domingo, 12 de agosto de 2012

À beira do caminho

Um filme muito bom, rústico, duro, um copo até aqui de dores, tristezas e amarguras no coração de um homem simples, que se torna caminhoneiro e vem comendo estrada há vários anos para ver se deixa lá atrás a culpa pela morte da mulher amada. Cheio de imperfeições, uns vazios, uns fios soltos, tudo perfeito para acompanhar esse homem em seus vislumbres do passado, que nos situa na história, e para nos lembrar de que a vida se infiltra em tudo que vive, corrói o luto, a solidão, a dor - como diz um amigo há tempos sumido: não existe pulsão de morte, só existe de vida. Esse filme é uma obra absolutamente exemplar do axioma: é tocante ver como a vida vai-se infiltrando naquele corpo e alma desmontados, destroçados, como ela vai rachando o edifício mergulhado em 'não' que ele se tornou.

É quando ele se depara com um menino escondido dentro do seu caminhão, e não o abandona, como parece sua intenção inicial. Ele é um cara dos 'abandonos' - vai largando as coisas, as pessoas, as cidades, tudo que dói ele acha que se deixar pra lá deixa de doer. Mas ele pega o garoto, dá essa carona e a vida se infiltra junto com ele, vai corroendo a morte no sorriso do garoto, na presença apenas dele.

Nesse momento, uma outra história está apenas começando, e ela vale a pena ser contada, e vale a pena ser vista - e ouvida. Há muito de brega na dor excessiva, em qualquer dor excessiva, e quando as canções de Roberto Carlos a pontuam é perfeito, nós reconhecemos aquele universo, qualquer um de nós, brasileiros de qualquer idade (acho), tem em sua história pessoal uma melodia dele, que (re)conta algum momento de nossa vida. No filme, as canções são inscrições na alma do homem, em sua história de amor e de perda, e elas nos tocam porque são nossas também, nos pertencem  de algum modo, e nos assuminos bregas com fervor, muito bom tudo aquilo.

E João Miguel, que vive o homem perdido e achado, visceral numa entrega comovente e bela; o menino é o ótimo Vinicius Nascimento - que convence, nos passa tudo que precisa passar, mesmo as reticências e os silêncios necessários; e Dira Paes, maravilha da natureza, rosto iluminado e forte numa das cenas mais bonitas de amor. Muito bom filme, muito nós mesmos, e é bom nos ver no cinema.

PS: Fiquei acompanhando os créditos no final para tentar saber quem eram os intérpretes de algumas canções - não os vi, mas fiquei pasma com a quantidade de gente que tornou possível esse filme, são muitas, uma multidão - impressionante como precisa de gente para fazer acontecer uma obra.


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