domingo, 21 de junho de 2009

Leitor de Onetti

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Onetti continuará para sempre en mi vida, e antes de começar a ler os 47 contos (completos) publicados pela Cia das Lletras, com tradução da poeta Josely Vianna Baptista, paro fascinada com a precisão e o encantamento do prefácio escrito por Antonio Muñoz Molina, sob o título “Sonhos realizados – um convite aos contos de Juan Carlos Onetti”, que não apenas situa, esclarece, sugere chaves de leitura para os contos, mas se mostra um leitor apaixonado pela obra onettiana. Gosto de ler crítica em que o autor, além de mostrar algum domínio do assunto de que trata, no caso a obra, também se coloca pessoalmente ali, empenha-se numa história de sua própria leitura, e é isso que faz com maestria o Antonio Muñoz.

Dentre todas as coisas interessantes que diz difícil será recortar algum trecho:

"Há escritores que admiramos como se admira um edifício ou uma estátua, com reverência, mas sem intimidade: são os escritores que parecem dirigir-se a nós em público, como se fizéssemos parte da multidão que os escuta de um modo não muito diferente de como se pode escutar um astro de ópera. Com Onetti ocorre o contrário: não se trata, apenas, do fato de que, ao lê-lo, nossa tendência seja pensar que essas palavras foram escritas apenas para nós, mas de que assistimos, com despudor, milagrosamente, a uma narrativa que existiria do mesmo modo se ninguém a conhecesse nem a escutasse. Intuições semelhantes podem ser encontradas na pintura ou na música: há canções, e sinfonias, e quadros, que se exibem enfaticamente diante do espectador, que o adulam, que desejam descaradamente seduzi-lo, maravilhá-lo ou constrangê-lo. Os retratos de Van Dyck nos olham de cima, do alto de sua hierarquia absolutista, de seu desprezo: quando é Velázquez, um rei que é dono do mundo aparece tão sozinho e vulnerável ou tão digno quanto um mendigo ou um bufão. Velázquez é grande porque respeita e sugere o segredo humano de seus personagens: eles nos olham e parece que se olham num espelho, do jeito que alguém se olha quando sabe que está sozinho. Na música de Fauré, nas “Variações Goldberg”, nos solos de piano de Bill Evans, na voz de, Bessie Smith ou de Dinah Washington parece que estamos surpreendendo um milagre que não precisava de nós nem de nenhuma testemunha para existir. Essas formas supremas da arte criam ao seu redor uma espécie de espaço íntimo, feito uma redoma de vidro na qual é preciso encerrar-se a sós para compreendê-las: delimitam o espaço e o tempo em torno de si mesmas.
Com Onetti dá-se o mesmo. A atenção normal, sempre um pouco distraída, que dedicamos aos livros, mesmo a alguns dos que mais gostamos, não nos serve perante os dele. Ao ler Onetti é preciso que se tensionem as destrezas usuais da leitura a um grau máximo, como se ouve uma música na qual não há uma única nota que não importe, ou como se vive um encontro memorável do qual se quer aproveitar sem distração cada segundo: suas páginas nunca se esgotam, e cada frase volta a surgir com tal delicadeza e poder, com uma intensidade tão arrebatadora, ou tão insuportável, que temos sempre a impressão de que a lemos pela primeira vez.
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Antonio Muñoz Molina. “Sonhos realizados: um convite aos contos de J. C. Onetti”. In 47 contos de J. C. Onetti. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cia das Letras, 2006.

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