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Good-bye... Solo é um filme muito melancólico, ao mesmo tempo muito esperançoso, porque os dois protagonistas vivenciam todo o tempo
esses dois sentimentos: esperança e profundo desalento. Somos levados de um lado a outro: Solo e sua vitalidade, sua vontade de estar vivo, de fazer coisas pelas quais precisa lutar e que precisa ainda alcançar; Williams, um homem mais velho ainda do que as muitas rugas sugerem, um jeito duro de olhar e de ser - alguém que sofreu demais e cujo coração desandou num 'pote até aqui de mágoa'.
Durante todo o filme, torcemos para que o final não seja o que se anuncia desde o primeiro diálogo entre os dois, que esse homem e seu peso sejam tocados pela energia de Solo, que não chegue o dia 20, ou que um milagre aconteça até lá. E acontece uma paisagem deslumbrante nessa tal montanha, cuja força do vento devolve para quem joga qualquer treco que se jogue do alto dela. Solo chega à beira do precipício e, ajudado pela enteada, joga um pedaço de pau e aguarda uns minutos até que o vento traga-o de volta. Nem volta o toco, nem o homem antes deixado lá sozinho.
Na próxima cena, uma miríade de cores deslumbrantes, árvores vermelhas, amarelas, verdes - tudo intenso, tudo vivo, filmado do alto, como num precipício.
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domingo, 11 de outubro de 2009
augusto nunes e as olimpíadas
Faço minhas as palavras do Augusto Nunes, clonadas do blog de anna r, do http://amdcr.blogspot.com/
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Os vampiros aliados festejam a ampliação do banco de sangue
por Augusto Nunes
Menos de um mês depois de promover o Brasil a potência petroleira, Lula promoveu-se a presidente de uma potência olímpica. Em 6 de setembro, Dia da Segunda Independência, não precisou de um só barril a mais para apresentar ao mundo o caçula da OPEP. O que resolveu que vai acontecer daqui a 10 ou 15 anos pareceu-lhe suficiente. Em 2 de outubro, depois de derrotar os ianques, os espanhóis e os japoneses na Batalha da Dinamarca, não precisou de uma única medalha de bronze para instalar o país no clube dos colossos esportivos. Bastou o que resolveu que vai acontecer no Rio em 2016.
O curto espaço entre os dois assombros avisa que a metamorfose ambulante sofreu mais uma mutação para pior. Lula sempre se apropriou do passado para fingir que fez o que outros fizeram. Quem ouve a discurseira imagina, por exemplo, que a inflação liquidada em 1994 pelo Plano Real foi banida em 2003. Pois o maior governante da história agora deu de também expropriar o futuro para moldá-lo às conveniências do presente ─ e fingir que já foi feito o que está por fazer. O craque que vive assumindo a paternidade de gols alheios passou a reivindicar a autoria dos que nem aconteceram.
A fantasia seria menos inverossímil se Lula não inaugurasse o futuro sempre em companhia de gente que eterniza o passado. No descobrimento do pré-sal, protagonizou uma superprodução futurista à frente de um elenco de cinema mudo liderado pelos canastrões José Sarney e Edison Lobão. No comício em Copenhague, anunciou a ascensão do Brasil à primeira divisão do planeta num palanque de segunda. O país não tem sequer arremedos de política esportiva. Investe apenas, e equivocadamente, no esporte de alto rendimento. O Brasil coleciona fiascos a cada Olimpíada por falta de direção e de verbas.
Dinheiro existe de sobra, esclareceu o presidente ao comunicar que serão investidos no Rio quase R$ 30 bilhões. A bolada vai ser muito maior, corrigiu o sorriso de empreiteiro malandro no rosto da cartolagem. E boa parte vai engordar o patrimônio dos campeões do salto sobre cofres públicos, modalidade não-olímpica praticada com muita competência por figurões federais e supercartolas.
Só os olhos gulosos dos bandidos e a miopia dos idiotas incuráveis enxergam um Brasil dividido entre nacionalistas grávidos de patriotismo com o triunfo incomparável e traidores da nação em aliança com os mortos de ciúme da Cidade Maravilhosa. O Brasil não precisa hospedar a Olimpíada para afirmar-se como nação em marcha acelerada para longe das cavernas. O Rio não precisaria virar sede dos Jogo de 2016 para merecer as atenções, o respeito, o carinho e os investimentos que a mais bela das cidades reclama há décadas. Consumada a escolha, ninguém minimamente sensato vai torcer pelo naufrágio. Mas o desastre só será evitado se a tripulação for trocada a tempo.
Em 2003, os cariocas souberam que o Pan-2007, orçado em R$ 400 milhões, traria como dote a linha de metrô da Barra, a despoluição da Baía de Guanabara, a ressurreição da Lagoa Rodrigo de Freitas e outros espantos. A conta ficou em R$ 4 bilhões e os milagreiros nada santos esqueceram o prometido. Tudo será feito agora, reincide Carlos Nuzman, que presidiu o comitê do Pan, preside o COB e presidirá o comitê dos Jogos de 2016. É errando que a gente aprende, recita Orlando Silva, ministro do Esporte desde 2006, que forma com Nuzman uma dupla que anda fazendo bonito nos torneios de gastança suspeita promovidos pelo Tribunal de Contas da União.
O cinismo dos vendedores de ilusões só não é mais espantoso que a euforia da multidão de iludidos. Com o mesmo entusiasmo dos vampiros encarregados da administração, os doadores festejam a ampliação do banco de sangue.
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Os vampiros aliados festejam a ampliação do banco de sangue
por Augusto Nunes
Menos de um mês depois de promover o Brasil a potência petroleira, Lula promoveu-se a presidente de uma potência olímpica. Em 6 de setembro, Dia da Segunda Independência, não precisou de um só barril a mais para apresentar ao mundo o caçula da OPEP. O que resolveu que vai acontecer daqui a 10 ou 15 anos pareceu-lhe suficiente. Em 2 de outubro, depois de derrotar os ianques, os espanhóis e os japoneses na Batalha da Dinamarca, não precisou de uma única medalha de bronze para instalar o país no clube dos colossos esportivos. Bastou o que resolveu que vai acontecer no Rio em 2016.
O curto espaço entre os dois assombros avisa que a metamorfose ambulante sofreu mais uma mutação para pior. Lula sempre se apropriou do passado para fingir que fez o que outros fizeram. Quem ouve a discurseira imagina, por exemplo, que a inflação liquidada em 1994 pelo Plano Real foi banida em 2003. Pois o maior governante da história agora deu de também expropriar o futuro para moldá-lo às conveniências do presente ─ e fingir que já foi feito o que está por fazer. O craque que vive assumindo a paternidade de gols alheios passou a reivindicar a autoria dos que nem aconteceram.
A fantasia seria menos inverossímil se Lula não inaugurasse o futuro sempre em companhia de gente que eterniza o passado. No descobrimento do pré-sal, protagonizou uma superprodução futurista à frente de um elenco de cinema mudo liderado pelos canastrões José Sarney e Edison Lobão. No comício em Copenhague, anunciou a ascensão do Brasil à primeira divisão do planeta num palanque de segunda. O país não tem sequer arremedos de política esportiva. Investe apenas, e equivocadamente, no esporte de alto rendimento. O Brasil coleciona fiascos a cada Olimpíada por falta de direção e de verbas.
Dinheiro existe de sobra, esclareceu o presidente ao comunicar que serão investidos no Rio quase R$ 30 bilhões. A bolada vai ser muito maior, corrigiu o sorriso de empreiteiro malandro no rosto da cartolagem. E boa parte vai engordar o patrimônio dos campeões do salto sobre cofres públicos, modalidade não-olímpica praticada com muita competência por figurões federais e supercartolas.
Só os olhos gulosos dos bandidos e a miopia dos idiotas incuráveis enxergam um Brasil dividido entre nacionalistas grávidos de patriotismo com o triunfo incomparável e traidores da nação em aliança com os mortos de ciúme da Cidade Maravilhosa. O Brasil não precisa hospedar a Olimpíada para afirmar-se como nação em marcha acelerada para longe das cavernas. O Rio não precisaria virar sede dos Jogo de 2016 para merecer as atenções, o respeito, o carinho e os investimentos que a mais bela das cidades reclama há décadas. Consumada a escolha, ninguém minimamente sensato vai torcer pelo naufrágio. Mas o desastre só será evitado se a tripulação for trocada a tempo.
Em 2003, os cariocas souberam que o Pan-2007, orçado em R$ 400 milhões, traria como dote a linha de metrô da Barra, a despoluição da Baía de Guanabara, a ressurreição da Lagoa Rodrigo de Freitas e outros espantos. A conta ficou em R$ 4 bilhões e os milagreiros nada santos esqueceram o prometido. Tudo será feito agora, reincide Carlos Nuzman, que presidiu o comitê do Pan, preside o COB e presidirá o comitê dos Jogos de 2016. É errando que a gente aprende, recita Orlando Silva, ministro do Esporte desde 2006, que forma com Nuzman uma dupla que anda fazendo bonito nos torneios de gastança suspeita promovidos pelo Tribunal de Contas da União.
O cinismo dos vendedores de ilusões só não é mais espantoso que a euforia da multidão de iludidos. Com o mesmo entusiasmo dos vampiros encarregados da administração, os doadores festejam a ampliação do banco de sangue.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Santo sujo
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Terminei de ler Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle, e agora vou começar do começo. Explico: quando o livro chegou, abri-o lá pela metade e comecei a ler. Não consegui parar e continuei até o fim, adorando tudo: a escrita do Humberto Werneck - ótima frase, concisa, clara, bonita, o encadeamento da história, a história mesma e o personagem, claro.
O livro é lindíssimo, fotos muitas com os grandes nomes da nossa cultura literária do modernismo, uma certa nostalgia ao ver suas carinhas jovens, e o universo do Ovalle afinal desvendado. Sim, porque todos nós que lidamos com literatura brasileira conhecemos a figura dele assim de relance, em citações de tantos grandes autores e poetas, até mesmo em Macunaíma Ovalle aparece, e eu nunca soube dele mais do que aquelas referências pipocadas, sempre curiosas e instigantes.
Uma vez, uma colega de faculdade me disse que tinha vontade de fazer pesquisa sobre Ovalle, comentou alguns traços engraçados e/ou esquisitos dele, e havia mesmo em torno da figura uma certa aura de misticismo, algo como se Ovalle fosse um encantado. E não é que era mesmo? Werneck nos dá um retrato perfeito desse encantado - um homem meio simplório, mas amado por seus amigos, seus interlocutores, a quem seduzia com idéias muito pessoais e criativas. Era carente da afeição dos amigos, generoso, um tanto místico e bastante intuitivo. Tinha algumas percepções agudas, semelhantes às dos médiuns, conversava com Deus sem cerimônia, falava dele como de um parceiro próximo, e essas tiradas bem humoradas estão espalhadas pelos livros de alguns de nossos melhores homens de letras. Ah, e era quase analfabeto, o que torna as traduções de seus poemas em inglês por sua mulher, Virginia Peckham, uma outra aventura, bem engraçada, às vezes.
Senti falta apenas de saber mais dos outros filhos de Virginia, já que a respeito de Mariana, a filha de Ovalle, que tem uns 57 anos hoje, ficamos conhecendo uma história bem interessante sobre como conheceu seu futuro marido.
Quando a história de uma vida é assim tão bem narrada, como Werneck o faz, essa vida passa a fazer parte de nossa história, ela é incorporada, tornamo-nos parceiros, amigos, próximos. Amei conhecer Ovalle.
Ah, um dos endereços da família foi na Rua Benjamin Constant, 55, na Glória.
Minha mãe mora nessa rua, moro perto e quando passar por esse prédio, ele terá outro significado para mim.
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O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida.
Manuel Bandeira
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Humberto Werneck. Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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Terminei de ler Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle, e agora vou começar do começo. Explico: quando o livro chegou, abri-o lá pela metade e comecei a ler. Não consegui parar e continuei até o fim, adorando tudo: a escrita do Humberto Werneck - ótima frase, concisa, clara, bonita, o encadeamento da história, a história mesma e o personagem, claro.
O livro é lindíssimo, fotos muitas com os grandes nomes da nossa cultura literária do modernismo, uma certa nostalgia ao ver suas carinhas jovens, e o universo do Ovalle afinal desvendado. Sim, porque todos nós que lidamos com literatura brasileira conhecemos a figura dele assim de relance, em citações de tantos grandes autores e poetas, até mesmo em Macunaíma Ovalle aparece, e eu nunca soube dele mais do que aquelas referências pipocadas, sempre curiosas e instigantes.
Uma vez, uma colega de faculdade me disse que tinha vontade de fazer pesquisa sobre Ovalle, comentou alguns traços engraçados e/ou esquisitos dele, e havia mesmo em torno da figura uma certa aura de misticismo, algo como se Ovalle fosse um encantado. E não é que era mesmo? Werneck nos dá um retrato perfeito desse encantado - um homem meio simplório, mas amado por seus amigos, seus interlocutores, a quem seduzia com idéias muito pessoais e criativas. Era carente da afeição dos amigos, generoso, um tanto místico e bastante intuitivo. Tinha algumas percepções agudas, semelhantes às dos médiuns, conversava com Deus sem cerimônia, falava dele como de um parceiro próximo, e essas tiradas bem humoradas estão espalhadas pelos livros de alguns de nossos melhores homens de letras. Ah, e era quase analfabeto, o que torna as traduções de seus poemas em inglês por sua mulher, Virginia Peckham, uma outra aventura, bem engraçada, às vezes.
Senti falta apenas de saber mais dos outros filhos de Virginia, já que a respeito de Mariana, a filha de Ovalle, que tem uns 57 anos hoje, ficamos conhecendo uma história bem interessante sobre como conheceu seu futuro marido.
Quando a história de uma vida é assim tão bem narrada, como Werneck o faz, essa vida passa a fazer parte de nossa história, ela é incorporada, tornamo-nos parceiros, amigos, próximos. Amei conhecer Ovalle.
Ah, um dos endereços da família foi na Rua Benjamin Constant, 55, na Glória.
Minha mãe mora nessa rua, moro perto e quando passar por esse prédio, ele terá outro significado para mim.
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O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida.
Manuel Bandeira
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Humberto Werneck. Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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terça-feira, 6 de outubro de 2009
o livro rosa e o jabuti
Não conheço todos os livros que ganharam o último Jabuti, mas conheço o livro rosa - que tirou o segundo lugar de poesia - organizado pela Viviana Bosi, pesquisadora muito competente, aliás, mas, lamento informar, o Antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa não é sequer um livro - ou melhor, é só isso mesmo, um objeto livro bonito, muitíssimo belo, com um conteúdo totalmente confuso e desorganizado, sem qualquer referência ou indicação ou pontuação ou o que quer que seja que o torne uma leitura à altura da poesia de Ana Cristina.
Aliás, devo dizer que amo a poesia de Ana C., já escrevi um decente ensaio (eu acho) sobre ela, mas convenhamos, bilhetinhos rabiscados, poeminhas inacabados, recadinhos pra amigos, riscadinhos e desenhinhos - nada disso faz um livro de poesia, mesmo sendo de Ana C., mestra do coloquial e das confidências.
Acho mesmo uma total falta de respeito à memória da poeta, que era bem ciosa de revisões e cuidadosa quanto ao resltado final de seus poemas. Ela não merece esse desserviço a seu trabalho, acho uma rasteira na sua obra, tanto maior porque muito de sua poesia publicada tem esse lastro de alguma coisa mais fácil, em razão do apelo ao coloquial e da conversa ao pé do ouvido com o leitor, além de estratégias de sedução e cartas escritas para nós, leitores cúmplices.
Enfim, o livro é belo enquanto objeto, e tem algum interesse para os adeptos da crítica genética - penso que alguns querem ver o sangue do autor impresso na obra. Mas não é um livro de poesia. É um livro apenas, um belo livro-objeto. A poesia que há nele, se houver, a poeta não teve tempo de criar.
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olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana C., A teus pés. Ática/IMS, 1998, p. 89).
Aliás, devo dizer que amo a poesia de Ana C., já escrevi um decente ensaio (eu acho) sobre ela, mas convenhamos, bilhetinhos rabiscados, poeminhas inacabados, recadinhos pra amigos, riscadinhos e desenhinhos - nada disso faz um livro de poesia, mesmo sendo de Ana C., mestra do coloquial e das confidências.
Acho mesmo uma total falta de respeito à memória da poeta, que era bem ciosa de revisões e cuidadosa quanto ao resltado final de seus poemas. Ela não merece esse desserviço a seu trabalho, acho uma rasteira na sua obra, tanto maior porque muito de sua poesia publicada tem esse lastro de alguma coisa mais fácil, em razão do apelo ao coloquial e da conversa ao pé do ouvido com o leitor, além de estratégias de sedução e cartas escritas para nós, leitores cúmplices.
Enfim, o livro é belo enquanto objeto, e tem algum interesse para os adeptos da crítica genética - penso que alguns querem ver o sangue do autor impresso na obra. Mas não é um livro de poesia. É um livro apenas, um belo livro-objeto. A poesia que há nele, se houver, a poeta não teve tempo de criar.
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olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana C., A teus pés. Ática/IMS, 1998, p. 89).
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
bric à brac
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Bom, voltei de Fortaleza e lá passei alguns bons momentos, mas o sol estava de rachar o crânio e eu não devo/posso ficar exposta a ele. Além disso, peguei uma dermatite atópica (embora bem tópica, na pálpebra inferior, onde os óculos de sol se atritam com a bochecha...:), então não havia muito sentido em ficar com essa limitação de sol, porque o que essa cidade mais tem é mesmo a estrela mais amarela e ardente que conheço.
De todo modo, descobri os últimos porquês da minha relação com a cidade, desvendei enfim as partes que faltavam da minha breve mas intensa história por lá. E minha certeza de que esse espaço de blog vai terminar em breve (não apenas o meu, mas essa forma de escrita e comunicação) vem de que essas descobertas, o que afinal seria a coisa mais interessante dessa minha viagem (que está longe de ser apenas turística, aliás, nem gosto de ir onde turista vai) não cabem aqui nesse espaço, por demais pessoais.
Do que se pode falar, visitei a casa de José de Alencar, que foi restaurada, uma casa bem singela, como se pode ver, se se pensa com os padrões de hoje, para um sujeito que adquiriu tal importância na cultura brasileira e cujo pai foi senador "pela província do Ceará de 2 de maio de 1832 até sua morte", como lemos na wiki.

Se viveu numa casinha pequenina, algumas árvores da propriedade são deslumbrantes, sobretudo uma delas, majestosa, que fotografei olhandoalgum tempo para cima, em direção a ele, e foi quando peguei a tal dermatite. De todo modo, ela (a tal) me levou a uma dermatologista que, meus senhores, era tudo de bom, além de ter uma bica de água no banheiro que parecia uma mini fonte de versalhes, um espanto.
Aliás, Fortaleza me apresenta sempre umas coisas ótimas, que eu nunca tinha visto antes... enfim, minha província é aqui, it seems.


Ah, e vi três bobagens: A verdade nua e crua; Se beber, não case e Up - altas aventuras, que abandonei quase no final, sem paciência. Das duas outras besteiras, olhei melhor a primeira do que a segunda, esta última super besteirol cheio daquelas ideologias safadinhas lá deles.
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Ah, de novo, lendo três livros ao mesmo tempo e amando o último: O jardim de cimento (Ian McEwan, meio chatinho); (Suicídios exemplares (Vila-Matas, tema e escrita muito bons); Santo sujo - a vida de Jayme Ovalle (Humberto Werneck, bom demais, e vou querer falar, quando terminar de ler, do meu encanto por essa figura e pela narrativa do Werneck, que coisa...).
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Bom, voltei de Fortaleza e lá passei alguns bons momentos, mas o sol estava de rachar o crânio e eu não devo/posso ficar exposta a ele. Além disso, peguei uma dermatite atópica (embora bem tópica, na pálpebra inferior, onde os óculos de sol se atritam com a bochecha...:), então não havia muito sentido em ficar com essa limitação de sol, porque o que essa cidade mais tem é mesmo a estrela mais amarela e ardente que conheço.
De todo modo, descobri os últimos porquês da minha relação com a cidade, desvendei enfim as partes que faltavam da minha breve mas intensa história por lá. E minha certeza de que esse espaço de blog vai terminar em breve (não apenas o meu, mas essa forma de escrita e comunicação) vem de que essas descobertas, o que afinal seria a coisa mais interessante dessa minha viagem (que está longe de ser apenas turística, aliás, nem gosto de ir onde turista vai) não cabem aqui nesse espaço, por demais pessoais.
Do que se pode falar, visitei a casa de José de Alencar, que foi restaurada, uma casa bem singela, como se pode ver, se se pensa com os padrões de hoje, para um sujeito que adquiriu tal importância na cultura brasileira e cujo pai foi senador "pela província do Ceará de 2 de maio de 1832 até sua morte", como lemos na wiki.
Se viveu numa casinha pequenina, algumas árvores da propriedade são deslumbrantes, sobretudo uma delas, majestosa, que fotografei olhandoalgum tempo para cima, em direção a ele, e foi quando peguei a tal dermatite. De todo modo, ela (a tal) me levou a uma dermatologista que, meus senhores, era tudo de bom, além de ter uma bica de água no banheiro que parecia uma mini fonte de versalhes, um espanto.
Aliás, Fortaleza me apresenta sempre umas coisas ótimas, que eu nunca tinha visto antes... enfim, minha província é aqui, it seems.
Ah, e vi três bobagens: A verdade nua e crua; Se beber, não case e Up - altas aventuras, que abandonei quase no final, sem paciência. Das duas outras besteiras, olhei melhor a primeira do que a segunda, esta última super besteirol cheio daquelas ideologias safadinhas lá deles.
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Ah, de novo, lendo três livros ao mesmo tempo e amando o último: O jardim de cimento (Ian McEwan, meio chatinho); (Suicídios exemplares (Vila-Matas, tema e escrita muito bons); Santo sujo - a vida de Jayme Ovalle (Humberto Werneck, bom demais, e vou querer falar, quando terminar de ler, do meu encanto por essa figura e pela narrativa do Werneck, que coisa...).
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
esses dias 2
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Como sou uma pessoa vamos dizer... incomum (para ser educada comigo mesma :), e tenho muitas milhas que nunca usei e vão expirar em breve, resolvi me dar duas chances de voltar de Fortaleza, para onde vou amanhã, sábado. Posso voltar na quarta ou na sexta próximas. Pode não parecer, mas ter as duas possibilidades me deixa mais tranquila.
Na verdade, não nasci para pensar o que quero fazer no futuro, mal sei o que quero fazer hoje, então viajar nem sempre é mamão com açúcar para mim, porque quero ir numa hora específica, sem planos e planilhas, e quero voltar quando me der na telha, o que, convenhamos, poucos podem.
De todo modo, a coisa boa é que não perco quase todo o FestRio que acaba de começar por aqui.
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Como sou uma pessoa vamos dizer... incomum (para ser educada comigo mesma :), e tenho muitas milhas que nunca usei e vão expirar em breve, resolvi me dar duas chances de voltar de Fortaleza, para onde vou amanhã, sábado. Posso voltar na quarta ou na sexta próximas. Pode não parecer, mas ter as duas possibilidades me deixa mais tranquila.
Na verdade, não nasci para pensar o que quero fazer no futuro, mal sei o que quero fazer hoje, então viajar nem sempre é mamão com açúcar para mim, porque quero ir numa hora específica, sem planos e planilhas, e quero voltar quando me der na telha, o que, convenhamos, poucos podem.
De todo modo, a coisa boa é que não perco quase todo o FestRio que acaba de começar por aqui.
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Moscou
Há uma onda de documentários brasileiros nas telas, e eu tenho gostado, em geral, do que tenho visto. Então, animada, fui ao Arteplex ver Moscou, do Eduardo Coutinho, uma espécie de olhar por trás dos ensaios da peça As três irmãs, do Tchecov, realizados pelo grupo Galpão, de Belo Horizonte, e dirigido pelo Enrique Diaz.
Fui também incentivada pelas três estrelas da crítica, com vontade de achar esse também muito bom (eu já tinha gostado, há tempos, de Edifício Master, sem grandes arroubos), mas não consegui me conectar com a proposta do filme, ao mesmo tempo muito simples e muito complicada. Os atores não me "convocaram" em nenhum momento, achei que se tratava de uma coisa meio estilizada, encenada demais para ser natural. Enfim, acabei saindo um pouco antes do final, torcendo até então para que o filme fizesse algum sentido pra mim. Não fez.
Fui também incentivada pelas três estrelas da crítica, com vontade de achar esse também muito bom (eu já tinha gostado, há tempos, de Edifício Master, sem grandes arroubos), mas não consegui me conectar com a proposta do filme, ao mesmo tempo muito simples e muito complicada. Os atores não me "convocaram" em nenhum momento, achei que se tratava de uma coisa meio estilizada, encenada demais para ser natural. Enfim, acabei saindo um pouco antes do final, torcendo até então para que o filme fizesse algum sentido pra mim. Não fez.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Caninos brancos
Para Melissa e Osvjor, que provocaram
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Não se para de ler Caninos brancos, não se pode parar de ler porque um livro de aventuras como esse exige que se saiba qual será o destino daquele cão. São muitas as aventuras - e desventuras - que ele vive, mas em nenhum momento somos fragilizados por seus infortúnios. Ele é um ser nietzscheano por excelência: nobre, aristocrático, distingue-se dos demais de sua espécie, pensa de modo altaneiro e, por isso, conserva-se em relativa solidão, com pensamentos profundos a respeito de quase tudo na vida.
Sim, porque ele pensa como gente grande, ou melhor, o narrador coloca nesse cão algumas das mais altas reflexões sobre a natureza da vida selvagem, da competição, da sobrevivência em condições extremas; e, depois que os humanos cruzam seu caminho, ele aprenderá sobre as mais diversas e antagônicas expressões da grandeza e miséria em sua relação com eles.
Embora a técnica de tornar quase humano o cão, por seus pensamentos, o aproxime da cadela de Vidas secas, é com Paulo Honório, no entanto, que ele guarda estreitas semelhanças, como ocorre nesse trecho, graciliânico por excelência:
Se as coisas houvessem corrido de outro modo, talvez agora ele fosse diferente. Se Lip-Lip não tivesse existido, se Caninos Brancos tivesse passado a sua infância na companhia dos outros cachorros, talvez existissem nele mais características de cão e mostrasse mais simpatia pela sua raça. Se Castor Cinzento possuísse a sensibilidade chamada carinho, chamada amor, poderia ter tocado o fundo da natureza de Caninos Brancos e feito vir à superfície toda a espécie de qualidades boas. Mas tal não acontecera e, assim, o barro adquirira nesses moldes a forma que hoje tinha, a de um ser taciturno e solitário, desafetuoso e feroz, inimigo de toda a sua raça. (p. 116-170).
Suas aventuras constituem uma saga, que ele vivencia intensa e inteiramente, amoldando-se ora a uma situação de violência extrema contra si; ora de luta pela sobrevivência em condições terrivelmente inóspitas; ora, no final, reaprendendo - e refletindo incessantemente sobre isso - a lidar com o afeto de um novo senhor, brando e amoroso, a quem ele entregará sua vida, quase literalmente. E sentimo-nos reconfortados quando ele encontra, enfim, seu lugar no mundo dos bichos e dos homens.
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Jack London. Caninos brancos. Tradução: equipe da editora. São Paulo: Martin Claret.
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Não se para de ler Caninos brancos, não se pode parar de ler porque um livro de aventuras como esse exige que se saiba qual será o destino daquele cão. São muitas as aventuras - e desventuras - que ele vive, mas em nenhum momento somos fragilizados por seus infortúnios. Ele é um ser nietzscheano por excelência: nobre, aristocrático, distingue-se dos demais de sua espécie, pensa de modo altaneiro e, por isso, conserva-se em relativa solidão, com pensamentos profundos a respeito de quase tudo na vida.
Sim, porque ele pensa como gente grande, ou melhor, o narrador coloca nesse cão algumas das mais altas reflexões sobre a natureza da vida selvagem, da competição, da sobrevivência em condições extremas; e, depois que os humanos cruzam seu caminho, ele aprenderá sobre as mais diversas e antagônicas expressões da grandeza e miséria em sua relação com eles.
Embora a técnica de tornar quase humano o cão, por seus pensamentos, o aproxime da cadela de Vidas secas, é com Paulo Honório, no entanto, que ele guarda estreitas semelhanças, como ocorre nesse trecho, graciliânico por excelência:
Se as coisas houvessem corrido de outro modo, talvez agora ele fosse diferente. Se Lip-Lip não tivesse existido, se Caninos Brancos tivesse passado a sua infância na companhia dos outros cachorros, talvez existissem nele mais características de cão e mostrasse mais simpatia pela sua raça. Se Castor Cinzento possuísse a sensibilidade chamada carinho, chamada amor, poderia ter tocado o fundo da natureza de Caninos Brancos e feito vir à superfície toda a espécie de qualidades boas. Mas tal não acontecera e, assim, o barro adquirira nesses moldes a forma que hoje tinha, a de um ser taciturno e solitário, desafetuoso e feroz, inimigo de toda a sua raça. (p. 116-170).
Suas aventuras constituem uma saga, que ele vivencia intensa e inteiramente, amoldando-se ora a uma situação de violência extrema contra si; ora de luta pela sobrevivência em condições terrivelmente inóspitas; ora, no final, reaprendendo - e refletindo incessantemente sobre isso - a lidar com o afeto de um novo senhor, brando e amoroso, a quem ele entregará sua vida, quase literalmente. E sentimo-nos reconfortados quando ele encontra, enfim, seu lugar no mundo dos bichos e dos homens.
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Jack London. Caninos brancos. Tradução: equipe da editora. São Paulo: Martin Claret.
domingo, 6 de setembro de 2009
Two lovers
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Sobre Amantes, só posso dizer que não entendo por que o Joaquin Phoenix quer tanto ser um cantor medíocre, quando pode ser um ótimo ator às vezes, como se dá aqui. Todos os atores envolvidos no trio amoroso estão muito bem, e Gwyneth Paltrow me convenceu mais do que em qualquer outro trabalho (acho-a, em geral, bem chatinha, e bem certinha também...). Além disso, tem uma lindíssima Isabella Rossellini fazendo uma mãe compreensiva e amorosa. O final é mesmo o que todos dizem - e viva a sanidade!
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Sobre Amantes, só posso dizer que não entendo por que o Joaquin Phoenix quer tanto ser um cantor medíocre, quando pode ser um ótimo ator às vezes, como se dá aqui. Todos os atores envolvidos no trio amoroso estão muito bem, e Gwyneth Paltrow me convenceu mais do que em qualquer outro trabalho (acho-a, em geral, bem chatinha, e bem certinha também...). Além disso, tem uma lindíssima Isabella Rossellini fazendo uma mãe compreensiva e amorosa. O final é mesmo o que todos dizem - e viva a sanidade!
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Loki, Arnaldo Baptista
Dois documentários sobre músicos me emocionaram, e Loki, Arnaldo Baptista, sobretudo, mais que Coração vagabundo, me deixou todo o tempo em estado de suspensão, os sentimentos expostos e algum chororô. O interessante é que ambos focalizam músicos que fizeram eclodir a Tropicália, e ambos tiveram em suas vidas, em algum momento, a presença de uma mulher que lhes deu impulso e sustentação: no caso de Arnaldo Baptista, sua atual mulher Lucinha Barbosa, ajudou-o na reconstrução da própria vida, da autoestima, dos pequenos e grandes passos para continuar na roda da criação; no caso de Caetano, Paula Lavigne produziu não apenas esse documentário, mas quase tudo que diz respeito à carreira do ex-marido desde que se casaram.
Loki emociona do começo ao fim e foi uma revelação olhar os vários períodos da história desse músico (e do país), acompanhar as oscilações entre a alegria mais genuína do grupo inicial e a desestruturação subseqüente, sobretudo (sabemos pelos depoimentos) a partir da entrada do ácido na vida deles; a juventude e a exuberância dos Mutantes e, com eles, viajar um pouco na minha própria memória, relembrar os festivais de música que paravam o país e que fizeram parte da minha história também; os momentos criativos e as várias fases mediadas pela dor enorme de perder o amor de Rita; a tentativa de suicídio, a lenta recuperação, o ostracismo, as internações e a volta do grupo, agora com Zélia Duncan, que deu um depoimento muito bonito, aliás há vários depoimentos tocantes sobre a importância do Arnaldo para a cultura musical do país.
Eu desconhecia quase tudo, mais que isso, tinha um pouco de preconceito, alimentado sobretudo pela ignorância pura e simples, mas também por gostar de Rita Lee e ter sempre percebido quase tudo que dizia respeito aos Mutantes a partir da ótica dela, inclusive essa participação da Zélia no revival do grupo achei despropositada e meio arrivista, quando não é nada disso, trata-se de um tributo lindíssimo à figura do artista e à história do grupo.
O filme se passa sempre em vários tempos – há o passado do grupo, a efervescência dos acontecimentos iniciais da carreira, Tropicália incluída; a retomada recente e o show internacional, com a tietagem para mim inesperada a Arnaldo; há o artista no presente, meio isolado em Juiz de Fora mas tranquilo e expressando-se também através da pintura; e há depoimentos de vários artistas sobre a trajetória dele e sua importância para a música brasileira – é bonito ver Lobão falando, Nelson Motta, o irmão Sérgio Dias, que faz mea culpa mais de uma vez, e até Sean Lenon elogiando Arnaldo rasgadamente.
Mas o que vi de mais interessante, e de mais forte também, foi essa combinação todo o tempo entre vidas de jovens exuberantes, em seu completo vigor e predisposição para a felicidade, e as vicissitudes desse homem na atualidade, quando se percebe a luta ferrenha pela vida plena e para estar no estado criativo (com o auxílio luxuoso da mulher). É como se o esplendor da vida fosse confrontado continuamente com sua inescapável finitude e, nesse sentido, o filme impõe uma reflexão imediata e contundente sobre nossa fragilidade, mas também sobre nossa capacidade de recriarmo-nos, de avançar para mais vida, do jeito que for.
____
Já o filme sobre Caetano mostra Caetano sendo ele mesmo. Mas quando canta, ah, aí não tem mesmo pra ninguém, amo ouvir sua voz e amo as canções que ele canta. O resto a gente vai levando...
Loki emociona do começo ao fim e foi uma revelação olhar os vários períodos da história desse músico (e do país), acompanhar as oscilações entre a alegria mais genuína do grupo inicial e a desestruturação subseqüente, sobretudo (sabemos pelos depoimentos) a partir da entrada do ácido na vida deles; a juventude e a exuberância dos Mutantes e, com eles, viajar um pouco na minha própria memória, relembrar os festivais de música que paravam o país e que fizeram parte da minha história também; os momentos criativos e as várias fases mediadas pela dor enorme de perder o amor de Rita; a tentativa de suicídio, a lenta recuperação, o ostracismo, as internações e a volta do grupo, agora com Zélia Duncan, que deu um depoimento muito bonito, aliás há vários depoimentos tocantes sobre a importância do Arnaldo para a cultura musical do país.
Eu desconhecia quase tudo, mais que isso, tinha um pouco de preconceito, alimentado sobretudo pela ignorância pura e simples, mas também por gostar de Rita Lee e ter sempre percebido quase tudo que dizia respeito aos Mutantes a partir da ótica dela, inclusive essa participação da Zélia no revival do grupo achei despropositada e meio arrivista, quando não é nada disso, trata-se de um tributo lindíssimo à figura do artista e à história do grupo.
O filme se passa sempre em vários tempos – há o passado do grupo, a efervescência dos acontecimentos iniciais da carreira, Tropicália incluída; a retomada recente e o show internacional, com a tietagem para mim inesperada a Arnaldo; há o artista no presente, meio isolado em Juiz de Fora mas tranquilo e expressando-se também através da pintura; e há depoimentos de vários artistas sobre a trajetória dele e sua importância para a música brasileira – é bonito ver Lobão falando, Nelson Motta, o irmão Sérgio Dias, que faz mea culpa mais de uma vez, e até Sean Lenon elogiando Arnaldo rasgadamente.
Mas o que vi de mais interessante, e de mais forte também, foi essa combinação todo o tempo entre vidas de jovens exuberantes, em seu completo vigor e predisposição para a felicidade, e as vicissitudes desse homem na atualidade, quando se percebe a luta ferrenha pela vida plena e para estar no estado criativo (com o auxílio luxuoso da mulher). É como se o esplendor da vida fosse confrontado continuamente com sua inescapável finitude e, nesse sentido, o filme impõe uma reflexão imediata e contundente sobre nossa fragilidade, mas também sobre nossa capacidade de recriarmo-nos, de avançar para mais vida, do jeito que for.
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Já o filme sobre Caetano mostra Caetano sendo ele mesmo. Mas quando canta, ah, aí não tem mesmo pra ninguém, amo ouvir sua voz e amo as canções que ele canta. O resto a gente vai levando...
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