quarta-feira, 19 de outubro de 2011

FestRio - menos

Vi Dark horse e, de cara, aprendi que a expressão significa 'azarão'. Quanto ao filme, quer uma coisa, mas não chega lá. O que quer: mostrar a mesquinhez da classe média norte-americana, sua banalidade, sua pobreza de perspectivas, sua mediocridade, e um modo de fugir dela, através da imaginação. O que consegue (para mim): apresentar um personagem medíocre, super-over-zé-mané, com o qual o espectador não cria empatia, e filmar as mancadas que ele comete na vida, que são muitas e recorrentes. A secretária ainda tem mais força interpretativa do que ele, quando ela entra em cena e 'encena' suas fantasias, o filme ganha intensidade. A Mia Farrow está muito bem, figurando com perfeição a decadência física de uma mãe de família, e o botox exagerado nos lábios serve como paradigma dessa mesma decadência. Selma Blair, belíssima, apesar de estar o filme quase todo com ar de abestada, por conta de uma praticamente incurável depressão. Christopher Walken também faz jus ao título de capitão mor daquele time de perdedores e lascados, com seu jeito torto e sem expressão.

O diretor, Todd Solondz, bem que tentou, mas não (me) convenceu com seu retrato de uma decadência sem qualquer possibilidade de escape, tudo é amesquinhado demais, e aborrecido. Enfim, um filme que me irritou mais do que me fez pensar, ou gostar dele. Toda aquela fauna parece muito pouco construtiva, ou instrutiva, ou deleitável. E tenho pouco interesse por esse lado torto, tolo e decadente desse estrato social estadunidense, até porque revi há pouco na TV o belíssimo Beleza americana e me dou conta de que o estado da arte na compreensão e criação pela imagem dessa parcela da sociedade, ou pelo menos de seus  'perdidos', 'estranhos' e 'inadequados para quase tudo'  já está lá de maneira avassaladoramente bela, consistente e intensa. A faceta que me pareceu mais interessante em Dark horse foram os ataques imaginativos da secretária, quando ela aparece poderosa e sexy - isso sim, é sonhar pra cima.

E será necessário observar que o final teve uma edição um tanto confusa: afinal, seria sonho/fantasia da secretária tudo aquilo, ou é do rapaz azarão também? Seria sonho dela até a morte do rapaz, ou dele enquanto estava em coma? Enfim, uma edição que tornasse menos confuso aquele final ajudaria.
_____

2 comentários:

Egídio La Pasta Jr disse...

Eu perdi a hora e tenho um pacto de não entrar em filme começado. Perdi, mas daqui a pouco baixo. Ano passado vi outro dele - A Vida depois da guerra - que detestei, então nem doeu.

Saiu a programação da repescagem e escolhi 5 filmes para ver, sendo dos 5, Tiranossauro o que mais me interessa.

Achei Amador lindo. Meu segundo filme preferido do festival. O primeiro é Separação.

Fiz minha publicação em imagens, como faço todo ano.

Muitos beijos

Clara Lopez disse...

Querido Egídio, vc deve repensar esse pacto, muitas vezes o começo não atrapalha o resto do filme, vc sabe; e hoje já acho que deixar de ver uma parte final de alguns filmes também não faz perder nada, a não ser cortar a chatice em um terço ::)

Pois é, Amador trabalha com um núcleo de personagens que eu chamo de 'emperrados', e como sou muito 'proativa' (desculpe o termo horroroso de mercado), não suporto muito ver essa lengalenga dos que ficam no mesmo buraco e não conseguem sair - a não ser quando se trata de miséria radical, como em Garapa, por exemplo - aí fico paralisada vendo aquilo, só chorando por fora e por dentro, e então sou eu que não saio do lugar.

Mas, enfim, Amador é um filme bem interessante, pq a protagonista está paralisada, e lá pro final alguém acima dela socialmente revela também sua própria paralisia (falta dinheiro, obras inacabadas) e somam então as perspectivas - que coisa inesperada e interessante, não foi? A moça sai da inércia e pode tocar a vida. Daí eu pensei: ser tocada por alguma ajuda pode fazer uma revoluação na vida de quem quer e precisa.

Caracas, desculpe o comentário quase post. Mas é porque se trata de você, e você hoje é praticamente meu único leitor escrevente ::))
beijo,
clara