos bem como as novas publicações, salvo raríssimas e imponderáveis exceções, nascem da crença efetiva de que eles tenham realmente qualidades de grande autor. Evidentemente, há pouco a fazer em casos assim. Pode-se, por exemplo, tentar falar mal da antologia ou dos autores em questão, mas não há a menor chance de que eles não se julguem perseguidos pessoalmente por um crítico desonesto e mau-caráter. Um ou outro (os melhores deles), com muita sorte, deixarão de escrever, mas a maioria absoluta – ao menos enquanto continuar sem sucesso – tratará apenas de aumentar a cumplicidade e a camaradagem que guarda entre si (cf. Leopardi,Pensieri: il mondo è una lega di birbanti contro gli uomini da bene).
8. Se me perguntarem o que imagino definir a seriedade de um escritor, o que me vem primeiro à cabeça é justamente a ideia de alguém que busca resistir à vulgarização do escrito. Isto é, penso em alguém que admite, mesmo contra o seu mais íntimo desejo e a sua mais teimosa vontade, que absolutamente nada o obriga a escrever, a não ser uma falácia lógica tomada como falso imperativo de cultura.
9. Uma vez que seja assim, o escritor sério deve pensar mil vezes antes de se pôr a escrever. De preferência, como efeito de ter pensado seriamente no assunto, deve inclinar-se a não fazê-lo. Não admira, deste ponto de vista, que um pensador sério como Giorgio Agamben, imagine que Bartleby, o escrivão que se recusa a escrever, seja o melhor exemplo de um escritor que conhece a sua contingência e não abusa de sua condição fazendo o que faria melhor desde que não o fizesse. Quer dizer, quanto melhor fosse potencialmente o escritor, menos poderia sê-lo em ato, por absoluto pudor de tornar-se apenas um cotejador e copiador de uma montanha de outros escritos, já produzidos, sem senso nem motivo a não ser o de girar a própria engrenagem burocrática de escrever.
10. Mas não precisamos chegar à inteligência superior de Bartleby ou àquela que o criou, ele mesmo personagem de uma obra-prima altamente improvável. Se escrever não é preciso, alguma autocrítica não faria mal ao aspirante de escritor ou ao escritor de ofício. Ao contrário, faria um bem enorme, a ele e a nós. Luis Antonio Verney, homem de não poucas luzes, insistia em que o pretendente talvez fosse mais útil, ou menos irrelevante, trabalhando com rigor em alguma outra coisa mais à medida de seu talento, que fosse igualmente mais útil à república.
11. Se escrever não é preciso, devemos absolutamente concordar com Horácio quando nos diz que não é razoável retirar do poço os escritores que tiverem o bom senso de se atirar lá, fingindo inspiração ou loucura. Simplesmente não é civil salvar escritores da morte prematura.
12. Pessoalmente, por incorrigível vezo de criação católica, sugeriria aos jovens pretendentes que, se não têm um poço por perto, tentassem antes a vida como copydesk, ou como tradutor de algum texto de escritor reconhecidamente superior de outros tempos e lugares (se bem que, muito provavelmente, neste caso, eles acabariam por arrastá-lo para a mediocridade em que vivem), ou mesmo, em último caso – mas último caso mesmo –, que puxassem o saco de alguém que lhes descolasse alguns trabalhinhos free lance numa página de cultura ou numa editora mainstream.
13. Quaisquer dessas atividades modestas — mas não baixas, pois apenas puxar o saco é verdadeiramente baixo, embora não tanto quanto escrever porcamente (cf. Bernardo Soares e o horror dos aleijões da página mal escrita) –, além de tantas outras atividades verdadeiramente medíocres que podemos imaginar, valem muito mais a pena do que escrever, tanto em termos públicos quanto pessoais. Ao menos, são atividades seguramente menos irritantes para os outros, obrigados (por educação ou por sentimento cristão) a ler tanta irrelevância escrita. Mas deixar de escrever, sobretudo, será (seria) um enorme alívio para o próprio pretendente a escritor, que se livraria do fardo de afetar um talento que não possui e de ter de se expor continuamente à crítica de algum detrator malvado.
14. Enfim, não adianta disfarçar, escrever, em geral, é apenas deixar-se arrastar pela maré dos lugares comuns sub-letrados. É anunciar mais cedo a própria inexistência, a própria morte irreparável como autor. Publish and Perish, disse muito propriamente Marjorie Perloff.
15. Paradoxalmente, uma maneira de adiar a compreensão simples da absoluta não necessidade de escrever é pretender humildemente que escrever seja justamente apenas mais uma atividade entre outras, e o escritor, alma singela, apenas mais um homem comum, por mais coquette que se apresente em seus gestos e maneiras.
16. Chamo a isso especificamente “pretensão” e não, por exemplo, “desejo”, porque não há um só sujeito, que afirme que escrever seja uma coisa qualquer, que saiba também tirar a consequência óbvia dessa afirmação: a de que seja uma atividade tonta, indiferente e desprovida de valor pessoal ou público como a maioria absoluta de todas as outras atividades comuns e quaisquer.
17. Se não se tratasse de pura afetação arrivista, o escritor pretendente a gente comum teria de concluir que a inserção da literatura no patamar da vida média se traduz como uma simples rotina, um automatismo, cujo pressuposto (necessário, portanto) é apenas a adesão ao lugar comum. Enquanto tal, é basicamente forma de alienação da vontade própria em favor, digamos, do ganha-pão, o que definitivamente nada tem a ver com um projeto de criação artística, autocriação pessoal ou intervenção pública através da literatura produzida.
18. A consequência, pois, da pretensão da escrita como atividade ordinária é a de que escrever não apenas não constitui autores, enquanto criadores, como, ao contrário, submete-os rapidamente ao movimento da prática tosca e maquinal de reprodução do mundo no estado de merda no qual existe.
19. Esse maquinismo fabril-escriturário tem como desfecho infeliz um mar de escritos. Nessas circunstâncias, que papel feio não fazem os escritores! Para fazer deles uma imagem apenas ruim e não odiosa, teríamos de vê-los como um amontoado de corpos devolvidos à praia, pois, como alertava o quinhentista Bernardim Ribeiro, o mar não sofre coisa morta.
20. Na praia inglória, findam sobretudo jovens escritores, novas promessas, futuros talentos. De modo algum, entretanto, devemos nos comover, pelo mesmo motivo que repreendia Virgílio a Dante, enquanto observavam os sofrimentos dos precitos: é simplesmente justo. Ademais, não faz a menor diferença para nós: juventude, novidade e futuro são apenas faces simpáticas do mesmo engano que dissolve a qualificação ou a excelência do autor na banalidade do escrito.
21. Exatamente porque escrever não é preciso, escrever pode ser tudo menos uma atividade entre outras quaisquer. Escrever é um ato que, de saída, já deve uma explicação: ele tem de reinventar a sua própria relevância, a cada vez, ou então condenar-se a ser apenas uma ideia torta de novidade: o retorno do mesmo, piorado.
22. Cada escritor, conformado com a condição de exercer uma atividade ordinária, dissolve a sua vida numa linha que enuncia inexoravelmente o mesmo: o escrito é apenas uma forma de morte vil.
23. Isto é o que se pode dizer dos autores e da literatura mediana, que é o único ofício que não admite mediania virtuosa: Horácio revém. Isto é, em matéria literária, ou se é radicalmente bom, ou se é radicalmente imprestável.
24. Da crítica, entretanto, não se pode dizer o mesmo. Longe de se atirar com a força e a ingenuidade estúpida da juventude contra o mar de quantidade que a devora e contra o qual nada pode (a não ser acreditar baixamente que a banalidade é a destinação universal da escrita), a crítica foi sendo morta na cama, enquanto dormia, e seu corpo paulatinamente sendo substituído por simulacros que Foucault (cf.) chamou certa vez de meninos bonitos da cultura.
25. A especialidade dos meninos bonitos, na perfeita inversão que caracteriza a atividade dos invasores de corpos, não é evidentemente a crítica, mas o seu contrário: o colunismo social.
26. A crise aqui é a total falta de crise. A desistência da crise é a matéria básica de que se formam os bodysnatchers durante o sono da crítica. Eles são sempre gente boa, simpática, quase variantes sem mandato de vereadores e deputados, cuja habilidade profissional se mede pelo coeficiente de agilidade com que barganham os votos dos leitores pelo tráfego entre os agentes institucionais da literatura, vale dizer, grupos universitários de poder, lobbies de editoras, cadernos culturais da grande mídia, revistas literárias com algum público ou prestígio etc. O coeficiente de barganha se nutre da capacidade de estabelecimento de um círculo de cumplicidade, autoproteção e confirmação mútua entre todos os participantes do sistema de tráfego em questão.
27. Claro que isto tudo pressupõe a adesão, mesmo inconsciente, a lugares comuns e paradigmas teóricos conhecidos e transformados já em imperativos políticos e institucionais de circunstância, os quais são, por definição, conservadores – o que nos traz de volta ao autor enquanto prático de uma atividade ordinária. Neste aspecto, o diferencial do dublê de crítico é a faculdade de se manter completamente cego diante de tudo que possa revelar o profundo desinteresse, o imenso tédio das práticas literárias contemporâneas.
28. Os meninos bonitos estão lá, no meio da névoa cerrada do presente sem futuro, pintando freneticamente de luz as sombras de sono e banalidade de que são feitos. Com seu farol tingido, asseguram aos passantes que tudo vai bem, que aquele mar não é abismo, que aquele poço tem fundo, que novos grandes autores estão surgindo naturalmente, que novas obras-primas continuam a ser geradas, e até que a literatura de “nosso país” é fecunda e pujante.
29. Quando se chega a esse anúncio maravilhoso, o sistema de tráfego de banalidades está completo. O escritor qualquer coisa encontra o seu crítico sem crise. Admiram-se, respeitam-se, amam-se.
30. Se os meninos bonitos fossem mais que invasores de corpos, os quais despossuíram de crítica, tudo o que deveriam ou poderiam fazer era iluminar as trevas da própria cegueira, a obnubilação do sono, o cerco implacável do nevoeiro feito de tédio, ignorância, arrivismo e inconsequência a que estamos submetidos quando escrevemos.
31. Escrever como atividade média é o grau zero da necessidade e da utilidade.
32. Neste cenário de horror banal, mas que curiosamente se representa como euforia de criação, pouquíssima gente destoa. Isto ocorre porque quase toda gente acha, com razão, que pode fazer parte do elenco de “grandes autores”, ultimamente identificado com a mediania das atividades quaisquer. Claro que, nessas circunstâncias, muito mais difícil e desejável é, por exemplo, obter um bom emprego.
33. Os poucos e raros que desacreditam de escrever, isto é, que não entendem a escrita como atividade necessária e mediana, entendem também que praticá-la é apenas confirmá-la moribunda ou já defunta, mas não enterrá-la de vez. Escrever, frequentemente, é apenas um cadáver que passeia, um defunto que procria e multiplica, como o homem; ou que faz cento por um, como o sêmen de Deus, mas cujos frutos apenas proliferam a secura e o vazio.
34. Se escrever é prática vulgar e inútil, melhor é não-fazer (ao contrário do que pensava Cabral, que tinha, entretanto, razão, enquanto era ele a fazê-lo).
35. Nenhum motivo é bastante para escrever. Não precisamos de entretenimentos. Precisamos ainda menos de ficção, de estética, de fazer de conta que não estamos saturados de ficção no campo comum da atividade medíocre. Não precisamos de mais atividade na roda.
36. A condição do escrever é a crise. A literatura que vale a pena que escreve responde pela destruição do escrito ou simplesmente já não responde a nada.
37. O mar não sofre coisa morta etc.







.

Alcir Pécora é professor livre-docente de literatura na Unicamp, onde leciona desde 1977. Autor de estudos a propósito de literatura colonial brasileira, e, em particular, do sermonário do Padre Vieira. Crítico e colaborador de jornais e periódicos científicos, no Brasil e no exterior. Entre suas publicações, destacam-se: Teatro do Sacramento (Edusp/Editora da Unicamp, 94); Máquina de Gêneros (Edusp, 2001); As Excelências do Governador (Companhia das Letras, 2002); Rudimentos da Vida Coletiva (Ateliê, 2003). Organizou dois volumes de Sermões (Hedra, 2000/ 2001), além das antologias A Arte de Morrer (Nova Alexandria, 1994) e Escritos Históricos e Políticos (Martins Fontes, 1995), todos a propósito da obra de Vieira. É organizador da edição das obras completas de Hilda Hilst pela Editora Globo.
http://www.musarara.com.br/o-inconfessavel-escrever-nao-e-preciso#comment-2142


terça-feira, 21 de outubro de 2014

No blog de Raquel Rolnik

Decidi não repostar qualquer informação sobre eleições no facebook, mas esse artigo de Raquel Rolnik vem para esse espaço, porque quero me lembrar dos motivos por que votei em Dilma no segundo turno, tendo votado em Luciana Genro no primeiro. E porque essas eleições talvez imprimam mudanças em meu projeto de vida atual, se um ou outro candidato vencer.

Não poderia, nem saberia, dizer melhor, e fica aqui como memória para quando as eleições terminarem e um dos dois iniciar esse novo momento em nossa história social e política.
___________

Voto em Dilma no segundo turno


*Coluna publicada originalmente na seção “Tendências/Debates”, da Folha de S. Paulo.
Daqui:
http://raquelrolnik.wordpress.com/2014/10/21/raquel-rolnik-voto-em-dilma-no-segundo-turno/


sábado, 18 de outubro de 2014

o gás e o cigarro


Não sei se o mesmo ocorre em Vitória, mas aqui em Vila Velha temos uma população que, forçosamente, precisa ser de não fumantes.

Não tenho ideia de como eles conseguem mas, estando aqui desde dezembro do ano passado, ainda não vi nenhuma ocorrência de incêndio, ou explosão - acho incrível isso, porque praticamente todos os edifícios, dos menores aos muito altos, têm esse mesmo sistema de gás, em que imensos botijões ficam praticamente na rua, protegidos por grades, em pequenos espaços, na parte da frente dos prédios.

Sempre que passo dou uma olhada, investigando se tem alguma guimba de cigarro - não tem, e talvez se tivesse eu não estaria aqui escrevendo bobagens. De tempos em tempos, vem um caminhão de gás e enche os botijões, às vezes acompanho o trabalho olhando da varanda, torcendo pra que nenhum maluco passe naquele momento com um cigarro aceso. E, confesso, tenho um pouco de medo de um apocalipse geral, se um desses prédios explodir, porque imagino que será uma tragédia em cascata, um após o outro - vai parecer efeito especial de cinema americano, e um bocado de gente (eu, inclusive) fazendo o caminho das nuvens.

domingo, 12 de outubro de 2014

A vingança da chia

Todos sabemos que a chia é uma semente pretinha, de tamanho micro, que faz maravilhas pela saúde nossa - emagrece, combate colesterol, o diabetes, tem ômega 3 e variadas vitaminas, vem do México e pode ser colocada em praticamente qualquer alimento. Mas ninguém sabe o que pode acontecer quando um recipiente de plástico contendo cento e vinte gramas da dita cuja abre e se esparrama dentro de uma geladeira cheia de panelas e potes e coisas, se aloja em todas as prateleiras, e cai ao chão esparramando-se por baixo da geladeira e pela cozinha afora. 

Para uma pessoa com certo nível de obsessão, aqueles pontos pretos em quase todo recanto da cozinha são uma batalha a ser travada milímetro a milímetro, durando horas cada peleja. Hoje acordei com disposição de eliminar o que fosse possível dos restantes grãos de ontem à noite. 
Aliás, um parêntese - todo dia alguma coisa cai da minha mão e, no momento em que comecei a limpar as tralhas das prateleiras, o prato com o melão cortado ontem também foi ao chão, mas esse foi fichinha de limpar perto da chia. 
Essa, não há como tirar todos os grãos - nem que se leve a vida toda, porque eles são micro e têm a capacidade de grudar em qualquer coisa úmida, daí que será má ideia usar o paninho da pia para limpá-lo, ou o pano de chão úmido. Em tudo ela se impregna, adere, vai-se alojando no tecido, e inchando - sim, porque a chia incha com água, e não sai do pano úmido nem quando ele seca, fica grudada ali, te desafiando a tirá-la - uma por uma, a unha. 

Continuarei a usar chia em minha dieta, até porque ela só traz benefícios, mas tomando cuidados com se fosse um recém-nascido quando manuseá-la, e nunca mais deixá-la fora de um pote hermeticamente fechado.