terça-feira, 25 de outubro de 2011

Tiranossauro

Tiranossauro: filme porreta, porrete, porrada, com também muitos porres e todos os derivados e correlatos. Filme cheio de ira e fúria e dor e violência. Filme que trabalha escaneando a solidão, o emparedamento de todos os personagens, mas sobretudo dos dois protagonistas, um homem e uma mulher, vividos magistralmente por Peter Mullan e Olivia Colman, dignos de toda reverência que tiveram em Sundance pela atuação impecável.

Acho importante dizer que os protagonistas são um homem e uma mulher, porque ambos vivenciam experiências de violência específicas a cada um dos gêneros.

(Nesse sentido, por acaso sentei ao lado de um casal de jovens aparentemente apaixonados, pelas mãos nas mãos etc, e num certo momento na história há uma cena especialmente - como direi - escatológica, em que o marido comete uma violência contra a mulher dormindo. A maior parte dos espectadores ri - não me perguntem como sei que eram risos masculinos, pareciam e acho que eram. Mas disso tenho certeza, pois ocorreu a meu lado:  o namorado da moça riu com vontade, e ela deu-lhe uma bronca zangadíssima, largou a mão dele e ainda fez-lhe uma preleção sobre o que vimos - tudo isso percebi meio de banda, olhando a tela ao mesmo tempo, pois, como se sabe, podemos fazer muitas coisas ao mesmo tempo).

Então, há uma violência específica aos gêneros, mas ao fim e ao cabo restam expostas essencialmente vidas humanas dilaceradas por vicissitudes, reveses, situações desesperadoras, mas também que buscam uma saída para estar na vida, para usufruí-la pelo tempo que lhes/nos cabe, pelo tempo que lhes/nos resta. Um filmaço, absolutamente indispensável.

(Obrigada, caríssimo Egídio, esse filme eu vi por indicação sua).

Trailer aqui.

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4 comentários:

Egídio La Pasta Jr disse...

Eu estava lá hoje, querida Clara. Cheguei, sentei, as luzes apagaram. Tudo muito rápido. Mudei de lugar pois um rapaz sentado ao lado queria usar a internet do telefone dele durante o filme. A claridade me incomodou e aquele ditado é inteligentíssimo. Mudei. Fiquei lá na frente, bem pertinho da tela.

Fico feliz que tenha gostado e me perdoe a ousadia, mas esse 'y' que você credita ao meu nome, ele não existe.

um grande beijo do Egídio.

Clara Lopez disse...

Já retirado o 'y', sorry, e me pergunto o que achou do filme, vc é sempre tão comedido nos comentários sobre tanta coisa que vê no festival, é uma pena que não escreva sobre suas impressões,
beijo,
clara

Egídio La Pasta Jr disse...

Eu tenho muita dificuldade de criticar. Me sinto numa área que não me interessa muito. Mas tem aquilo que o filme deixa ou desperta ou te faz reprovar. Esse gostar ou não gostar muito mais sensorial, onde eu transito com vontade.

Gosto demais do encontro dos dois. São desesperos que se complementam, eu penso. E se ele começa asqueroso, na cena em que ele revela o porque de tiranossauro, já consigo achá-lo levemente atraente. E ela, náufraga, de uma certa forma, consegue alguma esperança de romper com a vida que levava, não porque o encontrou, mas pelo que ele questionou e eu acredito, às vezes, muitas vezes precisamos do outro para sinalizar. Acho o filme seco demais, as cores são frias, o que pulsa, o que é intenso, está nos olhos, na vontade, no subtexto, na imagem que corta quando parece que vai explodir. É um trabalho delicadíssimo do diretor, de tentar conter as explosões. Eu gostei demais.

Nossa, como escrevi.

Clara Lopez disse...

Assim é que se fala! Adorei suas observações, coisas que eu não tinha percebido, sobretudo ela mudar pelo que ele disse e não pelo encontro em si. Acho que o encontro em si já é perturbador pelo estado em que ele se encontrava, mas acho mais fantástico ainda que ela não tenha tido medo dele, olhou-o com serenidade absoluta, rezou por ele, ajudou-o, então o encontro começou com ele sendo tocado intensamente - na verdade, qualquer olhar de aceitação (nem direi de amor) naquele momento pra ele teria sido transformador. E ela foi mudando aos poucos, nem sabia bem como e ele foi indicando o caminho que já estava nela, creio. Enfim, essa conversa é boa e pode render um textão...::))
Merci pelo comentário, e um abraço,
clara