terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Livros, fim de ano etc

Alguns livros lidos ao longo do ano, com os quais dividi meu tempo, entre (poucas) viagens, palavras cruzadas e Angry Birds.

Nada a dizer, Elvira Vigna: Verbo solto e frase precisa no acerto de contas de uma personagem com o companheiro de longa data, que a trai com uma amiga do casal. Autora de uma geração muito próxima a minha, os valores ensaiados no livro ecoam de modo natural em minha sensibilidade, de modo que reconheço facilmente os termos da longa DR que perpassam esse universo ficcional. A ressaltar a frase seca, contundente, sem concessão ao melodrama em que se poderia resvalar, dada a natureza do projeto. Ao contrário, é possível falar em precisão cirúrgica no corte da frase, na escolha dos vocábulos, de modo a não deixar margem a qualquer ideia de sentimentalismo fácil, como se lê em :

Nessa segunda viagem ao Rio, já não havia muito mais coisas, além do iPod, que Paulo precisava por na lista de situações novas sobre as quais seria preciso inventar mentiras. A viagem era uma repetição da primeira, as mentiras da primeira serviam . A viagem, acho, foi uma consolidação do que, da primeira vez, havia sido um ir em frente para o desconhecido. E, na cabeça dele, já estabelecida, estava a ideia de que o que havia entre ele e N. era o exercício de um direito que ele tinha, o de gerir a vida dele e o pau dele do jeito que lhe aprouvesse. (p. 44-5).

*****
Monodrama, Carlito Azevedo: Há claros rastros de Oswald de Andrade na seção "Emblemas", por exemplo, assim como Ana Cristina Cesar ecoa suas conversas líricas em "O tubo", ou "Garota com xilofone", nesse que parece ser um dos mais heterogêneos livros no conjunto da obra de Carlito Azevedo. Acompanho sua produção com interesse, desde Collapsus linguae, e vejo que há aqui um certo impasse quanto à dicção, na recuperação do que nossa tradição poética tem de mais "vanguarda", com perdão da palavra. De todo modo, é também sinal de certo impasse formal, creio, o fato de que numa das partes mais contundentes da obra, aquela que tematiza a morte da mãe, também aqui Hilda Hilst ressurja não apenas no título "H" (Hilda, nome da mãe do sujeito-que-escreve) da seção, mas no tom veemente, na conversa sobre os extremos que se estabelece entre narrador e leitor, a morte mediando um hiato de tempo entre letras e estados extremos de dor, quando a palavra poética abre-se sem peias para só assim nomear o inominável.

(Nota: há muita coisa escrita sobre Monodrama na internet, é só escolher dentre inúmeras resenhas, críticas, análises, comentários etc, mas essa apresentação de Bernardo Carvalho me parece adequada.
Aqui:  http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=1606  )

Agora o empresário
agora o demitido
agora
o secretário-geral
agora
o guarda-florestal
explicando
o cogumelo
vermelho com pintas brancas
a casa de J.M. Simmel 
mas um dos monitores
transmite continuamente
a imagem parada
de um deserto 
(p. 15)

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o que você escrevia
tinha a capacidade
de produzir de imediato
com tão poucas palavras
algo que estabelecia
uma completa relação
entre consciências
desencantadas
que me deixava
absolutamente encantado.

eu disse:
claro que vão deixar
você escrever por lá,
tem cabimento uma dúvida
dessas? ei
para que tipo de lugar
você pensa que está
sendo levada? 
(p.45)

****
Hilda:

__ Comparada com  a larga eternidade de nada sentir, nada provar, nada tocar, ver e ouvir que nos espera, a morte no sono, como dizem que coube a Chaplin, vale o que valem as dez costelas partidas, as orelhas arrancadas, os dedos decepados, a laceração horrível entre pescoço e nuca, a esquimose larga e profunda nos testículos, o fígado lacerado, o coração lacerado, o rosto inchado irreconhecível, os hematomas, última forma física assumida por Pasolini nesse louco planeta que agora, para você, gira também sem mim.   (p. 152).

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A máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe: o que torna o livro uma obra-prima inconteste é o modo de construir a frase, o tom, a sintaxe, uma certa ironia fina que ele trabalha com a maestria de gênio da língua, sobretudo porque tal ironia exaspera-se pela decisão - sábia - de manter o texto no original português de Portugal, o que para nós, leitores brasileiros, soa como uma  espécie de eco histriônico, como se além de tratar a velhice, a decrepitude, a morte, o largar-o-velho-pai-no-asilo com humor ferino ao longo de toda a narrativa, também houvesse essa outra língua que nos acena, duplica vozes de uma cultura que nos pertence mas não é inteiramente nós. Do mesmo modo que a grande cultura clássica portuguesa vibra na obra de várias maneiras: claramente, através da delícia de personagem que é o joão esteves, saído do poema "Tabacaria", de Fernando Pessoa, e habitante pra lá de metafísico desse asilo-muito-louco, que de habitantes loucos não tem nada.

Além disso, somam-se também registros da história de Portugal, da ditadutra salazarista, dos grandes poetas e das grandes aventuras náuticas, em geral relidas por uma voz  ácida quanto à decadência ante o antigo fausto, de que resulta ver-se o país na tal máquina de fazer espanhóis, metáfora de uma Europa onde melhor reluz seu ouro .

Claro que outro espanto espantoso do livro é haver esse autor tão jovem falando com tamanha desenvoltura de tais temas enervantes e escalavrantes - com uma propriedade que eu diria - esfuziante? Bom, citar é sempre cortar e mostrar o que o livro não é, porque uma parte jamais será o que o todo forma (e isso se coloca para os excertos das obras anteriores), mas fazer o quê, então escolho meio aleatoriamente:

quando o vi pela primeira vez achei que era uma ironia vir partilhar o quarto com o senhor medeiros. era perfeitamente o medeiros sem metafísica. vejam. aparentemente não acontece nada com ele. está para lá de todas as coisas e já não lhe dá mais nada senão o tempo. mas depois percebi que isso não era verdade. que um vegetal destes grandes tem ainda metafísica suficiente para muitas noites de agonia. e a mim aflige-me estar aqui confinado ao pé dele, a ver como se esvai e sem saber o que raio veio fazer ou pensar. sou mais velho do que ele. eu sou mais velho do que ele e estou para aqui discernindo o cu das calças. que me dizem a isto. digam-me se não é a violência na terceira idade. isto é violência na terceira idade. sabem por quê, porque o nosso inimigo é o corpo. porque o corpo é que nos ataca. estamos finalmente perante o mais terrível dos animais, o nosso próprio bicho, o bicho que somos. que decide que é chegado o momento de começar a desligar-nos os sentidos e decide como e quando devemos padecer de que tipo de dor ou loucura. pois eu que tenho cem anos e podia ser vosso pai quero dizer-vos que ser-se velho é viver contra o corpo. o estupor do bicho que nós somos e que já não nos suporta mais. a violência na terceira idade.
    
    [...] pasmávamos ainda como se não fosse coisa de acreditar que o joão esteves um dia tivesse vivido em lisboa e frequentado a tabacaria alves com naturalidade suficiente para ser genuíno dentro de um poema de fernando pessoa. o anísio finalmente disse, que filho da mãe de  sortudo. nem rimos. estávamos demasiado atónitos para beliscarmos aquela fantasia tão grande.  (p. 126-7).

___________
Elvira Vigna. Nada a dizer. São Paulo: Cia das Letras, 2010.

Carlito Azevedo. Monodrama. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009.

valter hugo mãe. a máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

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15 comentários:

osvjor disse...

Salve, Clara.


Fazendo referência a algo que você disse lá embaixo, eu acho que o formato dos blogs está passando no teste do tempo. Embora tenha aparentemente perdido espaço pro Facebook e Twitter, ao mesmo tempo se mostra bem mais interessante pra divulgação/troca de informações em comparação justamente com esses sites batizados de redes sociais. Fb e Twitter servem de instrumento pra informações instantâneas, digamos assim, e olhe lá. Não vejo como você, por exemplo, poderia criar algo como este Linha de Pesca no Fb ou no Tw. E o mesmo pode ser dito de outros blogs. Claro q também tem muita porcaria entre os blogs, como aliás em 90% da internet. Mas continuo gostando bastante do formato dos blogs. Se eles forem extintos como os dinossauros, espero que sejam substituídos por algo melhor.

Kovacs disse...

Clara, obrigado pelas três resenhas, um ótimo presente de natal do Linha de Pesca, principalmente sobre "a máquina de fazer espanhóis", um sério candidato a livro inesquecível de 2011.

Clara Lopez disse...

Oi, osvjor, fico muito feliz em vê-lo por aqui, ontem mesmo estava pensando em você, pensando que enviaria um email desejando Feliz Natal, reclamaria de sua ausência na escrita de seu blog, porque seu texto faz falta, sua ironia e prosa afiada fazem falta, e cá está você, merci! :)

É possível que vc tenha razão, mas continuo achando que esse tipo de comunicação virou uma espécie de casa assombrada quando se trata de espaço feito por leigos. Se vc não trabalha diariamente para manter o blog vivo, ou se não está a serviço de alguma empresa, ele fica vagando às moscas, como sabemos. Eu me recuso a fazer do linha um lugar de trabalho, não movo um dedo para divulgá-lo e quero mais é ficar anônima. Mas sinto falta de conversar por aqui com algumas pessoas, dentre elas você, claro. Então é isso, volte a escrever quando tiver vontade, eu vou gostar muito.

Abraço grande, ótimo Natal, saúde pra você e sua família, e Ano Novo com mais boas coisas, sempre,
clara

Clara Lopez disse...

É verdade, kovacs, para mim foi o livro do ano, e fico feliz que você tenha recebido esses comentários como um presente, você é uma das pessoas do mundo virtual que conheço que mais amam literatura, só faz concessão em seu blog à música, talvez, mas quem reina lá é a literatura. Dizem que num futuro próximo nós, que amamos livros, seremos inexistentes. Enquanto você estiver por aqui a profecia estará fadada ao fracasso. ::)

Ótimo Natal e Ano Novo com livros mais que bons, inclusive aqueles que são objetos de desejo ::)
clara

osvjor disse...

obrigado, Clara, tudo de bom pra vc e a sua família também.

vc tem razão quando diz que os blogs ficam abandonados. mas olha, mesmo aqueles que são ligados a empresas ficam às moscas tb, sou testemunha ocular disso. a coisa se fragmentou muito e, a menos q vc seja uma celebridade, muitas vezes precisa ficar caitituando o blog pra tentar aumentar a audiência dele.

concordo plenamente com sua decisão de não ser uma serviçal do blog, e sim de ser a chefe absoluta.

após um período de vacas magras, de um longo e tenebroso inverno e outros clichês pertinentes, senti vontade de voltar a escrever. mas antes preciso ver o que os meus blogueiros favoritos andam aprontando, pq fiquei todo esse tempo sem ler nada. gostei de ver q vc foi a Buenos Aires (anotei a dica do hotel) e que continua animada fazendo resenhas de livros e críticas de filmes.

Nesse tempo em que fiquei "fora" aconteceu uma coisa inacrecditável: pela primeira vez fui ver filmes do Fest Rio (ou Festival do Rio, não lembro o nome correto). Eu tirei uns dias de folga e, muito por acaso, comecei a ver um filme aqui, outro acolá e no final já tinha assistido a um número razoável - pelos meus padrões. Gostei da experiência. Só não me pergunte os nomes dos filmes porque esqueci tudo. Mas um deles vc tb viu: um MEIO lento que se passa na Espanha, com uma índia que toma conta de um velhinho... bjs

Anônimo disse...

O FestRio é um evento que assusta um pouco de início, mas depois vicia, só não consigo fazer grandes maratonas, sou muito comodista para esse tipo de esforço, e esse ano perdi quatro ingressos e bons filmes por conta de uma gastrite.

Eu vi o filme a que vc refere, sim, o velho morre e ela deixa o cadáver na cama por dias, pra não perder o emprego, depois tudo acaba bem, a própria filha tb quer continuar ganhando a pensão dele e concorda com a moça, enfim, um filme tristinho mas bom, acho que comentei por aqui somewhere.
um abraço,
clara

Anônimo disse...

ps. osvjor, acho que se vc quisesse falar do período tenebroso e suas vacas magras, teria comentado, ou talvez escreva sobre ele, tenho curiosidade de saber, mas aguardo se e quando vc quiser falar sobre,
abr, clara

Egídio La Pasta Jr disse...

Clara, eu quero muito ler a Elvira Vigna. Vou me dar de aniversário, quem sabe?

Escolhi meus filmes do ano lá no blog.

Boas festas pra ti e um grande beijo.

Anônimo disse...

Oi, egídio, mandei um email pra você agora sobre o livro da elvira, e vou ver sua escolha de filmes daqui a pouco, mas quando vejo suas lista de fim de ano me dá uma certa nostalgia dos filmes maravilhosos que (ainda) não vi, mas verei um dia. Afinal, não sei ainda se você estuda cinema ou se é um espectador dos mais apaixonados.

Beijo, bom te ver aqui, um ótimo Natal e Ano Novo com muitas aventuras e finais felizes ::)
clara

Egídio La Pasta Jr disse...

Clara, eu estudei cinema, mas larguei a faculdade no meio. Foi a época que menos vi filmes e assistia a maioria para cumprir tarefas e discutir sobre as obras. Me dei bem com continuidade e algumas assistências de direção, mas os bastidores, embora me fascinem, não são tão poderosos quanto a obra inacabada. Eu comecei a ter pavor de grupos que debatem discutem, teorizam e opinam infinitamente sobre os filmes alheios. eja bem, adoro um papo sobe cinema, desde que ele seja leve e caiba num tim tim de uma mesa de bar. Vejo tudo e não tenho o menor receio de comédias-românticas, não julgo como gênero menor e não acho que pra entender de assunto qualquer, a gente deva abrir mão de levezas e só amar Godard e cia. enfim, eu enchi o saco de gente que me enchia o saco. rs E larguei a tempo de reatar meu amor pelos filmes. Minha formação é em artes cênicas. Sou ator. E desde os 14 anos, sou dono de uma locadora de bairro que resistiu e resiste aos piratas, aos gatos net, ao desinteresse e está lá, fazendo 20 anos de idade. Grande beijo

Anônimo disse...

Muito interessante sua história, egídio, eu entendo a falta de paciênica com os críticos hard, seja de cinema, seja, no meu caso, de literatura, já li muita coisa chatíssima ao longo da minha vida acadêmica, por isso minha decisão de só falar levezas por aqui, mesmo assim, pelo que vc diz, deve passar batido por meus comentários sobre cinema ::)) E agora entendo por que vc quase nunca fala dos filmes maravilhosos que vê, o que é uma pena pruma leitora como eu.

Essa locadora deve ser sua paixão, que bom achar uma coisa pra fazer de se gosta muito, já é meio caminho andado pra ser feliz ::)

Beijo, merci pelo contato e pela confiança, seu livro deve seguir hoje pelo correio,
clara

Aguinaldo Medici Severino disse...

Olá
Para você também boas festas. Muita felicidade em 2012. Anotei tuas dicas. Vamos a ver quais serão os livros que nos encantarão no ano que vem.
Sucesso para ti.
Aguinaldo

Anônimo disse...

Obrigada pela visita, aguinaldo, sei que não lerei nem um décimo do que você fará no próximo ano, fico impressionada com sua marca de leitura :)
um abraço,
clara

Egídio La Pasta Jr disse...

Clara, fiz um comentário que não entrou e ele dizia basicamente que eu leio com muito prazer o que você escreve sobre os filmes que vê. E gosto muito, mesmo quando não concordo, porque é legítimo e particular. Sou fã mesmo.

E quero dizer que o livro acabou de chegar. Agradeço mais uma vez. Vou começar hoje ainda.

Muitos beijos

Clara Lopez disse...

Que bom, egídio, fico feliz com suas boas notícias ::)
Ótimo Natal, paz e festa!

abraço,
clara