sábado, 7 de dezembro de 2013

Azul é a cor mais quente (com spoilers)

Sem sombra de dúvida é um filme corajoso, e longo - e excessivo, esse de Abdellatif Kechiche (2013), com a dupla Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, ambas fortemente empenhadas no projeto, como se verá nas telas. Uma história de amor, por um lado clássica, com direito a todos os capítulos que tais histórias comportam: paixão arrebatadora, sexo selvagem, enjoo momentâneo de uma das partes, traição por bobeira, abandono sem querer, abandono por escolha, choros e ranger de dentes. E, claro, cenas de sexo lésbico fortes, intensas, interessantes. Mas...

Primeiro, a personagem Adèle, a mais jovem, chora demais, e tem uma boca estranha, e um olhar excessivamente pedinte, e carente e... não dá, esse mundo dos excessos e intensidades das paixões, assim eviscerado ao olhar do espectador, não me pertence, minha sensibilidade enjoa daquele festim de intensidades desenfreadas, mesmo reconhecendo que está tudo certo, é assim mesmo, não se ama nesse tempo em tom menor. Já a personagem de Léa Seydoux, Emma, aparece mais contida, não apenas porque mais madura, mas porque é a parte que lhe toca na relação, e isso rende um personagem mais interessante a meu olhar - mais rico, mais bonito, mais forte, mais sabendo o que quer. Mas, não impede que - segundo -, algumas conversas soem datadas, figurando uma cultura tipicamente francesa no sentido mais artificial - citar Sartre, os papos sobre pintura, Klimt, Picasso etc, tudo meio solto, meio vago mas querendo engatar uma imagem ao mesmo tempo de palco um tanto ilustrado e de conversa-que-quer-impressionar-em-seus-começos, que meu olho captou como 'ai, que cansaço'.

De resto, achei mesmo cansativo todo o processo, e algumas falhas como o sumiço da família da jovem a partir da comemoração dos dezoito anos; ou a vocação irreprochável para o magistério que a atuação nega, no ar blasé com que a professora administra (mal) a aula e o ditado. Mas há cenas bonitas, claro, algumas excelentes mesmo - as de sexo, por exemplo, são, como direi - didáticas?; as de dança da moça que chora, mas que dança muito belamente; a cena no bar, ótima tentativa de retomada frustrada, embora o escorrido do nariz da jovem tenha me incomodado terrivelmente (aliás, o modo dela mastigar também); e a cena final, quando afinal ela sai da relação e engata outra marcha no passo de sua vida. Gostei muito que o rapaz não a tenha visto, que ela tenha seguido sozinha sem a companhia dele - de outro modo teria sido uma traição ao filme, acho.

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E o texto me pareceu melhor.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O estranho caso de Angélica

Para Egídio

Já devo ter assistido a mais algum outro filme de Manoel de Oliveira, além de O gebo e a sombra (2012) e de O estranho caso de Angélica (2010). Mas é sobre esse último que falo aqui, porque me parece assombroso que esse homem tenha feito tal trabalho aos 102 anos de idade, tendo nascido em 11 de dezembro de 1908, ou seja, vai completar 105 anos no próximo mês em plena atividade. Não é apenas a longevidade lúcida e atuante que faz dele um homem extraordinário, mas o viço de seu trabalho, a percepção de que estamos diante de uma obra de arte, estruturada a partir de um olhar personalíssimo, em que a fotografia tem papel preponderante.

Menos do que sobre a morte de uma jovem, o filme explora a questão do olhar, da fotografia como elemento formal de conhecimento do mundo - além do protagonista ser fotógrafo por profissão (vivido pelo neto do cineasta, Ricardo Trepa), ele é também um homem obsedado por capturar instantes de vida através da lente, e quando ele fotografa o corpo inerte de uma jovem morta, durante a sessão de fotos ela abre os olhos e sorri para ele. A partir daí sua alma esvai-se, ele não tem mais domínio sobre si, nem sobre a realidade que o circunda - o que, afinal, caracteriza um dos estágios agudos da paixão.

Apaixonado pela figura bela e plácida que ele retrata, sua vida foge a seu controle, e apenas fotografar pode trazê-lo ao chão da vida: as fotos que faz dos homens trabalhando a terra resumem alguns temas primordiais aqui: fotografias realistas ao extremo, e belíssimas, assemellham-se a quadros da pintura clássica; a adesão irrestrita aos valores vigorosos de uma certa tradição do trabalho manual, do trabalho com a terra; a escuta dos cantos de trabalho, uma tradição rural que se apaga mais e mais com a velocidade das mudanças contemporâneas, e que Oliveira põe-nos a ouvir, em sintonia com uma paisagem deslumbrante das terras, das colinas, das árvores, dos casarões antigos (a igreja, a casa de chão rangente, martelando os passos dos vivos, onde habita a morta; a pensão, cujos aposentos ecoam ruídos estranhos durante a noite).

E há as conversas entre os hóspedes da pensão, conversas que beiram o non sense a princípio, mas que vão revelando uma ligação com o aspecto surreal que tomou a paixão do fotógrafo: a par dos voos noturnos do protagonista com sua amada, realizados em estado de transe hipnótico, os homens ao redor da mesa e a mulher brasileira, uma engenheira emérita vivida por Ana Maria Magalhães, entretêm uma dessas conversas estranhas, mas que, de algum modo, explica a um Isaac confuso e à beira da exaustão, a possibilidade quase real de haver um sentido para suas viagens noturnas com o, talvez, ectoplasma de sua amada morta. Ele ouve tudo de pé, afastado do grupo de hóspedes, como será sua postura em relação a eles todo o tempo - estranho ao cotidiano da casa, de certo modo estrangeiro ao mundo contemporâneo, de que se afastará mais e mais.

Um filme estranho, belo e difícil para o olhar acostumado à velocidade dos tempos atuais. Mas que nos deixa pregados diante da tela, imersos num mundo onde a beleza caminha de um modo original, e intransigentemente pessoal.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Thaise Diaz - poeta

De vez em quando um ex-aluno, ou mesmo alguém que não conheço, mas que leu alguma coisa minha, sobretudo a respeito de Hilda Hilst, escreve pedindo algum tipo de ajuda ou de orientação. Confesso que já havia esquecido o que eu teria feito por essa mestranda, Thaise, mas qual não foi minha surpresa ao receber, há algum tempo, esse belíssimo poema e um agradecimento. O que quer que eu tenha feito por ela, ou dito, sequer tangencia a beleza do gesto dessa moça, ou seu enorme talento para a forma poética.

O nome dela é Thaise Maria Diaz, uma professora que defendeu na Unimontes, em junho de 2012, a Dissertação de Mestrado "Agonia da carne: mística e erotismo em A obscena senhora D, de Hilda Hilst", que comecei a ler, encantada - o que não é comum de acontecer com trabalhos acadêmicos. Ela é não apenas ótima poeta, mas uma pensadora de primeira, e uma escritora rara.

Outro poema, também aqui.

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Não soneto de despedida II

               Para Vera Queiroz

Quando ele partiu
o dia amanhecera a nossa cara
As flores de Enrico Bianco
em total abandono
se abriam
Enquanto
Kazuo Ohno lindamente
para nós dançava

Quando ele partiu
Orides decretou a crueldade
dos signos e do amor

Quando ele partiu
não olhou para trás
Não disse adeus
ou algo mais
engoliu a frase tatuada em meu braço
E comeu sem cerimônia, o poema

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Capitão Phillips (com spoilers)

Eu nem vou dizer da minha frustração ao ver esse Capitão Phillips (Paul Greengrass, 2013), com Tom Hanks fazendo seu bom trabalho habitual, e Barkhad Abdi, o chefe do grupo de piratas inimigo - cuja atuação me pareceu uma das poucas coisas convincentes do filme, aliás o grupo somali me pareceu convincente em sua raiva, mas vou apenas enumerar uma ou duas coisinhas que percebi como absolutamente insatisfatórias:

1. um filme para os sócios do clube do Bolinha. Sim, eu sei que não há piratas somalis mulheres, até porque as mulheres somalis estão tentando escapar do genocídio que há anos grassa na região, e na tripulação de um navio cargueiro imenso tampouco cabem mulheres, parece. Bom, não importa, não há qualquer mulher atuando na tela, salvo uma esposa de Phillips em aparição relâmpago, que serve apenas para sublinhar o protagonista como homem-família;

2. um filme feito para o Tom Hanks posar de mocinho, muito bom moço mesmo, com uma postura humanitária louvável durante todos os acontecimentos envolvendo a invasão de seu navio: quando um dos invasores corta o pé nos cacos de vidro, ele se apieda de sua juventude desperdiçada; na proteção de sua tripulação; no jeito de pacificador que ele apresenta ao longo de todo o processo;

3. um filme surpreendentemente cheio de furos, ao tentar nos convencer, primeiro, de que um mega navio como aquele, com carga valendo milhões, não tem um grupo armado de proteção, não apenas contra piratas, mas contra qualquer outra ameaça; segundo, que quatro homens armados, mas muito frágeis fisicamente, controlem rapidamente um navio com uma tripulação de homens robustos e bem mais numerosa. Parece que esses personagens nunca viram um filme de Rambo, ou desconhecem que a indústria onde ele foi produzido investe rios de dinheiro na ideologia do 'justiceiro solitário'. Como ficaram todos tão de repente acuados e burrinhos, não me pareceu verossímel;

4. a tentativa de Hanks de escapar jogando-se ao mar, e sua posterior captura pelos 'bandidos' (parecem tão frágeis esses homens que chamar de bandidos soa quase como agressão), parece filme de Groucho Marx - é primária, patética e inconcebível que os homens daqueles navios de socorro norte-americanos, com todos os seus super equipamentos e radares e sonares e lunetas não tenham visto claramente e identificado o homem ao mar, nem podido atirar nos piratas, nem resgatá-lo, nem nada;

5. mais inconcebível ainda me pareceu que três navios de grande porte, além de um avião com vários soldados de elite, tenham ficado horas e horas à volta de um bote salva vidas ridiculamente pequeno, com os piratas e o capitão como refém, acuados todos pelas formiguinhas armadas. Não ficou convincente sob nenhuma hipótese o fato, verídico ou não, daqueles três portentos da marinha norte-americana terem tomado tamanha volta de três somalis famintos, mesmo que armados. Segundo a tradição de seu cinema, não teria sobrado nem pó pra contar a história se houvesse mais verossimilhança com sua própria tradição cinematográfica;

6. o resgate final de Hanks foi fácil, toda aquela lenga lenga de pontaria era só pra encher o saco e criar um pseudo suspense, e o filme alonga tal desenlace até o infinito da paciência do espectador. Eu levantei irritadíssima antes do fim, mas vi de pé a cena patética em que a médica do navio de resgate fala com ele, que aparenta estar aparvalhado e emocionado, chorando sem controle, como se tivesse acontecido um milagre, ou ele estivesse transtornado pela morte de seus captores. Muito, muito triste ver o Hanks fazer aquelas caras ridículas. Prefiro mil vezes vê-lo conversando com um coco, mas com convicção total.

6. a trilha é irritante, e existe para aumentar significativamente a tensão geral que o filme deveria criar, e só cria irritação. Em mim, pelo menos.

7. de onde veio aquele bonequinho aplaudindo o filme de pé que eu vi no jornal, e me levou, de certo modo, a ver o filme? Vergonha dos outros. O filme é mico. Micaço, até para os padrões da indústria deles nesse tipo de produção.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Serra Pelada

Grande, excelente trabalho de Heitor Dhalia, esse Serra Pelada (2013), que parece ter levado vários anos para ficar pronto, e eu vi como um filme épico, trágico, violento, além de brasileiríssimo, nisso que retrata um episódio sem similar em nossa história: esse amontoado de trinta mil homens, em sua fase mais densamente povoada, em busca de ouro, tomados pela doença do ouro, do enriquecimento fácil e, para alguns, do poder a ferro e fogo.

Impressiona a recriação do garimpo, as forças que se criam em torno dele, movidas pelo poder do ouro, pela ambição desmesurada que vai nascendo a cada pepita encontrada. Os amigos se estranham, os aliados se matam para ocupar mais espaço, seja no garimpo, seja no coração das poucas mulheres belas, em meio a tantas que fervilham à caça de recompensas financeiras por sexo, num leilão em que ganha quem tem mais dinheiro e sabe matar mais rápido.

Além desse décor quase fantasmagórico e surreal, os atores principais, e os secundários também, estão ótimos, com destaque para Wagner Moura, (já vi aquela expressão quando diz a frase "e precisava chegar a isso?"), mas seu cinismo é perfeito, além da dupla Julio Andrade e Juliano Cazarré, que praticamente carregam o filme, muito bons ambos. Matheus Nachtergaele fica menos tempo em cena, e convence um pouco menos como o terror do pedaço; Sophie Charlotte dá conta da mulher linda e sexy disputada a bala pelos amantes, que ganha alforria depois de muito sofrer.

A trilha sonora acompanha a barranqueira geral, e faz todo sentido naquele mundo de prostíbulos, de gosto pelo brega e pelo sertanejo. Não tendo eu a menor paciência para esse universo musical (só faço turismo de barco pelo Nordeste com protetor de ouvido), aqui essa referência musicial torna-se muito atraente e sensual, com aquele monte de gente suada e colada feito abelha em colmeia. Vendo pelo olhar da câmera, dá até pra bater pezinho no ritmo. Por tudo, um filmaço, que merece muito ser visto.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Apenas o vento

Filme difícil de assistir por sua contundência  ao mostrar episódios  de extermínio de pessoas de origem cigana na Hungria, ocorridos entre 2008 e 2009, Apenas o vento (Bence Fliegauf, 2012) já está em cartaz há bastante tempo, e só agora pude entender a razão de sua longevidade no circuito - sua qualidade fílmica e de denúncia, sem ser em momento algum panfletário.

Tendo como referência o mote do andarilho, como são reconhecidos os ciganos, o filme acompanha de perto, muitas vezes em closes intensos, como esse da belíssima personagem adolescente (Gyöngyi Lendvai), as idas e vindas da mãe, vivida por Katalin Toldi, do filho, um expressivo e intenso Lajos Sárkány, todos indo pra lá e pra cá, em caminhos sem rumo, como os do filho, mas atento a tudo e a todos, sentindo no ar o que está por vir; indo e vindo da escola, no caso da filha, ou a caminho dos vários empregos, como faz a mãe.

Um dos aspectos mais impactantes do filme é a violência contumaz contra um povo, a contínua sensação de se estar acuado, acossado por uma foice que sentimos cairá a qualquer momento, sobre qualquer uma daquelas cabeças, que não tem de quem se valer. Daí a solidão absurda desses seres, o deambular constante, como feras acuadas, de que são emblemáticos a mãe, fortíssima em sua expressão de medo contido, e o menino, que caminha a esmo tentando sentir-se seguro em algum canto - até achar um canto real como refúgio, no meio do mato - mas até essa gruta será descoberta por alguém, ainda que amigo.

O filme nos deixa atônitos, com dó de todos nós, que vivemos esses tempos de barbárie e, de certo modo, nos torna cúmplices por omissão dos crimes cometidos por nosso semelhante, contra nossos irmãos. Minha mãe, uma senhora muito simples, tem uma frase que considero um ensinamento profundo: ninguém deve sentir-se sozinho no mundo, porque todo vivente é filho de Deus e, portanto, é meu irmão. No limite, para o bem e para o mal.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Eu, Anna

Um filme para uma grande atriz, Charlotte Rampling, dirigido por seu filho, Barnaby Southcombe, com ainda um excelente ator, Gabriel Byrne, vivendo um atormentado investigador policial insone, Eu, Anna (2013) é um parente próximo de um filme policial de suspense, que fica muito tempo deixando pistas falsas sobre a protagonista Anna, que tem um passado nebuloso e um presente também atormentado.

Ela conhece um homem num encontro no clube dos solteiros e a partir daí os acontecimentos em torno dela começam a ficar confusos, ambíguos e perigosos. Não sabemos, por um longo tempo, se ela é uma vítima ou uma agente do mal disfarçada, só percebemos sua atitude ambígua, seu jeito desconfiado, suas esquisitices, e ao mesmo tempo torcendo para que a crescente aproximação desse outro estranho ser, o investigador, nos revele finalmente a chave do mistério de Anna, e do filme. E ele o faz. Quando finalmente compreendemos o que houve, através dos flashbacks, entendemos também que o filme trata, sobretudo, de compaixão e de perdão. E percebemos melhor porque ambos têm os rostos tão marcados, e porque as marcas dela, em especial, carregam histórias pungentes de vida, cicatrizes contra as quais sua luta será sempre ma batalha perdida. E ele compreende, e a apoia incondicionalmente. Então, o filme é também sobre isso - amor, mesmo face ao inelutável. E sobretudo em momentos difíceis. Um filme que vale ser visto, com final verdadeiramente tocante, e convincente.

sábado, 26 de outubro de 2013

O conselheiro do crime

Existe um texto de Hilda Hilst, cujo nome não lembro, em que ela cria uma cena meio bestial tendo um bebê como personagem, uma dessas imagens grotescas de que sua literatura se alimenta e que me chocou, em certo sentido - era/é uma cena que não existia para mim, não fazia parte de meu imaginário e passou a existir, do modo como só a literatura pode criar existências - de seres, coisas, tempos, atmosferas e tudo mais que há ou poderá haver. Não gostei de tê-la conhecido, não a queria para mim, mas não se pode escolher que presentes um artista pode criar, menos ainda oferecer a seu público.

De certo modo, Ridley Scott, nesse seu estranho O conselheiro do crime (2013), criou uma cena inaugural no grande cinema de Hollywood - isso porque tal observação não se aplica ao terreno dos filmes eróticos, cuja amplidão e profundidade desconheço. Refiro-me ao cinema comum, para espectadores padrão, como nós. E essa cena estranha, em seu quase deboche, dá o tom, penso eu, do clima geral do que se vê na tela, e pode ser sumarizada como uma grande angular dos, em princípio, órgãos genitais de Malkina, personagem vivida por Cameron Diaz, que se senta sobre o para-brisa do carro preferido de seu amante Reiner, vivido pelo sempre ótimo Javier Bardem, com as pernas abertas em linha reta, onde encena uma transa com o vidro, tendo Bardem como espectador atônito, quase aterrorizado, dentro do carro. O olhar assustadíssimo dele para aquela-coisa-toda faz o público rir, não há como não rir de uma coisa tão descabida, exagerada, kitsch, louca e exibicionista à exaustão.

Acho que a exasperação erótica desta e de outras cenas fica mais na sugestão do que na coisa em si, embora nada seja poupado. Isso ocorre porque não há interesse em manipular o espectador para esse campo, tudo é tratado com muita rapidez, as cenas encadeiam-se numa sequência meio alucinada, em que os fios se perdem e se acham mais à frente, embora alguns fiquem no ar, parecendo, no entanto, esses vazios fazer parte da trama. E de que se trata, afinal? De crimes e contrabandos e dinheiro aos milhões, indo e vindo, e passando de mãos, até que uma roda da engrenagem emperra em algum lugar (não sabemos onde, nem quais os responsáveis) e começa a morrer gente, de forma meio bárbara, e veloz. Parece que todos estão sob o cutelo de algum ser pairando em algum lugar, que tudo sabe e tudo vê. Meio aflitivo, e meio confuso, mas ninguém deixa de ver um segundo para não se perder ainda mais.

E há ainda as considerações morais sobre a inevitabilidade das escolhas feitas, de como não há volta em certos caminhos que se tomam; de como não há escapatória para determinados atos, além de muitas conversas de cunho moralizante (nunca um diamante revelou-se tão rico em sentidos - pílulas para a vida). O elenco, estelar - Brad Pitt, Michael Fassbender (o counselor, uma ironia à parte), Penélope Cruz, Cameron Diaz, Rosie Perez, Bruno Ganz, todos entram e saem com a rapidez das ações que passam na tela, mas todos cumprem à risca os exageros que o roteiro lhes impõe. Para mim, Bardem sempre parece se sair melhor, até porque a cena mais escatológica coube a ele presenciar, mas Cameron também inova em sua recorrente galeria de mocinhas românticas. Hollywood parece ter resolvido entronizar suas divas em mais uma categoria - a de cruéis chefonas do crime, organizado ou não, onde se mostram muito, muito más.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Mato sem cachorro

Simpaticíssima comédia, onde o humor foge um pouco ao tom de escracho e escatologia que tem dominado esse gênero atualmente por aqui, e se estrutura em torno de situações engraçadas do cotidiano, bem como em atuações muito boas tanto do Gagliasso, que eu não conhecia de cinema, nem sabia que poderia criar um personagem que não vive apenas de sua beleza mas, ao contrário, é bem esculhambado e meio abestado, mas convencendo sempre. O humor mais abusado, mas ainda assim em tom bem 'família', fica por conta de Danilo Gentile, num personagem com sotaque paulista e uma tiradas já conhecidas sobre a eterna rixa Sampa/Rio, fazendo um tipo meio maluco-beleza que nunca se dá bem com as mulheres etc e tal. Já a sempre ótima Leandra Leal continua ótima, bem como uma inesperada Gabriela Duarte vivendo uma espécie de mulher Rebordosa, bebum boca suja, e muito bem. Já Henrique Diaz me decepcionou, porque me pareceu reconhecer em seus trejeitos os mesmos que já vira na peça ótima que ele protagonizou com maestria há alguns meses no Oi Futuro - tudo de voz e entonação e trejeitos aqui, estão igualmente lá.

Há também outro lado super bacana do filme, que é a trilha sonora, uma mistura brasileiríssima de brega com rock e todo tipo de música, a propósito de haver uma banda iniciante em cena e o Gagliasso passar o tempo mixando trechos e estilos, numa combinação quase surreal de sons e estilos, que dá certíssimo. O Magal e a Sandy são figurantes de luxo, e esse é o deslize mais grave do filme, acho - Magal tinha de fazer alguma coisa, não necessariamente cantar (ele canta na trilha a impagável 'Sandra Rosa Madalena'), e na apresentação final da banda tinham de ter feito o show para nós, espectadores, e cantado aquela composição de loucos e lindíssima que ensaiaram antes. Ficou meio chocho o final, com o júri sem expressão e sem o fecho da canção que, de certo modo, esperávamos todos. Parece que faltou fôlego à produção na última reta.

Mas vale muito a ida ao cinema, e apesar das falas em off criticarem a idéia de família tradicional, é para ela que se encaminham os personagens, e esse happy end amplo e irrestrito, a par de estarmos muito habituados a ele das comédias estadunidenses, mostra que descobrimos, afinal, outros caminhos para nossa própria forma de rir, tendo aprendido com eles, que fazem isso com sucesso há milênios, alguns de seus melhores macetes. Agora parece que nós também podemos fazer, e bem, que ótimo.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Only lovers left alive

Jim Jarmusch volta aqui com  força de mestre, nesse filme magnífico, estrelado por esses dois excelentes Tom Hiddelston e Tilda Swinton, com ainda Mia Wasikowska, John Hurt, Anton Yelchin. Nunca vampiros foram tão charmosos, cultos, sensuais, blasés, além de low profile, como nesse universo criado pelo talvez ex-enfant terrible Jarmusch.

O filme emana leveza, bom humor, sofisticação, inteligência, tudo isso vindo de uma dupla que fica o tempo todo com a mesma roupa, meio sujinha e antiga, mas cheia de estilo. Estilo também é o que não falta ao modo de encenar o tédio em que estão imersos esses dois, Eve e Adam, mais a irmã dela, Ava, em aparição não muito longa, uma jovem impaciente e estabanada, que acaba sugando o único vivente amigo do talentosíssimo músico Adam, flagrado no tempo em que o filme se passa em uma crise existencial aguda, entediado com a incompetência dos humanos, que ele chama de zumbies, quanto à gerência do espaço-tempo, esse, numa Detroit detonada, abandonada, meio cemitério de mortos-vivos, por onde os dois amam passear quando a noite cai.

Há também um clima noir, ultra romântico e meio dark, quando mais não seja porque Adam sente saudades de Byron, dos amigos músicos que ao longo dos séculos foram seus parceiros de vida, de artes, de sons, e cujas fotos ele traz em sua parede, como os zumbies fazem, ou faziam, com as fotos de parentes amados espalhados pela casa. E há, quase no final, uma cantora extremamente talentosa, Jasmine seu nome lá (não a conheço), que ele ouve em Tânger, meio bêbado de sede e sono, meio à deriva enquanto a amada vai buscar-lhe um presente - ele a ouve e a câmera vai caminhando junto com ele até a porta do bar onde ela canta - mas o que é aquela voz, quem é essa que canta expelindo a alma numa interpretação soberba, em dor e excelência? Lembra Amy, e o comentário dele a respeito de fama me pareceu muito adequado - a Amy, e aos tempos nossos, sobretudo. Belíssimo filme, bem vinda volta, a meus olhos, essa do Jarmusch.