segunda-feira, 20 de abril de 2009

duas formas de ver a escola

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Sobre Entre os muros da escola, a primeira sensação que tive, ao fim do filme, foi de alívio porque não terei mais, jamais de la vie, de viver situações como aquela em sala de aula.
Quando trabalhei com aquele tipo de aluno (os chamados "baixa renda"), logo no início de minha carreira, eles sempre se mostraram super interessados, esforçados, queriam mesmo aprender porque naquele tempo se acreditava (eles e nós) que a educação mudaria suas vidas para melhor, que eles ascenderiam de classe social através do estudo, deixariam de ser porteiros, empregadas domésticas, babás, enfim, o que fosse, e melhorariam de emprego e de salário. Isso foi antes da desilusão e do cinismo tomarem conta da cena política e social por aqui. E isso também diz respeito a um país que quase não existe mais, em que valores fortes ainda podiam ser tomados como referência para uma 'ética do trabalho' (e da vida).
Achei o filme meio bobinho, não me senti próxima daquele professor em quase nenhum momento, só com muito dó dele estar enfrentando aquele caos com muito pouco domínio da turma. Parece que o sistema francês é mais caótico do que o nosso, mas não tenho mesmo a menor idéia do que esteja acontecendo nas salas de aula dessa faixa social por aqui, hoje. Sei que não é mamão com açúcar, mas não tenho dúvida de que se um professor vai dar aula na Rocinha tem de estar próximo daquele mundo de referências, tem de se adequar (se não for morto antes, claro) ou não fará absolutamente nada. E aquele homem está distante demais de seus alunos, dá a impressão de que ele não está ali verdadeiramente, ele é e parece ser 'o outro', e os alunos sabem disso. E não perdoam, claro, caem em cima dele com vontade.


De todo modo, talvez fosse interessante fazer um paralelo com o filme norte-americano Escritores da liberdade, com Hilary Swank, de forma a confrontar não apenas duas culturas e dois modos de 'encenar' problemas semelhantes, mas de explorar os 'tempos' fílmicos, as maneiras distintas de pensar e fazer cinema. Isso porque há muitas semelhanças (até a pobre Anne Frank e seu diário são objeto de leitura e aprendizagem de 'valores' com relação aos excluídos - o que também daria uma discussão muito útil sobre o uso 'didático' e 'moral' da literatura em sala de aula) entre os dois projetos, e enormes diferenças também. Enfim, fica a sugestão.


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6 comentários:

Deh disse...

Oi Clara!
Sou professora na rede estadual paulista e não me animei a ver o filme ainda. Tenho medo de ser uma experiência sofrida, dolorosa, sobre um assunto que me ocupa tanto a cabeça e o corpo.
Acho que existe um paradoxo grande na relação professor-aluno: o professor é parte de uma categoria empobrecida e não raro se vê portando menos sinais de ascensão social ou de poder de compra que os alunos; está mais próximo deles nesse sentido. Por outro lado criou-se um muro imenso entre ambos. O que eu vejo muitas vezes é desprezo e raiva mútuos. O aluno com raiva do professor, que representa uma instituição opressiva e que não é mais vista como necessária nem importante; o professor tem raiva daquele que representa um emprego mal-pago (não lembro se tem hífen aqui), desrespeitado, desprestigiado. Mundos próximos e distantes a um só tempo. E essa é uma das causas do caos que está por aí.
Beijo!

Clara Lopez disse...

Oi, Deh, ver o filme não chega a ser doloroso, só incomoda o que tem mesmo de incomodar, ou seja esse buraco enorme entre... tantas coisas, uma delas essa que vc menciona, a tal raiva que não havia no tempo em que eu dava aulas para eles. Parece que são tempos difíceis para o ensino, mais do que era antes.
um abraço,
clara

Eliana BR disse...

Na França o emprego de professor primario e de esino médio é ainda um emprego relativamente bem pago. Nao é nenhuma maravilha mas é um emprego de tempo integral do qual se pode viver. Nada a ver com as condiçoes brasileiras. E num pais em que nao ha mais empregos, ter-se um estavel e com varios periodos de férias por ano é um bom negocio ( férias de verao de meados de julho a fim de agosto, da Toussaint, de Natal, de inverno e de Pascoa... 15 dias de cada vez) Mas.. se pra trabalhar em qualquer coisa é preciso gostar, pra ser professor entao... se nao gostar da coisa simplesmente nao é possivel. E muitos professores so estao na profissao porque as condiçoes nao sao de se jogar fora na atual circunstância. Dai o erro essencial de pessoa de quando em vez. O professor que passou por um curso exigente e um concurso concorrido, fica fulo da vida de se encontrar num suburbio tendo de " civilizar os silvicolas". Que, evidentemente, se revoltam. O tal pacto essencial entre professor e aluno por vezes por aqui é negado pelo professor. Nao vi o filme, por isso estou falando a partir do texto do post. Alias ha um outro filme atualmente em cartaz aqui sobre a questao. Trata-se de " La journée de la jupe" ( " O dia da saia", no sentido de " O dia da caça"), com Isabelle Adjani fazendo uma professora de um desses suburbios quentes que resolve "tomar uma providência". O cartaz mostra a bela enfrentando a classe com um revolver na mao. A suivre.
Bises,
Eliana

Clara Lopez disse...

Pois é, querida, sempre foi uma boa opção de trabalho, o magistério, por conta dos horários mais livres do que o emprego comum, da estabilidade, no caso da rede pública, e das férias maiores. Mas sempre foi tb, como vc diz, uma condição para estar nessa profissão o mínimo de 'vocação' para que não haja o 'erro essencial de lugar'. A cada grupo social com que nos deparamos na carreira (falo em relação ao segundo grau, e de minha experiência pessoal, ou seja, há anos atrás) tem de fazer adaptações na abordagem, no tipo de pacto entre professor e aluno. A única coisa que não muda é o tesão pela relação que está acontecendo ali, na hora da aula, que ou se tem ou não se tem. Se não gostar disso não pode dar aulas. Na verdade, acho que não se ensina nada, a gente encena desejos, "expõe o desejo na banca" (no caso do ensino da literatura, que é o que eu conheço) e torce para eles mordiscarem a linha. E tem de ter afeto e cumplicidade, claro.
Nesse filme, o professor não me convenceu como professor, ele está perdido ali no meio daquela galera que quer comê-lo vivo.
E o que a Deh menciona no comentário dela, essa coisa da raiva de classes (sociais), é um sintoma dos novos tempos e de como as alianças (não apenas sociais) estão fragilizadas hoje. Ninguém quase sabe por que ensina, e os alunos não sabem por que ou para que aprendem. Num país com regras de ascensão ainda muito duras com os mais pobres, cuja escola é uma droga, fica difícil discutir educação, pq há inúmeras realidades, tanto dos alunos, quanto dos professores.
beijo,
clara

osvjor disse...

qdo minha irmã começou como professora primária da rede municipal, há cerca de 30 anos, na Zona Oeste do Rio, teve uma péssima experiência, com alunos desrespeitosos, arrogantes, violentos, intimidadores. quebraram o pé dela com uma carteira, mandavam recados do tipo "sou parente do traficante tal, cuidado comigo" ou coisa que o valha. enfim, já era uma bosta, já estava espalhada e legitimada nas salas de aula a ideologia do rancor, do ressentimento, do ódio de classes etc. ela desistiu da carreira, acho que mais pelos baixos salários do que por essas brabeiras que eu relatei, mas na verdade não sei ao certo.

Clara Lopez disse...

Olha só, osvjor, eu nunca vivenciei esse tipo de situação em sala de aula, nunca, ao contrário, quando dei aulas para os mais pobres, entre 1974 e final dos anos 80, só tinha alegrias, porque então eu era muito apaixonada pelo que fazia, era jovem, tinha o maior tesão no trabalho. Mas é preciso dizer que nunca fui para a baixada, no máximo dei aulas em vila isabel, centro, e depos zona sul. Talvez isso tenha feito toda a diferença...
abraço,
clara