Eu poderia ver A partida sob outra perspectiva, a da vida que pulsa ali também, e poderia dizer que o protagonista encontra nas lides com os defuntos um novo trabalho, com o qual ele vai aos poucos se encontrando, e que vai aos poucos dando um novo sentido a sua vida.
Se inicialmente ele recusa aquela função, por mal vista pela comunidade - e depois mais radicalmente desprezada pela mulher -, aos poucos ele vai percebendo a beleza que há em todos os pequenos sinais de apreço que o defunto merece receber em sua hora final, e ele vai gostando do que faz, vai-se aperfeiçoando nos detalhes, nos cuidados, vai, de certo modo, honrando aquele que parte, oferecendo-lhe uma última nota de dignidade. E aos poucos aqueles que estão a sua volta também se modificam, também vêem o que há de belo e necessário no trabalho do homem.
(Tudo isso é comovente, mas às vezes um pouco arrastado demais).
E se a vida está presente como resposta ao momento final de cada um de nós, a vida que insiste em achar saídas para a beleza, claro (por exemplo, a música do violoncelo, a liberdade encenada pelo homem e seu instrumento no descampado verde e imenso a sua volta), é desse momento que o filme trata, é desse gesto de torná-la - a morte - uma cerimônia que embeleza os que vão, e engrandece os que ficam.
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(PS. A esta versão se pode assistir comendo um sacão de pipoca, discretamente; na versão abaixo será melhor segurar as pontas).


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