terça-feira, 17 de julho de 2007

Entradas em João Cabral

É possível entrar no universo poético de João Cabral por inúmeras portas, a maioria das quais já nos foram franqueadas por seus melhores leitores-críticos: Benedito Nunes, Haroldo de Campos, Antonio Houaiss, Luiz Costa Lima, Othon Maria Garcia, Sérgio Buarque de Holanda, José Guilherme Merquior, Marta de Senna e Antonio Carlos Secchin, entre tantos outros. Pode-se começar por dizer que João Cabral é o poeta da síntese, da concisão, das formas geometricamente construídas sobre a folha do papel; do preto no branco; da reta mais que da curva, salvo quando o vento faz soçobrar a cana no canavial, ou quando o rio, à míngua, negaceia suas águas aos tantos Severinos que as circundam.

Poeta das mesmas vinte palavras que reconhece em seu parceiro de estilo-lâmina, explicitadas em "Graciliano Ramos" (Serial): "Falo somente com o que falo: / com as mesmas vinte palavras / girando ao redor do sol / que as limpa do que não é faca:", signos poéticos que se desdobram em áreas de ressonância inscritas sob os nomes de bala, pedra, rio, terra, poema, pintura, cana, bicho, luz, tempo, homem, mulher, sol, fome, secura, canto, água, corpo, silêncio, faca, Espanha, Pernambuco, conforme recolha de Antonio Carlos Secchin..

Se a forma construtiva foi apropriada pelos concretos, de cuja mais valia de excelência tenderam a se beneficiar, a poética de João Cabral rasura circunscrições de grupos, de épocas e/ou de estéticas para viger sob o estatuto de sua luz particular, de sua régua e compasso. Compasso que perscruta e refaz, a cada poema, uma ética da palavra livre da "flor", quando se a quer "fezes" ("Antiode"), de que também deriva uma estética do descante a palo seco, do mínimo, do essencial, do menos. Tal ética e tal estética configuram, ao mesmo tempo e no mesmo movimento, as construções formais de um Nordeste que se espraia para além da região pernambucana ou do ente Severino que nela habita: Nordeste reapresentado, como se visto pela primeira vez a cada leitura dos poemas, da forma que o re-constrói. Por isso, ele pode ser também Andaluzia, Sevilha, Madri, Carmona. Pois se trata, em João Cabral, de construir formas e com elas fazer ver as coisas, os objetos: "Sempre evitei falar de mim, / falar-me. Quis falar de coisas. / Mas na seleção dessas coisas / não haverá um falar de mim? ("Dúvidas apócrifas de Marianne Moore", Agrestes).

Assepsia e método que delegam ao poema a quase autonomia da criação, livre da mão que o regula: "O poema trata a Caatinga de hospital / não porque esterilizada, sendo deserto; / não por essa ponta do símile que liga / deserto e hospital: seu nu asséptico" ("O hospital da caatinga", A educação pela pedra). Outros "objetos" raros surgem da paisagem cabralina: o como-fazer-o-poema, poéticas valiosas, formas em dobras, exercícios de contensão e distensão da metáfora, tornadas ferramentas de trabalho para os que lidam com o ensino da literatura – quem, se brasileiro, já não aprendeu as regras da composição poética que se tensionam e distendem nas metáforas, símiles e metonímias que organizam textos como "O ovo e a galinha", "Tecendo a manhã", "Catar feijão", "A palavra seda", "Retrato de escritor"?; ou ainda o objeto "mulher", cuja figura – incapturável – avança sob um corpo de metáforas a se deslocar pela voz ao telefone, como em "Paisagem pelo telefone"; ou no confronto entre o corpo da mulher e sua densidade, sua massa, o lugar que ocupa no vasto desejo do outro, como em "Mulher vestida de gaiola"; ou ainda a mulher enredada nos espaços de uma casa, em seu cantos de dentro, seus "recessos bons de cava", como surge em "A mulher e a casa", Quaderna; ou ainda na dança tensa e escorregadia da bailadora andaluza, para cuja imagem desdobram-se metáforas do fogo, do nervo em tensão, da telegrafia, da estátua até chegar à da "espiga, nua e espigada, / rompente e esbelta, em espiga" ("Estudos para uma bailadora andaluza", Quaderna).

Mas há igualmente o João Cabral escatológico, verista, de um humor irônico e corrosivo, jamais do riso aberto, mas contido, como vemos no poema "Espana em el corazón", onde desfaz-se a imagem do título para opor-lhe "a tripa" e o "colhão" de que a Espanha é feita: "A Espanha é coisa de colhão, / o que o pouco ibérico Neruda / não entendeu, pois preferiu / coração, sentimental e puta" (Agrestes); ou quando evoca e recria a experiência no colégio marista em "As latrinas do colégio marista do Recife", sob o viés da cáustica ironia: "Lavar, na teologia marista, / é coisa da alma, o corpo é do diabo; / a casti

ade dispensa a higiene / do corpo, e onde ir defecá-lo" (Agrestes); ou a critica bem humorada ao vezo nacional da retórica "balofa e roçagante", como diria Oswald, no poema "Um piolho de Rui Barbosa", crítica em forma de blague: "veio de tais piolhos grotescos / o único estilo nacional: / ler como discurso um soneto" (Agrestes).

Pode-se entrar na obra de João Cabral de Melo Neto pelas mais diversas portas, sob as mais distintas perspectivas críticas; pode-se lê-la igualmente sem qualquer roteiro: a obra oferece-se inteira, em sua incomparável singularidade, aos leitores de todos os tempos.

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Publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, Fortaleza.