domingo, 4 de dezembro de 2011

Três filmes, e Lars

Um dia: Anne Hathaway está muito bem, apesar de ninguém do filme parecer vinte anos mais velho, nem mesmo Jim Sturgess com cabelos prateados ao final parece que envelheceu. Ah, o filme é bom, mas longo demais, o roteiro desanda a horas tantas, não tem mais história pra contar, até o final abrupto e realmente chocante - tive a impressão de que todo mundo levantou da cadeira um pouquinho ao mesmo tempo na mesma hora. Esse final me pareceu mais impactante do que o parto de Bella, que fez alguns espectadores desmaiar, dizem, por causa dos efeitos das luzes - nem percebi tais luzes, mas nesse filme, sim. Não é bem uma luz, é um som. Caracas. Não quero dizer mais nada sobre o final, mas o filme todo fica um pouco diferente por ele, pelo menos eu li com mais interesse a história daqueles dois, que leva vinte anos do encontro inicial até sua mais feliz realização. Esse final também me pareceu o indicador mais forte da teoria do caos aplicada à vida. E sua aleatoriedade.

****
Inquietos: todo o tempo, mas todo o tempo mesmo em que Henry Hopper está na tela eu via dois-em-um, o filho e o pai, Dennis Hopper, um ator inquieto, cuja morte me parece ainda hoje estranhamente inusual, numa espécie de condensação do tema: a inclinação pela morte do personagem, sua semelhança com o pai real, mas re-editado com um semblante agora doce, meigo, jovem e lindo. A protagonista  cumpre seu destino com serenidade, e a excelente atriz Mia Wasikowska transmite uma aceitação de suas últimas semanas na vida de forma, eu diria, estóica, zen, mesmo alegre, fruindo o inesperado amor de modo vorazmente doce. Amei o filme, os dois, o modo de ser de ambos, os caminhos, o amor difícil e belo, o figurino (vintage?), sobretudo dela, a encenação toda, o enredo. Nunca a morte foi tão tranquila e leve no cinema.

PS. Outro dia revi na televisão um outro filme de Gus Van Sant de que não havia gostado no cinema, Paranoid Park, e desta vez gostei muito, achei delicado, forte, nada chato - outra pessoa assistira àquele filme, naquele tempo anterior. Que coisa, essa é uma das facetas da grande arte, acho - nos força a mudar, a vê-la.

****
A chave de Sarah: Forte, tocante, imperioso ver novos ângulos mostrados para a eterna questão do holocausto, com atuação marcante de Kristin Scott Thomas e da atriz mirim francesa, Mélusine Mayance, que faz Sarah menina. Um lado pouco conhecido (para mim) da colaboração francesa com as forças de ocupação nazistas. Muito bom filme, história, reconstituição, e o final meio redentor toca intensamente o espectador.

****
Li que Melancolia ganhou o prêmio de melhor filme do ano do European Film Awards. Merecidíssimo. Lars não compareceu, a irmã o representou. Acho uma pena tão grande esse enorme cineasta ter tido a infelicidade de falar uma bobagem numa entrevista, por ele mesmo reconhecida como uma espécie de tagarelice tola, daquelas que se fala para 'épater' num evento espetaculoso como o de Cannes, e passar a ser indigitado por todos a partir de então. Se ele pelo menos tivesse falado a sério, mas era pura mis-en-scène em palavras, eu acredito que foi mesmo uma tirada infeliz. Enfim, tomara que ele continue fazendo filmes ótimos e grandiosos, que enriquecem o cinema e quem ama essa arte.
____

0 comentários: