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Terminei de ler há algum tempo No coração do país, o segundo livro de John Maxwell Coetzee, publicado em 1977, e achei um romance espantoso, forte, denso, embora alguns aspectos de sua estrutura sugiram que ali está a base não apenas do futuro Desonra, mas o laboratório dessa personagem feminina que está no centro de ambos os romances.
De início, o livro captura o leitor pelo impacto da cena em que a narradora mata o pai e a madrasta, impiedosamente, já nas primeiras páginas, num ato de extrema violência e barbárie. Queremos saber então o que houve de tão terrível para que ela chegasse àquele paroxismo de horror, para logo mais à frente descobrir que tudo fora apenas imaginado. Interessante.
O que não quer dizer que ela não matará o pai, ela o fará, mas então já estamos imersos nos domínios dessa mente completamente devastada pela solidão, pelo abandono, pelo desalento. A mulher que narra os acontecimentos apodera-se de nossa sensibilidade de modo avassalador. Ela não apenas age o tempo todo, como pensa o tempo todo, pensa sozinha, fala sozinha, ela praticamente desvaira sozinha. E filosofa.
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[Que fazem a dor, o ciúme, a solidão na noite africana? Uma mulher à janela, olhando para a escuridão, significa alguma coisa? Coloco os dez dedos na vidraça fria. A ferida em meu peito se abre. Sou um emblema, sou um emblema. Sou incompleta, um ser com um buraco por dentro, significo alguma coisa, não sei o quê, sou tola, através de uma lâmina de vidro olho para a escuridão que é completa, que vive em si mesma, morcegos, arbustos, predadores, tudo que não me diz respeito, que é cega, que não significa, simplesmente é. [p. 16]
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Talvez nessas longas reflexões sobre a natureza das coisas, recorrentes elocubrações mentais que não têm fim, talvez aqui resida uma nota de fragilidade na estrutura, porque a mim pareceu que essa personagem não poderia ter o nível de elaboração ou complexidade filosófica que o autor lhe empresta (diferentemente do Riobaldo, aqui senti a estrutura meio falsa).
Dá a impressão de que há alguém 'soprando' aquela coisa toda para ela dizer, pensar. Mesmo assim, há uma força descomunal em tudo que faz, há uma obsessão - a obsessão dos loucos - a guiá-la para seu inelutável destino trágico.
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Aqui também o estupro é um acontecimento fundador. A personagem não apenas habita uma fazenda distante do 'mundo civilizado', como tem sua solidão de mulher acentuada por traços físicos desagradáveis e porque não há mesmo com quem interagir naquele fim de mundo. A violência sobre ela aprofunda uma espécie de loucura que já a habita desde o início, e ela radicaliza o jogo entre opressor e oprimido: passa a servir sexualmente o empregado negro que a viola e, mais ainda, muda as relações de domínio até então existentes.
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Quase tudo que acontece gira em torno desse pai, que ela deseja e odeia intensamente, origem dos delírios e das perquirições que persegue ao longo da narrativa. Não se trata de compreender por que ela precisou matar o pai, mas grande parte do que se lê constitui a voz assustadora desse ser, que não por acaso é uma mulher, buscando compreender o que faz ali, como chegou àquele estado de deterioração humana, como se tornou quase um bicho, como sobreviver ao inteiramente só.
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Ela então começa a ouvir vozes, e depois começa a ver fantasmas, e eles são, afinal, tudo que lhe resta. Pode sentar com o pai (morto) e tomar conta dele, cuidá-lo como sempre fora seu trabalho. E caminhar lentamente rumo a uma certa pacificação, com perguntas para as quais aceita não ter respostas.
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Dois momentos do pai:
Quando Hendrik está fora, executando algum miserável trabalho no calor da tarde, meu pai visita sua esposa. Cavalga até a porta do casebre e, sem desmontar, fica esperando até que a menina saia e se ponha à sua frente, piscando ao sol. Ele lhe fala. Ela se mostra acanhada. Oculta o rosto. Ele tenta acalmá-la, talvez chegue a sorrir, mas não consigo ver. Inclina-se e lhe dá um embrulho de papel pardo. São balas, corações e diamantes com lemas escritos. Ela fica segurando o pacote, ele se vai. [p. 46].
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Meu pai está sentado, se é que se pode chamar isso de sentar-se, em sua antiga poltrona de couro, a brisa fresca na pele. Seus olhos não vêem, são duas paredes vidradas azuis, orladas de rosa. Nada ouve, só o que se passa dentro dele, a menos que eu tenha estado o tempo todo equivocada e ele me ouça tagarelar, embora prefira não me fazer caso. Já tomou ar por hoje, é hora de levá-lo para dentro e descansar um pouco. [p. 178]
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J. M. Coetzee. No coração do país. Tradução Luiz A. de Araujo. São Paulo: Círculo do Livro, 1997.
domingo, 14 de junho de 2009
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5 comentários:
Querida,
Comentar um comentario de livro - nosso serao literario.
Pois é. ocê ja sabe que nao é o tipo de literatura que me agrada, nao &? Lendo seu texto me lembrei de duas peças que foram - e sao - muito importantes pra mim, que me tiraram e tiram ainda de um estado de fantasia melancolica e me ficam na realidade: O primeiro é "Senhorita Julia" - um choque de realidade; outro é "As tres irmas". O primeiro diz que cada um tem de assumir o que e fato é,sem concessao possivel. Cada um tem de ,literalmente, "ficar na sua"; o segundo diz que sempre se pode tomar um trem e ir pra Moscou, largando o que deprime, largando mesmo, abrindo mao, aceitando perder o que deprime, o que faz mal.
Nao sei, nao gosto de literatura esperando Godot. Você se lembra de "Aquele que diz sim, aquele que diz nao"? Bises,
Eliana
Nao?
Eliana, querida, vc andava sumida, bom que voltou. Acho engraçado vc falar em 'serão literário', porque estou numa posição em que me sinto totalmente sem as correntes do trabalho e os livros ficaram leves de ler, sem a obrigação do trabalho...::)) Agora só leio o que quero, e tenho gostado muitíssimo (claro que ainda resta a obrigação com a hilda, quand même...). Esse Onetti que eu descobri por agora é um escândalo de bom.
Quanto a seu comentário, não li Strindberg, nem conheço As três irmãs, mas posso te afiançar que não tem saída para essa personagem não... não tem saída para lugar algum, ela não pode ir nem voltar, está estacada ali, sem poder se mover, falta tanto e tão vastamente que ela não tem saída.
O máximo que ela consegue é se aproximar "da sua", que é ficar louca mesmo, deixar-se enlouquecer de solidão. Enfim.
beijo,
clara
Clara,
O bom de ler teatro é que é rapido: você lê uma peça em meia hora, 45 minutos no maximo. E depois tem toda a ida pra reler de cabeça. Recomendo vivamente esse Strindberg, Brecht e Tchecov. E o Caymmi de Anda Luzia ( é ele,nao é?).
E, você sabe? Acho que unica situaçao contra a qual nao se pode nada é a relativa à saude da gente. Todo o resto se pode mudar. Vou atacar de Benjamim, que diz mais ou menos que, num momento de perigo a relidade lampeja claramente diante de nos. E ai qando se pode ver, isto é, se acha a linguagem para dizer a realidade, acabou a crise e começa o movimento.
Bises e bom dia.
Eliana
Tá certo, vou ler strindberg, e um dia tb nelson rodrigues, que só conheço lido umas duas peças, mas tenho sempre a impressão de conheço nelson de fio a pavio, coisas de quem cresceu no subúrbio.
É verdade, querida, quase tudo, tirando as barras pesadas da saúde, se pode mudar, mas... quando se pode. Às vezes a barra é tão pesada que o sujeito não tem condições de desejar nada, ou seja, de querer sair, pq ele precisa de todas as forças para continuar apenas vivo, sobrevivendo. Além disso, a loucura tem seus apelos, no caso da protagonista de No coração do país. No caso de Garapa, trata-se de juntar forças para continuar respirando, mas tb acho que qualquer brecha que apareça para qualquer deles, eles embarcam. É que a brecha é quase inexistente. Fiquei pensando o seguinte: seria a saída essa que existe hoje, em que os que vêem a brecha vêm para o rio / são paulo para ser porteiro ou garçom, trabalham pra burro mas ficam com um certo banzo da terra? Mas então que fechar o sertão e mandar todo mundo pra cá? Não seria mais lógico tornar o sertão habitável? Enfim, essa conversa já tem um século e nós rodamos em torno dela feito cachorros doidos... Enquanto isso aquele crápula diz que a crise é do senado, ele não tem nada a ver com isso... PQP!
beijos,
clara
"tenho sempre a impressão de que..."
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